Luh Ferreira
Educadora Popular, ativista, doutora em Educação
Encantada com o mundo, indignada com a situação dele
Maranhão – em um estado onde o agro e o governo andam juntos no ataque, comunidades tradicionais se unem para pensar proteção
Maranhão - em um estado onde o agro e o governo andam juntos no ataque, comunidades tradicionais se unem para pensar proteção
Seminário reuniu lideranças rurais, povos indígenas, quilombolas, assentados, camponeses e outras comunidades tradicionais de 20 territórios do interior do Maranhão
No dia 22 de maio, lideranças rurais, povos indígenas, quilombolas, assentados, camponeses e outras comunidades tradicionais de 20 territórios do interior do Maranhão participaram, em São Luís, do “1º Seminário sobre Conhecimentos, Práticas e Desafios Ancestrais Relacionados à Segurança Coletiva de Lideranças Sociais”. O objetivo principal foi discutir formas de proteção integral e sobre o que o programa de proteção oferece, além de identificar suas desproteções. Segundo Márcia Palhano, agente da CPT na Regional do Maranhão, muitos problemas enfrentados pelas comunidades estão profundamente enraizados no próprio Estado.
“Muitas das desproteções que os territórios têm hoje, infelizmente, estão ligadas à estrutura do Estado, que nega os direitos das comunidades e fortalece a ação predatória do agronegócio sobre os territórios, sobre os modos de vida e, sobretudo, sobre as identidades das comunidades tradicionais aqui no Maranhão”, afirmou.
Em relatório divulgado em 2024, a Comissão Pastoral da Terra aponta que do total de conflitos agrários no Brasil, o Maranhão registrou 363 casos de violência contra ocupações de terra, representando 21,6% das ocorrências. A maioria dos casos está relacionada a conflitos por terra, território e recursos naturais. Parte dessa violência se deve à omissão do Estado.
A falta de demarcação e de titulação das comunidades colabora para a violência no estado. De acordo com um relatório do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, existem 2.025 comunidades quilombolas no Maranhão, correspondentes a 24% do total nacional e, nos últimos 30 anos, apenas 74 receberam titulação. A Assembleia Legislativa do Maranhão aprovou em dezembro de 2023 uma Lei Estadual (12.169/2023), sancionada pelo governador Carlos Brandão, suspendendo a regularização fundiária das terras ocupadas por quilombolas e outras comunidades tradicionais, aumentando as violações e facilitando a grilagem de terras.
Durante o seminário, participantes relataram que a contaminação com veneno é uma das ameaças constantes para a subsistência nas comunidades. “Nada escapa da pulverização aérea: as nossas nascentes, nossos riachos, nossos alimentos. Grande parte da nossa economia vem do extrativismo, das plantações e da criação de animais que hoje são afetados diretamente.” Para as lideranças, a estratégia é deliberada. “Essa é uma forma que eles encontraram de pressionar para que a gente desista e saia de nossas terras.” Também atribuíram responsabilidade ao poder público: “O nosso principal vilão hoje é o próprio Estado, que atua direta e indiretamente contra os territórios, porque quando falta fiscalização, há impunidade”, disse uma liderança que, por segurança, não será identificada.
O advogado da CPT que acompanha comunidades quilombolas no interior do estado, Rafael Silva, avalia a relevância e urgência das iniciativas como as do seminário. “Muito importante essa discussão de segurança coletiva de lideranças sociais, especialmente aqui no Maranhão, que tem historicamente um número muito grande de pessoas ameaçadas de morte; são mais de 100 pessoas incluídas só no Programa Defensores, além de coletividades inteiras ameaçadas constantemente.
Há um desafio enorme porque ao mesmo tempo que as pessoas têm que ter estratégias de autoproteção, que não apresentem os locais onde estão, para não vulnerabilizar ainda mais suas situações, elas precisam continuar denunciando no espaço público, que é um espaço em disputa, no qual o agronegócio está o tempo todo tentando colocar as tecnologias de destruição como algo positivo, relacionado a uma ideia idílica de desenvolvimento, mas que os territórios sabem que são formas de destruição do seu modo de ser e viver.”, analisa.
A proposta do encontro surge a partir de uma rede composta pela Comissão Pastoral da Terra (CPT/MA), Escola de Ativismo, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Justiça nos Trilhos (JnT), Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom), Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e Conselho Indigenista Missionário (CIMI), com apoio do Fundo Casa, o evento aconteceu após atividades em territórios de quatro sub-regiões do estado (Baixada Maranhense, Cocais, Sul do Maranhão e Baixo Parnaíba), onde muitas dessas lideranças estão no âmbito do Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH).
No seminário, o uso de agrotóxicos contra comunidades tradicionais foi o principal tema nos relatos de casos graves. Segundo relatório da Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama), da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Maranhão (Fetaema) e do Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia (LEPENG) da UFMA, o Maranhão concentrou o maior número de registros de contaminação por agrotóxicos no país, com 231 comunidades monitoradas em 35 municípios em 2024. Em 2025, o estado voltou a liderar os registros, com 91 ocorrências, seguido pelo Pará, com 11. Entre os municípios mais atingidos estão Brejo, Timbiras, Viana, São Benedito do Rio Preto e Bacabal.
Os fazendeiros da região foram apontados como os principais autores dos ataques, com o registro de 117 casos, enquanto empresários foram identificados em apenas cinco. O relatório informa ainda que não foi possível rastrear os responsáveis em muitos ataques realizados por drones, em sua maioria à noite e nos fins de semana. Para a Rama, isso é “um alerta que pode demonstrar um contexto agudo de subnotificação, medo e o aperfeiçoamento de táticas de intimidação e ocultação pelo agronegócio”. A pesquisa também constatou que 231 comunidades em 35 municípios do Maranhão foram afetadas por pulverizações aéreas de pesticidas em 2024. Segundo a CPT, dos 182 casos desse tipo de prática, registrados no Brasil até meados do ano passado, 156 foram reportados no Maranhão; um aumento de quase dez vezes maior, em comparação com o mesmo período de 2023, quando ainda havia apenas 19 casos.
Durante o seminário em São Luís, uma liderança relatou que o projeto “Guardiões da Floresta”, grupo de vigilância territorial criado em 2012 pela associação Caayuara é um exemplo da importância da autoproteção, após décadas de invasões ocorridas por madeireiros. A iniciativa conta com o trabalho de voluntários que realizam monitoramento na Terra Indígena Araribóia, na cidade de Amarante.
O indígena, da etnia Guajajara, relata que: “Os guardiões fazem um trabalho voluntário, e hoje o nosso território não tem mais invasão de madeireiros, mas através desse trabalho, os guardiões perderam seis vidas defendendo seus direitos, lutando pela terra, floresta e pela vida do povo isolado Awá Guajá, que ainda não tem contato com nossos outros povos”.
As comunidades seguem resistindo em seus territórios, enfrentando injustiças e lutando pelo bem viver.
