Escola de Comunicação Popular do Oesté do Pará vem revolucionando a forma de se comunicar na região
Se me perguntarem de onde venho, eu direi que vim de lá.
De lá de onde vivi a minha infância, brinquei com meus irmãos e primos, de onde eu plantava na roça, fazia farinha e ia coletar cumaru com minha avó na mata. Das pescarias no igarapé que duravam o dia todo, dos banhos de açude. Eu cresci em um lugar em que as pessoas e a floresta eram amigas. E ainda lá eu já sonhava um futuro além. É claro que eu queria “ser alguém na vida”, mesmo sem saber que eu já era, e que as pessoas que estavam lá comigo também já eram e ainda são.
Nasci na cidade de Santarém, mas cresci em movimento, entre a região de terra firme do município de Alenquer (margem esquerda do rio Amazonas) e a região de várzea do município de Santarém. Quando as águas subiam, estávamos na terra firme; quando chegava o verão, era na beira do rio a nossa casa. Sair do interior e viver os desafios da cidade não tirou de mim o sonho de viver em um mundo melhor. Entre tantos desafios, consegui fazer o Ensino Médio e depois entrar na universidade pública.
Já na graduação eu tive contato com o ativismo que faço hoje, quando me tornei voluntário no Tapajós de Fato, jornal independente de comunicação popular na Amazônia. Foi na comunicação popular que me conectei com diferentes lutas e pessoas que, assim como eu, lutam para que territórios como o meu “lá” continuem sendo preservados, e para que as pessoas possam ser e fazer o que elas são, gostam e precisam.
O ativismo, e as pessoas que encontrei dentro dele, antes de tudo abriu ainda mais meus olhos. Existem muitos outros “lá” por aí, e existem muitas forças que tentam silenciar as vozes e as lutas de quem resiste pelo bem viver. Com a comunicação, a gente não dá voz; faz essa voz, ou esse grito de dor, ecoar mais forte. Assim estamos caminhando no Tapajós de Fato há cinco anos e, agora, fortalecendo mais pessoas e territórios com a Escola de Comunicação Popular.
Consigo ver que, assim como eu sempre acreditei na educação, e por isso sou professor, é preciso continuar fazendo luta de base. A comunicação é um caminho importante, pois ajuda a posicionar narrativas que muitos não querem ver, mas que existem: narrativas de resistência. Promover processos reflexivos é um desafio, mas também é o caminho de que precisamos. Adiar o fim do mundo é possível, e ele será mais leve se conseguirmos mobilizar em todos os lugares. Hoje, o meu trabalho é também mostrar que as pessoas nos “lá” podem se conectar e agir em defesa do nosso bem maior: a natureza e as pessoas.
A Escola de Comunicação Popular do Oeste do Pará
O que você faz te deixa em uma zona de conforto ou te desperta ambição para ir além? Esse foi o questionamento que fizemos para dar um passo a mais com o Tapajós de Fato. O que mais poderíamos fazer pelos nossos territórios? Nossa atuação sempre foi lado a lado com movimentos sociais do campo e da cidade, sobretudo com o movimento indígena e com agricultores e agricultoras familiares. Há quatro anos realizamos oficinas de comunicação popular pelos territórios, sempre em parceria com sindicatos, associações, conselhos, federações e universidades. E sempre repetíamos: precisamos de três dias para conseguir realizar as atividades. Haja vista que conseguimos definir uma metodologia coringa, mas que se ajustava dependendo do público com quem estávamos trabalhando. E assim seguimos fazendo.
Mas chegou um momento em que fomos convidados para fazer uma oficina de comunicação popular voltada para uso de redes sociais para alunos da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). Esses participantes foram convidados pela Diretoria de Cultura e Comunidade da Pró-Reitoria de Comunidade, Cultura e Extensão (PROCCE/Ufopa). Meses depois surgiu o curso de extensão com oito meses de duração, dividido em oito módulos: Comunicação popular e defesa de territórios na Amazônia; Segurança: a necessidade de cuidados no campo físico e digital para fazer comunicação popular no Oeste do Pará; O uso estratégico das redes sociais; O texto jornalístico para além do lead: como fazer?; Fotografia: a importância da foto e do vídeo na comunicação popular; O rádio não morreu: a importância dos conteúdos em áudio na comunicação popular; A importância do design gráfico na comunicação popular.
O objetivo era engajar pessoas do Oeste do Pará no combate à desinformação, potencializando pessoas dos territórios a se tornarem comunicadores populares por meio de ciclos formativos em comunicação popular. Para alcançar nosso objetivo, criamos a Escola de Comunicação Popular na Ufopa, em parceria com a Pró-Reitoria de Cultura, Comunidade e Extensão; reunimos pessoas da comunidade interna e externa da Ufopa no ciclo formativo em comunicação popular. Assim, passamos a estimular e fortalecer a atuação de comunicadores populares a partir das atividades propostas pelo curso, mas também inserindo-os nas atividades do Tapajós de Fato.
