Organização fundada em 2008 por jovens do Tururu, localizado em Paulista, na Região Metropolitana do Recife, usa a comunicação como ferramenta para afastar os rótulos negativos sobre seu território.

Por Marília Parente

Para os integrantes do Coletivo Força Tururu (CFT), uma boa imagem é só questão de foco, ângulo e fotometria. Cansado do estigma de violência que marca os discursos produzidos pela imprensa tradicional sobre a comunidade do Tururu, localizada na cidade de Paulista, na Região Metropolitana do Recife, o grupo de jovens decidiu lançar mão dos próprios celulares, câmeras e microfones para desenvolver reportagens, filmes e videoclipes originais que ressaltam não apenas os problemas, mas a cultura e a autoestima dos moradores. Fundado em 2008, o coletivo constitui uma valiosa experiência de midiativismo de favela, que transformou a comunidade ao propor, em primeira pessoa, um espaço de negociação no qual os moradores do Tururu podem exercitar sua cidadania.

Integrante do CFT desde 2016, o historiador e mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília (UnB) Elvis Pinheiro realizou seu projeto de dissertação, intitulado “Construção dos Direitos Humanos: Coletivo Força Tururu, em Paulista-PE”, a respeito da atuação do grupo pernambucano. A pesquisa, que se deu por observação participante, é produto de um acompanhamento interno das dinâmicas que estruturam a organização do grupo. “Ele é um exemplo de midiativismo de favela. Essa ideia foi desenvolvida pelo professor de Comunicação Leonardo Custódio, da Universidade de Tampere, na Finlândia. Ela se refere ao uso feito por moradores de comunidades das tecnologias da informação – como câmeras, celulares e internet – para mobilizar seu território”, explica Elvis.

De acordo com o pesquisador, o midiativismo de favela surgiu na cidade do Rio de Janeiro, com o intuito de denunciar a violência das operações policiais. “A polícia chega dando tiro ou alterando a cena dos crimes, mas os moradores filmam e compartilham essas ações. Alguns dos exemplos de grupos que desenvolveram essa prática são o Coletivo Papo Reto e o Voz das Comunidades”, acrescenta Elvis.

O pesquisador também chama atenção para o engajamento cultural proposto por esses grupos. “Há uma valorização da cultura dessas comunidades e iniciativas como promoção de shows e atividades culturais. O Coletivo Tururu realiza clipes com os artistas de lá, além de exaltar seus moradores, desenvolvendo sua autoestima”, continua.

Elvis pontua ainda que os coletivos midiativistas acabam esbarrando nas dificuldades para estabelecer um trabalho de promoção efetiva, já que este tipo de ação não se dá de forma capitalizada, a exemplo do que ocorre com grandes organizações, que mantêm ações regulares e efetivas graças ao apoio financeiro externo. “Seus integrantes dividem o tempo com algum emprego. Outros problemas são a falta de infraestrutura, desde a ausência de uma boa internet até dificuldades com a manutenção dos equipamentos, e as fragilidades territoriais e de raça. É possível ainda que esses grupos entrem em atrito com os interesses das lideranças políticas e religiosas de seus territórios, pois adotam posturas mais libertárias, que levam as pessoas a repensar suas posições”, acrescenta.

Apesar dos obstáculos enfrentados, coletivos como o Força Tururu possuem enorme capacidade de promover um espaço em que os indivíduos convivam com uma cultura de direitos. “Toda a cidadania básica que é negada ao morador de periferia passa a ser estimulada, a partir de uma participação horizontal. O morador se vê nas imagens produzidas, ganha vez e voz em um trabalho que pode ter grande repercussão”, conclui Elvis.

“Vez e voz”

 

Um dos fundadores do CFT, o educador social Cidicleiton Luiz da Silva conta que o coletivo tem suas raízes nas reuniões promovidas da Pastoral de Juventude do Meio Popular, uma articulação de orientação católica, com atuação nacional. “A gente viu a necessidade de se fortalecer coletivamente. A ideia de fundar o coletivo veio desses programas policialescos, que sempre dão um estereótipo muito negativo ao Tururu. Na época, nos deparamos com a morte de um jovem que conhecíamos, morador de uma comunidade vizinha, o Loteamento Gilberto Freyre. Apesar de o caso não ter ocorrido aqui, a imprensa citou nossa comunidade, parece que para ganhar audiência em cima da desgraça dos outros e a matéria ficar mais forte é preciso reforçar estereótipos”, conta.