O PPDDH
O Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas foi instituído pelo Presidente Lula durante seu primeiro mandato, em outubro de 2004, para proteger defensores de direitos humanos, comunicadores e ambientalistas que recebem ameaças relacionadas ao exercício de seu trabalho. No Maranhão, o programa foi lançado em dezembro de 2015 por meio de um acordo com o governo federal. No Maranhão, a gestão é de responsabilidade da Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop) e a execução cabe à Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH). Em 2025, o programa monitorou 1.524 pessoas em todo o Brasil. Do total, três quartos defendiam terras, povos tradicionais ou o meio ambiente. No Maranhão, 147 pessoas são protegidas.
A rede e o dossiê
O seminário realizado em São Luís deu continuidade a um processo iniciado em 2025, quando atores como CPT, Moquibom, MST, a Escola de Ativismo e Associação Justiça nos Trilhos haviam feito visitas às quatro sub-regiões do estado, graças ao apoio mantido pelo Fundo Casa. O plano era ouvir as lideranças sobre as violências e os tipos de resistências antes de compilar tudo em um dossiê que será apresentado em setembro deste ano.
Gracinha Donato, educadora popular e integrante da Escola de Ativismo, explicou como foi parte do processo em cada sub-região, até a realização do seminário. “A gente passou para conversar, conhecer um pouco da realidade, as violências, mas também as formas de defesa e de fortalecimento dos territórios na região dos cocais, que é o Leste Maranhense, na Baixada, no Sul do Maranhão e também no Baixo Parnaíba.” Quanto ao seminário, ela ressaltou que a proteção não vai vir de fora. “Não é o Estado, muitas vezes, quem vai nos fortalecer, senão nós mesmos”, afirmou.
Representando a Associação Justiça nos Trilhos, a advogada e ativista Valdênia Paulino explicou que sua atuação no projeto direciona-se, principalmente, à análise das desproteções sofridas pelas comunidades. “Nós escutamos as lideranças sobre a ausência de políticas públicas fundamentais que deveriam existir nos territórios e elas não chegam como: educação com qualidade, acesso à saúde, principalmente no campo da saúde mental, e a titulação dos territórios”, informou.
Ao fim do seminário, as lideranças retornaram aos seus territórios, levando consigo aquilo que não pode ser garantido por nenhum programa de proteção do Estado: estratégias para o cuidado coletivo; redes de autodefesa entre comunidades; mecanismos de apoio mútuo incorporados às suas próprias experiências, de modo a resistir e enfrentar ameaças recorrentes.
Mais recentes
Entre segurança digital e proteção coletiva: ativismo, democracia e crise climática na Cryptorave
Entre segurança digital e proteção coletiva: ativismo, democracia e crise climática na Cryptorave
Realizado em São Paulo, encontro completou 10 anos de trajetória, sendo referência para ativistas de todo o país
Para movimentos sociais, ativistas, defensores/as, lideranças, comunicadores e comunidades em luta, estar seguro na internet é parte essencial das estratégias de proteção coletiva. As disputas que atravessam os territórios físicos também acontecem nos ambientes digitais, por isso é urgente debater privacidade, segurança digital e autonomia tecnológica. Foi nesse contexto que a Escola de Ativismo esteve presente, neste ano, em mais uma edição da CryptoRave, que completou 10 anos de trajetória.
Com temas voltados para tecnologia, democracia e crise climática, a edição destacou privacidade e proteção de dados, regulação da internet, tecnologia e desigualdades e crise climática e impacto ambiental digital. Mais uma vez, a programação reafirmou sua importância como um dos principais espaços de formação, debate e articulação sobre segurança digital, privacidade, liberdade na rede e soberania tecnológica na América Latina.
Criada em 2014, a CryptoRave surgiu em um contexto marcado pelas denúncias globais que expuseram mecanismos de vigilância promovidos por governos e corporações. Desde então, o evento se consolidou como um esforço coletivo voltado à democratização do conhecimento sobre criptografia, anonimato, software livre, privacidade e segurança digital.
Realizada anualmente na cidade de São Paulo, a CryptoRave promove atividades gratuitas, reunindo milhares de participantes em torno de oficinas, palestras, debates, rodas de conversa, intervenções artísticas e trocas de experiências.
Relação entre ativismo e tecnologia
A Escola de Ativismo acompanha essa trajetória desde o início com o objetivo de contribuir para fortalecer debates, formações e práticas relacionadas ao cuidado, à proteção e à segurança de ativistas, defensores de direitos humanos e movimentos sociais.
Nirvana Lima, pesquisadora e educadora popular em cuidados digitais na Escola de Ativismo, afirma que a CryptoRave é a principal criptofesta do Brasil e da América Latina em termos de público, diversidade temática e abrangência internacional.
“Ao meu ver a CryptoRave representa uma aposta na democratização do conhecimento como um recurso para construção do sentimento de soberania digital nacional e preservação de princípios como segurança digital, privacidade e criptografia na rede, frequentemente atacados pelo vigilantismo das Big Techs”, afirmou .
Com uma década de história, é impossível não olhar retrospectivamente para a história do evento, suas transformações e os caminhos construídos. Didi, colaborador da Escola de Ativismo em temas de tecnologia e segurança digital, relembra que houve uma grande mudança no cenário mundial da tecnologia, da vigilância e da privacidade. O cenário de 10 anos atrás é diferente do cenário de 2026. “A Cryptorave iniciou um diálogo com a sociedade civil sobre as questões da tecnologia, vigilância, segurança e privacidade. Lá em 2014, a tecnologia não fazia parte do dia a dia das pessoas como faz hoje. Os próprios smartphones não eram presenças imperativas no cotidiano das pessoas. E sim, de lá pra cá, o cenário mudou muito”, disse.
Didi lembra que há alguns anos algumas mesas do evento traziam a tecnologia apenas como algo acessório às pautas da sociedade civil e dos movimentos e, em outros momentos, eram as pautas da sociedade civil e dos movimentos que se tornavam acessórias às questões da tecnologia. Com as mudanças na forma dos movimentos utilizarem as tecnologias, a programação foi atualizada.
“Nesta 10ª edição, nos parece que a Cryptorave encontrou uma maturidade, fruto de sua própria história, mas também de um novo contexto econômico, político e social. Agora a tecnologia não pode ser vista separada da sociedade civil, dos coletivos e movimentos sociais, nem esses se veem separados da tecnologia. Um bom exemplo é que não há mais espaço para mesas genéricas com um tema e o complemento ‘e a tecnologia’, e sim palestras como ‘Feminismo popular na construção da soberania tecnológica’, apresentada pela Marcha Mundial das Mulheres (MMM), que efetivamente mostra o caminho que este movimento vem trilhando para a construção de sua soberania”, afirmou.
Ao longo de sua trajetória, a CryptoRave tornou-se um espaço de encontro entre ativistas, movimentos sociais, pesquisadores, jornalistas, desenvolvedores, artistas, educadores populares e pessoas interessadas em construir formas mais seguras, livres e coletivas de existir no ambiente digital. É que discutir segurança digital deixou de ser um tema restrito a especialistas e passou a ser assunto fundamental para a proteção coletiva dentro das comunidades e dentro das lutas sociais. Que venham as próximas edições.
