Luh Ferreira
Educadora Popular, ativista, doutora em Educação
Encantada com o mundo, indignada com a situação dele
A criança, a família e a escola
Por Romualdo Dias
Foto: Prefeitura de Jundiaí via Flickr/Creative Commons 2.0
A palavra tem o poder de nos conduzir. A leitura de mundo e a escrita da existência se movem nas fronteiras do possível, pelos entremeios em que os sentidos oferecem as tramas, nos narram os dramas, em misturas de múltiplas formas! A palavra autêntica atravessa o corpo, não foge do sofrer. E neste nosso momento, a palavra necessária se encontra com o sofrer das crianças se apresentando em um plano de realidade. Temos, assim, uma tessitura mais ampla, em que os planos da necessidade, da realidade e da possibilidade, constituem a composição atenta a todas as demandas do viver. Aqui lemos, escrevemos, enquanto nos encontramos com as crianças em geral, estando elas espalhadas por todos os lados, e com a criança de cada um de nós, ainda presente em nosso peito. Cada um de nós carrega a sua criança, ela nos acompanha até o fim de nossos dias.
No dia 04 de outubro de 2022 nós começamos este estudo com o seguinte título: “Escola e família: fundamentos filosóficos e pedagógicos para os cuidados com a infância e para o fortalecimento de vínculos”. O nosso plano de trabalho pretende orientar e cultivar o mais amplo conjunto de práticas sobre os cuidados com cada criança. Iniciamos o nosso percurso colocando ênfase nesta expressão de uma vida nova oferecida para todos nós por meio das crianças. Também desejamos cooperar com o fortalecimento dos vínculos capazes de organizar e sustentar os melhores ambientes. A vida se inicia em extrema fragilidade, se desenvolve a partir da mais forte dependência, necessita de um ambiente seguro. Os vínculos e os ambientes constituem o acolhimento suficiente com ampla segurança.
O título de nosso curso expressa uma relação entre a criança, a família e a escola. A criança nasce e espera receber os melhores cuidados para garantir o seu pleno desenvolvimento. A família e a escola oferecem o acolhimento, de tal modo que, cada uma realiza funções em comum e funções diferentes, ao mesmo tempo, e de preferência de modo combinado. A família e a escola oferecem a materialidade para que os vínculos tenham um início e permanência consistente. Os cuidados e os vínculos se fortalecem nesta combinação entre os seus aspectos de estabilidade, portanto, estáticos, e os seus aspectos em permanente construção, portanto, dinâmicos.
O ponto de partida do nosso estudo é a realidade da criança e da família, como uma primeira preocupação. Estamos entendendo o tempo da criança e o espaço da família como sendo partes de uma base, pois é aí onde tudo começa. É aí onde a criança recebe o acolhimento fundamental para a sua vida poder brotar e se desenvolver. E um segundo momento voltamos a nossa atenção para a as instituições educacionais, como os centros de educação infantil, a etapa da pré-escola e o ensino fundamental. As instituições sociais dependem da construção de um bom entendimento com a família para poderem realizar as tarefas que elas têm em comum e as tarefas que elas têm em suas especificidades. Nestas duas esferas nós queremos compreender em que consiste um gesto de reparação e a que práticas de acolhimento e cuidados elas nos levam.
Nós olhamos para a situação em que as crianças e as famílias se encontram. Por meio de nosso olhar constatamos um crescente sofrimento. Ao observarmos a situação das crianças constatamos diversas formas de desamparo e encontramos as suas vidas marcadas por muita vulnerabilidade. Do lado dos pais há sofrimento, desorientações, cansaços variados, apelos por ajuda. Do lado dos educadores, há uma sobrecarga de demanda acompanhada por um elevado grau de sofrimento na medida em que eles fortalecem os mais variados modos de cumplicidade com as crianças. Um educador, sendo autêntico em sua função, não pactua com o discurso cínico quando joga para o futuro os direitos de toda uma vida, negados no presente.
Em nosso estudo queremos concentrar a nossa atenção sobre as situações de maus tratos com a criança. Existem os maus tratos visíveis nos gestos de violência, nas surras, tapas, beliscões, puxadas de orelhas, enfim, por muitas práticas de uma educação pelo castigo. Os maus tratos invisíveis aparecem nos descuidos, no desamparo, no abandono. Há maus tratos repetidos no cotidiano, que de tanto se repetirem se tornam naturalizados. Os seus efeitos mais fortes recaem na ponta mais frágil da relação entre aquele que cuida e aquele que é cuidado. As crianças sofrem mais.
Quando nós olhamos para a situação do mundo em geral nós nos perguntamos: o que vemos acontecer hoje? Nós encontramos grupos de pessoas, organizados em redes nacionais e internacionais de cooperação mútua, empenhados em orientar as famílias e os educadores sobre os modos de realizar uma educação pelo castigo. Há grupos que tentam fortalecer o convencimento de todos, com os seus argumentos, apelando para justificativas encontradas na Bíblia, apresentadas como sendo oportunas. Há canais de comunicação atuantes na rede mundial com uma ampla oferta de palestras e cursos fazendo ataques aos educadores considerados por eles como sendo perigosos para a infância. Toda a concepção de educação que se orienta pelo princípio da liberdade na organização dos processos de formação do humano é julgada como sendo perniciosa. Há experiências de implantação de uma rígida disciplina, vindas de uma cultura militar, se multiplicando em escolas de ensino fundamental e ensino médio, por todos os lados, em nosso país e no mundo.
Durante o nosso curso queremos manter esta pergunta viva para nos instigar permanentemente: quais notícias recolhemos sobre os maus tratos com a criança ou sobre os seus efeitos nos modos de sofrimento?
A ação educacional, a ser realizada pela família e pela escola, se encontra diante de fortes desafios em nosso tempo. Um primeiro desafio se refere ao fazer, está relacionado com a ação de cada um de nós, com os trabalhos práticos. Quando trazemos as práticas para o centro de nossa atenção nós convidamos a todos para fazer o exercício de deslocamento daquele lugar confortável do discurso, onde só falamos muito sobre o problema. Sugerimos nos deslocar deste lugar de conformo para chegarmos ao lugar onde podemos inventar as soluções para os sofrimentos por meio do nosso agir, individual e coletivo, em cooperação. Em cada experiência podemos fazer o esforço de substituir delicadamente aquelas práticas assentadas no medo, na repressão, no adoecimento e no enfraquecimento de todos, por meio de outros modos de agir. Estes outros modos serão assentados no exercício da liberdade, no desfrute da ternura, nas multiplicações dos melhores acolhimentos. Nós falamos em uma substituição delicada e gradativa porque acreditamos que ninguém se envolve em práticas de mudança a partir de argumentações racionais, a partir de palavras de ordem. Há algo mais fundamental situado neste lugar de adesão e de mobilização, para realizarmos alguma transformação social.
Diante do sofrimento das crianças, das famílias e dos educadores nós não encontraremos a solução ficando limitados aos nossos discursos, a nossas conversas, a nossas discussões. Queremos fazer pensar sobre o que é um
trabalho de base, isto é, a ação lá onde tudo começa. Para os tempos atuais um trabalho de base precisa de uma orientação pedagógica, de nova concepção de humanismo, de outra metodologia da ação educacional.
Os desafios para uma ação educacional a se realizar na base se apresentam com muita complexidade. Neste estudo queremos promover um entendimento e um debate sobre o tema da colonização. Quando o capitalismo nasceu, no início da sociedade industrial, ele iniciou a empresa de colonização de outros territórios, além das fronteiras da Europa, para se expandir.
Hoje vivemos em outra etapa de uma economia capitalista. Este modelo de economia já não explora mais as Américas, a Ásia ou a África. E nem pode explorar a lua ou outros planetas, ainda. Vemos então, como o sistema colonial se reinventa para garantir a expansão do capitalismo enquanto um modelo de produção e de acumulação de riquezas. O sistema colonial se torna muito criativo e inicia novas formas de colonização.
Quais são os novos territórios de colonização nos tempos atuais? O sistema colonial faz o seu amplo esforço de colonizar novos territórios: a intimidade da família, a escola, os vínculos, os sonhos e a fantasia, o corpo.
A nossa disposição para organizar uma ação educacional coletiva precisa de uma orientação e de uma animação, por causa da comlexidade destes desafios aqui apontados.
Em nosso estudo nós encontramos a fonte de nossa inspiração, para buscarmos as orientações e para encontrarmos a energia de animação em três autores:
1) Alice Miller
2) Donald Winnicott
3) Helena Antipof
Nós buscamos as nossas inspirações em dois psicanalistas e em uma educadora. Queremos fazer um esforço para darmos um tratamento de nobreza a estes autores. Promovemos os nossos encontros com eles como práticas de provocações. Não queremos fazer destes autores uma figura de absoluto, como se eles quisessem nos transmitir grandes verdades. Queremos nos informar sobre os seus saberes e suas práticas para que eles possam provocar também os nossos saberes e as nossas práticas. Não queremos formar espécies de “igrejinhas” com os seus adeptos. Não temos tempo para isso, pois a urgência do momento consiste em socorrer as crianças e as famílias.
Há um eixo transversal a atravessar o nosso encontro com estes autores: o ponto em comum de nos fazer pensar em um trabalho de base, de nos convidar a olhar com especial atenção para este lugar “onde tudo começa”.
