Educador e filósofo Romualdo Dias reflete sobre desafios observados nas organizações dos movimentos sociais envolvidos com os processos de transformação
La iglesia dice: “El cuerpo es una culpa”
La ciencia dice: “El cuerpo es una máquina”
La publicidad dice: “El cuerpo es un negocio”
Y el cuerpo dice: “Yo soy una fiesta”.
(Eduardo Galeano)
“O amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes de nossa vida. Devem governá-la.”
(Wilhelm Reich)
Este texto desenvolve reflexões sobre alguns desafios observados nas organizações dos movimentos sociais envolvidos com os processos de transformação.. Aí encontramos as lutas pela defesa dos direitos universais. Aí estão os esforços de invenção de outro modelo de economia. Há também um trabalho articulado com outro modo de organização de nossa convivência em coletivos do nível local, regional, nacional e mundial. Há desafios diretamente relacionados com a dinâmica das trocas econômicas e com os acordos políticos. Há desafios dentro das experiências de associativismo e de cooperativismo. E mais desafios nas práticas culturais.
Quem age, quem assume tarefas, nos processos de mudança social, somos nós. Se a nossa sociedade tem problemas é porque eles surgiram das ações humanas. A mudança necessária para superar estes problemas também será alcançada com a ação de todos nós organizados em coletivos de trabalhos efetivos. Aqui identificamos um grande desafio: precisamos de muita gente para assumir tarefas neste processo inventivo de soluções. A eficácia da ação depende da participação de muitos, a quantidade faz a diferença nos resultados! Precisamos de gente para assumir a luta de mudança social, precisamos não só de muita gente, mas também de gente nova.
Daí emerge outra pergunta: como trazer mais gente e como trazer os jovens para participar nos processos organizativos para a construção de uma nova sociedade? A quantidade implica a qualidade. Esta busca para aumentar a participação também coloca a tarefa da formação, seja aquela relacionada com as estruturas dos grupos, com a construção dos coletivos, seja aquela dirigida para aprimorar a condição individual de todos os envolvidos. Precisamos de muita gente em melhores condições de participação. O entendimento sobre os desafios apresentados a todos nós pelo jogo político do mundo atual se aprimora com a formação. Precisamos de gente com boas condições emocionais, com boa saúde, com maiores habilidades para agir com eficácia.
A formação deve considerar a relação da política com a ciência dentro dos referenciais da modernidade, isto é, dentro dos marcos de desenvolvimento da ciência e da filosofia que emergiram com o surgimento do capitalismo, no nascimento de uma economia industrial. Compreendemos a modernidade além de uma definição conceitual. Compreendemos que a modernidade é fundamentalmente uma vivência, que envolve a todos nós, enquanto grupos e enquanto indivíduos. É uma vivência que provoca mudança das relações de troca entre nós, aquilo que é da ordem de funcionamento da economia. A modernidade, surgida na revolução industrial, tem relações com a dinâmica da produção da riqueza. A indústria passa a ser a locomotiva da economia.
A modernidade tem desdobramentos sobre a vida política de uma sociedade pelo fato de promover uma profunda mudança no modo de conceber a autoridade e no modo de negociar acordos de mando e obediência, que possam organizar a convivência com base em regras acatadas por todos. A partir da modernidade um rei não consegue obediência explicando que a fonte de seu poder é Deus. Começamos a entender o quanto as práticas de poder têm relação direta com a nossa vontade.
A modernidade tem os aspectos científicos e filosóficos quando nos impulsiona para fazer outra leitura de mundo diferente daquela oferecida amplamente na Idade Média em uma cosmovisão religiosa. A explicação de mundo que oferecia conforto chegava até nós por meio da revelação, própria da cultura judaico-cristã. Com a modernidade a revelação não satisfaz amplamente, ela deixa algum desconforto.
Acontecem mudanças em todas as esferas da vida com a emergência da modernidade. Na economia, ocorre outra dinâmica de trocas e de produção da riqueza; na política emerge outras formas de conceber e praticar a autoridade, com outras exigências de garantia quanto ao governo dos povos. A cultura promove o pertencimento e o reconhecimento, dos coletivos e de cada indivíduo, nos marcos da ciência, abrindo horizontes de vida além dos referenciais oferecidos pela religião. Tudo isso nos faz compreender o quanto a modernidade é uma vivência de tragédia.
A modernidade nos joga no embate das forças desconhecidas vindas de uma extrema incerteza no existir. Adquirimos uma consciência mais aguda, mais do que nas fases anteriores da história da sociedade, a respeito de nossa condição de risco. Estamos jogados no mundo, não temos garantias de que os nossos arranjos práticos possam nos conduzir para lugares de certezas. Estamos abalados também no campo dos valores, começamos a ter sérias dificuldades para definir em que acreditar.
Nós abordamos a dimensão trágica da modernidade, como experiência de vida, usando a figura de linguagem de uma grande perda: trata-se da perda do colo da mãe. Outro desdobramento desta forma de linguagem pode ser feito com a expressão “perda da teta” fazendo uma menção para aquele instante primeiro de nossa alimentação, na condição de bebê, que um dia foi a condição de todos. Com a modernidade fica mais forte a consciência de que não adianta buscar colo ou teta na Igreja, no Partido, no Estado, no Sindicato, na Escola, na Ciência, na Filosofia, enfim, em qualquer instituição social. Consolida em nós a consciência de que viver é, de fato, muito arriscado.[1]
Mesmo não podendo explicar mais detalhadamente os aspectos filosóficos e políticos enfatizamos esta vivência do elemento trágico como sendo a marca desta época. A partir desta constatação formulamos algumas perguntas: como cada indivíduo elabora para si mesmo esta vivência do trágico em sua existência? E mais ainda: quantos de nós nos permitimos passar por esta experiência? Quantos experimentaram o forte tombo de cair do colo da mãe? Quantos experimentaram explicar o mundo a partir das verdades construídas na precariedade do humano e não mais nas garantias de alguma forma de revelação? Quantos de nós estamos dispostos a nos lançar em um trabalho cansativo de fazer e refazer, em todos os instantes os acordos, os tratos, as normas, para podermos viver juntos, “sendo iguais e diferentes”? Quantos de nós estamos dispostos a aceitar e a usar a ciência, mesmo sabendo que ela não nos garante o porto seguro? Nós não podemos abandonar o uso da razão e da ciência na ilusão de que vamos encontrar em algum lugar as garantias de certezas.
