O Cursinho Popular Nísia Floresta em Mossoró, Rio Grande do Norte é voltado a meninas e mulheres com educação popular e feminista
O Cursinho Popular Nísia Floresta é um projeto preparatório gratuito para o ENEM que nasceu em abril de 2024, voltado a meninas e mulheres de Mossoró, no Rio Grande do Norte. A educação feminista e libertária em que acreditamos ultrapassa as paredes da sala de aula e transforma vidas, ao capacitar mulheres historicamente marginalizadas a se tornarem novas lideranças nas universidades, comunidades, movimentos sociais e espaços de trabalho.
Buscamos inspiração em Nísia Floresta, a primeira educadora feminista do país, nascida no Rio Grande do Norte em 1810, para nomear esse projeto educacional inovador. O estado é berço de mulheres pioneiras: além de Nísia, destacam-se Celina Guimarães, a primeira eleitora do Brasil; Alzira Soriano, a primeira prefeita da América Latina; e Ana Floriano, líder do Motim das Mulheres de Mossoró. Nosso propósito é manter viva a memória dessas mulheres e, ao mesmo tempo, abrir caminhos para que as potiguares de hoje escrevam novas histórias.
Neste artigo, apresentamos o contexto histórico de Nísia Floresta, as bases para a organização do Cursinho Popular e os principais resultados alcançados após um ano de funcionamento. Os frutos já são visíveis, mas, como afirmamos: “estamos apenas começando”.
A metodologia para a elaboração deste artigo consistiu em pesquisa bibliográfica para fundamentação do referencial teórico, além de catalogação de dados para a produção de relatórios produzidos junto à equipe do Cursinho Popular Nísia Floresta, bem como na sistematização de experiências e vivências geradas a partir das atividades de extensão. O processo de construção envolveu a organização e a produção do cursinho, conduzidas pelas coordenadoras do projeto, que também são autoras deste artigo.
Nísia Floresta e a educação popular feminista no Brasil
“Enquanto pelo velho e novo mundo vai ressoando o brado – emancipação da mulher – nossa débil voz se levanta, na capital do império de Santa Cruz, clamando – educai as mulheres!.”[1]
Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, é uma das grandes mulheres que marcaram a história do Brasil e considerada precursora do feminismo e da educação feminina no país. Nascida em 12 de outubro de 1810 no então município de Papari – que hoje leva o seu nome –, localizado no interior do Rio Grande do Norte. Nísia era filha do advogado português Dionísio Gonçalves Pinto, chegado ao Brasil no início do século XIX, e da brasileira Antônia Clara Freire, descendente de uma das principais famílias da região[2].
Desde muito jovem, Nísia teve contato com a realidade política do país, sendo sua família impactada diretamente pelos movimentos revolucionários espalhados pelo nordeste. O sentimento antilusitano presente nessas revoltas populares forçou a família Gonçalves Pinto a mudar de localidade frequentemente, até que em 1817, em meio a Revolução Pernambucana, a família de Nísia instala-se em Goiana, onde Nísia inicia seus estudos no convento das carmelitas, influenciada pelo pai a entrar em contato com a cultura europeia e o liberalismo, bem como a explorar os livros da biblioteca do convento[3].
Aos treze anos de idade, como era costume entre as famílias da elite nordestina, Nísia casou-se com o proprietário de terras Manuel Alexandre Seabra de Melo[4]. No entanto, após alguns meses, Nísia rompe seu casamento, retornando para a casa de seus pais, atitude considerada transgressora para a época e que, por consequência, resultou em diversos julgamentos por parte da sociedade oitocentista.
Posteriormente, após a mudança da família para Olinda e a morte de seu pai, em 1828, Nísia começa uma relação com Manuel Augusto de Faria Rocha, estudante da Faculdade de Direito de Olinda. Mesmo mediante a perseguição de seu marido abandonado – que ameaçava processá-la por abandono de lar e, posteriormente, por adultério – e as críticas da sociedade, já que, na época, era inadmissível uma mulher ir viver com um homem sem antes terem contraído matrimônio, Nísia e Manuel começam a morar juntos, mostrando mais uma vez a coragem de Nísia ao ir contra o que a sociedade patriarcal esperava de uma mulher[5].