Alice Miller
Vamos compartilhar de um modo resumido, alguns temas presentes na obra de Alice Miller. Esta psicanalista, judia-polonesa, nasceu na Polônia no dia
12 de janeiro de 1923, e faleceu no sul da França, em Saint-Rémy-de- Provence, no dia 14 de abril de 2010. Em 1946 ela se mudou para a Suíça, e se vinculou ao círculo de psicanalistas de Genebra. Mais tarde ela rompeu com este grupo por entender que os psicanalistas acabavam assumindo uma posição de defesa dos pais. Se apresentando de um modo diferente, ela queria ser radical no combate aos maus-tratos. Mais do que estar com os pais ela tomou o partido das crianças. Ela afirmava a necessidade de fazer uma profunda revisão sobre o quarto mandamento das “Tábuas de Moisés”, vendo neste seu esforço a exigência de um estudo sobre as bases judaico-cristãs de nossa cultura. Para ela, o quarto mandamento, “honrar pai e mãe”, precisa no mínimo ser rediscutido entre nós.
O nosso encontro com Alice Miller tem como ponto principal compreender o que ela pesquisou e pensou sobre os maus-tratos com a criança. Ela atribui aos “maus-tratos” um sentido de base, e confere para ele uma materialidade. Por que os maus-tratos têm toda esta força? Porque nos maus-tratos acontece a constituição de algo muito ruim para a criança e nefasto para toda a sociedade. Na situação de maus-tratos, se produz na criança uma combinação perversa entre a ferida na dignidade do sujeito e a produção da culpa. A criança se sente ferida em sua dignidade quando ela sofre qualquer tipo de agressão. Em nossa cultura, uma criança se vê como um ser muito frágil diante da figura forte de um pai ou de uma mãe. Em seu entendimento, a criança não entende porque um pai e uma mãe podem fazer um gesto de violência contra ela. Se um pai e uma mãe são sempre bons, quem está errada é ela, a criança. Aí nasce uma culpa muito poderosa, pois faz a criança se convencer de que os pais estão sempre certos.
Qualquer tipo de mau-trato feito com uma criança a prejudica em todo o seu desenvolvimento individual. O mau-trato feito com uma criança também
prejudica toda a sociedade, pois a base de toda uma cadeia de violência social está localizada nesta combinação perversa entre uma ferida e uma culpa. Para Alice Miller, não adianta fazermos tantos esforços para combater a violência no meio social se nós não tocarmos em sua raiz, lá onde tudo começa. O pacto perverso (a combinação entre a ferida e a culpa) é a base de sustentação de toda a cadeia de violência que está presente na sociedade.
O nosso estudo fará a seleção de alguns temas considerados por nós como sendo nucleares em toda a sua obra. Selecionamos temas com o objetivo de animar a todos para experimentar muitos outros encontros com a Alice Miller, no estudo de seus livros, por meio do diálogo com o seu pensamento. O nosso tempo também nos impõe um limite. O nosso curso está organizado para acontecer em poucas horas. Queremos fazer com que estas horas de dedicação sejam bem aproveitadas.
Nós selecionamos alguns temas na obra de Alice Miller:
O pacto perverso (ferida e culpa) – já iniciamos uma explicação sobre este perigoso acordo. Quando uma criança leva uma surra ela se sente ferida em sua dignidade de sujeito, em sua humanidade ainda em construção. Como ela não pode ver nenhum defeito nos pais ela se sente culpada.
Alice Miller não atribui aos pais uma condição de perfeição. O pai e a mãe são seres humanos, eles podem errar, têm os seus defeitos, têm fragilidades. O problema acontece quando um pai afirma para a criança que está surrando ou está castigando “para o seu próprio bem”. Esta é a frase mais perigosa. Diferente disso é quando um pai reconhece para a criança o seu erro, quando pede desculpas para ela e explica que ela não tem culpa de nada. Ao fazer isso ele oferece um gesto de reparação. Ao reconhecer o seu erro ele não perde a autoridade, ao contrário, ele descobre outro modo de ser autoridade, a serviço da saúde, da vida e da liberdade.
Há na obra de Alice Miller muitas inspirações para nos ajudar na invenção da autoridade e na invenção da disciplina, sempre a serviço da vida. Esta nova concepção de autoridade e de disciplina nos apresenta a dimensão política de uma educação para a liberdade.
Há também, em sua obra, elementos para nos fazer pensar em uma abordagem política e econômica do corpo. Ela é política porque rompe com os idealismos, desfaz aquela composição que atribui aos corpos uma condição de
serem anjos ou de serem máquinas. Somos um corpo frágil, o nosso corpo pede cuidados, o nosso corpo pode adoecer. E a dimensão econômica se refere a uma dinâmica de trocas, pois é o corpo quem comanda todas as trocas necessárias para a sustentação da vida. Nós precisamos fazer boas trocas com os outros, com quem convivemos, e boas trocas com o meio social, isto é, com o mundo onde nós experimentamos as mais variadas formas de pertencimento e de reconhecimento.
A radicalidade da obra de Alice Miller tem sua expressão evidente quando ela nos faz pensar sobre a força do corpo. Ela afirma: “um dia o corpo pede a conta”. A Alice Miller não conheceu os resultados dos estudos do biólogo português António Damásio, pois ele confirmou com as suas pesquisas, que a nossa memória não está só em nosso cérebro, ela está em todas as nossas células. Isto nos faz pensar sobre as marcas do corpo em relação com aquilo que não fica esquecido. Um dia um corpo ficou marcado por uma ferida, por uma surra, e mais tarde, ele, em sua sabedoria, vai nos cobrar. E aí vem muitos adoecimentos, que aos olhos de muita gente, emergem como sendo formas de doença sem explicações emocionais.
A Alice Miller também não teve tempo de conhecer o trabalho do filósofo Markus Gabriel, que no ano de 2015, publicou na Alemanha, o seu livro: “Não sou meu cérebro. Filosofia do espírito para o século XXI.” Neste livro, este filósofo provoca uma ampla discussão sobre os usos perversos feitos com a “Neurociência”, um uso irresponsável e superficial de saberes da ciência para garanti formas de dominação, sob um aparato sutil de “progressismos”. Certamente, sem saber, o jovem filósofo Markus Gabriel, acaba confirmando todas as hipóteses defendidas por Alice Miller em seu período de vida.
Donald Winnicott
Nós vamos nos inspirar também na obra de Donald Winnicott. Ele nasceu no dia 07 de abril de 1896, na cidade de Plymouth, ao sul da Inglaterra, e faleceu em Londres, no dia 28 de janeiro de 1971. Aqui não podemos fazer um estudo extenso e mais consistente sobre a obra de Winnicott, pois nosso curso tem pouco tempo, e nós organizamos um percurso de leitura assumindo a obra de Alice Miller como sendo o eixo principal. A partir do pensamento de
Alice Miller nós vamos buscar as afinidades com o pensamento de Donald Winnicott e com a Helena Antipoff.
Há dois aspectos nos orientando nesta busca de afinidades: 1) o trabalho de base; 2) uma escolha radical em uma posição política em defesa da criança e em defesa da vida de todos nós. Nós faremos uma apresentação geral dos livros de Winnicott para em seguida optar por trabalhar com a leitura de um livro: “Os bebês e suas mães”. A leitura deste livro acontecerá como uma modalidade de rastreamento dos argumentos a favor da nossa abordagem sobre o trabalho de base. E para nós, a base que dá o fundamento da vida é aquela que acontece no ato de acolher e de cuidar, feito por uma mãe, em um ambiente saudável. Outros aspectos sobre a família, compreendida enquanto ambiente de acolhimento para uma vida que se inicia serão explorados em alguns textos de outro livro: “A família e o desenvolvimento individual”.
Entre os temas centrais por nós escolhidos estão os seguintes
1. A família é o lugar onde tudo começa, ela é o territóro em que toda a sua intimidade precisa ser bem protegida, para oferecer o acolhimento
2. A mãe suficientemente boa. A criança nasce e vive uma relação totalmente dependente com sua mãe. Entre todos os animais, na natureza, nós somos os mais desprotegidos, pois se uma criança, ao nascer, for totalmente abandonada pela mãe, fatalmente morrerá. Vamos entender esta dependência absoluta em sua relação com a qualidade do acolhimento e com a intensidade dos cuidados.
3) O objeto transicional. Nós queremos entender como Winnicott chegou aesta formulação para lidar de uma forma realista com a experiência da ausência da mãe, com os modos de um bebê elaborar para si os afastamentos. Aqui queremos explorar os sentidos atribuídos aos tempos de ausência e aos tempos de presença, para nós pensarmos sobre a qualidade do encontro própria das experiências em trabalhos de base. Nós vamos discutir o quanto um “objeto transicional” tem relação direta com uma função mãe enquanto sendo suficientemente boa e com os mais variados modos de uma mãe apresentar o mundo ao seu bebê.
Em seguida, vamos estudar as três categorias fundamentais para um bom cuidado: 1) o segurar (“holding”); 2) o manusear (“handling); e o 3) apresentar o mundo.
Enfim, faremos um percurso inicial da obra de Winnicott, porém queremos aproveitar ao máximo os saberes de todos os participantes deste curso para provermos um bom confronto entre os conhecimentos oferecidos pelos livros e as aprendizagens recolhidas em nossas mais variadas formas de presença no mundo das crianças, bem como em nosso mundo, quando ainda sabemos cuidar da criança ainda viva em nós.
Helena Antipof
Helena Antipoff nasceu em Grodno, na província da Bielorrússia, no ano de 1892. Faleceu no dia 09 de agosto de 1974, com 82 anos, na cidade de Ibirité, Minas Gerais. No ano de 1929 Helena Antipoff veio para o Brasil, indicada por seu professor Édouard Claparède, de Genebra, atendendo a uma solicitação realizada pelo Governo do Estado de Minas Gerais, empenhado em uma ampla reforma do ensino. O papel da Helena Antipoff se iniciou com a formação de professoras para as escolas do meio rural. Ela também se fez uma referência nos cuidados com a criança portadora de alguma deficiência, com um papel importante na introdução da educação especial no Brasil. A Universidade Federal de Minas Gerais mantem em Ibirité a Fundação Helena Antipoff. No ano de 1940 ela fundou nesta cidade a Fazenda do Rosário, com programas educacionais para atender crianças com necessidades especiais e para a formação de professoras das escolas rurais.