Estando preocupados com estas perguntas elaboramos este texto propondo linhas de orientações, em caráter de sugestão, para nós avaliarmos e inventarmos os nossos programas de formação política em meio aos processos sociais.
O sujeito diante do mundo
Nós nascemos, somos jogados no mundo, e, aos poucos, vamos assumindo uma posição de pertencimento e de reconhecimento, vamos ocupando um lugar na luta pela sobrevivência. Nós identificamos em cada indivíduo três necessidades fundamentais quando ele se percebe estando diante do mundo: 1) compreender o mundo, cada um sente necessidade de fabricar as explicações para tudo o que lhe acontece ao seu redor; 2) agir, o sujeito assume uma posição no mundo por aquilo que ele faz. As coisas só mudam com o trabalho, isto é, a ação de cada um na história vai construindo outro mundo, outra economia, outra política, outra ciência, e dentro de tudo isso, outros valores. Nada muda por obra e graça de um espírito que baixa do céu; 3) acreditar, pois cada indivíduo descobre que existe um movimento intenso entre aquilo que ele entende e aquilo que ele faz. A ação no mundo está orientada e sustentada por algo em que se acredita. O acreditar dá a sustentação para o intenso movimento produzido nesta relação em que um sujeito faz o mundo, e ao mesmo tempo, é feito por ele.
O esforço pelo conhecimento está situado no primeiro nível. Cada indivíduo se esforça o tempo todo para tentar compreender cada detalhe do que lhe acontece no dia a dia. Aqui nós temos uma pergunta: quais são os limites e as possibilidades de nosso pensamento? No segundo nível está a ação, que precisa ser organizada, orientada. Aqui fazemos a pergunta: o que podemos fazer? E no terceiro nível está aquilo em que acreditamos, é o conjunto de valores. Aqui fazemos a pergunta: o que podemos esperar?[2]
A materialidade do viver: o trabalho.
Cada indivíduo, estando no mundo, tem um embate sem descanso e sem encontrar algum porto seguro, com estas três dimensões: entendimento, ação e valor. A busca pelo entendimento está articulada com a exigência do trabalho e com o acreditar. Neste ponto de nossa argumentação nós nos delimitamos na esfera do agir. Assumimos a ação como sendo a expressão mais material de nossa existência. Pois é com o trabalho de cada um que nós criamos as coisas, nós inventamos mundos, nós sustentamos a nossa existência. A esfera do trabalho é um determinante de nossa posição no mundo.
Na esfera o agir (o trabalho) estão situadas as três categorias modais da existência, que são os três modos que determinam a nossa condição de estar na vida: 1) a necessidade; 2) a realidade; 3) a possibilidade. Na esfera da necessidade estão situadas as condições de sustentação material do viver, é onde produzimos os alimentos, os remédios, a moradia, o vestuário, a mobilidade pelo território, etc. Na esfera da necessidade nós cuidamos do vínculo com o nosso corpo, pois não somos anjos e nem somos máquinas. Precisamos nos alimentar, precisamos cuidar da saúde, precisamos descansar, fazer exercícios físicos, etc. Este é o campo da economia, é o lugar da realização das trocas, das práticas de complementariedade, etc. Como ninguém sobrevive sozinho, como cada pessoa precisa do outro para se completar, nós fazemos trocas o tempo todo. As relações de troca são a base de todo e qualquer mercado.
Na esfera da realidade estão situadas as regras, os acordos, os pactos para tornar a nossa convivência possível. Na esfera da realidade nós cuidamos dos vínculos de cada um com o outro, é o território das relações de cooperação. Este é o campo da política.
Na esfera da possibilidade nós cuidamos do nosso vínculo com o mundo, é onde fazemos acontecer o nosso plano de ação para a mudança. Esta é a esfera da multiplicação de projetos, é a esfera da invenção de utopias, é o território de produção dos sonhos de outro mundo possível.
A eficácia de nossa ação, tendo em vista a transformação do mundo, está profundamente articulada com a nossa habilidade para o manejo dentro da esfera da necessidade, da realidade e da possibilidade. Tudo isso possui uma dimensão de materialidade no sentido de que não é uma ideia, não é alguma coisa acomodada na capacidade de fazer bonitos discursos. E, acrescenta a estas habilidades, o manejo das tensões próprias da construção e da sustentação dos vínculos, seja o vínculo de cada um com o seu próprio corpo, seja o vínculo de cada um com o outro, seja o vínculo de cada um com o mundo, na participação de um projeto de mudança.