Em 1831, Nísia inicia sua carreira como escritora ao escrever artigos para o jornal Espelho das Brasileiras, voltado às senhoras pernambucanas, tratando da condição feminina em diversas culturas[6]. Nesse mesmo ano, aos 22 anos, Nísia publica seu primeiro livro, Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, uma tradução livre de Vindications of the rights of woman, de Mary Wollstonecraft. Nessa obra, Nísia se posiciona diretamente contra os valores patriarcais da sociedade brasileira da época, defendendo o direito das mulheres à instrução e ao trabalho, questionando a falta de mulheres ocupando cargos de comando e estudando na universidade, e reivindicando que as mulheres sejam consideradas inteligentes e merecedoras de respeito pela sociedade. As ideias expressadas na obra se tornaram a base para a criação, em 1838, do seu colégio para meninas: o Colégio Augusto, que tinha como objetivo proporcionar para as alunas uma educação igual ou superior a que os homens da época recebiam.
Em um contexto histórico em que a educação feminina era centrada no cuidado do lar e as mulheres eram excluídas do mercado de trabalho e da tradição acadêmica, o Colégio Augusto simbolizou uma quebra desses paradigmas e um grande passo para o início da construção de uma perspectiva mais plural no âmbito da educação brasileira.
O legado de Nísia Floresta como defensora dos direitos das mulheres e da educação de qualidade, inclusiva e voltada para a transformação social abriu o caminho para que, posteriormente, se ampliasse o debate e o desenvolvimento de novas práticas educacionais baseadas na formação de sujeitos autônomos por meio de uma perspectiva político-social.
Nesse viés, em meados do século XX, surge a Educação Popular. Concebida em um contexto de grande industrialização e desenvolvimento nacional – que gerou a necessidade de maior instrução para o povo – em um primeiro momento, a Educação Popular se deu por meio de campanhas de alfabetização em massa, como iniciativa de possibilitar o exercício pleno da cidadania. A partir da década de 1960, no entanto, com o crescimento da participação popular na política e a mobilização de diversos movimentos sociais ao redor do mundo, a Educação Popular assume um caráter maior de organização política, buscando conscientizar a população e incentivar a luta por seus direitos.
Entre essas experiências pedagógicas, se destaca o projeto conhecido como “As 40 horas de Angicos”, implantado por Paulo Freire, um dos maiores nomes da Educação Popular e da pedagogia mundial, em 1963, na cidade de Angicos, Rio Grande do Norte – mesmo estado em que nasceu e cresceu Nísia Floresta. Por meio do seu método, baseado no uso de palavras e expressões que faziam parte do dia-a-dia dos trabalhadores potiguares para praticar a escrita de maneira familiar e refletir sobre o seu cotidiano e condições de trabalho, o pedagogo e filósofo foi capaz de alfabetizar 300 adultos em somente 40 horas, simultaneamente estimulando a sua conscientização política e social.
O caráter de reflexão e transformação social intrínseco à Educação Popular possibilitou o surgimento de vertentes específicas voltadas para as necessidades particulares de vários coletivos sociais marginalizados. Dentre essas vertentes, destaca-se a Educação Popular Feminista, que, por meio da criação de espaços de diálogo, educação e reflexão comunitária, busca exercitar uma consciência coletiva sobre a condição feminina e suas nuances de forma a promover uma mudança interna e social.
Diante disso, é incontestável o legado que Nísia Floresta, tanto em suas obras quanto por meio da fundação do Colégio Augusto, deixou para as práticas libertadoras da Educação Popular e para o cenário educacional brasileiro como um todo, plantando a semente da educação como um instrumento emancipatório. A Educação Popular Feminista, portanto, não surge do vácuo, mas é herdeira direta dessa tradição que entende o saber não como um fim em si mesmo, mas como uma ferramenta fundamental para a conscientização, a crítica das estruturas opressoras e a transformação social.
