Realizado em São Paulo, encontro completou 10 anos de trajetória, sendo referência para ativistas de todo o país
Para movimentos sociais, ativistas, defensores/as, lideranças, comunicadores e comunidades em luta, estar seguro na internet é parte essencial das estratégias de proteção coletiva. As disputas que atravessam os territórios físicos também acontecem nos ambientes digitais, por isso é urgente debater privacidade, segurança digital e autonomia tecnológica. Foi nesse contexto que a Escola de Ativismo esteve presente, neste ano, em mais uma edição da CryptoRave, que completou 10 anos de trajetória.
Com temas voltados para tecnologia, democracia e crise climática, a edição destacou privacidade e proteção de dados, regulação da internet, tecnologia e desigualdades e crise climática e impacto ambiental digital. Mais uma vez, a programação reafirmou sua importância como um dos principais espaços de formação, debate e articulação sobre segurança digital, privacidade, liberdade na rede e soberania tecnológica na América Latina.
Criada em 2014, a CryptoRave surgiu em um contexto marcado pelas denúncias globais que expuseram mecanismos de vigilância promovidos por governos e corporações. Desde então, o evento se consolidou como um esforço coletivo voltado à democratização do conhecimento sobre criptografia, anonimato, software livre, privacidade e segurança digital.
Realizada anualmente na cidade de São Paulo, a CryptoRave promove atividades gratuitas, reunindo milhares de participantes em torno de oficinas, palestras, debates, rodas de conversa, intervenções artísticas e trocas de experiências.
Relação entre ativismo e tecnologia
A Escola de Ativismo acompanha essa trajetória desde o início com o objetivo de contribuir para fortalecer debates, formações e práticas relacionadas ao cuidado, à proteção e à segurança de ativistas, defensores de direitos humanos e movimentos sociais.
Nirvana Lima, pesquisadora e educadora popular em cuidados digitais na Escola de Ativismo, afirma que a CryptoRave é a principal criptofesta do Brasil e da América Latina em termos de público, diversidade temática e abrangência internacional.
“Ao meu ver a CryptoRave representa uma aposta na democratização do conhecimento como um recurso para construção do sentimento de soberania digital nacional e preservação de princípios como segurança digital, privacidade e criptografia na rede, frequentemente atacados pelo vigilantismo das Big Techs”, afirmou .
Com uma década de história, é impossível não olhar retrospectivamente para a história do evento, suas transformações e os caminhos construídos. Didi, colaborador da Escola de Ativismo em temas de tecnologia e segurança digital, relembra que houve uma grande mudança no cenário mundial da tecnologia, da vigilância e da privacidade. O cenário de 10 anos atrás é diferente do cenário de 2026. “A Cryptorave iniciou um diálogo com a sociedade civil sobre as questões da tecnologia, vigilância, segurança e privacidade. Lá em 2014, a tecnologia não fazia parte do dia a dia das pessoas como faz hoje. Os próprios smartphones não eram presenças imperativas no cotidiano das pessoas. E sim, de lá pra cá, o cenário mudou muito”, disse.
Didi lembra que há alguns anos algumas mesas do evento traziam a tecnologia apenas como algo acessório às pautas da sociedade civil e dos movimentos e, em outros momentos, eram as pautas da sociedade civil e dos movimentos que se tornavam acessórias às questões da tecnologia. Com as mudanças na forma dos movimentos utilizarem as tecnologias, a programação foi atualizada.
“Nesta 10ª edição, nos parece que a Cryptorave encontrou uma maturidade, fruto de sua própria história, mas também de um novo contexto econômico, político e social. Agora a tecnologia não pode ser vista separada da sociedade civil, dos coletivos e movimentos sociais, nem esses se veem separados da tecnologia. Um bom exemplo é que não há mais espaço para mesas genéricas com um tema e o complemento ‘e a tecnologia’, e sim palestras como ‘Feminismo popular na construção da soberania tecnológica’, apresentada pela Marcha Mundial das Mulheres (MMM), que efetivamente mostra o caminho que este movimento vem trilhando para a construção de sua soberania”, afirmou.
Ao longo de sua trajetória, a CryptoRave tornou-se um espaço de encontro entre ativistas, movimentos sociais, pesquisadores, jornalistas, desenvolvedores, artistas, educadores populares e pessoas interessadas em construir formas mais seguras, livres e coletivas de existir no ambiente digital. É que discutir segurança digital deixou de ser um tema restrito a especialistas e passou a ser assunto fundamental para a proteção coletiva dentro das comunidades e dentro das lutas sociais. Que venham as próximas edições.
Coletivo independente constituído em 2011 com a missão de fortalecer grupos ativistas por meio de processos de aprendizagem em estratégias e técnicas de ações não-violentas e criativas, campanhas, comunicação, mobilização e segurança e proteção integral, voltadas para a defesa da democracia e dos direitos humanos.
Material de aprendizagem, reflexões, iniciativas, resistências. Um conteúdo exclusivo e analítico sobre o cenário, os desafios e as ferramentas para seguir na luta.