Em artigo, Letícia Queiroz reflete sobre como uma criptofesta propõe uma nova forma de pensar a segurança digital, conectando tecnologia, território e cuidado coletivo.
Quem foi que disse que segurança digital se aprende apenas diante de uma tela de computador? Por muito tempo nós acreditamos que a nossa proteção online dependia somente de ferramentas tecnológicas e aplicativos criptografados. Mas a Criptoginga mostrou que essas formas de enxergar a proteção virtual são insuficientes principalmente para quem entende que a vida é construída em comunidade e que território não é apenas um espaço no mapa.
A experiência da primeira edição da Criptoginga, realizada na comunidade Carrapato, na zona rural do Crato (CE), mostrou que falar de tecnologias também é falar de pessoas, de rede de cuidado, de cultura e de formas coletivas de proteção para alcançar o bem viver. A internet não está separada da vida e por isso precisamos viver com cuidado no ambiente digital, porque assim como ela pode fortalecer redes, também pode ampliar violências contra os nossos corpos-territórios.
Dentro da comunidade, a miolagem, o gingado, a formação e os debates da Criptoginga fizeram muito sentido. Eles dialogaram com os saberes ancestrais do território e as rodas contaram com partilhas de lideranças que puderam enxergar exemplos de especialistas na prática da organização comunitária e das estratégias de cuidados. Entendi que discutir tecnologia e direitos digitais faz mais sentido quando esses temas caminham junto aos nossos próprios modos de aprender, de viver, de celebrar e de cuidar uns dos outros.
No Cariri cearense, a cultura popular sempre foi uma grande rede de conhecimento. A arte é vida na comunidade Carapato e esse amor pela cultura tem atravessado gerações. Tanto que quem abriu a Criptoginga foram as crianças em uma mística com roda de cantorias e de capoeira. As crianças que gingavam ainda nem sabiam que mais tarde, na última mesa do dia, a capoeira seria usada como exemplo de quem tem muito a ensinar sobre cuidados.
Essa foi a mesa que mediei a convite da Nirvana Lima, educadora popular em cuidados digitais na Escola de Ativismo (EA). Uma mesa toda preta. Na roda com o tema “tecnologias para fechar o corpo-território de quem luta”, a proteção foi vista em perspectivas diferentes e complementares.
Ao abordar dimensões dos cuidados digitais, Larissa Santiago, do Blogueiras Negras, usou exemplos da ginga, da negaça e de outros movimentos da capoeira para pensar estratégias de proteção e defesa e trouxe a reflexão de que o gesto de baixar o corpo e se esquivar, nos lembra que, por vezes, aprendemos a nos defender a partir da vulnerabilidade. O importante é criar condições para não levar rasteira. No campo digital, isso pode significar reconhecer riscos, nos fortalecer e desenvolver estratégias que nos permitam continuar equilibrades e em movimento.
Na mesa, Doté Leandro, sacerdote de candomblé, trouxe as ervas, o terreiro e a religiosidade como lugares de cuidado e proteção, mas chamou atenção de que não é possível garantir imunidade, apenas camadas de proteção. E também é assim no território chamado de internet.
“Não ando só”. Disse Valéria Carvalho, do Terreiro das Pretas, na mesa. Eu entendi o recado. Não andar só é caminhar acompanhada por quem está nesse plano, pela ancestralidade, pelos ensinamentos recebidos, pelas pessoas que vieram antes e pelas que seguem ao nosso lado no presente. É compreender a importância dos afetos compartilhados. Valéria falou sobre amor, sobre afeto e sobre cuidado, que são fundamentais na proteção em comunidade.
No contexto da proteção digital também compreendi o sentido, já que a tecnologia produz conexões e os riscos também se espalham por essas conexões. A segurança não é construída apenas por senhas fortes, criptografias ou conhecimentos técnicos. Ela se fortalece nas redes e no compartilhamento de informações. Ninguém navega sozinho e quando quem a gente conhece tem um perfil online invadido, quando imagens de uma comunidade circulam sem consentimento ou quando defensores de territórios sofrem ataques nas redes, o impacto nunca atinge apenas uma pessoa. Atinge a comunidade.
As pessoas negras, quilombolas, indígenas, periféricas e LGBTQIAPN+ tendem a ser mais atingidas. E essas comunidades se defendem justamente sendo uma comunidade. Com o cuidado coletivo. A defesa do território é coletiva. Em rede!