Mais recentes
Tribunal Popular do Maranhão responsabiliza Estado, empresas e fazendeiros por violações contra comunidades tradicionais
Iniciativa foi organizada por comunidades tradicionais, com apoio da CPT Maranhão e MOQUIBOM, em parceria com a Escola de Ativismo, com o objetivo de denunciar crimes e violações que atingem territórios tradicionais sem a devida investigação e punição dos envolvidos.
Entre os dias 5 e 7 de maio, em São Luís, comunidades tradicionais se reuniram no Tribunal dos Povos do Maranhão para denunciar violações de direitos e os impactos da expansão do agronegócio sobre seus territórios. O julgamento simbólico colocou no banco dos réus o Estado, empresas e fazendeiros denunciados por crimes socioambientais, grilagem de terras, violência contra comunidades e outras violações em territórios maranhenses. Ao longo das audiências, cinco casos ou conjuntos de casos apresentados pelas comunidades atingidas foram analisados e julgados pelo tribunal popular, que terminou com sentenças simbólicas responsabilizando os culpados pelas graves violações denunciadas.
A iniciativa foi organizada por comunidades tradicionais, com apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT Maranhão), Movimento Quilombola do Maranhão (MOQUIBOM) com o objetivo de denunciar crimes e violações que há décadas atingem povos e territórios tradicionais sem a devida investigação, responsabilização e punição dos envolvidos. A iniciativa reuniu cerca de 100 pessoas, incluindo lideranças quilombolas, quebradeiras de coco, lavradores e famílias camponesas que há décadas enfrentam grilagem, expulsões, desmatamento, perseguições, assassinatos e outras violações provocadas pelo avanço do agronegócio.
Os três dias de julgamento popular reuniram depoimentos e denúncias de cinco territórios afetados pelo avanço do agronegócio e por violações de direitos no Maranhão:
-Travessia do Mirador, no município de Mirador
-Quilombo Santa Maria dos Moreiras e Quilombo São Benedito dos Colocados, no município de Codó
-Quilombo Jacarezinho, no município de São João do Sóter
-Território Campestre, no município de Timbiras, e as comunidades de quebradeiras de coco babaçu Vila São Pedro, Cajá e Centro dos Pretinhos, no município de Dom Pedro
-Quilombo Tanque da Rodagem/São João, no município de Matões, e quilombos Cocalinho e Guerreiro, em Parnarama
Cada caso expôs as situações de violência, violações de direitos e impactos provocados pelo avanço do agronegócio sobre o território. O caso da Travessia do Mirador, por exemplo, expôs a realidade enfrentada por comunidades tradicionais que vivem em um território ancestral localizado no Centro-Sul do Maranhão, na região do Cerrado da Amazônia Legal, abrangendo os municípios de Mirador, Fernando Falcão e Formosa da Serra Negra. O território abriga 79 comunidades e cerca de 300 famílias tradicionais que vivem na região desde o século XIX.
Os relatos apresentados denunciaram um cenário marcado pela grilagem de terras públicas, avanço das monoculturas de soja e cana-de-açúcar e pela pulverização sistemática de agrotóxicos sobre os territórios. Segundo as denúncias, as nascentes do rio Itapecuru recuaram cerca de 500 metros e os rios da região foram contaminados, afetando diretamente a vida das comunidades. Também foram denunciadas ações de violência estatal, incluindo abordagens consideradas truculentas por parte da Polícia Ambiental contra moradores do território.
Sentenças
Na sentença popular, o Estado foi responsabilizado tanto por ações quanto por omissões relacionadas às violações denunciadas. A Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Estado, por exemplo, foi responsabilizada por emitir licenças ambientais sem a devida consulta prévia, livre e informada, além de autorizações de pulverização aérea de agrotóxicos em zonas de amortecimento e limítrofes de unidades de conservação de proteção integral. O Instituto de Terras do Maranhão, o Iterma, e outros órgãos estaduais foram responsabilizados pela omissão no combate à “grilagem verde” pelo agronegócio ao não impedirem o registro de Cadastro Ambiental Rural sobrepostos ao Parque Estadual do Mirador.
Já o caso do Quilombo Jacarezinho, um dos mais emblemáticos do Tribunal por ter culminado no assassinato da liderança quilombola Edvaldo Pereira Rocha, de 52 anos, em abril de 2022, a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão foi responsabilizada por, até hoje, não ter identificado o mandante do crime. O executor do assassinato chegou a ser preso, mas após ser posto em liberdade por uma medida cautelar, rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu, não tendo sido encontrado até o momento.
As denúncias de violência no caso do quilombo Jacarezinho, que ainda não tem sua titulação definitiva, apontam para uma pressão intensa de sojicultores na região para tomar o território ancestral por meio da grilagem de terras, pelo uso extensivo de agrotóxicos e ameaças às lideranças, como foi o caso de Edvaldo Pereira Rocha.
A Sema também foi responsabilizada nesse caso por desrespeitar a devida consulta livre, prévia e informada aos quilombolas nos processos de licenciamento de empreendimentos potencialmente danosos ao território. Em portaria recente, de 2025, a Sema introduziu alterações procedimentais que violam os padrões da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, OIT, que determina a consulta livre, prévia e informada. Algumas das alterações são a restrição da consulta à Área Diretamente Afetada (ADA) e a flexibilização do momento da consulta, que deixaria de ser prévia, levando à perda da autonomia comunitária diante da dimensão dos impactos e da decisão sobre aceitá-los ou não.
Pressão contra a omissão do Estado
Márcia Palhano, agente de base da CPT/MA, afirma que o Tribunal Popular nasce da necessidade das comunidades denunciarem os crimes cometidos contra seus territórios há décadas. “Estamos falando de crimes que já foram e continuam sendo denunciados constantemente ao estado. O Tribunal vem dar voz a essas comunidades para essas denúncias para que esses crimes sejam devidamente investigados e punidos, e que os órgãos competentes do estado do Maranhão se responsabilizem por essa realidade de violência que tem cada vez mais se intensificado nos territórios. Sobretudo onde as comunidades estão fazendo a resistência e a defesa dos seus territórios, a defesa dos seus modos de vida e das suas identidades”, disse.
Márcia afirma que o poder público deve tomar providências urgentes para a proteção dentro dos territórios. “Nós estamos falando da morosidade do estado do Maranhão em investigar e punir de forma devida e coerente a realidade da violência que as comunidades vivem no estado do Maranhão. Esses crimes precisam ser investigados, esses violadores precisam ser punidos e nós precisamos garantir que as comunidades possam permanecer nos seus territórios, que seus modos de vida sejam garantidos e que elas possam ter segurança alimentar”.
Dados do relatório Conflitos no Campo Brasil da CPT informam que em em 2025 foram registradas 1.286 ocorrências de conflitos por terra no Brasil, sendo a maioria no estado do Maranhão, que segue liderando os casos de violência por terra (190 registros).
