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Escola de Ativismo

Inteligência Artificial também vota? Como esses conteúdos, somados ao peso dos algoritmos, influenciam as eleições

Personagens irreais e as recomendações massivas de conteúdos nas redes sociais confundem o eleitorado.

Por Letícia Queiroz

Você pega o celular, começa a rolar o feed e entre os conteúdos que o algoritmo recomenda aparecem aqueles em que pessoas dão opiniões sobre as eleições. Em uma entrevista, um eleitor defende um candidato, critica outro e diz em quem pretende votar. Parece só uma manifestação espontânea, mas em alguns casos, a pessoa que opina nem existe. Ela é um personagem gerado por inteligência artificial. A combinação entre os vídeos de pessoas criadas por IA, a atuação dos algoritmos e a dificuldade de distinguir o que é real ou não na internet cria um cenário preocupante, principalmente no período eleitoral.

Há muitos anos as campanhas eleitorais acontecem também na internet. Mas agora, conteúdos sintéticos estão influenciando percepções e as escolhas do eleitorado. Enquanto quem não existe “pede votos” nas redes sociais, os algoritmos também fazem campanha ao recomendar sempre os conteúdos do mesmo nicho e fazer parecer que todas as pessoas da sua rede social falam das mesmas coisas que você.

Especialistas ouvidas pela Escola de Ativismo afirmam que a IA pode ampliar o potencial de circulação de desinformação e influenciar a percepção de quem está do outro lado da tela. Elas analisam o cenário atual e alertam para os riscos. 

A jornalista Bianca Bortolon pesquisou os impactos do uso de IA durante a campanha eleitoral. Um levantamento publicado por ela no Aos Fatos identificou pelo menos 50 conteúdos no TikTok feitos por meio de IA simulando entrevistas e depoimentos de pessoas sobre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Como se fossem reais, as pessoas respondem perguntas de repórteres que também não existem. Produzidos para parecer espontâneos e verdadeiros, esses vídeos podem confundir o público, influenciar eleitores e contribuir para a circulação de mentiras durante a disputa eleitoral.

Bortolon afirma que a desinformação eleitoral, que já existia, ficou mais grave e as mentiras mais difíceis de serem percebidas pelo eleitor. A comunicadora explica que existem uma série de perigos para a sociedade. 

“Há possibilidade de agravar um processo de erosão da confiança já que, se tudo na Internet pode ser produzido IA, então tudo pode ser colocado em dúvida. Isso em um contexto maior de crise da confiança nas instituições e na imprensa. Esses conteúdos estão cada vez mais realistas e, consequentemente, mais difíceis de identificar e isso dificulta tanto a percepção de quem assiste quanto o trabalho de verificação, já que não existe uma pessoa real a quem possamos procurar. Também existe a possibilidade de fabricar tendências e uma percepção de consenso que não existem na realidade”, disse a jornalista. 

Para Bianca, os depoimentos de pessoas comuns podem funcionar como uma forma de prova social, quando o comportamento e a opinião de outras pessoas são usados como  uma das referências para interpretar o mundo e tomar decisões. 

“Na política, acreditar que outras pessoas apoiam determinado candidato pode contribuir para a percepção de que aquela candidatura tem aceitação social, e isso pode ser ainda mais persuasivo quando quem aparece no vídeo parece ser alguém com quem o espectador consegue se identificar”

A tendência é que o cenário fique ainda mais grave, ja que as ferramentas devem ficar cada vez mais refinadas. “Será cada vez mais difícil distinguir o real do que foi manipulado pela IA se as coisas seguirem no ritmo que estão”, disse Bianca.

