Lindalva Domingas nos apresenta a fé, cultura e a luta que se desenvolve na região do Pantanal brasileiro
Lindalva Domingas é importante liderança no território quilombola do Vão Grande. O território quilombola é banhado pelo rio Jauquara, afluente do rio Paraguai. Lindalva é atuante no Comitê Popular das Águas e do Clima do rio Jauquara que participa da luta pelo pantanal vivo e sem fronteiras.
No dia em que a Escola de Ativismo conheceu a primeira versão do que veio a se tornar o livro Narrativas do Interior[1], Lindalva abriu as portas de sua casa na comunidade do Retiro e, em meio a uma riqueza de cantos e contos, nos mostrou os primeiros registros em folha de sulfite das palavras de Pedro Paulo (Pedro Silva), seu filho acerca da Terra Quilombola Vão Grande de acordo com a vida e memória do avô, rezador e cururueiro Francisco, pai-véio Chico. Lindalva mostrou todos os cantos do sítio, a amarra da carne para a festa de Santa Luzia, a valeta de assar, a prensa da massa de mandioca, o forno da torra da farinha. O Barraco do tacurú, o cupim de fazer comida, o barraco pra cobrir as crianças, o redário. O barraco dedicado à missa porque na festa de Santa Luzia não tem baile em cumprimento da promessa de Lindalva. Como parte do riquíssimo ritual, os mastros ficam armazenados na casa até ‘acabar’ no tempo, acabar aqui no sentido de um certo acabamento, de finalização de um ciclo, de decomposição da madeira e consequentemente de retorno à terra. Voltar à terra é voltar às origens.
Na oportunidade ela conversou com a revista Tuíra. Parte dessa maravilhosa conversa está reproduzida abaixo.
As Festas de Santo
Eu ainda estou cansada da festa de São Benedito (que aconteceu no Curupira na noite anterior). Nós temos que ir à festa. Mesmo cansados, não tem jeito, tem que ir. Aquela imagem que eu carregava durante a festa (noite anterior) é da casa que recebe as comunidades para a festa do santo. Aqui em casa, por exemplo, nós fazemos a festa de Santa Luzia. O Livro do Pedro fala disso. Tudo começou pela promessa que fiz a Santa Luzia, protetora dos olhos. Acontece que meu filho nasceu com um problema de visão. Eu rezei para Santa Luzia e, devido nossa fé, a vista do meu filho melhorou muito. Aqui acontece todo ano a festa de Santa Luzia, todo ano, não pode furar. Começamos a preparar a festa em setembro, é muito trabalho até dezembro, mas é muita gente trabalhando junto.
Passo o dia inteirinho fazendo os altar, os “bandelório”, a coroa. Meu pai faz o arco. A gente prepara essa parte com a ajuda de outras pessoas aqui da comunidade. Um ajuda o outro, as festas são comunitárias, tem um grupo que ajuda. E tem as irmandade dos santos: rei, rainha, juiz, juíza, capitão do mastro, alferes de bandeira. O Capitão tem que ir no mato cortar a madeira pra fazer o mastro, erguer o mastro (nessa hora tem a ajuda das outras pessoas). E tem que erguer o mastro, tudo isso com os cantador. Tudo é cantado, Os cururueiro vão cantando, o comando da festa é dos cantador e todo mundo obedece: tudo cantando. Quem comanda a festa, tem as obrigações de cada um na procissão, mas tudo é comandado pela cantoria, pela reza. E nós mulheres que respondemos aos cantos, nós sabemos que não é apenas um divertimento, tem uma obrigação de culto aos santos, tem que levar a tradição para a frente, inclusive estimular as crianças. Eu aprendi isso com a minha avó e a minha tia Adelaide e meu pai, principalmente. Com as pessoas que tiram a reza e fazem a festa. As rezadeira rezam, são as obrigações. Tem as pessoas que vão pra divertir, que não entendem a tradição. E nós vai com tudo isso na cabeça, pra cumprir a devoção porque a tradição não pode acabar.