Povos quilombolas estão entre as principais vítimas da violência no campo em todo o Brasil. No Maranhão, denúncias de grilagem, ameaças, contaminação por agrotóxicos e demora na regularização dos territórios fazem parte da realidade enfrentada por muitas comunidades. Por isso, o Movimento Quilombola do Maranhão, o MOQUIBOM, também integra a organização do Tribunal dos Povos do Maranhão.
Para Emília Costa, integrante do movimento, o tribunal representa um espaço de escuta, denúncia e fortalecimento das comunidades atingidas pela violência no MATOPIBA.“O tribunal popular é um espaço de denúncia para as comunidades que estão nesse corredor de violência do MATOPIBA há vários anos. E com o tribunal a gente pretende fortalecer os territórios, denunciar o Estado brasileiro e também responsabilizá-lo por não regularizar as áreas de assentamento, os territórios quilombolas, dos camponeses que estão aqui. Essa omissão tem gerado todo esse processo de violência”.
Proteção das lideranças ameaçadas
Entre as organizações parceiras da iniciativa está a Escola de Ativismo, que realizou, junto à CPT/MA e ao Moquibom, ações voltadas ao fortalecimento territorial das comunidades e à proteção das lideranças ameaçadas. As atividades tiveram como foco o cuidado, troca e construção coletiva de estratégias de proteção e autonomia das lideranças, fortalecendo a capacidade de organização, denúncia e resistência das comunidades tradicionais diante dos conflitos em seus territórios.
Gracinha Donato, da diretoria da Escola de Ativismo, acompanhou o Tribunal Popular e presenciou a resistência das comunidades. “‘Somos sementes teimosas’, assim disse uma das lideranças presentes no Tribunal. A teimosia está em nós. Mesmo que tentem calar as comunidades, elas se erguem, desatam os nós da injustiça, da violência provocada pelas investidas do agronegócio, sobretudo quando se trata da região do MATOPIBA. Nos juntamos às vozes dos diversos territórios que lutam contra o ecogenocídio no estado do MA, o estado que mais mata quilombolas no Brasil, com a força de toda a ancestralidade, para compartilhar as lutas cotidianas das comunidades tradicionais, quilombolas, camponeses e camponeses reunidos nestes dias de escuta durante o Tribunal dos Povos do MAR para reafirmar que todo o povo, as palmeiras, a floresta, os rios seguem firmes na defesa dos seus direitos, pelo seus territórios livres de cercas e amarras, seguem na resistência com seus tambores, vozes e saias coloridas, com seus pés de buriti e de mangaba, seus rezos e raízes”, afirmou Gracinha.
Mesmo sem integrar o sistema formal de justiça, o “Tribunal dos Povos do Maranhão contra o ecogenocídio do Matopiba: em defesa da vida e dos territórios” se consolidou como um importante espaço de escuta e denúncia das violências sofridas por povos e comunidades tradicionais. Construído coletivamente, o tribunal também reforça a luta por justiça, reparação e garantia do direito aos territórios ancestrais e à preservação da vida e da natureza.
Com o fim dos ritos do tribunal, o próximo passo é reunir todas as denúncias e sentenças sistematizadas e apresentá-las aos órgãos oficiais de justiça, como Ministérios Públicos, Defensorias Públicas, além de secretarias e outras pastas dos governos estadual e federal para levar adiante a responsabilização e punição dos responsáveis pelas violações. Estão previstas ainda ações de incidência nacional e internacional para evidenciar os crimes de ecogenocídio do MATOPIBA, impulsionados pela expansão da fronteira agrícola para abastecer o mercado internacional com commodities como soja, milho e minério de ferro.
Newsletter
Mais recentes
A defesa do Tapajós também passa por uma escola de militância; conheça a EMSA
A defesa do Tapajós também passa por uma escola de militância; conheça a EMSA
Escola de Militância Socioambiental Amazônida (EMSA) une saberes tradicionais, locais e ferramentas práticas de mobilização para defender territórios, as águas e o bem-viver.
Já pensou se existisse no Brasil uma escola criada para compartilhar saberes e fortalecer povos que vivem em territórios ameaçados por empreendimentos na Amazônia? Essa ideia já é realidade. Criada em 2022 pelo Movimento Tapajós Vivo (MTV) em parceria com a Escola de Ativismo e outras organizações, a Escola de Militância Socioambiental Amazônida (EMSA) se consolidou como um espaço de educação popular que fortalece coletivos na bacia do Tapajós, que engaja a militância na região e que prepara comunidades para a defesa dos territórios, das águas e do bem-viver.
A EMSA nasceu percorrendo os rios e territórios da bacia do Tapajós, trazendo consigo a força e a resistência dos povos que habitam suas margens. Ela é uma forma de defesa para quem precisa proteger os próprios direitos e os direitos da natureza. Por meio de formações de base, a EMSA atua junto a ativistas que estão mobilizados para enfrentar disputas e ameaças ao território, avanço do agronegócio, da mineração, do desmatamento e do garimpo.
Militantes do Movimento Tapajós Vivo sonhavam com a Escola desde 2019 quando foi realizado o Encontro das Águas em Santarém (PA). Na época, movimentos e organizações da bacia do rio Tapajós (Juruena e Teles Pires), com participação também dos rios Madeira, Amazonas e Xingu, se reuniram para debater sobre as ameaças à bacia do Tapajós e à vida dos povos da região. No encontro foram pensadas maneiras de fortalecer a luta pela vida dos povos da bacia e surgiu a ideia de realizar formação de base dos militantes destes territórios. No mesmo ano foi construída a proposta de uma escola de formação para militância de base da Amazônia. É dentro desse cenário que surge o que vem ser hoje a EMSA.
Lucidalva Nascimento é militante do Movimento Tapajós Vivo e educadora popular na EMSA – Na foto ela aparece tocando tambor em uma atividade cultural
Lucidalva Nascimento, militante do Movimento Tapajós Vivo e Educadora Popular na EMSA, afirma que a Escola “instiga, reflete e atiça o formigueiro das organizações da bacia do Tapajós”. Ela conta que durante as caravanas na defesa dos rios e dos modos de vida dos povos que sempre viveram nesses territórios foi possível perceber a necessidade de formação política.
“Foi aí que se pensou em uma escola que trabalhe a consciência crítica de militantes a respeito das violências e políticas de morte para os territórios. Nós temos a certeza que a escola contribuiu e continua contribuindo para a formação de mulheres, jovens, crianças, porque é um espaço para elas estarem juntas também e pessoas de todas e idades”, disse Lucidalva.
A proposta parte da realidade vivida nos territórios e as formações são construídas a partir das demandas das comunidades, unindo saberes tradicionais com conhecimentos científicos, análise de conjuntura e ferramentas práticas de comunicação e mobilização. A missão da EMSA é oferecer conhecimentos e partilhas de saberes e o objetivo é formar pessoas capazes de defender seus territórios e fortalecer as lutas coletivas.