A experiência da modernidade, na perspectiva de toda a incerteza do viver e de que estar na vida é estar em permanente perigo, ela impõe novos desafios aos esforços pela busca de maior entendimento do mundo. A partir da modernidade alteramos os modos como organizamos coletivamente a nossa ação. Com a modernidade alteramos também o uso e a invenção de nossos valores. A modernidade nos faz sair daquele lugar de dependência de alguma forma de tutela de autoridade, nos faz sair dos lugares cômodos oferecidos por alguma modalidade de revelação. É por isso que estas categorias modais da existência, quais sejam, a realidade, a necessidade e a possibilidade, compõem a condição material do viver de todos nós.
Esta abordagem da materialidade do nosso viver pode nos ajudar a ampliar a consciência da dimensão de tragédia própria de toda existência. A tragédia existe, ela é real, não tem como evitar. Enfim, estar na vida com maior consciência desta tragédia tem as suas dores e as suas alegrias!
Rotas de fuga da tragédia do viver
Nem todo mundo aguenta lidar com a dor sentida nesta experiência de tragédia na vida. A negação da tragédia é resolvida, muitas vezes, com a busca de rotas de fuga. A dor do viver pode encontrar na cultura alguns dispositivos de fuga como uma espécie de alívio. Estes dispositivos não nos retiram a tragédia, mas oferecem alguns recursos a evitar o seu enfrentamento. A cultura também oferece um acervo cheios de modos feitos de ilusão, como se a vida sem dor fosse possível.
Na categoria da necessidade, que é um lugar em que cada indivíduo cuida e sustenta de seu vínculo com o corpo, o recurso para fugir da vivência do trágico aí, é o milagre. Isto fica evidente nos momentos em que adoecemos. O que temos de mais trágico é a fragilidade do corpo, em nosso cotidiano, e no extremo, é a certeza de nossa morte. É muito comum, em momentos de extrema fragilidade do corpo, as pessoas apelarem para os recursos religiosos. A cultura nos oferece a figura do santo, uma entidade responsável para fazer acontecer o milagre. De acordo com a mentalidade da modernidade, a fragilidade do nosso corpo só pode ser resolvida com o uso da ciência e com a prática dos cuidados relacionados com a alimentação, o descanso, os exercícios físicos, etc. Todos os esforços para cuidar do corpo dão muito trabalho, mas é o único jeito possível de resolver. O fato de poder apelar para algum milagre não nos retira a exigência do trabalho e do cuidado.
Na categoria da realidade, que é um lugar em que cada indivíduo cuida de seu vínculo com o outro, o recurso para fugir da vivência do trágico aí, é a mágica, que consiste no apelo para algum truque. O que temos de mais trágico é a opacidade do outro, a fragilidade dos acordos e normas, a incerteza inerente a todo o fazer coletivo, a impossibilidade de controle total dos fluxos de trocas. A cultura oferece a figura do mágico, profissional responsável por esta arte. Na perspectiva da modernidade nenhum truque resolve o problema da incerteza, dos conflitos, da opacidade, sempre presentes em qualquer modo de nos relacionar com o outro. Como este é o campo da política, existe um conjunto de conhecimentos sobre a dinâmica do funcionamento da vida em sociedade, que pode nos ajudar em cada situação. A melhor maneira de organizar a nossa vida em sociedade pode ser alcançada com o uso de nossa capacidade racional, com o uso do pensamento. Em lugar cheio de problemas podemos realizar os estudos sobre a situação para nos orientar nas suas soluções.
Na categoria da possibilidade, que é um lugar em que cada indivíduo cuida e sustenta o seu vínculo com o mundo, o recurso para fugir da vivência do trágico, é a promessa. O que temos de mais trágico é a não garantia de um futuro de paz e descanso, é o risco inerente em cada projeto e sonho. A cultura oferece a figura do profeta, entidade responsável por anunciar as promessas de um futuro melhor para todos. Na perspectiva da modernidade, os problemas relacionados com toda a incerteza de nosso futuro, não é resolvido com a promessa, e sim com o desenvolvimento de nossa habilidade de zelar pelo futuro explorando ao máximo tudo o que podemos fazer no tempo presente. Quem empurra a vida com a barriga desperdiça o seu tempo presente e prejudica a invenção de seu futuro.
O santo e o milagre são componentes da religião e devem ficar aí, neste lugar próprio deles. Levar o santo e o milagre, para a política ou para a ciência, só pode nos prejudicar, porque não resolve o nosso problema, e pior, nos distrai com uma ilusão. Nem a política e nem a ciência combinam com a religião.
O mágico e a mágica são componentes da arte e devem ficar aí, neste lugar próprio deles. Levar o mágico e a mágica, para a política e para a ciência, só pode nos prejudicar, porque não resolve o nosso problema diante dos conflitos inevitáveis neste terreno. Não tem como resolvermos os problemas da incerteza, seja na política, seja na ciência, com a varinha mágica, com o pó de pirlimpimpim, com abracadabra. Só resolveremos o problema da incerteza com muito esforço, com o trabalho organizado pela nossa capacidade de fazer o uso correto de nossa razão. Nem a política e nem a ciência combinam com a mágica.
Até aqui quis apresentar o quadro teórico, como sendo um referencial de entendimento para provocar outras reflexões em temas que estão relacionados com os desafios presentes na organização dos movimentos sociais, e também nos processos educacionais, como é o caso da formação política dos participantes.
As novas formas de colonização…
Toda a vida social está apoiada na economia, esta esfera que oferece as condições materiais de sustentação da vida. No momento atual experimentamos uma crise profunda no modo de organizar a produção da riqueza, a sua administração, a sua distribuição. Este modelo é nomeado como economia neoliberal. Mesmo havendo produção de riqueza no uso da terra e nas indústrias, a locomotiva da economia é a aplicação financeira, é o dinheiro produzindo dinheiro. Nesta prática de economia há muita produção de bens imateriais e pouca produção de bens materiais. Este modelo de economia está intensamente empenhado em produzir também um estilo de vida. Há também a produção de uma estética da existência, articulada com agressivos trabalhos da publicidade na divulgação dos estilos e das modas de cada momento.