Neste nosso curso nós aproximamos a obra de Helena Antipoff com as obras de Alice Miller e de Donald Winnicott, neste olhar mais atento com o trabalho de base, na urgência dos desafios que o acompanham. É também uma oportunidade de fazer circular sua obra e seu pensamento.
Nos limites do nosso tempo nós vamos usar o artigo “Como pode a escola contribuir para a formação de atitudes democráticas?” Helena Antipoff tem clareza de que a democracia é uma preocupação da sociedade, e mesmo assim, a escola pode contribuir com a democracia oferecendo algo a se realizar lá na base da formação do indivíduo. Para ela, o que está na base? Como a escola pode contribuir na formação do indivíduo e na oferta de uma boa base para a vida em sociedade de acordo com os princípios da democracia?
Em primeiro lugar, a escola pode contribuir na formação de uma virtude a praticar. Esta virtude é a lealdade. Portanto, a escola pode e deve educar um
sujeito para praticar em toda a sua vida a lealdade. Em segundo lugar, a escola pode contribuir com o desenvolvimento de um modo de trabalhar. Trata-se de uma educação para a cooperação.
Com quem podemos contar em nosso esforço nos cuidados com a criança?
A luta pela defesa da criança na realização de todos os seus direitos e no combate aos maus tratos devem ter a contribuição de muitos aliados na defesa da criança e na defesa da vida.
Há muita gente envolvida em dois tipos de acontecimento neste momento do país e do mundo. O primeiro acontecimento é a realização da Conferência Nacional de Educação, marcada para o final de novembro do ano de 2022, em Brasília, com o desafio de terminar a elaboração do Plano Nacional de Educação para a próxima década. Esta conferência tem também o compromisso de construir o Sistema Nacional de Educação. Ela foi preparada por uma multiplicidade de eventos, conferências, debates, escritos, nos âmbitos dos municípios e dos Estados. Muita gente já colaborou com as discussões sobre o Plano de Educação e sobre as experiências dos sistemas municipais e sistemas estaduais.
A conferência nacional de 2022 acontece e se desdobra. Em toda esta diversidade de ação nós podemos atuar com os propósitos de atender aos direitos da criança e de trabalhar pelo fim dos maus tratos na infância.
Os desdobramentos múltiplos se apresentam pela própria dinâmica do Plano e do Sistema. Em primeiro lugar, porque eles nunca estão acabados, estão sempre se refazendo a partir do confronto com as diversas realidades. Em segundo lugar, os Planos e os Sistemas, estabelecidos para um território nacional têm o poder de induzir novas ações sobre os municípios e as regiões. Isto porque estamos concebendo os planos e os sistemas como acontecimento e como movimento. A nossa aposta é que estes dispositivos de organização de nosso fazer educacional não se transformem em monumentos ou em documentos de arquivos. Este modo de compreender a conferência amplamente, pelos seus desdobramentos, se apresenta como um desafio a nos lançar em muitas frentes de trabalho, sobretudo para as práticas a serem realizadas lá na base, com as famílias e com as escolas.
O segundo acontecimento se refere a um movimento internacional lançado por uma liderança mundial que vem se apresentando com um forte carisma capaz de mobilização lideranças e comunidades. Trata-se do Papa Francisco. Ele está preocupado com a situação de barbárie que vem crescendo em todos os lados. Diante desta situação de muito sofrimento ele convida a todos os homens de boa vontade a se empenharem na reinvenção do humanismo. A busca de um novo humanismo envolve a família e a escola.
O Papa Francisco lançou o Pacto Educativo Global e a Economia de Francisco e Clara. Neste movimento a educação e a economia se articulam com o propósito de alcançar as respostas mais efetivas na construção de um mundo com mais saúde, com mais alegria, enfim, um mundo mais humano. Nós podemos nos aliar a estas iniciativas com o compromisso de envolver mais pessoas no combate aos maus tratos na infância e na realização dos direitos da criança.
O primeiro passo de nosso percurso de estudo…
Neste nosso primeiro encontro de estudo tivemos a intenção de nos provocar para pensar o trabalho de base, a se realizar com a família e com a escola, nesta perspectiva de reconhecer que aí é onde tudo começa. O nosso movimento de pensamento e de adesão pela causa da criança teve seu início com as seguintes perguntas instigadoras:
Por que proteger a criança?
Por que apoiar as famílias?
Por que fortalecer os vínculos entre a escola e a família?
Por que a criança tem direito ao brincar e porque deve ter o direito de brincar em ambiente protegido?
Por que a falta do brincar prejudica o desenvolvimento de toda uma vida individual?
Por que o brincar é a base da cultura e a base da saúde de uma sociedade inteira?
Por que os maus tratos na infância são as bases da cadeia de violência na sociedade?
Por que os maus tratos na infância prejudicam o desenvolvimento de toda uma vida individual?
Nós vamos realizar o nosso estudo fazendo uso das aulas expositivas, com discussões e com orientações de leituras e de contatos com as práticas de diversos grupos em nosso país. Em todo este percurso faremos registro de nossos pensamentos, de nossas inquietações, de nossas partilhas. Desejamos a participação de todos também na elaboração de um livro coletivo, um livro a ser escrito em mutirão. Cada participante do curso pode oferecer a sua contribuição na forma de sínteses de leituras, na forma de relatos de suas práticas, na partilha de dificuldades e de descobertas.
Vamos fazer deste estudo com aquela varinha mágica sugerida por um pequeno texto da autoria de Eduardo Galeano:
“Em Cerro Norte, um bairro pobre de Montevideo, um mágico fez uma função pública. Com um toque da varinha fazia com que um dólar brotasse do punho ou do chapéu.
Terminada a função a varinha mágica desapareceu. No dia seguinte, os vizinhos viram um menino descalço que andava pelas ruas, com a varinha na mão: batia em qualquer coisa que encontrava e ficava esperando.
Como muitos meninos do bairro, esse menino, de nove anos, costumava afundar o nariz num saco plástico de cola. E certa vez explicou:
– Assim eu vou pra outro país.”
Eu não quero crescer! Uma seleção ativista de músicas para crianças
Por Arthur Dantas
A música sempre esteve presente como forma de denúncia e protesto | Foto: Pixabay
Ser criança não deve ser um desafio, diz o senso comum. Mas não exatamente o que mostram as estatísticas locais e globais. Diariamente, milhões de crianças são obrigadas a conviver com a pobreza, a violência e a falta de oportunidades. Há inclusive aqueles que deixaram de aprender a escrever para treinar para a guerra, substituindo o papel por armas. Outros vivem abusos domésticos, nas escolas (conhecido como bullying) e se veem obrigados a silenciar abusos e humilhações.
A música sempre apareceu como uma plataforma de denúncia e protesto.
Praticando uma paternagem punk, com uma menina de 11 anos, exercito bastante uma seleção musical um pouco voltada para minhas raízes punks esquerdistas. Ao mesmo tempo, gosto de compartilhar músicas que apresentem nossos irmãos latino-americanos, a realidade triste da guerra e um pouquinho também das minhas predileções infantis “contestatórias” de quarentão.
É isso que apresento agora pra vocês!
Garotos Podres – “Vou fazer cocô” e “Papai Noel, velho batuta”
Tendo passado infância e pré-adolescência no ABC paulista do pós-Ditadura, filho de classe operária fabril, minha porta de entrada no universo punk foi os Garotos Podres. E tem duas músicas deles que eu compartilho sempre com as crianças: “Vou Fazer Cocô”, que ensina a desconfiar dos políticos profissionais, e “Papai Noel, Velho batuta”, que é uma ótima canção pra tratar de desigualdade e consumismo numa data na qual os parentes enchem as crianças de bugigangas.
Leucopenia – “Infância”
Leucopenia foi uma banda da Baixada Santista que era trilha sonora obrigatória de todo punk anarquista dos anos 1990 na região sudeste. E eles tinham essa canção, “Infância”, que era um tema bradado a plenos pulmões nos shows pelo público, com versos marcantes como “No olhar / daquela criança está / o seu modo de viver / o seu jeito de brincar / não teve paz / só ódio e incompreensão / agora segue seu caminho / sem saber, vão lhe destruir”. Uma canção de infâncias perdidas para a brutalidade, disparadora de diversas conversas interessantes com as crianças.
Gilberto Gil – “Sítio do pica pau amarelo”
Mas nem só de música punk vive uma trilha ativista pra crianças! Sítio do pica pau amarelo, do indefensável Monteiro Lobato, movia minhas manhãs na tela da TV e essa música pra mim, é a verdadeira exortação de uma vida no campo mais feliz e abundante, o que hoje eu associo imediatamente à agroecologia. Se tinha uma utopia possível na infância, era essa!
Os Saltimbancos – “História de uma gata”
Não há refrão mais libertador do que “nós gatos já nascemos pobres / porém, já nascemos livres” cantado, a plenos pulmões, por um monte de crianças! Era redentor, era libertador, e ainda hoje tem o mesmo apelo que tinha nos anos 1980.
Titãs – “Comida”
“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte“. A batida primal, o gingado discreto e a letra direta dessa música foi uma febre na minha infância e ainda mexe com os brios da molecada! A mensagem direta da letra cala fundo com qualquer criança que vive uma realidade modorrenta de casa – escola – casa, sem muitas brechas pra ludicidade e pra diversão desenfreada que essa canção parecia prometer.