Inspirada na pedagogia de Paulo Freire, a EMSA valoriza os diversos saberes na construção do conhecimento. Sem paredes e sem cadeiras enfileiradas e longe da padronização comum nas escolas, a EMSA não tem prédio próprio e pode acontecer em qualquer lugar. A sombra de uma árvore e as margens de um rio podem ser locais de aprendizado de forma horizontal, participativa e democrática, sempre valorizando o diálogo, a troca de experiências e os saberes populares e locais. Ao longo do percurso, temas como crise climática, comunicação popular, segurança digital já foram abordados. Atualmente a EMSA fortalece o debate sobre governança hídrica no Tapajós.
“Hoje vemos muitos alunos que são engajados na comunicação popular, nas ações diretas e nas mobilizações. Sabemos que fazer educação popular é um trabalho de formiguinha. O movimento Tapajós Vivo está à frente dessa escola porque acredita que a educação é capaz de mover o mundo e de enfrentar os monstros que nos oprimem, que destrói a mãe natureza. Nós acreditamos que unidos nós somos gigantes”, afirmou a educadora popular.
Ela conta que para quem participou de atividades da Escola, “floresceu o companheirismo, a união e fortaleceu a compreensão do que é ser militante. Acreditamos que a EMSA fortaleceu o espírito de lideranças daqueles que ainda se sentiam tímidos e com medo. Com certeza para essas pessoas os conhecimentos construídos na escola lhe deram mais propriedade para falar e para lutar em defesa de seu território e de seus rios”.
“Hoje vemos muitos alunos que são engajados na comunicação popular, nas ações diretas e nas mobilizações. Sabemos que fazer educação popular é um trabalho de formiguinha. O movimento Tapajós Vivo está à frente dessa escola porque acredita que a educação é capaz de mover o mundo e de enfrentar os monstros que nos oprimem, que destrói a mãe natureza. Nós acreditamos que unidos nós somos gigantes”.
Um exemplo recente dessa força foi a mobilização em Santarém que foi decisiva para a revogação do Decreto 12.600/25 que ameaçava os rios Tapajós, Madeira e Tocantins. A revogação foi resultado de mais de 30 dias de luta e pressão de povos indígenas na sede da Cargill.
Alice de Matos, militante do Movimento Tapajós Vivo e educadora popular na EMSA conta que educadores/as, alunos e alunas da EMSA participaram do ato de resistência.
“Foi emocionante ver muitos desses jovens protagonizando a ocupação em Santarém contra o decreto 12.600/2025, reafirmando que a formação política e popular gera frutos concretos na luta. Entre eles está Jander Arapiun, hoje comunicador do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA), organização que representa os 14 povos indígenas da região do Baixo Tapajós. Sua trajetória expressa a potência da formação popular como instrumento de resistência, autonomia e defesa coletiva do território”, disse.
Alice Matos é educadora popular na EMSA. Na foto ela aparece com cabelos crespos pintados de roxo, usa blusa branca e acessórios vermelhos.
Alice explica que o Movimento Tapajós Vivo direciona temas e projetos para fortalecer as ações de educação no âmbito da EMSA, compreendendo a formação como eixo estratégico da luta.
“A educação popular que orienta esse processo é construída coletivamente, em diálogo permanente com a realidade dos movimentos, adaptando-se às necessidades do território. Nosso anseio é que a EMSA se multiplique em todos os territórios, que seu projeto político pedagógico atravesse fronteiras e que possamos seguir plantando e espalhando sementes de militância, fortalecendo a organização popular e a defesa da vida”, contou Alice.
O primeiro ano da escola de militância foi essencial para experimentar métodos e fortalecer as organizações e movimentos que resistem na Amazônia. As educadoras populares lembram que em 2022 foram realizados seis módulos presenciais e dois seminários de forma online. Os temas debatidos foram: sociopolítica, mobilização e agitação e comunicação popular. Na época foi possível levar alunos para espaços de grandes debates, como Audiência Pública que debateu os impactos da contaminação mercurial na bacia do Tapajós e criação do Fórum de Combate à Contaminação de Mercúrio. Para a maioria, foi a primeira vez em uma Audiência Pública, assim como a participação em uma ação direta. As ações contaram com a parceria da Escola de Ativismo, Rede Juruena Vivo e Tapajós de Fato.
Uma outra atividade importante no primeiro ano da EMSA foi a participação no X Fórum Social Pan Amazônico (FOSPA) em Belém – iniciativa que também contou com o envolvimento da Escola de Ativismo. O fórum é um espaço de articulação, ação e reflexão sobre a bacia amazônica que atravessa o Brasil e vários países e que é pensado para articular agendas de organizações e redes amazônicas e dar visibilidade às propostas para a defesa da Amazônia, contra as mudanças climáticas e a convivência intercultural.
A participação da coalizão e da EMSA foi marcada pela presença da figura de um pirarucu gigante e de faixas na marcha de abertura do FOSPA. A experiência foi positiva para os alunos que participaram pela primeira vez do maior fórum internacional organizado pelos Movimentos Sociais da Amazônia, tendo a oportunidade de troca e conexão com as Amazônias.
Pirarucu gigante foi levado para manifestação no FOSPA
Os impactos das formações promovidas pela EMSA são percebidos na vida e na atuação de quem já passou pela escola. Nascida na comunidade do Cururu, Lago Grande do Curuai, Ozenilma da Silva Costa, indígena do povo Tapajó, relata mudanças positivas na sua trajetória de militância. A cantora de carimbó e militante do Movimento Tapajós Vivo conta que participou de aulas na EMSA em 2023 e percebeu, na prática, muitos reflexos positivos do que aprendeu.
“Vejo também essas reverberações em outros companheiros que encontro nas mobilizações no Tapajós, seja na comunicação popular ou na atuação em seus territórios e coletivos, movimentos, organizações. Em todos os espaços que estou levo um pouco do que me foi repassado”, disse.
A militante indígena conta que com a experiência e por meio dessa conexão e aprendizado sobre temáticas abordadas nos módulos “foi possível perceber que a luta também se faz a partir da educação popular de base e que o conhecimento é de fato uma ferramenta poderosa capaz de transformar realidades somando na proteção dos nossos territórios”.
Ozenilma é militante indígena e participou de atividades da EMSA. Na foto ela aparece usando cocar e erguendo um maracá
A Escola de Militância Socioambiental Amazônida é a prova de que a educação popular feita pelos povos fortalece a consciência para a transformação social. Isso acontece quando as próprias comunidades participam do processo educativo e constroem juntas soluções para os problemas ambientais.
“Acredito que EMSA semeia sementes que estão ajudando a reflorestar mentes e espaços para que o futuro seja, de fato, ancestral”, finalizou a artista indígena.
Efeito estufa
Newsletter
Mais recentes
Inscrições abertas para Microbolsa de Reportagem Comboio: Transição Energética Justa e Popular no Setor de Transportes de Cargas no Brasil!
Inscrições abertas para Microbolsa de Reportagem Comboio: Transição Energética Justa e Popular no Setor de Transportes de Cargas no Brasil!