E foi quando o curso começou que percebemos que já tínhamos saído da nossa zona de conforto. Afinal, a responsabilidade passou a ser também com um processo formativo das pessoas selecionadas para a primeira turma, inicialmente, 40 pessoas. Não se tratava apenas de colocá-las para aprender fazendo, mas de conseguir fazer com que desenvolvessem o olhar para as profundidades que cada pauta exige, para de fato promover uma comunicação anticolonial, que transforme o comunicador e fortaleça as pessoas e os territórios.
O Pará é o estado da Cabanagem, e essa força cabana continua a pulsar nas veias dos paraenses, ao mesmo tempo que se transforma e encoraja as pessoas a utilizarem as mais diversas tecnologias existentes nos territórios para defendê-los. A escola de comunicação é um trabalho de base também. Uma militância forte se faz e um ativismo forte se faz com acesso à informação. Para ter dimensão da força do povo paraense, basta acompanhar a força de movimentos sociais e escolas de formação, como a Escola de Militância Socioambiental Amazônida, do Movimento Tapajós Vivo, o trabalho de base feito pelos Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTRs) e outras iniciativas que têm contribuído significativamente com frentes de defesa das águas, das florestas e das pessoas, e mais recentemente pela justiça climática, gerando conhecimento e reflexões centradas nos territórios de dentro para fora e fora para dentro.
E esse é o caminho que a Escola de Comunicação busca fazer, ela tem por objetivo ocupar espaços já consolidados, mas sim acompanhar os passos de quem já está caminhando em sincronia para um objetivo só: defender o nosso bem comum, aprendendo com as experiências de quem já está há mais tempo na luta e apresentando alternativas diferentes e inovadoras nascidas das óticas de novas figuras. Muitos deles, como os nossos alunos, descobrindo a militância por meio das nossas aulas de comunicação popular.
O que nos diferencia é exatamente o que nos une. A Escola de Comunicação é a primeira iniciativa, ou a primeira escola de formação, voltada exclusivamente para a formação em comunicação popular. Enquanto outras iniciativas não têm como agenda principal a comunicação, mas buscam ainda assim, dentro das suas maneiras, fazer essa conexão – e aqui ressalto que toda iniciativa de comunicar é louvável, a base da nossa Escola é a comunicação, e isso nos permite explorar mais aspectos da comunicação popular e fazer reflexões e construções que também se ligam aos demais contextos e necessidades dos nossos territórios.
A Escola de Comunicação mostra que também é possível formar militantes por meio da comunicação. Assim, pode-se observar que, cada uma à sua maneira, uma iniciativa vai fortalecendo a outra.
O trabalho da comunicação popular ganha ainda mais relevância na Amazônia paraense, pois o que se entende como mídia tradicional (rádio, TV, jornal impresso) não é feito para incluir, mas sim para excluir as narrativas e os corpos dos territórios. A mídia tradicional, na busca do lucro, ignora a história do próprio território em que atua, valoriza e abre espaço para o que “vem de fora”, para o que veio e o que permaneceu do violento processo colonialista e também para a colonialidade que se apresenta nos discursos e nas ações sobre as pessoas e os territórios.
Assim, a Escola de Comunicação contribui para a promoção da diversidade de vozes, ecoando contra a colonialidade nos territórios do Oeste do Pará, pois ela permite que, além dos canais do Tapajós de Fato e juntamente com outras iniciativas de comunicação comunitária, essas vozes se amplifiquem. Ela é apenas uma porta, e quem passa por essa porta enxerga as possibilidades que existem, desde o trabalho comunitário até conseguir gerar renda para si e para o coletivo. A escola não é absoluta, ela é o primeiro passo da caminhada. E a continuidade depende do interesse de cada pessoa que por ela passa.
E antes de ter esse nome, quando era desenvolvida em formato de oficinas, já foi escola debaixo do cajueiro, do barracão comunitário, na beira do rio, na casa de comunitários nas mais distintas comunidades do Oeste do Pará, e agora está institucionalizada como uma frente de trabalho do Tapajós de Fato, com uma comunicação e educação popular a serviço da defesa dos territórios, dos direitos humanos e do bem viver social para o fortalecimento das nossas identidades.
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Coletivo independente constituído em 2011 com a missão de fortalecer grupos ativistas por meio de processos de aprendizagem em estratégias e técnicas de ações não-violentas e criativas, campanhas, comunicação, mobilização e segurança e proteção integral, voltadas para a defesa da democracia e dos direitos humanos.