A tradição
Aprendi com minha avó, meu pai, minha tia Adelaide e com as pessoas que tira a reza. Aqui isso é muito forte, as famílias fazem sua festa. Tem a tradição das promessas, da devoção, das curas pedidas aos santos. Cobra é coisa para São Bento, ele protege da picada de cobra, dá força, não deixa falecer quem leva picada de cobra. Minha tia Adelaide reza pra são Bento, meu pai reza pra Nossa Senhora Aparecida e São Miguel, o Zacarias reza para Nossa Senhora da Guia, e assim vai fazendo festa pros santos de devoção.
Essa união nossa está na festa também. Quem vai para a festa leva um pouco de farinha, de mandioca, quem tem um dinheirinho para ajudar na rês (carne), ajuda. É união comunitária na festa também, cada um ajuda com o que pode porque a festa é da comunidade independente da casa que está recebendo e do santo de devoção. Nas festa de santo tem fartura de comida, a festa dura bastante tempo, todo mundo come na janta, no almoço do dia seguinte e janta também. E tem doce, a turma volta pra casa de barriga cheia e muito feliz. Não tem cobrança de nada, é tudo de graça como vocês dizem, mas aqui a gente diz que é tudo do comum. As festas costumam durar 3 dias. Já no oitavo dia depois da festa, a turma volta na casa que recebeu a festa para ajudar no desmanche do altar e na arrumação da casa.
O altar de Santa Luzia
Nossa Senhora das Dores, protetora das grávidas, a mãe das mulheres grávidas.
A pomba branca do Divino Espírito Santo.
Nossa Senhora Aparecida.
São Gonçalo, casa onde dança São Gonçalo o demônio não entra. Essa é a nossa fé.
São Sebastião, que tem pintas no corpo que as pessoas do mal furou ele. Protetor das criação contra a peste.
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a gente pede socorro pra quem está em apuro.
São Benedito, santo negro da nossa raiz africana.
Santa Luzia que carrega os nossos olhos nas mãos. Ela protege a nossa vista.
Cada santo tem um porquê. Tem gente que é contra adorar as imagens de santo. Mas acontece que para ter uma imagem, antes da imagem teve uma história, teve uma pessoa que fez uma obra aqui na terra e depois foi para o céu. Isso é para guardar a história dessa pessoa que virou santo. Não se trata de adorar a imagem, mas para lembrar que teve uma pessoa que fez história na terra e que hoje mora no céu. Isso alimenta a nossa crença.
A bandeira segue nas procissão visitando as casas na coleta de donativos para a festa. Faz parte do ritual da festa pro santo, cada pessoa doa o que quer, doa o que pode para festa e para o santo. E tem a decoração. O altar fica colorido, com as bandeiras e as toalhas do santo e fica assim o ano inteiro. Mas para a festa tem uma chegada maior, fica mais decorado com flor, com cores, com as palmas que a gente faz, não sei explicar porque coloca as palmas do cigarro pra fechar o altar, mas é a tradição muito antiga. Fica muito lindo. E tem as velas que as promesseiras trazem e ficam queimando.
A transformação
Tem criançada que segue. Mas tem criançada que não liga. Mas na hora que chega na juventude, eles vão fazendo o que nós faz também, a tradição vai seguindo. Aqui é meio assim, é nosso ritmo. Num outro lugar é diferente. Então aqui no Vão Grande essa tradição segue assim e assim é bom de ficar.
Ameaças
Vejo na televisão um monte de coisa ruim, criança sofrendo, pais e mães sofrendo e isso dói ni mim. Até choro quando vejo a barragem de Brumadinho e de Mariana, choro de ver. Deus não há de deixar isso acontecer aqui. Claro que tem muito lugar para ir se tiver uma barragem aqui, mas nenhum lugar é parecido com o Vão Grande. Não quero sair daqui porque a nossa vida, a nossa tradição está aqui. Não está em outro lugar, a nossa história, a nossa tradição está aqui. Não adianta ir pra outro lugar porque a história do nosso povo, as nossa tradições, não vão junto para outro lugar.