Leia o edital e saiba como se inscrever
A Escola de Ativismo e o site ((o))eco procuram reportagens em texto sobre transição energética no setor de transportes no Brasil, com foco em cargas pesadas, em três grandes eixos: descarbonização do transporte rodoviário de cargas médias e pesadas a partir da eletrificação, alternativas tecnológicas e impacto; minerais da transição energética: lítio, mineração e conflitos socioambientais na descarbonização do transporte de cargas; e justiça socioambiental no transporte de cargas no Brasil.
A bolsa, que tem o valor de R$ 3.000, está aberta para qualquer pessoa jornalista ou comunicadora do país. Para saber mais e inscrever sua ideia, acesse o edital completo por aqui ou leia ele na íntegra abaixo. As inscrições vão até o dia 18/02/2026!
Edital Microbolsas de Reportagem Comboio: Transição Energética Justa e Popular no Setor de Transportes de Cargas no Brasil
1. Contexto
A crise climática, gerada pela emissão de gases de efeito estufa a partir dos combustíveis fósseis, impõe a necessidade de uma transição energética. O aquecimento global, e seus impactos, mostra como é essencial a diversificação da matriz energética brasileira e alternativas socioeconômicas de baixo carbono, que priorizem modos coletivos de posse e gestão da terra, territórios e recursos naturais; transformações das relações de trabalho e do reconhecimento de direitos da natureza e seus entes, rios e seres.
Uma avaliação recente da BloombergNEF avalia que o Brasil terá que investir até US$ 6 trilhões até 2050 para acelerar a descarbonização de sua economia. O principal desafio apontado são as emissões do setor de transportes, que representam mais da metade das emissões do setor energético do país, segundo o Balanço Energético Nacional 2024. As emissões dos meios de transporte se dão especialmente por conta da queima de combustíveis fósseis, como diesel e gasolina, e em motores a combustão. Nesse sentido, a eletrificação da frota é uma solução a ser considerada, principalmente para as cargas pesadas, como os caminhões.
Diante disso, o Lab Justa é um laboratório criativo da Escola de Ativismo que tem como objetivo fomentar ideias e discussões necessárias e inéditas sobre transição energética justa e popular no Brasil. Como parte do programa, lançamos este edital, em parceria com a organização de mídia ((o))eco, para a produção de reportagens em texto sobre o tema.
2. Sobre a Microbolsa
Procuramos reportagens, em formato de texto, sobre transição energética no setor de transportes no Brasil, com foco em transportes de cargas pesadas como caminhões de médio e grande porte, em três eixos prioritários:
→ Descarbonização do transporte rodoviário de cargas médias e pesadas a partir da eletrificação, alternativas tecnológicas e impactos
Neste eixo, podem ser abordados temas como a contribuição dos caminhões médios e pesados movidos a diesel para o agravamento da crise climática; desafios, vantagens e desvantagens da eletrificação de frotas de caminhões para o enfrentamento da crise climática e redução de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) no transporte rodoviário; infraestrutura e impactos do transporte de cargas pesadas na biodiversidade, como fauna e flora de biomas; exemplos de experiências concretas brasileiras na eletrificação dos transportes; tecnologias e caminhos possíveis além da eletrificação, como os biocombustíveis, o biodiesel, o etanol, o HVO, o SAF e os veículos com célula-combustível, mostrando a diversidade de soluções que podem contribuir para descarbonizar o setor de transportes de forma justa e inclusiva; o futuro da transição no setor de transportes a partir de uma base concreta de dados e projeções etc.
→ Minerais da transição energética: lítio, mineração e conflitos socioambientais na descarbonização do transporte de cargas
Neste eixo, podem ser abordados temas como os impactos das baterias e da cadeia do lítio, destacando o papel da mineração na descarbonização do setor de cargas pesadas; como os minerais estratégicos ou raros podem e/ou já estão gerando novas pressões socioambientais em territórios brasileiros; a relação da mineração usada para mobilidade com Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) brasileiras etc.
→ Justiça socioambiental no transporte de cargas no Brasil
Neste eixo, podem ser abordados temas como o setor trabalhista e direitos dos trabalhadores, se conectados com questões climáticas e ambientais; monopólio e lobby de empresas do setor de caminhões e sua influência para o não cumprimendo das NDCs brasileiras; o impacto dos caminhões em populações de contexto urbano, terras indígenas, quilombos ou outros territórios tradicionais; frotas de cargas pesadas e suas relações com grandes setores do Brasil, como agronegócio; poluição do ar gerada pela emissão de gases de efeito estufa do transporte de cargas; iniciativas populares alternativas para geração de energia e transporte de cargas no Brasil etc.
3. Critérios de participação
3.1 Podem se inscrever pessoas jornalistas e comunicadoras brasileiras, sem restrição de idade;
3.2 As inscrições neste edital são de caráter individual, sendo permitido o envio de múltiplas propostas por pessoa; considere que apenas uma poderá ser escolhida;
3.3 Cada participante terá o aporte de R$3.000,00 para a produção da reportagem, além de suporte editorial contínuo da equipe da Escola de Ativismo e uma oficina formativa sobre o assunto;
3.4 As reportagens serão publicadas nas redes sociais e site da Escola de Ativismo e nas redes sociais e site do ((o))eco. Quando aprovadas, as pessoas criadoras terão autonomia criativa para desenvolver o projeto, mas deverão seguir as diretrizes estabelecidas e alinhadas no processo seletivo pelas instituições promotoras deste edital.
3.5 Para se inscrever, basta responder o formulário de inscrição até o dia 18/02/2026, às 23h59, no horário de Brasília.
4. Critérios de seleção
A seleção levará em conta os seguintes critérios:
→ Consistência: A ideia principal, o contexto e o valor geral para o público-alvo estão definidos com clareza? Sua proposta traz novas perspectivas para o tópico ou oferece um novo ângulo?
→ Relevância: A proposta atende aos critérios e objetivos da chamada? Por que esta história é importante, e para quem?
→ Afinidade da pessoa proponente: A pessoa proponente demonstra afinidade com a pauta? Existem trabalhos anteriores publicados sobre o tema? Existe proximidade física/regional com a pauta?
→ Recursos e métodos jornalísticos a serem utilizados: A pessoa proponente demonstra domínio dos recursos e métodos que serão utilizados na pauta? Por exemplo: se há uma proposta com fotorreportagem, o proponente tem domínio técnico e estéticos sobre a linguagem?
→ Segurança no campo: Em caso de propostas que tenham previsão de viagem de campo, o quão seguro é a região onde a pessoa proponente pretende visitar? Há orçamento suficiente para a viagem de campo?
→ Impacto: A proposta tem um elemento narrativo ou de investigação convincente que irá informar e engajar, chamar a atenção, desencadear o debate e estimular a ação? A proposta poderá influir em políticas públicas ou ações institucionais?