E “rede” é uma palavra bonita que carrega muitos sentidos. Pode ser uma rede feita de pessoas e organizações que sustentam umas às outras. Pode ser rede social, esse espaço digital de convivência. Pode ser também a rede de pano, onde descansamos o corpo. E a rede de dormir (que é uma tecnologia tradicional/ancestral) só é segura quando seus punhos estão firmes. Se um deles se rompe, ou se desgasta até se desfazer, existe o risco da queda. Outro ensinamento da rede é a confiança: eu só me deito quando quem armou a rede foi alguém em quem confio porque sei que vai dar um nó bem dado.A Criptoginga na comunidade Carrapato – onde encontramos todos esses tipos de redes – possibilitou essa conexão entre diferentes tecnologias, o que tornou a experiência tão significativa.
Também foi possível acompanhar uma conversa intergeracional com troca de experiências sobre o bem-viver na internet, reunindo pessoas de diferentes idades para compartilhar seus usos e apropriações da internet. Outra roda refletiu sobre os impactos ambientais da inteligência artificial a partir dos saberes do Orixá Ossain, guardião das folhas e da cura e ainda teve oficina para crianças com reflexões sobre o uso de aplicativos e dispositivos digitais.
Nirvana Lima em roda da Criptoginga na comunidade Carrapato – Foto: Ojukariri
Festa como metodologia
A Criptoginga, que aconteceu em meio a festividades da colheita do território, também contou com comida boa, fartura e foi encerrada com festa. Porque festa também é metodologia. Ao final, participamos de uma noite cultural linda com ritmos regionais. Além de ser um momento de celebração, a pisada do coco e o maracatu da comunidade Carrapato – o Maracatu Uinu Erê – foram parte da experiência formativa do encontro.
Na cultura popular e em diversas comunidades, o conhecimento circula também pelo canto, pela dança, pelo ritmo. Encerrar discussões sobre tecnologias ao som do coco e do maracatu é reafirmar que proteger nossos territórios físicos e digitais também passa por fortalecer a nossa alegria coletiva.
Maracatu da comunidade fechou Criptoginga – Foto: Ojukariri
Entendendo a Criptoginga
A CriptoGinga se inspirou nas CriptoFestas – iniciativas que surgiram em diferentes partes do mundo como resposta às preocupações com a vigilância em massa e a privacidade na internet. Esses encontros promovem oficinas práticas, debates e trocas sobre ferramentas de proteção digital e formas mais seguras de navegar e se comunicar online.
No Brasil, experiências como a CryptoRave, em São Paulo, vêm demonstrando que a educação digital pode ser construída de forma acessível, criativa e conectada às realidades locais.
A Criptoginga chegou ao Cariri trazendo essa mesma inspiração, mas com um ritmo próprio, enraizado na cultura popular da região. E diferente das criptofestas realizadas nos centros urbanos, sempre nas capitais, esta aconteceu na comunidade, envolvendo lideranças, defensores e defensoras.
O evento contou com ciclo online nos dias 8, 11, 15 e 18 de junho, antes do ciclo presencial. Os quatro encontros virtuais foram fundamentais para debater segurança, ancestralidade, direitos e infraestrutura com referências de todo o país, preparando o chão para o que ainda iríamos vivenciar no Cariri.
O ciclo online teve inscrições das cinco regiões do Brasil e resultou em um cordel “Cordelgrafia Criptogingada”.
Todo o evento contou com acessibilidade em libras (online e presencial), garantindo o engajamento da comunidade surda do Cariri.
Saí da Criptoginga com a certeza de que proteger nossos dados, nossas comunicações e nossas comunidades não depende somente de dominar ferramentas digitais. Depende também de fortalecer vínculos, compartilhar saberes e reconhecer que a segurança, assim como a cultura, é algo que se constrói coletivamente. No Carrapato, entre conversas, aprendizados e celebrações, ficou a lição de que talvez a melhor forma de falar sobre tecnologia seja exatamente essa: fazendo dela um espaço de encontro, de aprendizado, de pertencimento e de cuidado. Vida longa à Criptoginga!
Comitê de trabalho da Criptoginga contou com lideranças da comunidade
Festa e cultura popular fizeram parte da metodologia da Criptoginga
Rodas sobre cuidados digitais contaram com especialistas
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Alimentos preparados na comunidade Carrapato em meio as festividades da colheita
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