Pink Floyd – “Another brick in the wall, pt.2”
Relembrando um tema clássico da banda britânica Pink Floyd , “Another Brick in the Wall, Pt.2”, não só reuniu as crianças num coro de vozes como o complementou com um recorte visual do seu longa filme The Wall (1982); que se tornou o vídeo oficial desta música. Um protesto de Roger Waters contra suas antigas escolas e a rigidez no sistema educacional, eu ainda consigo lembrar de ouvir essa música com meu pai (muito fã da banda) e ele se esforçando pra traduzir a letra para mim. Tradição que perpassou gerações.
Mundo Bita – “Nem tudo que sobra é lixo”
Confesso que sou um pouco pé atrás com essa enorme indústria da música feita para crianças que se desenvolveu no Brasil, mas essa agradável música do Mundo Bita se faz relevante em tempos de emergência climática, onde o apelo à reciclagem e ao reuso se faz pertinente!
Juny & Tony – “Activistas del derecho de animales”
De todas as “febres” infantis midiáticas, foi com Juny & Tony que eu mais fui condescendente com minha menina, mas em sua versão em castelhano! Era uma oportunidade pra conhecer a língua de nossos vizinhos e uma válvula de escape possível. Essa canção dos ativistas dos direitos dos animais deixa antever um ativista do P.E.T.A ou do Animal Liberation Front no futuro das crianças!
Emicida & Drik Barbosa – “Sementes”
Esse rap faz parte de uma campanha mais ampla contra o trabalho infantil, uma realidade miserável para muitas crianças em nosso país, e vem embalada por rimas e versos poderosos do Emicida e da Drik Barbosa.
Aterciopelados – “Florecita rockera”
Na tentativa de aproximar minha menina da cultura dos países latino-americanos, apresentei essa música chiclete dos colombianos dos Aterciopelados, um tema fofinho ecológico.
Ana Tijoux – “Luchin”
Ainda na missão de aproximar as crianças de uma América Latina de luta, dessa vez trouxe a cantora chilena Ana Tijoux, que resgatou em 2016 uma das canções mais emocionantes de Víctor Jara, um artista-herói das lutas sociais do nosso continente, para relembrar a realidade de jovens empobrecidos que foram obrigados a fazer da rua a sua casa e para quem canta: “Se há crianças como Luchín / que comem terra e vermes / vamos abrir todas as gaiolas / para que voem como pássaros”. O tema original, escrito em 1972, reativa seu poder de denúncia em uma versão em que Tijoux transforma Luchín em uma criança afrodescendente , filho de uma família que emigrou para o Chile em busca de melhores condições de vida. Perfeito para discutir a imigração em nosso país, inclusive.
Boom boom kid – Feliz
A escolar e os meios de comunicação de massa sempre tendem a uniformizar e padronizar as crianças. Então nada melhor que essa canção pop punk dos argentinos do Boom boom kid que proclama “E não me importa o que digam / o que me importa o que dirão / não estamos loucos / não estamos sozinhos / não!”. Canção singela e potente que celebra a diferença.
Ansan – “Heartbeat”
Ansam é uma das três milhões de crianças que foram forçadas a deixar suas casas devido ao conflito militar na Síria. Com apenas 10 anos, ela se tornou a voz condutora de Hearbeat , uma música com um coro de outras 22 meninas e 18 meninos sírios que compartilham com o mundo o desejo de recuperar a infância após sete anos de guerra. Perfeito pra discutir a realidade muito triste das diversas guerras que assolam o planeta.
Ramones – “I don’t want to grow up”
O hino definitivo da insurgência infantil contra o mundo de rotina, remédios e ordem dos adultos! Definitivamente, eu também não queria crescer! A promessa de uma vida eterna sem preocupações e rotinas é o tema de mais um hino dos Ramones!
Lute como uma criança
Por Vitor Janei
Então, como as crianças lutam? De que forma resistem? De que modo elas escapam das estratégias de dominação que lhe são impostas? | Foto: Jenny Sowry/Divulgação
Embora hajam exceções, sabe-se que as crianças, em geral, não estão organizadas em um sindicato, partido ou associação, para fazerem ouvir seus protestos, defenderem seus interesses, reivindicarem seus direitos. Da mesma maneira, elas não formam nenhum exército, tropa ou milícia de resistência, ainda que muitas delas sejam recrutadas pelo tráfico ou grupos armados mundo afora.
Há nessas duas estratégias, o sindicato e o exército, uma certa relação com o Estado, regida por todo um conjunto de códigos, regras, instituições, hierarquias e comandos. Porém, o modo como as crianças resistem é alheio aos carros de som, passeatas, cartazes, votações, eleições de representantes ou aos códigos de honra e de conduta, à hierarquia, patentes, ordens e disciplina.
Então, como as crianças lutam? De que forma resistem? De que modo elas escapam das estratégias de dominação que lhe são impostas? De que maneira rompem com as técnicas de controle, administração e governo de seus corpos nas instituições? De que jeito elas recusam os discursos, expectativas, modelos, padrões, clichês, representações, imagens e ideias que imperam sobre elas? Como elas fazem para que suas manifestações e gritos de protesto sejam ouvidos?
Fundado em 2000, o sindicato União das Crianças e Adolescentes Trabalhadores da Bolívia (Unastbo), foi criado por crianças trabalhadoras que reivindicavam que seus direitos fossem respeitados. Em 2014, o sindicato conseguiu que a Assembleia Nacional aprovasse uma reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente do país, para reduzir a idade mínima de trabalho para dez anos em casos excepcionais. Fonte: Lorena Arroyo, BBC Mundo
Resistir não é apenas bater de frente com o inimigo, confrontar-se, chocar-se, opor-se. O embate, seja ele físico ou político, é apenas uma entre muitas estratégias que pode ser adotada. A dialética é somente um jeito de ver o jogo de forças, ela reúne uma diversidade de elementos e as reduz a um jogo de opostos e de contraditórios, a dois pólos, em que a contradição é o motor da diferença. Há outras maneiras de resistir. Na perspectiva de Gilles Deleuze, o ato de criação é, de certa maneira, ato de resistência. Resistir é criar, resistir é inventar.
Muitas das perguntas colocadas pelas crianças para nós se encontram na dimensão daquilo que ainda não é conhecido, naquilo que é possível inventar, numa dimensão anterior às perguntas e respostas já formuladas, dos problemas já construídos e resolvidos, com soluções dadas e correspondentes. As crianças habitam o desconhecido. Tudo é novo, é estreia, inauguração, primeira vez. Nada está dado, tudo está em aberto. Tudo está para ser criado e inventado.
Para Anete Abramowicz, “a infância é uma espécie de outro do mundo”. Talvez as crianças possam nos ajudar a pensar um novo modo de pensar a resistência, a dar um novo início às lutas políticas, a criar outras formas de resistir e pode ser que nesse encontro com a criança, nasça uma “infância da resistência”, um modo infantil de luta política.
Cito dois exemplos: o primeiro tem a ver com a atual campanha eleitoral para a presidência no Brasil. É possível ver, nos últimos meses, toalhas estampadas com os rostos dos candidatos sendo vendidas nas ruas e esquinas pelo país afora. E, as vésperas do primeiro turno, as mídias sociais divulgaram um “toalhaço”, manifestando apoio a um dos presidenciáveis. Ver pessoas desfilando com suas toalhas é algo irreverente, insólito, inusitado. Parece até “coisa de criança”, no bom sentido do termo.
O segundo, é o projeto “Motoca na praça”, realizado pela Escola Municipal de Educação Infantil “Armando de Arruda Pereira”, em que as crianças ocupam o centro da cidade de São Paulo usando triciclos. Elas visitam parques, praças, museus e outras instituições públicas e privadas, acompanhadas pelas professoras. Experimentam o espaço urbano de modo novo, inédito. E, “o que é inédito para as crianças, muitas vezes é inédito para a cidade”, como afirma uma das docentes que participa da proposta.
Neste sentido, afirmar uma “infância da resistência” tem a ver com tirar a resistência do “seu” lugar e situá-la em outros lugares, reconectá-la com o intensivo no mundo, com as forças intempestivas que habitam o cosmos e arrancá-la dessas formas caducas e engessadas de luta política. É preciso inventar um novo modo de pensar a resistência, ter um novo início a partir de um lugar minoritário, molecular, intensivo.
O imperativo “Lute como uma criança” tem o intuito de provocar o pensamento e o ato político. Lutar como uma criança não é imitá-la ou assemelhar-se a ela, mas sim pensar e agir de modo infantil política, conceber a resistência à maneira da criança, de modo novo, outro, inédito e inventivo. Talvez pudéssemos falar de um devir-criança da resistência. Devir não é imitar, assemelhar-se ou tornar-se outra coisa num tempo sucessivo. Sendo assim, devir-criança não é tornar-se uma criança ou imitá-la, muito menos infantilizar-se. Devir é encontro, entre acontecimentos, movimentos, ideias, multiplicidades, diferenças, afetos.
Mais do que tentar aprender ou apreender na infância outras formas de resistir, é necessário instaurar zonas de vizinhança, espaços de encontros, de atravessamentos, de contaminação e de contágio com a infância; uma tentativa de reconectar a resistência com o intensivo no mundo, com as forças intempestivas que habitam o cosmos, com os fluxos que atravessam a sociedade, a fim de reinventarmos nossas estratégias de resistência e criarmos novas formas de luta política.