Quando o capitalismo industrial nasceu, como um fenômeno europeu, ele pode contar com o apoio das empresas de expansão do comércio através da colonização dos territórios das Américas, da África e da Ásia. Hoje, com o capitalismo neoliberal, não existem novos territórios a serem colonizados, e ainda não é possível ir morar na lua ou em outro planeta. Portanto, novas colonizações começam a acontecer em territórios invisíveis. Vamos ver uma nova modalidade de colonização em cada categoria modal da existência.
Na categoria da necessidade acontece a colonização do território do vínculo de cada indivíduo com o seu corpo. Esta nova modalidade de colonização produz o sujeito doente, enfermo, debilitado em sua condição física, muito cansado. Quanto mais o sujeito adoece menor condição ele tem para participar da luta pela transformação da sociedade.
Na categoria da realidade acontece a colonização do território do vínculo de cada indivíduo com o seu semelhante, com o outro. Esta nova modalidade de colonização produz a fragilidade das formas de cooperação, produz o sujeito em solidão, banaliza as formas de convivência entre todos, envenena as formas de relacionamento.
Na categoria da possibilidade acontece a colonização do território do vínculo de cada indivíduo com o mundo. Esta nova modalidade de colonização produz o sujeito tonto, disperso, sem horizontes de vida. Esta colonização envenena a condição de sonhar, destrói a habilidade de elaborar projetos para construir outros mundos possíveis.
Estas novas modalidades de colonização, operadas em territórios invisíveis, contribuem para garantir a eficácia da ideologia neoliberal. Para as elites do capital financeiro continuarem a aplicar seus dispositivos de exploração e de dominação, elas dependem de um funcionamento eficaz dos três dispositivos de colonização. Um sujeito doente, solitário e sem sonho não consegue resistir ao sofrimento imposto sobre ele neste tempo atual, no lugar em que vive. E não consegue participar das lutas sociais.
A crise do capitalismo neoliberal acontece junto com a produção de uma barbárie social. Cresce a violência por todos os lados, a vida na cidade tem sido cada vez mais hostil para a saúde. A ideologia aumenta o seu poder de manipulação sobre as pessoas com a ação eficaz da publicidade, sobretudo pela multiplicação das redes sociais. Soma-se a isso a produção de uma boataria generalizada. Quando a verdade se confunde com a mentira fica mais difícil pensar e debater projetos de país.
Neste contexto social, com estas características aqui descritas, não podemos continuar as nossas práticas de estudo e de formação na ilusão de que é possível disputar espaço com esta ideologia tão poderosa. Há momentos, em encontros de movimentos sociais, que temos a nítida impressão de que o indivíduo está aí apenas de corpo presente, a cabeça está em outro lugar. Muitas vezes um educador, um formador, nem consegue trazer o indivíduo para este momento e este lugar de formação com uma presença de corpo inteiro. E não é possível trazer o sujeito fazendo uso da força. Não adianta de nada decretar que agora vamos estudar um texto e vamos entender, vamos discutir e vamos organizar o nosso agir. As coisas não acontecem por comandos, por algum tipo de decreto. Não conseguimos realizar as atividades fazendo o uso da consigna “tem que…”, pois nada “tem que”, o que acontece de real é o fluxo das trocas, é o fluxo de afetos e de perceptos.
Nós só podemos disputar com a ideologia propondo outro modo de estudar, outro modo de pensar, outro modo de dialogar. Este outro modo se faz com a ação em grupo, com experiências coletivas, com vivências. Portanto, temos aqui dois componentes de uma vivência: ter com quem contar e ter com que se importar, é fazer com o outro, e é a prática organizada e orientada.
Sugiro que qualquer vivência de estudo organizada seja capaz de considerar o corpo e as práticas de cada um. Precisamos trazer o corpo porque ele é a condição de um encontro com o outro estando por inteiro, em uma relação direta de presença, ao vivo. Isto não pode ser feito pelas redes sociais e nem pela publicidade. É no corpo a corpo que podemos fazer a disputa com a ideologia com maior eficácia. Esta insistência com o corpo se deve ao fato de que toda e qualquer experiência de estudo, de fazer ciência, se não roçar o sofrimento humano, não coopera para a busca da verdade. Todo conhecimento autêntico tem as marcas do sofrer humano.
Precisamos trazer as práticas de cada um como sendo o melhor ponto de partida para qualquer esforço de estudo, de debate, de entendimento. Os vários aspectos de uma experiência do fazer, as várias dimensões das práticas de cada um, nos permitem identificar os caminhos de aprimoramento da leitura de mundo. Os temas de estudo nascem das práticas, se articulam com o fazer.
Se trouxermos o corpo e as práticas vamos fazer programas de formação mais eficazes, com melhores condições de desenvolvimento das habilidades necessárias para a luta de transformação social. Uma formação que compõe com o corpo e com as práticas evita de colocar o sujeito sentado em uma cadeira, permanecendo em uma posição passiva, de quem só escuta, de quem só aprende. Precisamos descobrir um modo de estudar implicando o corpo, e para isso a categoria teórica que mais nos ajuda é o “movimento”.