Também é preciso estar atento a sistemas como chatbots e geradores de texto.  Para Liz Nóbrega, diretora de estratégia e inovação no Aláfia Lab (laboratório de pesquisa e inovação sobre internet, comunicação e sociedade) e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), esses espaços se apresentam como neutros, mas podem gerar respostas rasas, enviesadas, apresentar erros e até fazer algum tipo de indicação, embora a Resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vede que chatbots e sistemas de inteligência artificial recomendem ou ranqueiem candidatos. Na avaliação da pesquisadora, é preciso “entender que o algoritmo para geração de conteúdos, quando a gente pensa em inteligência artificial, também tem um potencial danoso para a integridade informacional em período de eleições”.

O trabalho dos algoritmos 

Além de nos depararmos com personagens irreais fazendo campanha eleitoral, também existe o trabalho invisível dos algoritmos, que confunde o acesso a informações. Ao navegar pelo feed, parece que todo mundo está falando das mesmas coisas que você. As opiniões sobre política se repetem e você vê conteúdos que confirmam o que você já acreditava. Nada disso acontece por acaso. Por trás do que aparece ou do que deixa de aparecer durante a sua navegação estão os algoritmos, que selecionam, recomendam e distribuem os conteúdos. Quando somos expostos sempre aos mesmos discursos, perdemos a oportunidade de conhecer outras ideias e propostas e de comparar diferentes pontos de vista, o que é essencial para escolher em quem votar. 

Especialistas alertam que esse movimento é preocupante e pode criar para o usuário uma falsa percepção da realidade, além de influenciar a forma como as pessoas conectadas enxergam a política. Para Liz Nóbrega, os algoritmos têm uma grande influência na construção da nossa visão de mundo.

Ela explica que antes da difusão das redes sociais, as pessoas recebiam as mesmas informações dos mesmos veículos, e a TV, o jornal impresso e os sites eram as únicas fontes de informação. A especialista lembra que isso não quer dizer que era tudo perfeito, pois faltava pluralidade de fontes de informação, mas na época tínhamos uma população que baseava suas opiniões numa mesma base comum de fatos e notícias. Hoje o cenário é outro.

“Com as redes sociais, isso muda drasticamente, especialmente pela questão algorítmica, onde cada um vai ter o seu próprio feed de notícias. Em 2013, Mark Zuckerberg disse que esperava que o feed do Facebook fosse como um jornal personalizado, em que cada pessoa teria ali as notícias e informações que elas preferiam. Então a gente tem uma mudança do feed cronológico para o feed algorítmico”, lembra Liz. 

Liz afirma que o cenário se agrava em períodos de campanhas eleitorais. “Primeiro porque a gente tem a construção contínua da formação política das pessoas também passando por uma filtragem, uma moderação algorítmica. Quando a gente chega no período eleitoral, isso termina sendo exacerbado de alguma forma, porque os algoritmos das redes sociais já compreendem a persona, a personalidade daquele e daquela usuária, já compreende quais são as preferências políticas, quais são os formatos de conteúdo que mais atraem, quais são os perfis com os quais você mais engaja”, explicou. 

Se lembrarmos que as redes sociais pertencem a grandes empresas que produzem fortunas incalculáveis aos seus CEOs, entendemos a funcionalidade dos algoritmos. Eles servem para mostrar aos usuários os conteúdos que serão mais propensos a engajar, ou seja, a manter a pessoa por mais tempo conectada. Assim, quem assiste a um reels e concorda com o conteúdo, consequentemente tem mais chances de compartilhar nos stories ou com amigos, curtir e comentar. Também pode aparecer um conteúdo divergente, o usuário tende a confrontar e entrar em algum tipo de discussão. Então, o algoritmo vai tentar entender qual desses conteúdos cada pessoa vai ter maior probabilidade de engajar.

É importante lembrar que as plataformas mais utilizadas não são espaços neutros. As big techs são comandadas por grupos ligados à extrema-direita e esses grupos também definem as regras do jogo, incluindo o que mais circula e o que ganha maior visibilidade online. 

Os algoritmos e a falsa percepção da realidade 

Para muitas pessoas, receber repetidamente conteúdos com o mesmo tom pode criar uma percepção distorcida sobre o que acontece ao seu redor e é nesse ponto que entram as chamadas bolhas informacionais, como explica a especialista Nirvana Lima, educadora popular em cuidados digitais da Escola de Ativismo, doutoranda em Comunicação na UFC e pesquisadora de culturas e direitos digitais.