Dia das crianças na escola
Por Ivan Rubens
Parede da Escola Família Agroextrativista do Carvão, no Amapá | Foto: Facebook/Reprodução
Era 12 de outubro. Para Jaquelline e Gabrielle, 12 de outubro é o dia das crianças. Poderia ser mais do que isso, mas o que interessa para elas é o dia das crianças. Jaquelline tem 9 anos e Gabrielle tem 6 anos de idade. A história que vamos contar aconteceu numa escola. Quando você lê a palavra escola, logo pensa em uma escola assim… dessas que ficam na cidade, entre muros e grades, afinal, é preciso ter muita segurança nesse espaço dedicado a estudantes. Dessas escolas com espaço delimitado para tudo: quadra, pátio, refeitório, parquinho, sala de aula etc. E tem hora pra tudo: bate o sinal, termina uma aula e começa outra, bate o sinal começa o recreio, termina o recreio. Corre pra merendar, corre pro xixi, corre pra sala. Aliás, quando eu uso a palavra sinal, talvez você pense num apito, numa sirene ou até numa música. Pois bem, mas nossa história aconteceu numa escola um pouco diferente.
Primeiro porque não é uma escola urbana. A escola de onde falamos fica na floresta. Uma escola sem muros e nem grades, sem separação entre o espaço da escola e o espaço da floresta. A escola de onde falamos tem uma proposta pedagógica interessante: pros dotô o nome é ‘pedagogia da alternância’, na comunidade é ‘escola família’. Na escola família, adolescentes e jovens ficam 15 dias direto na escola estudando juntos, dormindo e acordando, comendo e cuidando da escola. Podemos dizer que a escola de onde falamos é uma graaande família. Agora que você conhece um pouco da beleza de uma Escola Família Agroextrativista, uma escola integrada à comunidade, integrada à floresta, podemos voltar para nossa história.
Era 12 de outubro. O almoço na Escola Família Agroextrativista foi muito especial, afinal era o dia das crianças. Jaquelline e Gabrielle não são alunas matriculadas na Escola, mas, sendo família, comemoraram na Escola. No almoço teve uma salada especial de legumes e folhas com temperos vindos do laboratório de produção de alimentos da própria Escola. Do mesmo laboratório vieram o açaí e a farinha de tapioca. Do igarapé vieram as proteínas: peixe, Tamuatá e Acarí, e camarão. Do laboratório de frutas veio o cupú para o suco natural. A pesquisa de alunos e alunas foi descobrir qual o cupuaçuzeiro com os frutos mais maduros para o suco ficar ainda mais gostoso. No final, a deliciosa mistura de castanha do pará e farinha de tapioca. Na Escola Agroextrativista, a floresta é um grande laboratório de experimentações, a floresta é sala de aula e a sala de aula é a floresta.
Mas a surpresa ainda estava por vir. Ceci, a monitora, fez uma pequena surpresa para Jaquelline e Gabrielle. Ceci chamou as pequenas e lhes entregou um presente do dia das crianças. Era uma banheira de bonecas. Agora as bonecas de Jaque e Gabi tomam banhos no igarapé ou na banheira quando quiserem. Mas a emoção de passar o dia das crianças na Escola Família Agroextrativista é indescritível.
Este texto foi escrito junto com Sâmila e Jaine, jovens escritoras do distrito do Carvão/AP e contadoras de histórias.
Mazagão/Amapá – Distrito Do Carvão
Ivan Rubens, Sâmila como Jaquelline e Jaine como Gabrielle.
História real produzida pelos próprios personagens.
Texto publicado originalmente no Blog do Ivan Rubens
Estratégias de resistência por meio do auto-cuidado e do cuidado coletivo nas eleições
Algumas ideias sobre como tratar insônia e ansiedade enquanto problemas sistêmicos
Você sabia que cuidado é estratégia de resistência? Talvez sim, mas muitas vezes a gente se esquece. Ficamos atolados de tarefas, angústias e ansiosos com nossa própria vontade de mudar as coisas e enfrentar a situação terrível que nosso país atravessa. Sabemos que criar um plano cotidiano para enfrentá-lo é desafiador e pode levar muitos de nós a altos níveis de esgotamento.Para combater os desafios que nosso contexto nos impõe, é necessário elaborar estratégias autocuidado e cuidado coletivo. Não basta só uma pessoa. As organizações precisam ter estratégias e táticas de cuidado que contribuam para a nossa resiliência e bem estar. Afinal, a nossa luta é sempre coletiva e o bem viver é um lugar que queremos chegar nessa vida ainda.
Mas o que é autocuidado?
O autocuidado deve ser compreendido como um ato político, que fomenta espaços e medidas de afirmação da existência de si. É a busca de consciência e autonomia para a criação de hábitos que aumentam a resiliência e resistência.
Um plano individual de autocuidado pode incluir: contar com uma rede de apoio (familiares e amigos), cuidados com a saúde (dormir, se alimentar bem, realizar exercício), desfrutar de artes (escutar músicas, pintar, ler), ter contato com a natureza, gerenciar o tempo de uso de dispositivos tecnológicos, por exemplo.
Sabemos que criar um plano cotidiano de autocuidado é desafiador pelo sentimento de culpa e o autossacrifício, norma cultural prejudicial em que estamos inserides. Como resultado, muitos de nós enfrentamos altos níveis de esgotamento.
Por isso é fundamental que o autocuidado seja aliado ao Cuidado Coletivo.
E o que é cuidado coletivo?
Cuidado coletivo é compreender que, para cuidar de si, é necessário cuidar do todo e do outro, pois eles também fazem parte de você. Reconhecer que somos seres individuais e coletivos ao mesmo tempo. Portanto, o cuidado coletivo é o cuidado integral.
Cuidado coletivo também deve ser compreendido com um ato político, que fomenta e fortalece espaços, medidas e ambientes seguros, saudáveis e adequados para que seja possível que ativistas e defensores de direitos humanos desempenhem suas atuações com resiliência e resistência.
Sua rede de apoio e cuidado
Esse cuidado pode ser oferecido pela sua comunidade, rede de apoio e/ou organização. Devido a isso, ajuda muito na possibilidade de um indivíduo realizar também seu autocuidado.
As possibilidades dos cuidados coletivos incluem: conhecimento e acesso à rede de saúde e apoio psicossocial; medidas que estimulem e promovam a saúde física; gerenciamento da carga de trabalho; colaboração coletiva se alguém precisar ter um tempo de descanso, por exemplo.
Destacamos que adotar uma estratégia de autocuidado e cuidado coletivo envolve avaliar a estrutura pessoal e organizacional, que são possibilidades específicas e múltiplas, pois devem levar em conta suas realidades, potenciais e limitações.
Poxa, legal, quero saber mais
Que bom! Para não ficarmos só no bla-bla-bla, separamos alguns materiais. Convidamos você a acessar nossa biblioteca também para encontrar mais materiais.Deixemos aqui também o link para dois materiais que o Lab Cuidados da Escola de Ativismo produziu sobre ansiedade e insônia, que trazem uma lista de cuidados e orientações possíveis.
Por que cuidar da insônia?
Se cuidar para não ter insônia é um ato de cuidado integral e de resiliência. É também uma forma de reivindicar o seu direito de bem viver. É importante olhar para a insônia com atenção e acolhimento para entender se ela é causa ou efeito, e então descobrir formas acessíveis e viáveis pra você, de combatê-la. Ignorá-la não é uma opção.
No Lab Cuidados, deixamos um livreto (zine) com diversas recomendações para o cuidado e prevenção da insônia. Apesar de contar bastante sobre o contexto de isolamento social, o zine também é útil para outros contextos, como eleições, momentos de mobilização externa, exposição pública, ou até para enfrentar as diversas crises que nos cercam no dia a dia: o endividamento, a pobreza, fome… São diversas as preocupações que nos perturbam enquanto ativistas e principalmente, enquanto seres humanos. Se achar que o Zine lhe será útil, pode ler aqui gratuitamente: Zine 1 – Insônia.

Por que cuidar da ansiedade?
A ansiedade é uma distorção cognitiva que afeta os nossos mecanismos instintivos de defesa, desequilibrando a nossa própria ótica da realidade.
Ela também é um distúrbio comum em ativistas que padecem de preocupações e ameaças reais. Cuidar para que a ansiedade não se torne um problema ou fuja do controle pode ser importante como forma de prevenção de danos. E como dito anteriormente, como estratégia de resiliência.
Listamos alguns motivos pelo qual você ativista, deve procurar meios de cuidado e prevenção da ansiedade:
- Para equilibrar as análises de risco, já que a ansiedade é uma distorção cognitiva e a tendência do ansioso é ver as coisas de uma ótica catastrófica e exagerada;
- Para evitar gasto de energia, tensão e dores;
- Para prevenir o pânico e a fobia social;
- Para impor limites a nossa capacidade humana de agir e sentir;
- Evitar estresse e alterações repentinas de humor;
Nenhum desses motivos transforma a ansiedade em um problema individual ou moral. É importante lembrar que a ansiedade é um sintoma do nosso tempo e do modo de produção capitalista, que tem por natureza o objetivo de explorar, alienar até a exaustão extrema. Quem consegue relaxar sem saber se terá teto, comida e cuidado amanhã ou no futuro?
No Lab Cuidados, deixamos um zine com diversas recomendações para o cuidado e prevenção de ansiedade. Se ficar intessade, pode ler aqui gratuitamente: Zine 2 – Ansiedade.

Se estiver convencide de que o cuidado da insônia e da ansiedade é importante, dedique um tempo de apreciação e leitura dos materiais que deixamos disponível na nossa Biblioteca.
Esses são os primeiros zines experimentais para falarmos sobre saúde e ativismo sob uma perspectiva feminista, antiracista e autonomista. Toda e qualquer crítica ou sugestão é bem vinda através do e-mail contato@ativismo.org.br.