A experiência do Cursinho Popular Nísia Floresta em Mossoró
Quase dois séculos após Nísia Floresta fundar o Colégio Augusto, a educação brasileira tem o currículo igual para todos os gêneros, mas as desigualdades no acesso à educação persistem com outras facetas. Enquanto as conquistas feministas avançam, as estratégias do patriarcado se adaptam para manter a dominação masculina, de classe e de raça.
No município de Mossoró, no Rio Grande do Norte, as escolas públicas de Ensino Médio revelavam um cenário de desesperança. Muitos adolescentes da classe trabalhadora não enxergavam a possibilidade de entrar na faculdade como viável para a sua realidade imediata, pois a pressão econômica e familiar os conduz ao mercado de trabalho de forma precoce.
Muitas vezes, o tempo dedicado para estudo é limitado em razão da necessidade de trabalhar, e os empregos são precarizados por conta da baixa qualificação. É um ciclo que limita a possibilidade de ascensão social das gerações seguintes, pois os sonhos dos jovens são cerceados desde cedo e o futuro se torna uma repetição do passado. Esse cenário é ainda mais grave quando se trata das meninas, que têm o seu tempo de estudo restringido por atividades domésticas e de cuidado e enfrentam violências baseadas no gênero, como o machismo estrutural, assédios sexuais e gravidez na adolescência, que as afastam dos espaços de estudo.
Em 2024, a captação de recursos junto ao Fundo Malala e a parceria com a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte tornaram possível criar um projeto que atendesse a essas necessidades das jovens de Mossoró. Assim, o Cursinho Popular Nísia Floresta foi fundado em abril de 2024, com o objetivo de oferecer educação gratuita e inclusiva para mulheres de baixa renda da cidade de Mossoró, promovendo suporte acadêmico, debates sobre pautas sociais e incentivo à inscrição no ensino superior.
A educação no Cursinho Popular Nísia Floresta vai muito além da sala de aula, porque entendemos que nosso principal objetivo é criar esperança e incentivar a autoconfiança das meninas e mulheres de escolas públicas, para que elas alcancem os espaços acadêmicos e também os espaços de poder da sociedade. Por isso, o cursinho promove aulas dos componentes curriculares exigidos no ENEM, mas também fornece materiais escolares e alimentação adequada, oferece o suporte de monitoria extraclasse e realiza debates com mulheres convidadas, com foco na formação cidadã e crítica das nossas alunas.
No primeiro ano de atuação, a iniciativa beneficiou 42 meninas e mulheres advindas de escolas públicas mossoroenses. As alunas foram selecionadas por meio de critérios de prioridade, sendo eles: o comprometimento em participar ativamente nas aulas e atividades oferecidas pelo cursinho; a necessidade de apoio educacional e financeiro para realizar o ENEM; e a participação de pessoas com deficiência, periféricas, negras, indígenas, povos tradicionais, pessoas transgênero e outros membros da comunidade LGBTQIA+.
As aulas do Cursinho Popular Nísia Floresta acontecem na Faculdade de Enfermagem (FAEN) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, um local estratégico pensado pela viabilidade do transporte de alunas de diferentes bairros. Em razão das alunas serem, em sua maioria, estudantes e trabalhadoras, os horários do Cursinho Popular são pensados para se adaptarem a essa rotina, com aulas no sábado de manhã com professores qualificados. Na turma de 2025, ampliamos a carga horária para oferecer aulas também na sexta à noite e no sábado à tarde, garantindo o almoço e o lanche das alunas.
