As meninas de Chiwik, tecedoras de mundos
Ceane Simões e Walter Kohan escrevem sobre como a troca com as meninas de Chiwik estão tecendo mundos inclusivos.
Esse texto procura mostrar algo que, em certo sentido, é a coisa mais evidente do mundo e, em outro, é a coisa menos percebida ou notada do mundo. Referimo-nos a como as crianças constroem mundos e, nesse processo de construção de mundos, convidam outros seres de todas as idades a participarem dessa construção ou simplesmente deixam passar outros seres sem abrir a eles as portas do seu mundo…
Sejamos mais concretos. Estávamos no México, visitando uma associação de mulheres bordadeiras, chamada Chiwik, na cidade de Hueyapan, na serra norte do Estado de Puebla, região central do México. Chegamos depois de ter passado um dia na escola-universidade Cesder, na cidade de Zautla, também no estado de Puebla. No Cesder, tínhamos conhecido essa escola-universidade baseada nos princípios da agroecologia sustentável, na pedagogia da alternância e na tarefa pedagógica como uma doação. Em Hueyapan fomos convidadas a um Encontro de Cuidados Comunitários e “Compartências” na Comunidade Chiwik-Tajsal.
Chiwik-Tajsal é uma cooperativa de mulheres artesãs do povo mahsehual, com idades entre 18 e 60 anos. Elas têm uma forma própria de trabalhar e habitar o mundo tecendo alianças com diversas instituições da sociedade mexicana e de outros povos parceiros, na Colômbia e no Brasil, por exemplo. Em agosto de 2022, começaram o projeto “Cuidados comunitários para uma vida digna” baseado em quatro eixos: a) Amochyoltok tamachkanetapowilis (Bibliotecas vivas); b) Tapajtilis tajpianej (Cuidados da saúde); c) Tonalwayowan (Nossas raízes); d) Tekiyolnetetapowilis (Práticas narrativas).
Durante os dias 24 e 25 de junho de 2023 tivemos a oportunidade de partilhar de um seminário sobre esse projeto em que vivenciamos experiências de comunalidade e fomos apresentadas a essa forma de organizar a vida baseada no cuidado coletivo, na defesa do território, nos conhecimentos ancestrais, na criação de suas artesanias e narrativas e de conviver entre crianças e adultos as diversas dimensões da vida. Percebemos também a valorização da língua originária Náhuatl na qual as crianças são educadas junto com a língua hispânica dominante no México.
Durante o Encontro participamos de uma apresentação do que as mulheres de Chiwik materializaram como “quatro estações” integradas aos quatro eixos já mencionados que atravessam a vida comunitária em Hueyapam. Assim, pudemos aprender sua forma de criar e recriar vida. Ela está presente na milpa, que é um sistema de plantio agroecológico ancestral dos povos mesoamericanos. A milpa abrange geralmente o cultivo do milho, do feijão, da abóbora e da pimenta, através de um equilíbrio tanto físico quanto energético. Ao mesmo tempo que alimenta os seres humanos, a milpa protege a fertilidade da terra e, assim, consolida a concepção e luta por soberania alimentar da comunidade através de um sistema de trocas não capitalista. Além da milpa, conhecemos seus cuidados da saúde a partir do conhecimento das propriedades medicinais das plantas oriundas na própria região.
As mulheres de Chiwik também mostraram que são artistas – artesãs que plasmam nos seus bordados uma mesma narrativa consistente com sua forma de habitar o mundo e cuidar da mãe Terra ao mesmo tempo em que cuidam uma das outras e fortalecem uma vida onde o machismo é persistentemente enfrentado e combatido.
Nessa Associação de mulheres bordadeiras existe também uma escola bilíngue e durante os dois dias do Encontro (sábado e domingo) a escola esteve habitada em todos os momentos por crianças, a maioria meninas, que desenhavam, aprendiam palavras em Náhuatl e espanhol e cantavam uma música tradicional que iriam apresentar ao final do encontro nas duas línguas.
Entramos com curiosidade na escola de Chiqik e logo travamos relação mais intensa com algumas meninas: chamou nossa atenção a curiosidade, escuta e intimidade que logo estabeleceram conosco. Assim, algumas meninas nos convidaram a participar do seu mundo, mesmo que seja pelos dois dias que convivemos. Percebemos a tranquilidade com que elas lidavam com a diferença de nossos mundos e modos de habitá-lo, seu interesse em saber mais sobre nós e a forma em que elas afirmavam e cuidavam, no seu mundo infantil, dos valores comunitários e cooperativos imperantes entre as mais velhas e os mais velhos.