Obrigada por ter lido até aqui e fique à vontade para explorar outros conteúdos de suporte e cuidado.
Se gostou do assunto dessa matéria, leia também:
- #JuntesnaRede, uma Campanha de Cuidados Digitais – Escola de Ativismo – https://escoladeativismo.org.br/juntesnarede-uma-campanha-de-cuidados-digitais;
- Entenda os cuidados e riscos de participar de boicotes para esvaziar eventos – https://escoladeativismo.org.br/entenda-os-cuidados-ao-participar-de-boicotes-que-esvaziam-eventos;
- Cuidados Integrais – Escola de Ativismo – https://escoladeativismo.org.br/project/cuidadosintegrais-1;
Como uma senha mudou minha vida? – Escola de Ativismo – https://escoladeativismo.org.br/como-uma-senha-mudou-minha-vida
A defesa das águas também é assunto de criança
por Escola de Ativismo
Crianças se manifestam no dia do rio Jauquara no Vão Grante | Foto: Pedro Ribeiro Nogueira
da O dia do Rio Jauquara é igual uma festa de santo
tão abençoado
neste dia
nós não faz nada
só trabalha de ajudante na festa
E tem até hino de homenagem ao rio Jauquara
O hino é do Dito Ilino
A festa do rio Jauquara tem Salomão, Vanda, Mariana, Ivan e João e Silvio
Esses são os autores da festa
Nessa festa tem até cururu
Por isso a festa é tão importante
Claudenilson, estudante da Escola Estadual José Mariano Bento, de educação quilombola no território do Vão Grande
No quilombo Vão Grande, em Mato Grosso, crianças e adultos se mobilizam pela defesa de seu rio, o Jauquara, fonte de água, lugar de banho, morada de peixes e dos encantados que habitam a região. Como já mostramos em um vídeo gravado pela Escola de Ativismo, o rio é parte essencial da vida de quem vive por ali. E diante das ameaças da construção de empreendimentos que visam o território, crianças e adultos se unem na luta popular pela defesa do rio.
A Escola Estadual José Mariano Bento é uma escola quilombola localizada no Baixius, uma das comunidades do Vão Grande. Por ali, enquanto os adultos da comunidade se articulam como Comitê Popular do Rio Jauquara, as crianças tem desenvolvido atividades e projetos em sala de aula na mesma temática.
Poema escrito por estudante da Escola Estadual José Mariano Bento sobre o Dia do rio Jauquara
O poema que abre esta publicação é uma das produções dos alunos da professora Neide. Até os pequenininhos da educação infantil estão envolvidos e fazem atividades baseadas no livro Narrativas do Interior, livro que conta a história do território, sua cultura e seus habitantes e que pode ser baixada gratuitamente no site da Escola de Ativismo. Aliás, a obra que foi produzida por Pedro Silva junto com a comunidade já virou material paradidático na escola José Mariano Bento. O autor esteve na escola e conversou com os estudantes sobre a experiência da escrita sobre o lugar onde cresceu. Foi em um dia em que jovens de diferentes turmas se reuniram para assistir ao filme Narradores de Javé, produção brasileira que fala sobre escrita, memória, registro, território e capital.
Outro personagem de destaque por ali é Benedito Ilino, que criou uma música sobre o Jauquara e que agora é considerada o hino da luta pelo rio. Além de músico, ele é vigia da escola, ajuda na horta, é agricultor e pescador. Foi convidado para uma conversa com alunos e alunas a respeito da canção e do ato de escrever uma canção, e falou pela primeira vez para uma turma toda.
É interessante perceber como a dimensão criativa está presente na escola e a presença dessas pessoas que são parte da comunidade valoriza o rio, valoriza o território, valoriza a própria comunidade, valoriza o Comitê Popular e estimula mais gente a criar e escrever sobre o Vão Grande. É interessante também perceber como a escola é comunidade. Ali é um dos únicos pontos de internet. O portão fica aberto até de madrugada. Entra e sai quem quer. E se comunidade é rio e escola é comunidade, logo, escola também é rio.
Dicas para continuar se comunicando caso haja bloqueios na internet
Eleições ativistas: plataformas ajudam a acertar no voto e na defesa da democracia
As Eleições para presidência, governo estadual, senado e legislativo estão se aproximando e a Escola de Ativismo tem algumas sugestões que podem te ajudar a tornar a se informar e mobilizar na semana que antecede as eleições – e depois dela também.
Se para presidente a escolha não é Lá muito difícil, nas casas legislativas abundam bons nomes, que defendem causas importantes e podem ajudar a segurar e anular as boiadas, além de avançar nas conquistas de direitos sociais.
Confira 9 plataformas que te dão ferramentas para convencer aquele parente e também para escolher suas candidaturas nas eleições.
Você pode fortalecer a luta para tirar Bolsonaro do poder! Esta plataforma tem um guia prático para derrotá-lo nas urnas. São diversas estratégias para adotar ao longo das Eleições 2022. Acesse aqui a TIRA VOTO DO JAIR
É um monitor socioambiental e independente, atualizado semanalmente, que sistematiza os principais fatos, notícias e discursos relacionados à Amazônia. Pras eleições desse ano, eles elaboraram um guia analisando os quatros anos de Bolsonaro e do bolsonarismo na Amazônia Legal. Acesse aqui o Sinal de Fumaça.
3) Ruralômetro
Nessa ferramenta da Repórter Brasil você pode conferir um termômetro que mede como cada deputado federal tem atuado nos partidos nos últimos anos em relação a leis importantes para o meio ambiente, povos indígenas e trabalhadores rurais. Clique aqui para conferir o Ruralômetro!
4) PANE – Plataforma Antirracista nas Eleições.
A plataforma reúne as ações e ferramentas que o Instituto Marielle Franco está construindo para transformar a estrutura política do Brasil tendo em vista questões de raça, gênero e classe. Inscreva-se para receber oportunidades de ação! Confira aqui a PANE – Plataforma Antirracista nas Eleições.
5) Mulheres Negras Decidem – O MND qualifica e promove a agenda liderada por mulheres negras na política institucional, com objetivo de fortalecer a democracia e superar a falta de representatividade nas instâncias de poder. Veja as publicações. Saiba mais em Mulheres Negras Decidem ou @MNdecidem
Promovida pelo Clima de Eleição, a plataforma agrupa os candidatos que estão comprometidos com a agenda climática. Só entra nessa lista quem fizer um curso de formação no tema. A plataforma é atualizada semanalmente. Clique aqui no Vote Pelo Clima
A iniciativa da Coalizão Negra Por Direitos para apoiar mais de 100 candidates ligados ao movimento negro que concorrerão a cargos na Assembleia Nacional e na Assembleia Legislativa do país. Apoie em seu estado!
Promovida pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a plataforma reúne 30 candidaturas indígenas ao legislativo de todas as 5 regiões do Brasil. Acesse aqui Campanha Indígena
9) Farol Verde
É uma ferramenta de exercício da cidadania, construída para fortalecer a democracia. Nela você pode pesquisar informações e posicionamentos de candidaturas sobre as mudanças climáticas. Confira aqui o Farol Verde.
Segundo turno?
A colunista Luh Ferreira reflete sobre o cenário político a importância da escolha do candidato no primeiro turno das eleições
Domingo dia de tomar café da manhã mais tarde, em família… conversa vai, conversa vem e eleições. Claro…
Falamos, sobre candidatos, sobre zap, sobre apelações, sobre horário político, debate… uso da máquina estatal para fazer campanha e até a família Adams que compareceu no velório da rainha. O pretinho caiu mal na primeira dama que nunca teve nenhum gesto de solidariedade com o povo brasileiro, agonizamos nesses anos de pandemia e pandemônio, foi ter com a queen-colonizadora.
Feio demais Micheque.
Muito papo aleatório depois, minha mãe, aniversariante da semana, perguntou:
– Mas por que têm segundo turno?
Eu que nunca nem tinha pensado nisso, pois, desde que me entendo por gente, sei que o segundo turno faz parte de um processo democrático na escolha dos nossos representantes, uma espécie de confirmação do povo sobre o melhor candidato, me coloquei a pensar sobre o assunto.
Rapidamente lembrei da primeira vez que ouvi falar em campanhas eleitorais. Um ano após a constituinte vieram as eleições diretas! Lula e Collor disputaram fervorosamente o pleito.
Eu, com 6 anos, escutava “a eleição vai ser disputada por um playboy e um trabalhador!”
A maioria lá em casa era trabalhadora, mas nem todo mundo votou no trabalhador…
Isso deve ter se repetido em muitas famílias, porque, o Collor venceu no primeiro e confirmou a vitória no segundo turno, apertadinho, mas foi…
A constituição federal de 1988 organiza as eleições em dois turnos, justamente para que o povo possa confirmar a sua escolha, e o candidato de preferencia seja eleito com a maioria absoluta dos votos. Segundo turno vale para eleições dos cargos executivo: presidente, governador e prefeito – para municípios com mais de 200mil eleitores.
Por duas vezes, desde a redemocratização, não rolou segundo turno no Brasil – O sociólogo Fernando Henrique Cardoso se elegeu com maioria absoluta em 1994 e 1998.
A história em 2002, 2004, 2008, 2012, 2014, 2018, todo mundo já sabe…
E para que a gente não se esqueça: sim, 2016 foi golpe!
Mas voltemos ao papo lá de casa.
Depois de falarmos sobre o porque do segundo turno, a gente se deu conta de como está difícil defender o estado democrático, os direitos básicos, neste últimos anos. Não se trata de eleições apenas, estamos em uma guerra.
Estamos lutando contra o autoritarismo, contra o fascismo, contra o genocídio do nosso povo, das florestas, da cultura brasileira.