O trabalho teve início com a produção do agora tradicional fanzine “Articula Tu Tururu”, que à época ainda se chamava “Nós na Fita”, de tiragem semestral e distribuição feita em escolas e instituições do Tururu. “Esse material já trouxe várias temáticas, da atuação da polícia no município à falta de água na comunidade e de medicação nos postos de saúde. Éramos jovens e queríamos vivenciar a comunidade, fazer algo por ela”, frisa Cidicleiton.

O ativista coloca, aliás, que as denúncias veiculadas pelo fanzine trouxeram algumas dificuldades para o coletivo. “Quando denunciamos a falta de materiais no posto de saúde, a enfermeira-chefe dessa unidade de saúde chegou a dizer que ia processar a gente. Isso só não aconteceu porque ela percebeu que a comunidade ficou do nosso lado nessa situação”, relata Cidicleiton. Nem sempre, contudo, o reconhecimento dos moradores foi imediato. “Algumas pessoas acham que queremos alienar através da comunicação, ou fazer um trabalho político-partidário, porque para elas não pode existir alguém fazendo algo de graça pelo bem coletivo. O Força Tururu nunca foi nosso emprego ou fonte de renda”, ressalta.

Além das fanzines, o coletivo veiculou desde o início, em seu canal do Youtube, materiais em vídeo, idealizados e executados por seus próprios integrantes. Dentre as produções, destacam-se os documentários “Tururu: Justiça, Paz e Vida” (2009), que conta a história da comunidade a partir das narrativas compartilhadas pelos moradores, e “Ele era Meu Filho” (2017), que aborda a violência policial contra a juventude periférica. “Em 2009, a gente participou de um curso da Cáritas Alemã, realizado aqui no Recife. Foram três participantes, contando comigo. Aí no final do curso as câmeras que a gente usou foram doadas para os coletivos e ONG’s que estavam participando”, conta o educador social Carmerindo de Lira Neto, que também participou da fundação do CFT.

Os conhecimentos e equipamentos obtidos alavancaram de vez as produções do grupo. “Quando fomos fazer o primeiro documentário a gente nem sabia filmar, ainda precisamos da ajuda do coletivo Gambiarra. Aí depois dessa formação, a gente começou a pegar mais em vídeo, assim como se especializar em edição. O meu processo nessa história é filmar, mas já fui até repórter em alguns vídeos, assim como fiquei responsável pela elaboração dos roteiros”, completa Neto.

Política do cotidiano

 

A trabalhadora informal Ana Alice Cabral de Almeida, de 22 anos, passou a integrar o Coletivo Tururu depois de participar de uma oficina promovida pelo grupo, tendo a violência das comunidades periféricas como tema. “Foi uma formação muito dinâmica, os assuntos abordados de uma maneira bem interessante, nunca tinha visto nada assim na comunidade. Eu nunca tinha me interessado por política, mas gostei tanto que acabei entrando para o coletivo”, relata. A ativista se orgulha de ter participado de diversas ações educativas no Tururu. “A primeira foi uma campanha de violência contra a mulher. Fizemos cartazes, posters, camisas e vídeos educativos para a comunidade. Mesmo sendo um trabalho voluntário, a gratidão e o retorno das pessoas faz tudo valer a pena. Aprendi a ajudar as pessoas sem querer nada em troca”, compartilha Ana Alice.

A violência contra a mulher, aliás, foi um dos objetos da pesquisa “Impactos da Violência na Vida das Pessoas”, realizada pelo CFT junto aos moradores da comunidade, no ano de 2019. Segundo o levantamento, quase metade (46,5%) do total de 71 entrevistados já presenciou algum tipo de violência doméstica durante a infância. Destes, a porcentagem de 60,6% relatou ter convivido com casos de “agressão contra a mulher”. Os resultados também apontam que 91,5% dos moradores entrevistados já presenciou algum tipo de violência na comunidade, tendo sido a maioria deles testemunha de tiroteios (81,5%), brigas (72,3%) e homicídios (64,6%).