Foi como se tivéssemos sentido um encontro dentro de um outro encontro. As curiosidades foram se apresentando e se intensificando quase “naturalmente” sem serem buscadas ou provocadas, como se compartilhássemos algo em que a diferença de idade era quase irrelevante. As meninas mostravam-se como artistas-artesãs com as quais construíamos um mundo onde as diferenças eram acolhidas com sorrisos e alegrias.
Dentre os momentos em que esse mundo era construído podemos destacar os tempos da alimentação – café da manhã, almoço, janta – em que nos procurávamos e encontrávamos – no entremeio de uma agenda cheia de atividades para todas nós. Esses momentos de alimentação compartilhada eram como espécies de recreio, tempo livre, e, pelo menos para nós, eram também uma escola, pelo que nos dávamos a conhecer e ensinávamos nesses compartilhamentos sobre nossas origens, idiomas e cultura.
Uma das meninas, por exemplo, nos pediu com muita tranquilidade e argúcia – “Continue falando comigo no seu idioma, quero me surpreender!”. Ali parecia que a escolha se estendia e encontrava um tempo mais próprio, liberado de certa formalidade tradicional na relação professor-aluno. Sentíamos nesses momentos uma certa generosidade que era um ponto de encontro intercultural e intergeracional. As meninas ensinavam-nos também uma forma livre e aberta de viver esse encontro intercultural e intergeracional como uma forma de acolher e celebrar a diferença.
Chamou muito a nossa atenção que as meninas não acolhiam todas as diferenças nesse mundo e, em suas palavras, isso era porque algumas alteridades eram percebidas como “grosseiras”, o que não tinha a ver com a idade das portadoras da alteridade – pois tratava-se tanto de gestos de pessoas de pouca idade quanto de adultos – mas com certos modos de relacionar-se que elas pareciam ter claro não querer para esse mundo que estávamos construindo. Assim, o que elas nos ensinaram é que a construção de mundos demanda tanto o acolhimento das diferenças quanto uma certa sensibilidade para perceber quais diferenças constroem mundos e, portanto, precisam ser bem-vindas, enquanto outras ameaçam o mundo em construção e, portanto, precisam ser evitadas.
Assim, as meninas de Chiwik, da etnia mahsehual, ensinaram-nos uma das coisas mais evidentes e, ao mesmo tempo, menos percebidas do mundo. Na sua construção de um mundo relacional, baseado na cooperação, no cuidado e na reciprocidade, quem sabe, deram a nós uma lição de algo que pessoas adultas poderíamos dar a maior atenção neste momento do Brasil em que um mundo imposto violentamente sobre nós parece estar terminando e outro mundo parece estar se abrindo para os que confiamos na cooperação, cuidado e reciprocidade. Quem sabe a infância mais uma vez é nossa mestra de vida e de mundo. É só escutá-la, cuidá-la e afirmá-la.
Ceane Simões – Professora do curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Formada em Pedagogia e Psicologia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Mestra em Educação – Processos Formativos e Desigualdades Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutora em Educação pelo PPGED – UFPA. Integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas em Educação (GEPPPE/UEA) e o Grupo de Estudos e Pesquisas Sobre Teorias, Epistemologias e Métodos da Educação (EPsTEM), da Universidade Federal do Pará. Realiza pesquisas no campo dos currículos da Educação Básica e com os cotidianos escolares. É dirigente do Sindicato dos Docentes da Universidade do Estado do Amazonas (SindUEA) e foi coordenadora do coletivo por educação pública, democrática e integral – Coletivo Escola Família Amazonas (CEFA). Email: ceane@uea.edu.br
Walter Kohan – Professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e Cientista de Nosso Estado na FAPERJ. Pós-doutor pelas Universidades de Paris 8 (França) e British Columbia (Canadá). Atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação Filosófica com infâncias (PPEFI), co-editor do periódico childhood & philosophy, deu cursos de formação de professores e professoras em numerosos países de América Latina, Europa, e outros como África do Sul, Moçambique, Coreia do Sul, China e Japão. Seus trabalhos estão publicados em castelhano, italiano, inglês, português, francês, húngaro, persa, russo e finlandês. Livros mais recentes em português: Uma viagem de sonhos impossíveis (Autêntica, 2022), Paulo Freire: um menino de 100 anos (NEFI, 2021), Paulo Freire, mais do que nunca (Vestígio, 2019).Email: wokohan@gmail.com
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