A opção da minha família é que as eleições sejam finalizadas já no primeiro turno, pois ninguém aguenta mais todo esse ódio, toda essa degradação.
Em casa sempre rolou polarização. Sempre teve espaço pra treta.
Aqui é palmeiras, lá é corinthians.
Um vasco, outro é mengão!
E a gente vê muito disso na política…
Teve Lula contra Collor, Serra contra Lula, Dilma contra Marina, ops Aécio… teve até Haddad contra Coiso!
Mas esse ano de 2022, aqui em casa a gente escolheu levantar a mesma bandeira. Não por um candidato. Não é apenas pela sua trajetória. Não é uma questão de justiça. Não é nem porque ele tem o melhor projeto para o país… É apenas para que o fascismo não vença e o ódio não se faça presente por mais 04 anos nos corroendo, nos destruindo por dentro enquanto pessoa e por fora enquanto povo.
Muita gente lá de casa votou em Collor em 1989.
Nesta eleição geral, novo, velho, esquerda, direita, frente e costas, até quem tem mais de 80 vai fazer o L.
E pronto, vai dar primeiro turno e nós vamos assistir a copa juntos, de camisa amarela com estampa de onça, rua pintada, cervejada e tudo, e acabou.
Em 2023 o coro volta a comer!
Os 200 anos das independências latino-americanas diante de um momento terrível da história brasileira
Por Sigifredo Romero Tovar
Como se deram as “rupturas de tempos históricos” em nosso continente e que reflexos elas guardam até hoje com nossa realidade? O filósofo colombiano Sigifredo Romero Tovar coloca nossas histórias em perspectiva
“As independências são coisa dos entusiastas do estado liberal moderno. Já as classes populares, vivem sua história como uma série de confrontos contra essa mesma entidade” l Foto: Calendário Insurrecional 2022
,Duzentos anos
A humanidade fraciona o tempo histórico, ou seja, seu próprio tempo, o tempo da sua experiência no mundo, o quebra. Antes e depois de Jesus, antes e depois da conquista, antes e depois da independência ou da criação do país. É assim que sabemos em que esquina da história estamos vivendo. As efemérides, nesse sentido, são pontos de conexão com o passado. E por isso, com o futuro.
Se a morte ou nascimento de um famoso filósofo ou personagem histórico completa 100, 200 ou 500 anos, os seus seguidores acadêmicos, pesquisadores, exegetas, professores, estudiosos independentes fazem alvoroço, se reúnem, e se renova o interesse naquela pessoa. Se fazem também reelaborações e o personagem passa por novos escrutínios e leituras. Às vezes se afirma poeticamente que ele ainda está vivo.
Na América Latina que o Brasil habita – sem saber, porque o Brasil não se olha no mapa – por estas épocas comemoramos timidamente 200 anos da independência da metrópole europeia. Os primeiros a comemorar são os haitianos que completaram a sua revolução em 1804, vários anos antes que os outros.
Nos outros países, o processo revolucionário só ia começar depois da invasão napoleônica da península ibérica em 1807 e 1808. Enquanto a monarquia portuguesa conseguiu fugir para o Brasil, os reis espanhóis caíram nas mãos de Napoleão. Esse acontecimento sobre o qual nenhum habitante das colônias ibero-americanas tinha o menor poder, propiciou as condições históricas para as independências.
Leia também: As Independências, o coração que vem da Europa e as revoltas que os senhores ainda tentam silenciar
A queda da monarquia fez brotar movimentos autonômicos e independentistas nas colônias hispânicas que vinham sendo incubados por 50 anos de mudanças socioeconômicas e culturais importantes. Na geral, foram as elites crioulas brancas que impulsionaram os movimentos nos diversos territórios e cidades: comerciantes, funcionários, militares, sacerdotes, pequenos proto-despotas ilustrados. Os movimentos foram particularmente fortes nas periferias do poder hispânico, como na Venezuela e em Rio de la Plata.
Entre meados da década de 1810 e meados da de 1820, a maioria das colônias hispânicas se libertaram da Espanha por meio das armas. A batalha de Ayacucho, que aconteceu no dia 9 de dezembro de 1824 foi o último grande embate militar que por fim quebrou o poder espanhol no seu grande bastião político e econômico da América do Sul, o Peru. Outras batalhas decisivas na América do Sul foram Tucumán (1812), Salta (1813), Chacabuco (1817), Maipú (1818), Boyacá (1819), Carabobo (1821), Pichincha (1822) e Junín (1824).
É isso que se comemora em primeiro lugar, umas batalhas, uns gritos libertários, umas cartas constitucionais que entregaram a América Latina para as elites locais. Nessas vitórias de curto prazo, as elites latino-americanas foram bem-sucedidas. E, com isso, conseguiram quebrar o tempo histórico criando uma nova era.
O conteúdo dessa nova era viria a ser, a médio prazo, o principal problema político das novas elites nacionais em formação. Os projetos nacionais foram sociedades organizadas pelo estado liberal e orientadas à exploração das riquezas naturais e humanas com o máximo de estabilidade política possível. Se hoje em dia temos muito mais do que isso é por causa da luta bicentenária dos camponeses, indígenas, negros e trabalhadores.
Nas narrativas pátrias, a nova ordem política surgida junto com a independência continua até hoje. Mesmo com golpes de estado, guerras civis, revoluções e ditaduras, reconhecemos nos estados modernos a continuidade dos regimes que começaram a nascer por volta de 1810.
Só a destruição do estado, uma revolução comunista ou anarquista, uma divisão do país, a conformação de uma monarquia ou uma intervenção estrangeira – e outras possibilidades que não imaginamos – poderia quebrar o tempo histórico e finalizar a era política que começou há duzentos anos na América latina.
São dois séculos de repúblicas independentes mais o menos liberais controladas por homens brancos e ricos divididos em federalistas e centralistas, conservadores e liberais, a Igreja católica, caudillos, coronéis e ditadores, onipotentes corporações transnacionais, Londres, Washington e mais recentemente o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Será por isso que o povo não celebra com muita alegria e orgulho o bicentenário? Os indígenas, sem dúvida, se lamentam.
Depois das independências as elites brancas, culturalmente mais próximas da Europa do que da população escrava e indígena deram forma aos estados latino-americanos e sua incorporação ao mercado mundial em um processo que levou décadas. Uma parte fundamental desse processo foi o genocídio indígena e a ocupação das suas terras. Em certo sentido, para eles o século XIX foi um novo século XVI.
Heróis
E pensar que houve gente que supostamente criou um país. A Simón Bolívar lhe são atribuídos cinco. A José de San Martín, três. Homens que um dia foram de carne e osso são reverenciados na religiosidade cívica dos nossos estados liberais como libertadores de países inteiros.
Naquela época houve próceres de todo tipo: os que deram o primeiro berro, os que se decidiram a publicar aquele texto, os primeiros a desobedecer, os que convocaram aquela primeira reunião, os que educaram outros como Simón Rodríguez, o mestre de Bolívar. Eles fizeram coisas que não tinham sido feitas antes, coisas que até esse momento eram inconcebíveis. Mas é aí que tá: talvez até o cara que há alguns dias atirou sem sucesso na cabeça de Cristina Fernández de Kirchner, também se achasse um herói.
Interessantemente, para a tristeza de muitos historiadores e aficionados pela história, os heróis independentistas da religiosidade cívica do estado liberal não excitam tanto a emotividade popular como outros heróis políticos mais recentes.
Parece engraçado que diga isto pois no meu próprio país, há apenas um mês, a primeira ordem do novo presidente Gustavo Petro foi trazer a espada de Bolívar para fazer seu juramento presidencial perante ela. Por outro lado, na Venezuela a obsessão de Chávez por Bolívar fez todo seu extenso governo se parecer a uma representação – ao vivo 24 horas por dia na TV nacional – de Hamlet, com Bolívar como o fantasma do pai.
Mas a verdade é que no geral, apesar das estátuas, dos livros e dos discursos, as pessoas não têm muita ideia do que Sucre, O’Higgins ou Iturbide fizeram para se tornarem quem são. Não são eles que aceleram o coração do povo latino-americano. Isso quem faz são os heróis populares, como Getúlio, Lula, Chávez, Perón, alguns deles bem fascistas, é verdade, mas que conseguiram negociar com grandes faixas da população melhorias importantes nas condições de vida dos trabalhadores e ganharam em troca uma devoção quase religiosa ao líder amado. Claro que o Bolsonaro aqui não entra porque uma coisa é populismo e outra é doença social de caráter cognitivo e moral.
Afortunadamente os intocáveis populistas não são as únicas fontes de emoção política que agitam a América Latina. A promessa centenária da revolução mexicana, o fogo de luta espalhado pelo continente após a entrada de Fidel Castro em La Habana, a vitória da imaginação humana que o neozapatismo constitui, continuam ainda hoje frutificando em incontáveis lutas no continente inteiro.
Em comparação, nas independências hispano-americanas, e na brasileira mais ainda, se destaca um marcado caráter hierárquico. As celebrações sociais dessas datas são acontecimentos friamente institucionalizados que muitas vezes incluem desfiles militares. Óbvio, já que são os militares e outras forças da criminalidade uniformizada os detentores do máximo poder possível.
As independências são coisa dos entusiastas do estado liberal moderno latino-americano. Para as classes populares em luta, sua história faz sentido praticamente como uma série de confrontos contra essa mesma entidade. Nesses embates essas massas se construíram e transformaram dando forma às diferentes características políticas dos movimentos latino-americanos.