Então, podemos nos perguntar: como realizar um modo de estudar, em que cada indivíduo possa experimentar o movimento do seu pensamento? Como ler um livro “em movimento”? Como dialogar com o outro “em movimento”? Como sair da condição passiva, de quem apenas recebe e passar a experimentar o movimento de mão dupla, a condição de ter algo a dar e ter algo a receber? Também no ato de estudar existe uma economia da troca, que é esta dinâmica dos corpos em movimento, é a vivência de dar e receber ao mesmo tempo. A primeira condição para nós desenvolvermos práticas de cooperação com maior eficácia está nesta base, que é o permanente reconhecimento de nossa precariedade. Vamos ao encontro do outro para fazer algo junto, não é porque é mais democrático e nem é por obediência a um comando político, e sim porque não temos escolhas. Somos seres incompletos, e por isso precisamos do outro.
Uma formação que considera as práticas evita o trabalho de doutrinação, evita o estudo que só trabalha com a cabeça, que só usa a razão. É claro que precisamos da razão para estudar, mas um uso real e eficaz da razão, e não apenas ficar ouvindo alguém dando palestras, alguém ensinando para alguém que apenas escuta, com o corpo na passiva. O estudo feito com a materialidade das práticas nos faz estar em contato, o tempo todo, com a realidade viva, com as suas contradições, bem como com as nossas fragilidades. Um estudo feito apoiado nas práticas aproveita tanto os acertos quanto os erros. Os nossos erros deixam de ser motivos de vergonha e passam a ser uma parte importante de nossas aprendizagens.
Três problemas para os modos de fazer política hoje
Toda esta reflexão desenvolvida até aqui foi feita com a intenção de oferecer um referencial teórico, um pano de fundo, para abordar três problemas que observamos em nossos modos de fazer política ou de estudar.
O primeiro problema está relacionado com o tema do carisma. Este termo é próprio do campo religioso, tem uma relação com a santidade. Neste tempo em que as práticas políticas se deixaram contaminar pelo espetáculo, o carisma entra neste espaço e legitima algumas formas perversas e estranhas de exercício do poder. Em diversos momentos, quando conversamos sobre a dificuldade de encontrarmos novas lideranças, nós relacionamos a força de uma figura política com o fato de ter ou não ter carisma. No campo da política, não se forma uma liderança carismática rapidamente, demora muito tempo. Usar um carisma para legitimar uma autoridade faz com que a dinâmica do poder fique alheia ao trabalho de nossa razão. O carisma favorece o fortalecimento de práticas de tutela na relação com a autoridade. Nós devemos constituir uma figura de autoridade pelo uso da razão, e não por apelos emocionais ou espirituais. Se na atualidade, no nosso país e em outros, estamos precisando apelar para a força do carisma de uma liderança, é porque estamos sem projeto de nação e sem projeto de mundo. Pior ainda, é que estamos sem condições de enfrentar a desumanização crescente associada com uma ampla barbárie social.
A introdução do carisma na prática política também contamina a representação enquanto um dos pilares da democracia. Toda representação deve ser desenvolvida fazendo o uso da razão. Uma autoridade representa uma população na defesa dos direitos e não dos privilégios, neste momento, precisamos de uma boa capacidade de raciocinar para distinguir entre uma coisa e outra. A presença do carisma em uma dinâmica de representação coopera para que a autoridade se desloque do lugar da luta pelos direitos e passe a se vincular apenas com a disputa dos interesses. Nestes tempos marcados por tanta agitação, a reinvenção da autoridade é uma exigência, e ela não pode ser feita por meio do apelo de elementos advindos do campo religioso, deverá ser feita pelo uso de nossa razão, pelo manejo de uma ciência adequada ao tema.
O segundo problema está relacionado com o tema da mística. Este termo é próprio do campo religioso, tem uma relação com a espiritualidade. Levar a mística para o campo da politica é propor que cada indivíduo se equilibre em um fio de navalha. Quem não tiver a habilidade de equilibrista vai se cortar. A entrada da mística na política se confunde com formas de apelo emocional para garantir a adesão, a mobilização. Como a tarefa de mobilizar as pessoas é muito difícil e exigente, fazer o uso de elementos religiosos ou emocionais é expressão de preguiça, é optar pelo menor esforço. Apelar para a mística é escolher o atalho ao invés de fazer o trabalho árduo do convencimento e da adesão pelas práticas, e não pelo discurso bonito. A prática da mística pode contaminar a política de ilusões, pode vender certezas e seguranças que negam o jogo violento de poder. O uso da mística pode favorecer o abandono do uso da razão, pode enfraquecer a condição do pensamento.
O pior que uma prática de mística pode fazer no campo da política é vender projetos de certeza, propostas de garantia, modos de ocultar o fato de que toda ação política é feita de muito conflito, e que as soluções para os conflitos são cheias de riscos. O maior desafio para o trabalho racional é ajudar as pessoas a entender que qualquer esforço de transformação social é altamente arriscado, não tem como apelar para algum contrato de seguro, é aventura. A mística confere um disfarçado ar de santidade como se nós pudéssemos nos fazer imunes de nossas fragilidades. A ação política é obra de seres humanos frágeis, cheios de precariedades. A mística pode facilitar o caminho da idealização das lideranças e de qualquer participante em uma ação coletiva. Nosso agir, nosso pensamento, enfim, tudo o que fazemos está marcado pela nossa condição humana. Isto é, somos frágeis e a nossa fragilidade se expressa em tudo o que fazemos.
O terceiro problema está relacionado com o tema da publicidade, que é a propaganda, é o uso abusivo do marketing. E este termo é próprio das práticas das empresas em seus esforços de comércio, de busca de aumento dos lucros através do aumento da venda de seus produtos. Nós percebemos com mais evidência o uso do marketing na política no período das campanhas eleitorais. Este dispositivo do marketing envenena o voto que é um componente da democracia. Um cidadão não deveria escolher o seu representante para trabalhar na defesa dos seus direitos a partir da propaganda mais convincente, ou da propaganda mais cara. Em um uso da razão na política nós devemos eleger as nossas autoridades a partir da discussão dos projetos de mundo, de humanidade e de país.