“Os algoritmos podem criar para o usuário uma falsa percepção da realidade sobre o que é de fato relevante, seja no âmbito local ou nacional. Essa dinâmica visa mantê-lo conectado por mais tempo, oferecendo conteúdos alinhados aos seus gostos – gosto este transformado em dados, mapeado e analisado desde os primeiros cliques. Trata-se de uma questão intrínseca à arquitetura de plataformas como Instagram e TikTok que, ao segmentar postagens com base no tempo de tela, agrupam os usuários em torno de macrotemas”, afirma Nirvana. 

Nas chamadas “bolhas informacionais”, onde as pessoas são expostas a conteúdos que reforçam suas próprias visões, pode parecer que todo mundo pensa da mesma forma, quando, na verdade, há outras opiniões, informações e propostas circulando fora daquela bolha. Em uma eleição, isso pode ser muito perigoso. Em um cenário em que seguidores também são eleitores e as redes sociais se transformam em palanques para candidatos e figuras públicas, é preciso estar atento ao que aparece no feed, ao que é compartilhado e, principalmente, ao que pode estar sendo reforçado pelos algoritmos. 

“Embora o Tribunal Superior Eleitoral estabeleça diretrizes para a atuação de influenciadores digitais nas eleições, persiste uma linha tênue entre a veiculação de ‘publis’ contratadas e a manifestação pessoal de voto. Soma-se a isso o fato de que vários criadores de conteúdo e/ou figuras públicas disputam cargos federais e estaduais, transformando suas bases de seguidores em verdadeiros palanques digitais. Ainda que um grande número de seguidores não garanta uma vitória nas urnas, é inegável que a amplitude desses perfis potencializa o alcance das mensagens, que pode vir a misturar a comunicação de campanha ao tom habitual das publicações. Tal visibilidade é bastante assimétrica, considerando candidaturas tradicionais que ascendem à política sem tanta projeção nos meios digitais”, explicou Nirvana Lima.

Polarização, desinformação e outros danos

A falta de conteúdos e perspectivas divergentes tendem a intensificar a polarização e favorecer a circulação de desinformação, o que pode prejudicar o processo eleitoral e a própria democracia. 

Para Liz Nóbrega, há vários potenciais danos: “Muitas vezes os conteúdos que são apresentados para a gente podem ser enviesados, podem conter inverdades, podem ser tendenciosos e, muitas vezes, vão ser utilizados para nos agradar. Um segundo potencial danoso está o desgaste de debate político e a perda da possibilidade de cordialidade e de um debate político saudável entre diferentes opiniões”.

O TSE  possui uma resolução que proíbe a recomendação algorítmica de candidatos. O objetivo é evitar que big techs possam desequilibrar a disputa eleitoral a favor de determinados candidatos ou campanhas por meio da recomendação de contas de políticos exibidas a usuários nas redes sociais. “Essa tentativa do TSE tenta minimizar esses impactos. A gente sabe que é uma medida importante, que tenta trazer algum nível de simetria dentro desse tipo de recomendação, mas há outras formas dos conteúdos serem recomendados, pensando nessa mediação algorítmica dentro desses espaços de redes sociais”, disse Liz. 

É importante ter consciência sobre o uso da internet e das redes sociais e compreender como a inteligência artificial e os algoritmos moldam o ambiente digital em que estamos inseridos. Furar a bolha e ver o mundo fora dela pode abrir horizontes para escolhas mais conscientes. 

 

Coletivo independente constituído em 2011 com a missão de fortalecer grupos ativistas por meio de processos de aprendizagem em estratégias e técnicas de ações não-violentas e criativas, campanhas, comunicação, mobilização e segurança e proteção integral, voltadas para a defesa da democracia e dos direitos humanos.

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