O banimento de perfis ativistas nas redes sociais revela o controle das big techs sobre a circulação de informações, a liberdade de expressão e as vozes que mobilizam a sociedade.
Este texto foi produzido a partir de informações publicadas na newsletter Roda Ativista e da participação de Tatiana Dias, Luã Cruz, Nathália Purificação e João Paulo em uma live realizada pela Escola de Ativismo para abordar o tema em questão.
Não dá pra negar. A internet é uma ferramenta importante para quem luta por direitos, denuncia violações e mobiliza pessoas. Mas, nas redes sociais, todo esse trabalho depende de regras de empresas que controlam as plataformas. Em 2026, vários perfis ativistas que levaram anos para serem construídos foram derrubados no Instagram, entre elas, as páginas do instagram da CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) e do Tapajós de Fato, veículo de mídia independente do Pará. As suspensões feitas pela Meta prejudicaram a comunicação entre defensores de direitos humanos, povos e comunidades tradicionais e mostraram a relação desigual entre quem constrói uma comunidade nas redes e quem decide se ela continua existindo ou não.
Na manhã de 28 de maio, a equipe do Tapajós de Fato recebeu uma notificação informando que a conta do jornal no Instagram havia sido suspensa. No dia seguinte o perfil foi desabilitado e as informações vinculadas à conta poderiam ser excluídas permanentemente. Foram 45 dias sem acesso e a justificativa apresentada pela Meta foi a de que a conta estaria violando os Padrões da Comunidade. Segundo João Paulo Serra, coordenador do Tapajós de Fato, a empresa não apresentou detalhes sobre qual conteúdo teria motivado a suspensão e também não respondeu às tentativas de contato.
“Tornamos o caso público por meio de um vídeo e, imediatamente, recebemos diversos apoios, desde notas de solidariedade e repúdio à medida adotada pela empresa, até suporte jurídico e de comunicação. Entendemos que, além das tentativas de contato direto com a Meta e da ação judicial com pedido de recuperação da conta, era necessário promover uma mobilização nas redes sociais. Foi assim que uma onda de engajamento nasceu, se fortaleceu e nos deu esperança para permanecer de pé diante do cenário de incertezas, espera e ausência de respostas aos nossos questionamentos”, disse João Paulo.
No caso da CONAQ, a suspensão do perfil afetou a comunicação de um movimento que há 30 anos atua na defesa dos direitos das comunidades quilombolas em todo o Brasil e reúne diferentes pautas e frentes de luta do movimento.
Nathália Purificação, coordenadora de comunicação da CONAQ, conta que a presença nas redes sociais se fortaleceu em 2020, com a necessidade de ampliar o contato com os territórios quilombolas para levar informações importantes durante a pandemia. De lá pra cá, jovens comunicadores quilombolas usam as redes sociais como uma das principais ferramentas de comunicação. O perfil dá visibilidade às pautas quilombolas, divulga as ações do movimento e conecta comunidades de diferentes regiões do país.
“A gente vem fazendo esse trabalho no instagram há seis anos. E é muito importante. Além de ser uma baita responsabilidade, porque é um movimento que tem três décadas de existência e que foi criado por grandes lideranças reconhecidas nacionalmente. E essas lideranças lutaram pelas políticas construídas para quilombolas nesse país. Então a comunicação da CONAQ tem uma importância nacional e agora também internacional, porque a gente tem chegado nesses espaços, nas COPs, nos eventos internacionais promovidos pela ONU e através de uma organização que a CONAQ ajudou a fundar, que é a CITAFRO que atua com a população afrodescendente”, explicou Nathália.
Durante o período de suspensão, a CONAQ perdeu temporariamente o contato com mais de 60 mil seguidores. “Para dentro do movimento social, para as nossas comunidades, a gente entende como um ato com consequências muito sérias. A gente chega dentro dos territórios rurais, a gente chega também nas cidades, nas comunidades urbanas, nas organizações, em quem mora na cidade. Temos um público muito amplo de mulheres, a pauta da educação, juventude, LGBTQIAP+, falamos de saúde… A gente tá muito ali no campo de educadores populares, de mulheres ativistas, ambientalistas. Então, é uma coisa bem grande”.