A nossa história política republicana é a história da luta entre uma grande maioria que é roubada dos frutos do seu próprio trabalho, da natureza que habita e da riqueza cultural criada por séculos pela humanidade contra uma pequena minoria de famílias mais ricas que deus e mais poderosas do que qualquer outro ator político da nossa história.
Apesar das vitórias e derrotas, as classes, movimentos e grupos sociais explorados, agredidos e marginalizados continuam a sua luta enquanto têm vida. A luta nossa é de todos os dias porque ela é pela sobrevivência e pela diversidade na natureza e na humanidade.
A nossa maior derrota sempre foi a venda moral, a entrega de todas as outras formas de viver e ver a vida em troca de um bom salário, casa, carro, uma conta na Netflix e a admiração dos desempregados e dos trabalhadores subalternos. A nossa maior derrota foi – e segue sendo – a entrega moral de cada indivíduo a um regime econômico irracional, inumano e ecocida.
Tudo bem que as pessoas consumam recursos sem saber nem se perguntar de onde vem nem quem os produz, tudo bem que as pessoas acreditem na promessa interminável dos índices de pobreza e na palavraria vazia e ridícula dos líderes do estado liberal cuja imaginação apenas alcança para prometer “melhorar a capacidade de compra” de todos os brasileiros. Enquanto isso, tudo ao nosso redor arde ou desaparece.
Já quando um importante número da população de um país está o suficientemente degradado moral e cognitivamente para cair numa enorme seita que tem como propósito efetivar uma aniquilação de tudo o que é vida e diversidade na sociedade e na natureza, podemos afirmar que fracassamos como sociedade. Bolsonarismo é isso: uma lobotomia nacional.
Nunca o Brasil se cobriu de tanta vergonha. Cada dia em que Jair Bolsonaro é presidente do Brasil, tudo aquilo que merece ser amado nesse país é derrotado. Porque a cada dia em que ele é presidente, uma violenta minoria se sente autorizada a atemorizar, assediar e aniquilar todos os que preferimos a vida, a natureza e a humanidade.
Do possível e o impossível
Entre os anos 1819 e 1824, os exércitos patriotas liderados por Simón Bolívar libertaram do domínio espanhol a região setentrional da América do Sul. Para chegar ao momento das primeiras vitórias definitivas em Boyacá (atual Colômbia) em julho e agosto de 1819, Bolívar havia acumulado dez anos de avanços e retrocessos no movimento emancipador.
Muito do que tinha acontecido no movimento até então esteve longe da vontade do “herói”: a invasão napoleônica da península ibérica e a timidez das primeiras tentativas de autonomia nas colônias hispano-americanas. Nisso, ele foi um homem historicamente determinado.
Mas para quando os movimentos juntistas e autonomistas crioulos começaram a florescer entre 1808 e 1810, Bolívar já tinha renunciado ao colonialismo espanhol fazia tempo. Era um convencido independentista numa época em que a independência era ainda politicamente impossível, coisa demasiado radical, impensável e estranha. Quando forças históricas externas a ele criaram a crise de legitimidade que gerou as condições para a formação do movimento independentista continental, Bolívar já tinha rejeitado o mundo tal e como era e estava preparado para o impossível que estava por vir. Nisso, ele foi um sonhador sem remorsos.
Por outro lado, Bolívar conseguiu ocupar o lugar que ocupa na história porque era um homem branco, rico, fazendeiro, militar, crioulo descendente de espanhóis. Nisso, Bolívar foi um privilegiado da existência.
Só que Bolívar não é Bolívar porque Napoleão conquistou a península ibérica nem por seus privilégios nem pela sua capacidade para sonhar. Bolívar é Bolívar porque no meio de tudo isso atuou, aproveitou o momento, somou-se aos esforços de outros, fez uso das vantagens dos seus privilégios e terminou o que outros tinham iniciado. Isso é vontade de ação, o elemento sine qua non para participar da história da humanidade.
Em boa medida, quando celebramos a Bolívar, San Martín, Tupac Amaru, Tiradentes, Martí, Zapata, Sandino e muitos outros, estamos celebrando a vontade revolucionária e criadora, a capacidade do ser humano para rejeitar a ordem de coisas dada, a rebeldia do impossível: rejeitar o mundo tal e como ele funciona, se comprometer moralmente contra ele e se atrever a criar um mundo novo.
A grande maioria das pessoas estará sempre comprometida com a realidade exatamente como ela funciona, fidelidade ao estreito mundo do possível. E isso só faz a rebeldia contra a ordem de coisas ainda mais digna.
Manter um pé atrás perante a realidade é viver em harmonia com ela, já que nada nela é para sempre. Uma coisa que qualquer efeméride individual ou social nos lembra é que tudo está sujeito à mudança, inclusive a mais importante, a da morte dos fenômenos, o fim de todas as coisas. Tudo tem um fim. Hoje as sociedades latino-americanas comemoram o fim da dependência política direta da Espanha e de Portugal. No futuro os nossos descendentes estarão comemorando o fim desse nosso tempo histórico.
Os nossos estados liberais, mesmo as nossas nações, estão condenados a desaparecer um dia. Não existe nada para sempre nem na história da humanidade nem na história da natureza. E não existe ordem de coisas, racista, hierárquica, machista, autoritária, teocrática ou patriarcal que não seja imbatível.
Talvez daqui a 20 anos ou daqui a uns poucos meses as condições para o fim do estado amadurecerão. Muitas coisas que fazemos agora e levamos décadas fazendo cobrarão novos e profundos sentidos nesse momento.
A cada dia que passa, novas soberanias estão nascendo e a semente de mundos pós-nacionais e pós-capitalistas se espalha. Agora mesmo estarão nascendo as estruturas culturais e sociais que um dia substituirão o estado liberal. Ou estaremos preparados para criar uma democracia participativa e igualitária ou cairemos em mãos de soberanias neofeudais, corporativas e paramilitares.
As independências ibero-americanas foram possíveis porque a soberania colonial foi quebrada e as elites locais, as melhor posicionadas para aproveitar o momento histórico, se encontraram numa situação em que não tiveram mais saída do que começar a governar.
A passos acelerados a ordem política mundial se vê confrontada com o mais importante de todos os desafios: as consequências ecológicas do modelo econômico que abraça, do qual depende e que legitima. O estado liberal, com a sua democracia a conta-gotas com a sua filosofia econômica orientada à acumulação para uns poucos e o consumo como objetivo de vida para a maioria, dificilmente conseguirá sobreviver às mudanças ecológicas globais cada vez mais catastróficas. A criação de estruturas políticas democráticas, participativas e igualitárias é o problema político mais importante a médio prazo.
No curto prazo, ao menos no Brasil, o problema político é a derrota do fascismo. Digo do fascismo porque é muito provável que o fascista já esteja derrotado. Bolsonaro é pouca coisa e foi elevado ao poder por razões que seu pobre intelecto nem consegue enxergar. Se o bolsonarismo parece ainda um fenômeno em apogeu é só porque poderosos interesses econômicos, a institucionalidade política do estado e a mídia continuam acolhendo-o moralmente e naturalizando-o como elemento constitutivo da sociedade brasileira.
Em outubro o fascista será derrotado nas urnas e será impossível o Brasil voltar ao tempo anterior a Bolsonaro pela mesma razão de que nenhum estupro ou assassinato pode ser desfeito.
Claro que o Brasil vai estar muito melhor com Lula como presidente, mas não por isso as hordas abjetas e embrutecidas que ladram, agridem e destroem vão desaparecer. Elas serão parte da paisagem humana brasileira ainda por muitos anos. Em primeiro lugar porque a liderança do PT não parece muito interessada em superar as condições socioeconômicas e os desenvolvimentos culturais que durante muitos anos incubaram a monstruosidade. Eles ainda tratam Bolsonaro como um acidente.
O bolsonarismo, para toda pessoa que não está possuída por essa doença, deveria ser outra coisa. Além da vergonha e a indignação, tão justas como insuficientes, o bolsonarismo é uma oportunidade histórica para pensar criticamente coisas como o racismo, a misoginia, a homofobia, a bestialidade evangélica, o agronegócio, o parasitismo no estado, a cultura burguesa, o caráter intrinsicamente antissocial e anti-pensamento das forças armadas, o paramilitarismo e a segurança privada, o narcotráfico e a luta contra as drogas. Nada disso é um acidente.
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Há 200 anos, Bolívar, San Martín e muitos outros rejeitaram moralmente a ordem dada, agarraram o momento e afirmaram a sua vontade sobre o mundo, quebrando assim o tempo histórico.
A crise de legitimidade que serviu de estopim para as independências ibero-americanas foi a invasão napoleônica. A crise de legitimidade que acabe com o estado liberal latino-americano muito provavelmente chegue sob a forma de graus celsius da temperatura planetária. Cairá a atual ordem de coisas com um grau a mais? Com dois? Com quatro?
O que virá depois? O estado se transformará, se fracionará ou se eliminará para que a vida e a diversidade se imponham à máquina de guerra? Do jeito que estão as coisas no Brasil, se a ordem nacional-liberal desaparecesse hoje, se amanhã não tivéssemos de quem receber as ordens, o país viraria uma grande chacina.
É para evitar isso que os insubordinados de todos os dias espalham sementes, criam coisas que não foram criadas antes, agarram segundas oportunidades, fazem coisas de loucos. A luta nossa não é a cada duzentos nem a cada quatro anos. Nós lutamos pela liberdade e a sobrevivência todos os dias. Essa é vitória nossa de cada dia.
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*Sigifredo Romero Tovar é filósofo ecosocialista formado em Historia pela Universidad Nacional de Colombia e em Estudos da Religião pela Florida International University. Atualmente, seu interesse acadêmico é a superação do capitalismo para que a humanidade não derreta de calor. Contato: srome039@fiu.edu