De acordo com André Fidelis, pedagogo e integrante do CFT, o estudo foi realizado com o intuito de embasar o planejamento das atividades do grupo. “Essa pesquisa fez parte da campanha “Uma só Vida”, que teve o objetivo de debater nossa vida na comunidade, marcada por diversos traumas. Dentro da campanha, esses dados nos ajudaram a desenvolver três conjuntos de atividades: um ciclo de debates sobre segurança pública com jovens da comunidade, um processo formativo com esse público, além da organização de um núcleo de comunicação em uma escola pública”, comenta.

Fidelis chama atenção para o fato de que a Força Nacional chegou a atuar no Paulista, entre 2019 e 2021, por decisão do governo federal. Em 2018, o município havia registrado 127 Crimes Violentos Letais Intencionais, segundo levantamento da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS-PE). “Fizemos um debate junto à comunidade, sobre o porquê de a Força Nacional vir para nossa cidade e o que ela verdadeiramente traz, tendo em vista que essa ação foi pouco debatida com a população. A gente enxergou que, por muitas vezes, a Força Nacional se torna uma polícia igual à que temos aqui”, lembra.

Na ocasião, o coletivo promoveu um exercício de reflexão a respeito dos abusos policiais cometidos no Tururu. “Discutimos a necessidade de vôos rasantes de helicóptero da Polícia Militar na comunidade, abordagens que no entendimento da gente eram desnecessárias, assim como acompanhamos casos de violência policial dentro do Tururu. Quando nossos próprios dados nos mostram que a violência policial é muito presente na comunidade, é porque devemos pautar um debate ainda maior”, completa Fidelis.

Justiça, paz e vida

 

A violência policial, contudo, nem sempre foi um traço do Tururu. Moradora da comunidade há 21 anos, a aposentada Gênova Maria Silva, de 63 anos, descreve os pacatos primeiros anos do então Loteamento Jardim Justiça, Paz e Vida, conforme eram chamados os 23 hectares de terra cedidos pela Mitra Arquidiocesana de Olinda e Recife a 81 famílias carentes. A doação foi oficializada em setembro de 1982, pelo então arcebispo Dom Hélder Câmara. “Eu trabalhava na Igreja das Fronteiras, nas obras de Frei Francisco, uma instituição ligada a Dom Hélder. Cheguei para contribuir com a organização da comunidade, porque eles doaram o terreno, mas não tinha nada. Lutamos para conseguir água, energia elétrica, posto de saúde e transporte, pois essa região ainda era muito afastada de tudo”, lembra.

Os esforços pela transformação da área em comunidade foram concentrados pela Arquidiocese na Operação Esperança, a cujo relatório sobre o processo de urbanização da área, produzido em 1996, a reportagem teve acesso.

O documento descreve uma área de 223.100 metros quadrados, de topografia plana com duas depressões chamadas lagoa e canal, constantemente alagados. “Uma média de 400 famílias já habitam o loteamento, porém é enorme o seu estado de pobreza, uma vez que: 60% (aproximadamente) das habitações são cobertas de palha com chão batido […]. não existe rede de abastecimento de água, o que justifica o fato das famílias utilizarem precárias cacimbas, pagar bomba (pouquíssimos), não possui rede geral de esgoto e a drenagem das águas fluviais e do consumo doméstico é feita no leito das ruas, os sanitários são improvisados e na falta deste o próprio quintal serve de depósito de dejetos”, descreve o relatório.

Dona Gênova ainda se recorda das plantações de coqueiros que caracterizavam o território, bem como do esforço para erguer as primeiras casas de alvenaria. “Foi um projeto com a Cohab. Na época, ganhei um lote e resolvi vir morar aqui, construir minha casa. Foi a organização da comunidade que tornou nossas conquistas possíveis”, comenta.

Pelos serviços prestados ao Tururu, Gênova foi uma de suas três moradoras de longa data que receberam homenagem do CFT. Agora, os frutos de sua luta se materializam em um Ipê roxo, típico da região, plantado diante do prédio do Instituto Educacional e Social de Artes e Ofícios Dom Hélder Câmara, localizado na Rua Nossa Senhora do Carmo, no Tururu. “É uma emoção grande ser reconhecida por uma juventude tão atuante como uma pessoa que contribuiu com a comunidade. Tentaram construir essa imagem negativa da gente, mas hoje tem uma reação. O Coletivo Tururu mostra a comunidade combativa que somos”, conclui.