O marketing está muito presente nas escolas que querem divulgar e vender os seus cursos, e está também forte em institutos que se dizem vinculados aos movimentos sociais, também preocupados em vender melhor os seus produtos. Este apelo para a eficácia do marketing é uma negação do uso da razão. Vemos a cada dia o quanto a prática do marketing se faz de forma agressiva, por excesso de repetição, por bombardeio de propagandas. Este é um perigoso paradoxo, pois uma instituição que deveria estar vinculada ao trabalho da ciência, está fortalecendo as práticas de negação do uso da razão.
Quando abordamos a dimensão da necessidade, enquanto uma categoria modal da existência, fizemos com a intenção de acentuar esta dimensão de nossa precariedade, e de relembrar a nossa fragilidade. Ninguém pode se fazer forte apelando para o uso de elementos da religião, como se a força pudesse ser dada a nós por um milagre. Nem se fazer forte pelo uso de algum truque, pela prática da mágica. Qualquer corpo desenvolve a sua força por meio de muito exercício físico, e isto exige muito suor, produz muito cansaço, já que não somos anjos e nem somos robôs.
O uso de elementos da religião ou elementos da mágica para a prática política funcionam bem como um atalho, como uma forma de evitar o árduo trabalho do estudo, do pensamento, da busca coletiva de soluções para os problemas que atingem a todos. Fazer política dá muito trabalho, cansa muito, exige esforços de todos os envolvidos. O apelo para recursos da religião ou da mágica em um trabalho tão pesado é uma amostra de trabalho preguiçoso. Não existem recursos que possam nos aliviar de todo o esforço exigido para a sustentação material da vida e para a organização do viver em grupo. Tudo exige muito trabalho, tudo está cheio de risco. E, além do mais, causa muito cansaço!
Qual mundo queremos?
Nós mostramos como o milagre opera no plano da realidade como uma forma de nos iludir diante da necessidade de lidar com a dimensão trágica do viver, de lidar com a nossa finitude. Mostramos como a mágica atravessa o plano da realidade como uma forma de evitar o enfrentamento da opacidade do outro, da opacidade do real. Se nós precisamos apelar para o milagre ou para a mágica, quando fazemos política é porque descuidamos de um elemento próprio da esfera da possibilidade, próprio daquele território onde nós produzimos os nossos sonhos, onde elaboramos as nossas utopias.
É aqui então que entra o desafio da elaboração de um projeto de humanidade, um projeto de uma nação, um projeto de um povo, um projeto de uma cidade. Entrando na esfera da possibilidade, o trabalho da razão na organização da ação política, se faz com a elaboração de projetos de sociedade a partir dos pequenos experimentos que vão se fazendo realidade na medida em que criamos, pouco a pouco, as soluções para os problemas de todos. Não elaboramos projetos de país por meio de doutrinação, e sim por meio de intensas experimentações, situadas no cotidiano do povo.
Não podemos elaborar ou propor algum projeto apenas a partir de um conjunto de ideias, como se pudéssemos copiar dos livros, ou como se pudéssemos copiar das experiências alheias. Nós fazemos e elaboramos os nossos projetos de humanidade, de mundo e de país, a partir dos pequenos fazeres no cotidiano, sem precisar apelar para o espetáculo, sem fazer barulho. Com o uso da razão, com o debate de nossos pensamentos, sempre referindo a nossas práticas, nós podemos e nós devemos fazer a discussão do projeto de país, em todas as suas dimensões: na economia, na política e na cultura.
Alguns referenciais para uma ação inventiva na política…
A organização da ação política e a organização dos programas de formação das lideranças devem ser apoiados no conhecimento e orientados pela razão. Somente com o recurso da ciência é que podemos dar eficácia aos esforços de transformação da sociedade. Explicamos o quanto é muito arriscado, e o quanto não é indicado, levar para a política ou para os processos educacionais, os recursos da religião (o apelo aos milagres), da mágica (o apelo aos truques) ou do marketing (a força da propaganda).
Nós podemos realizar as nossas experiências fazendo uso dos dispositivos da ciência, do conhecimento, dos recursos de organização, do planejamento, da avaliação, etc. Os registros ou relatos de outras experiências são dispositivos eficazes enquanto fonte de inspiração e enquanto energia de animação. Há muitos instrumentos de organização e de planejamento que podem servir de dispositivos. Os dispositivos são estruturas instituídas, elas permanecem com condição de sustentar as energias produzidos ao longo dos movimentos instituintes.
Acrescentamos aos dispositivos o manejo das disponibilidades. Se os dispositivos fazem referência aos instrumentos, a disponibilidade faz referência aos sujeitos da ação quanto ao modo de organizar o tempo e o espaço necessários para as atividades planejadas pelo grupo. O tempo que cada um pode oferecer para a realização das atividades assumidas pelos grupos dos movimentos sociais deve ser organizado coletivamente. As disponibilidades também estão marcadas pela força produzida nas experiências proporcionadas pelos processos instituintes.