Além disso, a fim de complementar as aulas normais e oferecer um suporte e acompanhamento mais individual para as alunas, o Cursinho Popular Nísia Floresta oferta um programa de monitoria para estudantes universitários, institucionalizado como projeto extensionista na Pró-Reitoria de Extensão (Proex) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. O programa possibilita vivências pedagógicas aos universitários monitores, contribuindo para a carga horária de atividades complementares por meio do reconhecimento de 170 horas de extensão, e amplia a possibilidade de preparação das alunas do cursinho para a prova do ENEM. Os monitores são responsáveis por fazer um acompanhamento semanal virtualmente, com grupos de WhatsApp específicos para cada matéria, sessões de tira-dúvidas via Meet e também pelas aulas presenciais das sextas à noite e dos sábados à tarde, nas quais são privilegiadas metodologias ativas para que o estudo não seja exaustivo para as estudantes que já concentram jornadas de trabalho extensas.
Além das aulas ministradas pelos professores e monitores, o Cursinho Popular Nísia Floresta promove, desde a sua primeira turma, debates públicos abertos à população sobre questões sociais relevantes, contando com a participação de diversos convidados com repertórios enriquecedores sobre os temas discutidos. Os debates ocorrem todos os últimos sábados de cada mês na Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, buscando promover não somente a discussão de temas socioculturais relevantes para o desempenho na prova do ENEM de forma didática e acessível, mas também estimular o desenvolvimento de uma consciência cidadã crítica e incentivar o pensamento reflexivo em coletivo. Através dos debates e atividades extracurriculares, buscamos uma formação integral das participantes, empoderando-as e ampliando suas oportunidades de futuro. Queremos que as alunas sejam capacitadas para não apenas ocupar as universidades, mas que possam tornar-se novas lideranças em suas áreas de estudo e nas suas comunidades.
Atualmente, o Cursinho Popular Nísia Floresta é financiado através de editais de fomento à igualdade de gênero e à educação popular. Com o auxílio desses recursos, o cursinho conta com profissionais remunerados e capacitados, apoio para alimentação e transporte nos dias de aula, materiais escolares personalizados, equipe administrativa e monitoria com universitários bolsistas e auxílio financeiro para garantir a permanência nos estudos.
Esse trabalho é possível graças ao apoio do Fundo Malala, que financiou a ideia para que saísse do papel em 2024; à Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, que oferta a infraestrutura para realização das aulas e a certificação da equipe de estudantes universitários responsáveis pelas atividades administrativas e pela monitoria; ao Fundo Acelere o Relógio da Igualdade de Gênero, do Plan International Brasil, que forneceu apoio ao cursinho em 2025, garantindo a continuidade do projeto; ao Ministério da Educação, através da Rede Nacional de Cursinhos Populares, que nos permitiu ampliar a carga horária do Cursinho Popular Nísia Floresta em 2025, através de apoio técnico, bolsas para a equipe administrativa e da monitoria, e bolsas de permanência para as alunas.
Em seu primeiro ano de atuação, o Cursinho Popular Nísia Floresta já celebra um resultado transformador: 20 das 42 alunas da turma inaugural foram aprovadas no vestibular e conquistaram o acesso ao ensino superior. Adicionalmente, duas ex-alunas tornaram-se colaboradoras da equipe em 2025, apoiando a nova turma de 30 estudantes que está se preparando para fazer o ENEM no final do ano.
Esse êxito não é apenas um número, mas a materialização da missão do projeto, demonstrando que o investimento em educação gratuita, de qualidade e pautada pela inclusão é capaz de romper barreiras e abrir portas. Cada aprovação representa a coroação do esforço das estudantes, do compromisso da equipe de coordenadoras, voluntários, professores e monitores, e da potência de uma iniciativa que, ao combinar excelência acadêmica com conscientização social, efetivamente empodera mulheres e muda trajetórias.
O acesso à educação superior: atravessamentos de gênero, raça e classe
O ensino superior representa a principal porta de entrada para a valorização no mercado de trabalho, com melhores salários e empregabilidade a quem porta um diploma. No entanto, concluir o ensino básico e ingressar na universidade é um desafio para os jovens de baixa renda que precisam trabalhar e não vêem sentido nos estudos. Para as meninas, educadas para serem donas de casa e esposas, o tempo de estudo disputa espaço com o tempo dedicado às atividades domésticas e ao trabalho de cuidado. Isso mostra que o olhar interseccional é um pilar de compreensão dessa questão, assim como da sua relação com a garantia dos direitos humanos[8].
