Em sua quinta edição, revista Tuíra de ativismos traz um número especial de educação
Esse é um número especial para nós – e esperamos que assim o seja para você que está nos lendo. Essa é nossa edição especial sobre Educação. E educar é a razão de existir da Escola de Ativismo. Aqui, contamos com vozes de diferentes lugares do Brasil para nos contarem experiências e ideias de educação que pensam outros mundos possíveis que superem a tirania, o autoritarismo e as desigualdades que marcam tanto a realidade brasileira, rumo a uma sociedade do bem viver.
Com Ceane Simões e Walter Kohan, por exemplo, em artigo que traz ecos para além do Brasil, acompanhamos como as meninas de Chiwik, que constroem mundos e, nesse processo de construção de mundos, convidam outros seres de todas as idades a participarem dessa jornada.
Se “o que a vida quer da gente é coragem” como escreveu Guimarães Rosa, as autoras e pesquisadoras Gessiane Ambrosio Nazário e Luciana Barbosa de Melo nos trazem memória e luta no Nordeste e Norte brasileiro que transformam vidas. Gessiane nos apresenta um relato sobre a Educação Escolar Quilombola que é fruto de uma luta ancestral por dignidade e cidadania, e o direito à memória. Ainda no campo da memória e incluindo formação política, Luciana nos conta do Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra, uma expressão potente da pedagogia do Movimento Sem Terra, o MST. O texto nos ajuda a refletir “sobre trajetórias de pessoas (Sem Terra), sobre o lugar (Amazônia/Sudeste do Pará), sobre um acontecimento histórico (Massacre de Eldorado dos Carajás), sobre um sujeito coletivo (MST) e, sobretudo, sobre a juventude (filhas e filhos de trabalhadoras e trabalhadores rurais desterritorializados, migrantes, herdeiros de um passado de expropriação e esperança)”.
Vários autores e autoras de Mossoró, no Rio Grande do Norte, nos apresentam a educação popular feminista posta em prática no semiárido nordestino através do Cursinho Popular Nísia Floresta, educação feminista e libertária que ultrapassa as paredes da sala de aula e transforma vidas, ao capacitar mulheres historicamente marginalizadas a se tornarem novas lideranças nas universidades, comunidades, movimentos sociais e espaços de trabalho.
No artigo “Atalhos: rotas de fuga de nossa condição trágica…”, o trabalho mais longo desta edição, o professor Romualdo Dias, nos apresenta algumas reflexões sobre desafios observados nas organizações dos movimentos sociais envolvidos com os processos de transformação social. E nos questiona: “Quantos experimentaram explicar o mundo a partir das verdades construídas na precariedade do humano e não mais nas garantias de alguma forma de revelação?” E certamente, tudo isso nos interessa sobremaneira, e, enquanto editávamos essa edição, saboreamos este artigo com interesse muito vivo, por tocar em temas que vivemos na Escola de Ativismo.
No transcorrer do artigo, o professor Romualdo pondera sobre o que ele chama de “três problemas para os modos de fazer política hoje”. A saber: o carisma; a publicidade, que é a propaganda; e a mística. Sobre esse ponto, diz:
“Levar a mística para o campo da politica é propor que cada indivíduo se equilibre em um fio de navalha. Quem não tiver a habilidade de equilibrista vai se cortar. A entrada da mística na política se confunde com formas de apelo emocional para garantir a adesão, a mobilização. Como a tarefa de mobilizar as pessoas é muito difícil e exigente, fazer o uso de elementos religiosos ou emocionais é expressão de preguiça, é optar pelo menor esforço. Apelar para a mística é escolher o atalho ao invés de fazer o trabalho árduo do convencimento e da adesão pelas práticas, e não pelo discurso bonito”.
Gentilmente, e de forma muito refletida e respeitosa, discordamos de sua posição, ainda que aqui a divulgamos no espírito da pluralidade de ideias e que na diferença e desacordo também se cresce. Nós, da Escola de Ativismo, assim como certamente alguns autores-ativistas dessa edição, usamos do expediente da mística em nossos trabalhos de campo e, ainda mais, na forma de existir nos territórios. Isso, como obviamente o professor Romualdo sabe, é prática de pessoas próximas da Teologia da Libertação até o MST, passando por diversos grupos, sindicatos, coletivos, militantes e ativistas Brasil afora, com o intuito de colocar pessoas reunidas por motivações várias e irmanadas em espírito de transformação social, a partilharem de valores e propósitos comuns de maneira mais orgânica e intensa. Não vemos na experiência da mística um atalho, mas sim um componente importantíssimo em nossas atividades que confere mais coesão ao que propomos pontualmente e que, através de elementos simbólicos mediados pela poesia, música e outras linguagens, nos faz imaginar um mundo novo. A mística é como o motor da luta, como sugere Ademar Bogo no livro O vigor da mística (2005).
No nosso tradicional mosaico, trazemos vozes da Amazônia e do Pantanal que nos contam de suas lutas e ativismos em tempo real. Direto do Pantanal, apresentamos Lindalva Domingas, ativista no Comitê Popular das Águas e do Clima do rio Jauquara e importante liderança no território quilombola do Vão Grande. Ela fala das festas e tradições populares de seu território, assim como das ameaças presentes num dos biomas mais atacados de nosso país. Direto do Oeste do Pará, mais especificamente de Santarém,João Paulo Serra, coordenador da Escola de Comunicação Popular do Oeste do Pará, nos conta das lutas e desafios de um projeto de comunicação popular que em tudo dialoga com a educação popular.
Por último, mas não menos importante, apresentamos como uma espécie de manifesto de Michelle Laura da Silva, sua “mukanda para todes nós”, carta que originalmente está presente em sua tese de mestrado “Educação e Afrofuturismo: tensionando tempos e narrativas no Caderno do Estudante da disciplina de História da rede estadual paulista a partir das discussões sobre memória, imagem e raça”. Compartilhamos das inquietações da autora, que escreveu essa carta
“para firmar no tempo e espaço a nossa ausência do futuro em que nos fará presente e a nossa presença no passado. Escrevo para que não nos esqueçamos que um dia tivemos que escrever sobre as atrocidades cometidas ao nosso povo, mas também que tivemos a oportunidade de escrever a revolta que se legitimará tão prontamente e que somos nós os responsáveis pelas nossas histórias”.
Esta é uma edição de lutas e saberes vários, que foi construída com as sugestões de diversos membros da Escola de Ativismo e expressa a diversidade e pujança de indivíduos Brasil afora com os quais partilhamos ideias e vivências. E marca também uma nova fase da revista Tuíra, que chega ao seu quinto número cheio de esperança e vontade de ver um mundo aonde caibam vários mundos, menos desigual e que saiba conviver e respeitar todos os povos e suas biodiversidades.
Nós, da Escola de Ativismo, a “escola na sombra de uma árvore”, como bem definiu Alessandra Munduruku, desejamos uma boa leitura a todos, todas e todes. Bora pra luta!
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