Além da disponibilidade e dos dispositivos proponho pensar na disposição. Sempre temos dedicado uma atenção maior para organizar os dispositivos e a disponibilidade. Temos cuidado pouco da disposição. A disposição se refere a uma condição do sujeito e de uma cultura grupal. Ela demanda um zelo permanente. A condição com a qual cada sujeito se dispõe a participar das lutas sociais e a cultura do local não estão prontas, não estão acabadas, devem ser cultivadas permanentemente. Não podemos colocar a disposição como sendo um pressuposto, como algo já dado, acabado. Portanto, as estruturas dos partidos políticos, dos organismos de luta social, bem como dos programas de formação precisam dedicar esforços e tempo para conferir o compromisso de cada sujeito com o projeto e os vínculos possíveis entre o projeto de país com a cultura local. O trabalho com a disposição faz parte da esfera da possibilidade, onde se produz a utopia. O campo da disposição é o lugar onde se expressam com maior força os efeitos daquilo que foi realmente experimentado como movimento instituinte.
Processos de subjetivação e alteridade
O modelo de economia neoliberal não se limita a produzir mercadorias. Ele produz também estilos de vida, oferece uma estética de existência, determina uma sensibilidade para que algumas coisas sejam sentidas e outras não. Se não ficarmos atentos a este fato de que o modelo de economia interfere nos processos de subjetivação, nós estaremos sendo ingênuos.
Nós chamamos a atenção para este fato porque existe uma mútua implicação entre os processos de subjetivação e os processos educacionais. Uma ação política tendo em vista a transformação social precisa desenvolver habilidades para cuidar dos afetos e dos perceptos produzidos nesta mútua implicação. Esta mútua implicação atravessa as práticas políticas e interfere nos processos educacionais. Precisamos estar atentos a eles para conseguirmos administrar os aspectos favoráveis à mudança que desejamos.
Os processos de subjetivação são os modos como nós nos constituímos enquanto sujeitos a partir de nossas relações com o outro. A subjetividade está diretamente ligada com a alteridade. Cada indivíduo se constitui enquanto um sujeito com o auxílio do outro. É como um trabalho de lapidação de uma pedra bruta até ela se tornar uma joia. É como se fosse uma escultura. A escultura de si é feita com a colaboração das pessoas com quem nos encontramos. Os processos de formação política são laboratórios da escultura de si.
Certa vez Freud nos explicou sobre as modalidades de relação de cada indivíduo com o outro[3]. Ele formulou quatro modelos de relação com o outro ao justificar que toda psicologia individual é também psicologia social. Ele nos disse que na vida psíquica do indivíduo, o outro é regularmente considerado como modelo, objeto, auxiliar e adversário.
Esta afirmação de Freud pode nos ajudar a pensar em dois aspectos presentes em nossos programas de formação e em nossos modos de organizar a ação política.
O primeiro aspecto se trata de uma demanda permanente de verificação em cada um de nós quanto aos modos de nós fazermos o manejo destas formas de nos encontrar com o outro. Ao analisar os nossos movimentos dentro de cada uma destas modalidades nós teremos melhores condições de avaliar o quanto os afetos produzidos em nossos encontros com o outro estão operando a favor ou contra o projeto de transformação social. Claro que nós queremos fortalecer a modalidade de cooperação, que faz parte deste nosso movimento de procurar sempre compor com o outro, de estar presente com o outro nesta condição de auxiliar. E em seguida, precisamos ficar atentos e não nos tornarmos refém dos afetos que se produzem no uso do modelo, o que acontece muito com as identificações. Há muita gente que se identifica com uma figura de autoridade ou de lideranças e não consegue administrar os afetos produzidos nesta modalidade de presença com o outro. O mesmo zelo devemos ter com os afetos quando abordamos o outro como objeto ou como adversário. Muitos afetos, contraditórios e intensos, brotam das experiências de usar o outro como nosso objeto, bem como nas experiências de enfrentar o outro como sendo nosso adversário. Estes afetos são extremamente tensos, precisamos conhecê-los e reconhecê-los para que a nossa ação de transformação não fique refém destas forças.
O segundo aspecto se refere ao elemento paradoxal presente em nossa relação com o outro. Tudo o que acontece em nossas vidas é provocado pelo outro. O outro nos desinstala, o outro nos obriga a sair dos lugares cômodos, etc. O outro sacode a nossa vida… MAS, precisamos do outro. Ninguém sobrevive no mundo estando sozinho. O outro é nossa condição de complementaridade. Em nossa incompletude existencial precisamos do outro para nos completar, considerando as coisas mais práticas da vida.
Este segundo aspecto nos ajuda a entender que existe um território precioso situado entre “eu” e o outro, um espaço de entremeio, e é nele que o desejo se produz. Por isso é que Freud pode dizer que não existe uma psicologia individual e que toda psicologia é social. Assim entendemos como é que nos processos de subjetivação não existe o interior, o profundo de cada ser. Se estivermos nos referindo ao interior do corpo, a Biologia nos explica bem e nos mostra claramente quais são os nossos órgãos, ela nos ensina sobre as suas estruturas e funcionamento. Mas, na política e na educação, não existe o interior de si, o que existe é uma intensa produção de afetos e perceptos no espaço de entremeio. Tudo acontece neste território do “entre”.
Enfim: o que fazer? Como fazer?
Voltamos a enfatizar a nossa inquietação inicial. Como sustentar, orientar e organizar a nossa ação política fazendo uso do nosso recurso mais humano, um recurso posto à nossa disposição, que é a razão e o conhecimento produzido pela humanidade antes de nós?
Os episódios e os temas apresentados, tais como a mística, o carisma, o marketing, usados na política e na ciência, podem ser indícios de toda uma sociedade, de toda uma cultura que ainda não passaram pela modernidade neste sentido de experimentar a dimensão trágica da existência. Estamos estudando esta hipótese buscando algumas pistas de entendimento analisando os dispositivos forjados pelo sistema colonial presentes em nossa história por séculos.