Tem gente debaixo da lama até hoje lá em Mariana e Brumadinho. Já pensou? E quem morreu é gente que estava lá para trabalhar, é gente que morava ali perto por necessidade de sobreviver. Agora, quem constrói essas barragens não mora ali no local do acidente. Os donos dessas barragens moram onde? Moram em lugares seguros. Parece que não estão nem aí com o sofrimento do povo, é gente que não tem coração. Eles chegam com esses projetos nos lugares e vão matando, vão acabando com a vida. E o que nós podemos fazer? Só união mesmo. É Deus e a união do nosso povo.
Quando eu escuto: “Estão querendo fazer uma barragem aqui”, isso é muito doído, é difícil até de falar. Vão tirar a gente da nossa terra, vão matar os peixes, vão expulsar os bichos aqui do mato. Isso é morte. Estão matando e isso é muito doído.
Não pode acontecer barragem aqui. Aqui, não! O rio é muito importante pra nós.
A escuta da comunidade
Eles querem instalar barragem aqui e nem perguntam pra nós. Por isso que eu falo que é gente sem coração. Nós somos gente do rio, da beira do rio, nós pescamos todo dia. Sem o rio não tem vida aqui, nós depende do rio pra viver mas o rio livre, vivo, com peixe, rio que está cheio de água a ponto de levar as pontes embora dura o tempo da chuva, mas que fica rasinho no tempo da seca. Esse é o nosso rio, ele tem uma dinâmica durante o ano, um período está forte, brabo, cheio, e no outro período ele passa manso, calmo, fazendo carinho nas margens. Falam que escutam a comunidade, mas isso é mentira. Se ouvissem a comunidade de verdade, tudo isso que eu estou falando não seria novidade pra ninguém.
O rio e a luta
O rio é tudo, não dá nem pra explicar. Tudo aqui depende do rio, a natureza, os passarinhos, as árvores, nós, os bichos, tudo. Uma minhoquinha, uma vida por menor que seja depende desse rio. Construir uma barragem… Eles dizem que vai gerar emprego. Pra quem? Não tem nada disso, emprega na obra e depois que começa a funcionar e estraga tudo aqui na nossa terra e a barragem funciona sozinha. O que será daqui pra frente?
De que adiantou os empregos lá em Brumadinho, foi tudo abaixo. Não estou falando por falar, basta olhar o que está acontecendo: é muito sofrimento o que uma barragem causa. É destruição completa.
E nós não queremos isso aqui. Conhecemos o Salomão lá em Cáceres com os Comitês Populares de Defesa das Águas e fomos entendendo do que se trata. Não é brincadeira, e nós estamos unidos para enfrentar isso porque nós não queremos barragem aqui. Nem aqui nem no rio Paraguai porque está tudo ligado. Barragem nem lá nem aqui porque os rios são todos um só, um vai unindo no outro. Uma barragem aqui complica lá em Cáceres. O projeto deles é fazer 135 hidrelétricas, mas a gente vai lutar contra. O Comitê Popular do rio Paraguai junto com o Comitê Popular do rio Jauquara estão interligados do mesmo jeito que o rio Jauquara está ligado com o rio Paraguai. Em 2019 foi o primeiro dia do rio Jauquara e todo ano nós vamos fazer cada vez melhor.
Do mesmo jeito que eu levo as festas, que a gente trabalha unido nas festas, faremos do mesmo jeito nas lutas, principalmente nas lutas para proteger o nosso lugar e proteger a nossa vida aqui.
De tudo isso que eu mostrei pra vocês, das festas de santo, da nossa história e da nossa tradição, tudo isso está ligado ao rio. Mexendo no rio, toda essa diversidade de vida que eu falei pra vocês, as nossas roças, nossa criação, nossa comunidade está ligada ao rio. Posso dizer que o rio Jauquara é tudo isso, é muito mais do que um rio. Tem gente que acha que um rio é só uma água que passa ali no canal. Um rio é muito mais que isso. O rio Jauquara é o nosso povo, é a nossa vida, é a nossa cultura. Um rio é tudo isso que eu falei, é vida e tradição, é história de um povo, é nossa mística. Não pode mexer no rio, tem que preservar. Mexer no rio é abalar toda essa riqueza de vida desde aqui até o rio Paraguai. Um rio é como se fosse um corredor de vida e de cultura.
[1] Livro publicado em 2022, escrito por Pedro Silva e editado pela Escola de Ativismo.
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