A seleção será realizada por profissionais da Escola de Ativismo e do ((o))eco a partir dos critérios elencados acima. Além disso, ressaltamos que este edital incentiva candidaturas de pessoas negras, quilombolas e indígenas, assim como de mulheres, LGBTQIAP+, pessoas com deficiência e pertencentes a grupos sociais minorizados. Nos comprometemos a priorizar tais candidaturas.
Atenção: propostas que utilizarem inteligência artificial serão desclassificadas do processo seletivo.
5. Cronograma
Publicação do edital: 26/01/2025
Inscrições: de 26/01/2026 a 17/02/2026
Seleção: 18/02/2026 a 15/03/2026
Resultado: 16/03/2026
Produção da reportagem: 16/03/2026 a 27/04/2026
Envio da primeira versão da reportagem: 28/04/2026
Publicação da reportagem: primeira quinzena de maio de 2026
6. Perguntas frequentes
Posso fazer junto com meu coletivo ou com outras pessoas? Sim, claro! Mas a microbolsa será paga somente ao proponente do edital, que será responsável por dividir o recurso com as outras pessoas, caso seja este o acordo.
Posso usar um conteúdo que já está pronto e nunca divulguei? Buscamos propostas originais e inéditas, por isso não iremos contemplar conteúdos que já foram produzidos e/ou publicados.
Vou receber os créditos pelo trabalho?
Sim, todos os materiais receberão os devidos créditos e serão publicados sob licença Creative Commons 3.0.
A Escola de Ativismo e ((o))eco vão participar da produção do conteúdo? A equipe do Programa Comboio, da Escola de Ativismo, com apoio de ((o))eco, irá selecionar as melhores propostas e acompanhar sua realização, além de oferecer uma oficina formativa no decorrer da produção. Isso será feito por meio de uma reunião prévia para oferecer suporte na execução e pactuar orientações; depois, na entrega da primeira versão, com uma edição conjunta; e, por fim, com uma edição final com profissionais de ((o))eco.
Dúvidas e considerações, escreva para programacomboio@proton.me.
Acesse o formulário de inscrição.
Da defesa do clima à da democracia (a luta é a mesma)
Da defesa do clima à da democracia (a luta é a mesma)
Se você pensar em uma palavra que atravessou o dia a dia das pessoas ativistas do Brasil em 2025 é difícil de escapar de uma de três letras: COP.
Não só a conferência das partes, de portas restritas para a ampla maioria da base ativista, mas tudo que aconteceu ao redor dela. Conferências preparatórias, direcionamentos editoriais de páginas e sites, conversas, organizações de eventos paralelos e mobilização, entre as pessoas escolhidas, para tentar fazer a diferença dentro da Blue Zone e da Green Zone. “Clima” foi a palavra de ordem e dificilmente saímos iguais desse ano. Ainda bem: vivemos uma crise climática sem precedentes e as respostas são urgentes.
A COP, que por 29 edições mobilizou um nicho mais restrito dos ativistas e movimentos sociais brasileiros, diretamente ligados à pauta da crise climática, se tornou um ponto focal de uma mobilização muito mais imensa.
Foi difícil encontrar algum espectro político ativista, de povos tradicionais, progressista, antirracista, feminista, LGBTQIAPN+, militante, sociedade civil, ONGs, ambientalistas, de movimentos sociais, partidos de esquerda, anarquistas, enfim, alguma corrente da galera que sonha e inventa outro mundo que não estivesse lá. De nariz torcido para a Conferência das Partes ou se engajando ativamente nas negociações, muita gente esteve em Belém – ou nas atividades e articulações que antecederam.
Dessa COP expandida, saíram espaços potentes de articulação, confabulação, aprendizagem e solidariedade. Forjamos alianças e fortalecemos laços. Fizemos marchas, ações diretas, denunciamos a hipocrisia das megacorporações e governos. Movimentos indígenas fizeram ocupações que colocaram em cheque a conferência e pressionaram o governo, arrancando na unha o anúncio da demarcação de dez terras indígenas – uma extensão do tamanho da Paraíba – além de avanços em outros dez processos.
No horizonte, no entanto, um evento que é um velho conhecido da militância. Nem tão velho assim, na verdade: as eleições gerais completam 37 anos em 2026. E foi por pouco, depois do susto que tomamos em 2022 e 2023, quando a democracia, mais uma vez, mesmo que incompleta, quase nos deixou de golpe.
Enquanto escrevemos esse texto, o PL da Dosimetria, que diminui as penas para crimes de golpe de estado – não tem como dar errado, né? – vai sendo aprovada no Congresso mais inimigo do povo que esses 37 anos tiveram o desprazer de ver. O mesmo Congresso que tenta empurrar goela abaixo a destruição do meio ambiente, o PL da Devastação e o Marco Temporal. A extrema direita mostra seus dentes e avança para ganhar ainda mais poder onde for possível: Câmara dos Deputados, assembléias estaduais, Senado – que abrirá duas vagas para oito anos!, governos estaduais e presidência. A disputa vai ser dura.
Mesmo sem muita ilusão de que a mudança passa por aí, é difícil, à luz do que vimos na última década, negar o estrago feito pelo conservadorismo e pela extrema direita. E tendo um Congresso tão empenhado em transformar a natureza em dólares e ouro, fica difícil negar a máxima de que sem enfrentar a extrema direita que representa o que há de mais predatório e negacionista, não teremos justiça climática. E sem justiça climática, também fica nítido, não teremos democracia.
Então nosso desejo é de que possamos, sobre os trilhos da solidariedade que construímos em 2025, enfrentar os desafios de 2026. Enfrentar de frente, de cabeça erguida e apontando os responsáveis por esse buraco em que nos encontramos. Que defendamos, todes, todas e todos territórios, vidas, o clima e a democracia. E que partamos para cima, pensando qual projeto de mundo queremos construir e oferecer para sociedade – e que ele seja repleto de bem-viver!
Até a próxima trincheira, até 2026! Descansem, militantes! Que amanhã tem mais.
Com carinho,
Escola de Ativismo
Mais recentes
Ativistas “pulverizam” entrada da Agrizone em protesto contra agrotóxicos no Cerrado
Ativistas "pulverizam" entrada da Agrizone em protesto contra agrotóxicos no Cerrado
70% dos agrotóxicos consumidos no Brasil são despejados no Cerrado; manifestação acontece na entrada da Agrizone durante a manhã de quinta-feira (20)
Foto: José Marcos/Tapajós de Fato
Agentes pulverizadores com faixas que mencionam empresas como Bayer e Nestlé integraram uma manifestação pacífica na porta da Agrizone na manhã desta quinta-feira (20). Escanteado do centro dos debates sobre soluções climáticas e das negociações da COP 30, a Conferência das Partes que acontece em Belém (PA), o Cerrado é a pauta da iniciativa a fim de chamar atenção para a contaminação por agrotóxicos que ocorre na região e afeta a saúde de seus povos, a sua sociobiodiversidade e a população brasileira.