A primeira turma do Cursinho Popular Nísia Floresta foi composta por 42 alunas. Tivemos 11 desistências ao longo do semestre, a maioria motivada por falta de transporte ou impossibilidade de conciliar estudo com trabalho. Para entender melhor o atravessamento de gênero nos usos do tempo, fizemos uma pesquisa sobre horários de estudo com 26 alunas. 76,9% das alunas ainda cursavam o Ensino Médio e conciliavam a escola com o trabalho dentro e fora de casa, 38,5% das alunas trabalhavam fora de casa e 80,8% eram responsáveis pelos afazeres domésticos nas suas casas.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua do IBGE mostra que mais de um quarto das mulheres entre 15 e 29 anos não estava ocupada nem estudando, 11,4% a mais que os homens da mesma idade. No entanto, o que observamos é que o tempo das mulheres está tão ocupado que o estudo é deixado em segundo plano para priorizar tarefas domésticas e cuidado com dependentes, em geral filhos ou irmãos.
Nesse sentido, o afastamento das mulheres dos estudos é um projeto político para manter a força de trabalho doméstica e o domínio patriarcal. A educação superior não foi pensada para capacitar as mulheres, foi criada para preparar as elites e os burocratas para trabalhos de maior complexidade.
Por isso, o Ensino Superior foi proibido às mulheres no Brasil até 1879 e segue proibido em outros países. Mesmo com a possibilidade legal de frequentar as universidades, o ingresso das mulheres nas universidades foi um processo lento, com crescimento significativo a partir do século 20.
Há uma relação positiva entre o nível de estudo e o aumento salarial, especialmente no Ensino Superior, em que se concentram as oportunidades de mobilidade social[9]. No entanto, ainda que as mulheres estejam se qualificando mais para ingressar no mercado de trabalho, o salário médio feminino é 20,9% inferior ao dos homens[10].
Esse fenômeno ocorre porque o Ensino Superior brasileiro é atravessado por uma hierarquização de cursos que classifica carreiras com maior ou menor status social. Assim, o acesso das mulheres às universidades é estratificado por áreas do conhecimento. Até os dias atuais, as mulheres são a maioria das estudantes universitárias nas áreas ligadas ao cuidado e à educação, enquanto os homens ocupam as vagas dos cursos de engenharias, tecnologia e ciências exatas.
Nota-se que as carreiras tipicamente femininas são aquelas de menor prestígio social e menor remuneração, de modo que a expansão de acesso ao ensino superior não superou as barreiras de desigualdade social, mantendo o status quo vigente de dominação masculina e branca. Esses fatores são analisados por Carvalho e Araújo (2019):
“A construção das diferenciações de gênero nas carreiras profissionais, construídas a partir dos estereótipos de sexo servem para a manutenção das desigualdades no mercado de trabalho, à precarização de algumas profissões e sua respectiva mão de obra, em detrimento de outras, a posição de privilégio do homem branco de classe dominante, e a separação entre ricos e pobres.”[11]
Atualmente, os dados oficiais do Censo da Educação Superior apontam que as mulheres são maioria no ensino superior no Brasil[12]. O patriarcado limita os espaços que as mulheres podem ocupar na sociedade e no mercado de trabalho, mas a educação feminina é um instrumento para alçar os espaços de poder. Com isso, os direitos à educação conquistados pelas mulheres foram ocupados gradualmente para conquistar melhores condições sociais e econômicas.
No entanto, o atravessamento de raça demonstra que o acesso à educação no Brasil é majoritariamente usufruído por mulheres brancas. As mulheres brancas com ensino superior são mais que o dobro das mulheres pretas e pardas[13].