Mas a questão ainda fica pior se nós pensarmos que uma sociedade ainda aprisionada em uma cosmovisão pré-moderna, está vivendo intensamente novos embates ao ter que conviver com elementos de um tempo pós-moderno. Há sinais entre nós de que toda uma população vive perdida, dispersa, mergulhada em uma confusão entre o pré-moderno e o pós-moderno, sem ter passado pela modernidade. Portanto, fica muito difícil fazer pensar, quando predomina nas bases da vida em sociedade, toda uma cosmovisão religiosa e mágica. Soma-se a tudo isso os efeitos do marketing que consiste no bombardeio de informações e de propagandas. Como podemos discutir e elaborar um projeto de país e de nação, se o seu povo, ainda está sonhando com soluções milagrosas ou mágicas, ou está sendo conduzido pelas propagandas agressivas no cotidiano da vida de todos?
Até podemos pensar que esta confusão entre pré-moderno e pós-moderno também atravessa a escola, desde a base até o topo. A escola deveria cumprir o seu papel de ajudar os alunos a desenvolverem a capacidade de fazer a leitura de mundo a partir da ciência. A escola deveria ensinar e educar proporcionando aos alunos o acesso à ciência, despertar e fortalecer neles a paixão pela ciência, pelo estudo, pela leitura. A escola não está conseguindo fazer isso. Entre professores encontramos muitos sinais de que eles também ainda não passaram pela modernidade. A escola ofereceria a base para a democracia se ela ajudasse os alunos a terem os recursos próprios e saberem se proteger diante das armadilhas lançadas pela cosmovisão religiosa e mágica a respeito da vida.
Vamos ser sucintos. O que fazer? Transformar a sociedade! Como fazer? Transformamos a sociedade por meio do trabalho coletivo, organizado, sustentado e orientado por um projeto de povo, de humanidade, de nação. A transformação se faz a partir das pequenas ações, das pequenas soluções forjadas diante de cada problema. Não existe um modelo de vida e de sociedade perfeito, e por isso qualquer tipo de idealização só atrapalha a luta. A transformação não se faz com gestos espetaculares, com acontecimentos grandiosos. Não existe mais um modo de entender a revolução como sendo a tomada do palácio do governo, pois ocupamos uma multiplicidade de palácios já instalados entre nós por meio de um árduo trabalho sem descanso, dia a dia, sempre expostos ao risco, vivendo uma aventura permanente.
Enfim, enfatizamos que a ação de cada um é necessária para a transformação social. Nenhum projeto de mudança acontece pela força de um texto, de um documento, de um papel, como se as palavras escritas mudassem automaticamente a história. O que muda a história, o que faz outro mundo possível acontecer, é o trabalho organizado, com a colaboração de cada um e com as formas de cooperar em grupo.
Então precisamos incluir em nossas ações políticas e em nossos programas de formação os dispositivos de cuidado com cada um, no zelo pela individualidade. Precisamos forjar dispositivos de cuidado com os grupos, com as estruturas, com as instituições, uma atenção especial com o que é do coletivo. Nesta articulação ampla está situada a nossa afirmação sobre o corpo e sobre as práticas. Precisamos de muita gente com saúde para entrar na luta! E fortalecemos o compromisso com a luta pela mudança do mundo através das práticas, e não com belos discursos sobre a revolução!
De acordo com a frase de Wilhelm Reich, escolhida como epígrafe de nosso texto, pensamos que ele nos apresenta três referenciais, tão simples e tão fortes: o amor, o trabalho e o conhecimento. Estes referenciais podem orientar a ação política e a organização dos processos formativos.
De acordo com Eduardo Galeano, se o corpo é uma festa, então, uma ação política e um programa de formação, que levam a sério o corpo, só podem fazer da ciência um “mapa para a festa”! A ciência que não nos oferece os mapas para festa e as mais potentes bússolas de navegação, não é uma ciência comprometida com a vida!
Revolução: pequenas ações, com simplicidade e muita arte!!
Romualdo Dias – Formado em Filosofia e em Pedagogia. Tem mestrado em Educação (UNICAMP), Doutorado em Filosofia Política (UNICAMP), Pós-doutorado em Ciência Política (Universidade Complutense de Madri), Livre Docência pela UNESP. Autor do livro “Imagens de ordem”, entre outros. Foi professor visitante na Universidade de Bolonha (Itália), na Universidade Texas El Paso (Estados Unidos), na Universidade Autônoma Cidade Juarez (México), Universidade da República (Uruguai). Atualmente é professor visitante na City University of New York, em Nova Iorque, Estados Unidos. É consultor do Fórum de Ação Comum, em Madri. É consultor da Associação Nossa Amazônia (ANAMA).
Notas:
[1] Aqui repito a expressão de Riobaldo, personagem da obra de Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas. Venho lendo e relendo este livro para explorar suas intuições, e isto me convence que ele não é um romance apenas. Estou compreendendo que este livro é a maior obra de “Filosofia política” escrita no Brasil, justamente pelo fato de nos obrigar ao trabalho de escavação do subsolo do sistema colonial em nossos territórios.
[2] Quem é da área da Filosofia identifica aqui as três perguntas formuladas por Kant em todo o seu trabalho de pensamento, ao longo de toda a sua obra! Não é à toa que ele pode ser identificado como sendo uma expressão forte do pensamento que se elabora na passagem de uma cosmovisão feudal para um modo de ver a vida a partir os abalos provocados pela revolução industrial.
[3] Freud faz esta sua reflexão no início do texto de 1921, “Psicologia das massas e análise do eu”.
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