A CRTL+Z, uma organização social brasileira que enfrenta o modelo de operação das big techs, acompanhou alguns banimentos. A organização que atua investigando e expondo abusos, movendo ações judiciais estratégicas, mobilizando pessoas acredita que é necessário transformar indignação em ação organizada e efetiva pela responsabilização das gigantes de tecnologia e pela transformação do setor de tecnologia visando o bem-estar coletivo.
Tatiana Dias, jornalista e diretora de programas da organização, avalia que a concentração de poder das big techs representa uma ameaça à autonomia de organizações, movimentos sociais, jornalistas e ativistas que dependem das plataformas digitais para se comunicar e alcançar o público. Para ela, a dependência do Instagram, por exemplo, cria uma relação desigual, já que as plataformas podem decidir sobre a permanência ou remoção de conteúdos sem oferecer transparência.
“A gente foi engolido um pouco por essa lógica dessas plataformas. A nossa infraestrutura de comunicação é toda dominada por essas empresas. A gente não consegue sair dessa lógica e a gente precisa estar nessa lógica para existir, praticamente, para as pessoas ficarem sabendo da gente. A gente tá tentando lutar contra essa realidade”, afirmou Tatiana.
A dependência apontada por ela também se relaciona à forma como essas plataformas são administradas e aos seus próprios interesses. É que o poder concentrado nas mãos das big techs não é neutro, já que as plataformas são geridas por pessoas que têm um lado. Especialistas da área da tecnologia alertam que o pacto ideológico que envolve as big techs e a direita radical no Brasil e no mundo pode causar consequências gravíssimas, incluindo o alto risco para a democracia.
Para João Paulo e equipe do Tapajós de Fato, o prejuízo do banimento não foi apenas a perda de engajamento. “O maior prejuízo foi sofrido por nós, que perdemos o direito de liberdade de expressão e exercício do jornalismo, e pela sociedade, à qual foi negado o direito de acessar informações sobre os territórios em que atuamos. Foi a liberdade de expressão, um direito tão caro e que há tanto tempo tentam enfraquecer, que saiu prejudicada. Quando um jornal, assim como tantos outros pelo Brasil, comprometido com a verdade, a justiça e os direitos, sofre um ataque, é a democracia que está sendo atacada. A imprensa livre é um dos principais reflexos de uma democracia sólida. Os ataques à imprensa, por menores que sejam, devem servir de alerta para que permaneçamos vigilantes na defesa dos nossos direitos”, disse.
Luã Cruz, diretor de litigância da CTRL+Z afirma que uma estratégia que pode funcionar é reduzir a dependência das grandes plataformas e ampliar os espaços próprios de comunicação. “A gente precisa ter espaços em que a gente tenha o maior controle sobre eles, sejam sites, outras plataformas, perfis em redes sociais alternativas. E esses são mecanismos da gente estar protegido de algum jeito”.
Apesar da importância de criar canais próprios, a mudança não é simples. “Não é fácil mudar a nossa cultura, nosso hábito digital. Porque causa desconforto. Mas eu acho que é um desconforto que vale a pena passar, sabe? Eu acho que a gente ficou muito acomodado também com as facilidades que não são tão fáceis no final das contas, que tem um preço que se cobra de estar nas redes sociais”, explicouLuã.
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Os casos da CONAQ e do Tapajós de Fato mostram que o problema é maior do que parece e que não se trata apenas da perda de um perfil na internet. Quando uma plataforma interrompe o acesso de uma organização ativista, também reduz a capacidade de mobilizar pessoas, denunciar violações e fazer informações chegarem ao público necessário. Essas experiências revelam que estamos ocupando um terreno alheio. A luta continua sendo nossa, mas o terreno ainda pertence às big techs. E é justamente essa relação desigual que não pode deixar de ser questionada.