Além disso, no Rio Grande do Norte, a estatística nacional de maioria feminina no ensino superior público não se reflete; são homens a maioria dos ingressantes. Destaca-se ainda que, dentre as pessoas com deficiência, apenas 7,4% concluíram o ensino superior[14].
Nesse contexto, o Cursinho Popular Nísia Floresta assume o desafio de inverter os privilégios sociais e selecionar prioritariamente meninas e mulheres de baixa renda, pretas, pardas e indígenas, LGBTs e com deficiência para o estudo focado no ingresso nas universidades públicas através do ENEM. Esse é um desafio que não pode ser resumido à sala de aula porque o acesso à educação depende de diversos fatores, como o acesso à alimentação adequada e ao transporte. Para as meninas e mulheres jovens, a falta de confiança e autoestima também representa um entrave nos estudos.
Na cidade de Mossoró, onde existem dezenas de cursinhos particulares, a nossa proposta é levar a educação da melhor qualidade possível, com uma equipe de professores especializados, dos quais 60% possuem mestrado e a maioria é reconhecida pela excelência na preparação dos cursinhos particulares.
Para frequentar um cursinho particular na cidade, um estudante teria que desembolsar no mínimo R$ 1.808,00[15]. Esse valor é maior que o dobro da renda per capita média das alunas da turma de 2025 do Cursinho Popular Nísia Floresta.
Assim, o cursinho atua na contramão das expectativas sociais impostas às meninas para que elas acreditem que podem alcançar os seus sonhos, de forma coletiva. Ao reunir uma turma exclusivamente feminina, o que fazemos é criar uma rede de apoio para que o processo até a faculdade fique mais leve.
Para isso, temos debates e rodas de conversa com mulheres inspiradoras, almoços coletivos e confraternizações. As egressas do cursinho chegam até a universidade com a bagagem de conhecimento para compensar déficits de aprendizado acumulados durante a educação básica e com a formação política para tornarem-se lideranças nos diferentes bairros da cidade.
Das 31 alunas que permaneceram até o final da primeira turma do cursinho, 20 hoje estão nas universidades. Elas ocupam esse espaço sabendo que as conquistas da aprovação são coletivas porque a jornada começou muito antes de nós.
A educação feminista no Brasil teve sua origem ligada a uma mulher potiguar, por isso hoje levamos o legado de Nísia Floresta em um cursinho popular. O Cursinho Popular Nísia Floresta busca a educação transformadora a partir de uma vertente de gênero, com oportunidades e confiança para que as mulheres conquistem os seus sonhos e ocupem todos os espaços da educação.
Para não finalizar: estamos apenas começando
O impacto da iniciativa foi evidente nos resultados obtidos: 20 alunas foram aprovadas nos cursos dos seus sonhos na universidade. Além de celebrar as aprovações, celebramos também a variedade dos cursos escolhidos, que revelam tanto da confiança e autonomia de cada aluna. Hoje, nossas ex-alunas ocupam espaços nos cursos de Ciência e Tecnologia (UFERSA), Serviço Social (UERN), Pedagogia (UFERSA e UERN), Ciências Contábeis (UFERSA), Química (UERN), Direito (UERN), Zootecnia (UFERSA), História (UERN), Psicologia (UniCatólia e Uninassau), Gestão Ambiental (UERN e IFRN), Administração (UFERSA), Ciências Biológicas (UERN), Farmácia (Uninassau).
Além das conquistas acadêmicas, o projeto consolidou-se como um espaço de troca de saberes e construção coletiva, incentivando o protagonismo feminino na educação e promovendo um ambiente de acolhimento e empoderamento.
Apesar dos desafios enfrentados, como a desistência de alguns participantes, a ausência de um cronograma fixo de reuniões e dificuldades burocráticas no cadastro do projeto na plataforma de projetos de extensão, as ações desenvolvidas pela equipe cumpriram seu papel. Garantiram o acompanhamento contínuo, o incentivo ao aprendizado e um suporte personalizado às alunas ao longo do processo preparatório.
Assim, o trabalho realizado com o Cursinho Popular Nísia Floresta demonstra o potencial dos cursinhos populares como ferramenta de apoio educacional e transformação social, contribuindo significativamente para a formação acadêmica e cidadã das estudantes e para o fortalecimento do acesso de mulheres de baixa renda ao ensino superior.
Ana Luiza Bezerra da Costa Saraiva – Vice-coordenadora do Cursinho Popular Nísia Floresta, doutoranda em Geografia pela UFRN e docente do curso de Geografia da UERN. E-mail: anasaraiva@uern.br.
Heloíse Almeida Luna – Fundadora e coordenadora do Cursinho Popular Nísia Floresta e graduanda em Direito pela UFERSA. E-mail: lunaheloisea@gmail.com.
Isabel Ximenes Teixeira Mendes – Vice-coordenadora do Cursinho Popular Nísia Floresta e graduanda em Direito pela UERN. E-mail: isabelxtm@icloud.com.
Francisco Tarcísio Rocha Gomes Júnior – Professor do mestrado acadêmico e da graduação em Direito da UFERSA. Doutor em Direito pela UFC. Coordenador geral e professor de História do Brasil do projeto de extensão Curso Paulo Freire da UFC entre 2009 e 2011. E-mail: tarcisio.rocha@ufersa.edu.br.
Notas
[1] Nísia Floresta. Opúsculo Humanitário. Senado Federal, p. 17, 2019.
[2] Cleide Rita Silvério de Almeida e Elaine Teresinha Dal Mas Dias. Nísia Floresta: O Conhecimento Como Fonte de Emancipação e a Formação da Cidadania Feminina. Revista Historia de la Educación Latinoamericana, 2009.
[3] Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil. Dicionário Mulheres do Brasil de 1500 até a atualidade. Zahar, 2000, pp. 519 a 521.
[4] Isabela Candeloro Campoi. O livro “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” de Nísia Floresta: literatura, mulheres e o Brasil do século XIX. Revista História (São Paulo), v.30, n.2, p. 196-213, ago/dez 2011.
[5] Laura Sánchez Pereira. Nísia Floresta: Memória e História da Mulher Intelectual Oitocentista, p. 64. s/e, 2017.
[6] Idem, p. 66.
[7] Anúncio estampado no Jornal do Commercio de 31 de janeiro de 1838 anunciando a inauguração do Colégio Augusto. Paulo Corrêa Barbosa. Almanaque histórico. Nísia Floresta uma mulher à frente do seu tempo: Projeto memória 2006. Redeh, 2006, p.25.
[8] Gomes Júnior, F. Tarcísio Rocha (2024). “A interseccionalidade como pilar de interpretação dos Direitos Fundamentais: uma breve análise do caso da injúria racial”. Revista Acadêmica Escola Superior Do Ministério Público Do Ceará, 16(2), 265–278. https://doi.org/10.54275/raesmpce.v16i2.410
[9] Hustana Maria Vargas. Aqui é assim: tem curso de rico pra continuar rico e curso de pobre pra continuar pobre. 33ª Reunião Anual da ANPEd, 2010.
[10] 3º Relatório Nacional de Igualdade Salarial. Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério das Mulheres. 2025.
[11] Rayana Andrade de Carvalho e Edineide Jezini Mesquita Araujo. “Expansão do acesso à educação superior em um debate interseccional de gênero e classe”. Revista Nuances: estudos sobre Educação, 2019.
[12] Os dados sobre ingresso no Ensino Superior foram obtidos através do Painel de Estatísticas do Censo da Educação Superior 2023.
[13] Ver mais sobre no boletim “Privilégio Branco: mulheres e direito à educação no Brasil”, publicado pelo Observatório da Branquitude e Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais.
[14] Dados do Censo 2022 do IBGE.
[15] Valor correspondente à turma do Extensivo Enem noturno de 2025 do Vírus Cursinho em Mossoró.
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