As faixas denunciam o uso abusivo de agrotóxicos no Brasil e seus impactos principalmente no Cerrado. Também reivindicam regulação internacional do uso de agrotóxicos, já que diversas substâncias nocivas já proibidas na União Europeia continuam sendo utilizadas no Brasil sem nenhum tipo de restrição. Manifestantes trajados e paramentados com equipamentos de pulverização representam os trabalhadores rurais responsáveis pela aplicação dos produtos químicos nas lavouras – os mais afetados em casos de intoxicação por pesticidas.
Agrizone é a área dedicada ao agronegócio na COP 30 e reúne as principais lideranças do setor. Para funcionar como uma vitrine do agro, o espaço é financiado por grandes empresas como Bayer e Nestlé, além de entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A iniciativa tem o apoio do governo federal por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a anfitriã do evento, e mira no debate da chamada Agenda Positiva do Agro 2025, visando influenciar nas negociações climáticas.
Contaminação no Cerrado
Apenas em 2024 foram registrados 27 casos de contaminação por agrotóxico no Cerrado, sendo 20 ocorrências apenas no Maranhão, conforme aponta o Relatório Conflitos no Campo Brasil, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O Centro de Documentação da CPT entende, porém, que o número real de casos é maior do que o registrado, já que é difícil sistematizar esse tipo de ocorrência em áreas rurais onde há pouca ou nenhuma estrutura de políticas públicas de atendimento e notificação de saúde nas proximidades.
“As grandes monoculturas do agronegócio afetam diretamente as comunidades e os povos do Cerrado na essência de seus modos de vida tradicionais, baseados na produção de alimentos saudáveis e na relação harmônica com as florestas, com as águas e com a biodiversidade. Lutar contra os agrotóxicos é lutar por essas vidas, pelas nossas vidas e pela defesa do Cerrado em pé”, destaca Isolete Wichinieski, coordenadora da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revelam que, em média, são despejados 600 milhões de litros de agrotóxicos anualmente no Cerrado, o que corresponde a mais de 70% do total consumido no país. Dossiê elaborado pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado em parceria com a Fiocruz identificou 9 tipos de agrotóxicos em pesquisa que analisou a qualidade da água em comunidades de 7 estados do Cerrado.
“Na Europa é proibido e no Brasil vale tudo?”
Do ponto de vista global, a principal reivindicação é pela padronização da regulação internacional dos agrotóxicos, como explica Jakeline Pivato, da coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. “É mais que urgente a necessidade de uma padronização internacional. Hoje, países e corporações do norte global, como a própria União Europeia, possuem legislações restritivas mas vendem substâncias proibidas em seus próprios territórios para nações do Sul, como o Brasil. Dos 10 agrotóxicos mais consumidos em nosso país, sete são banidos na Europa”, relata.
De acordo com levantamento da Agência Pública e da Repórter Brasil, mais de 1.800 agrotóxicos foram aprovados para uso durante o governo Bolsonaro (2019-2022) e cerca de metade desses produtos é proibida na Europa atualmente. A pesquisa também revela que mais de 14 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos no Brasil entre janeiro 2019 a março 2022, o que ocasionou 439 mortes neste período.
Apesar da herança catastrófica, pouco ou quase nada foi feito pelo atual governo brasileiro visando a melhora do cenário de contaminação. No dia 11 de novembro, um dia após o início da COP 30, o Departamento de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e da Pecuária (Mapa) aprovou 30 novos agrotóxicos que contêm substâncias proibidas na União Europeia.
Entre elas estão azoxistrobina e trifloxistrobina, ligadas a má-formação fetal e danos neurológicos, além de um novo tipo de glifosato, associado a riscos cancerígenos, reprodutivos e hormonais. De acordo com apuração do Brasil de Fato e da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, a lista inclui ainda clocernapir, S-metolacloro, protioconazol e outras substâncias já conhecidas por causar toxicidade a peixes e aves, contaminar águas subterrâneas, gerar resistência de fungos e oferecer riscos diretos à saúde humana.
“A gente não veio para a COP para passear”, diz Alessandra Munduruku, após conquista de declaração de TI
“A gente não veio para a COP para passear”, diz Alessandra Munduruku, após conquista de declaração de TI
Liderança Munduruku participou de ação direta na COP 30 e viu sua terra indígena, Sawré Ba’pim, ser declarada em pacote anunciado pelo governo
Às 5h40 da manhã do dia 14 de novembro, sexta-feira da primeira semana de COP 30, um grupo de indígenas Munduruku do movimento Ipereg Ayu fechou a entrada principal da Blue Zone, área de acesso restrito da conferência do clima e onde as decisões são feitas. Três dias antes, indígenas do Baixo Tapajós haviam ocupado a Zona Azul, deixando o clima tenso. A ocupação Munduruku pedia o anúncio da demarcação de terras indígenas como medida de mitigação da crise climática e a revogação do Decreto nº 12.600/2025, promulgado em 28 de agosto de 2025, e que coloca no Plano Nacional de Desestatização os projetos de hidrovia nos rios Madeira, Tocantins e Tapajós, representando, para os movimentos, uma violação do direito de consulta, que segundo eles, traz ameaças ao seu modo de vida e subsistência.
Até as 9h30 da manhã, se recusaram a liberar a entrada até conversarem com o governo. Foram recebidos por André Corrêa do Lago, embaixador e presidente da COP 30, Sônia Guajajara, do Ministério dos Povos Indígenas, Marina Silva, do Meio Ambiente e representantes do governo. O protesto foi significativo e se somou a diversas outras ações diretas e manifestações realizadas por indígenas, quilombolas, povos tradicionais e movimentos sociais como a Barqueata e a Marcha pelo Clima, além de centenas de iniciativas, debates e espaços alternativos durante a COP, promovidos por iniciativas como a Cúpula dos Povos e a Aliança dos Povos pelo Clima.
Nos dias que se seguiram, Guilherme Boulos, da Secretária Geral da República, anunciou que não haveria projetos nos rios Tapajós, Madeira, Paraguai e Tocantins sem consulta prévia – algo já previsto desde a ratificação pelo Brasil em 2002 da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Segundo Alessandra Korap Munduruku, em conversa com a Escola de Ativismo não fez muito sentido dado que o decreto em si já é uma violação ao direito de consulta. O governo foi obrigado a soltar uma nota explicativa.
Além disso, na segunda-feira, 17, dia dos povos indígenas na COP e da marcha A Resposta Somos Nós, organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), o governo anunciou portarias declaratórias para dez terras indígenas: Vista Alegre (AM – Mura), Tupinambá de Olivença (BA – Tupinambá), Comexatibá (BA – Pataxó), Ypoí Triunfo (MS – Guarani), Sawré Ba’pim (PA – Munduruku), Pankará da Serra do Arapuá (PE – Pankará), Sambaqui (PR – Guarani), Ka’aguy Hovy (SP – Guarani), Pakurity (SP – Guarani) e Ka’aguy Mirim (SP – Guarani), além da homologação de mais quatro terras: TIs Kaxuyana-Tunayana,nos estados do Pará e Amazonas; e Manoki, Uirapuru e Estação Parecis, no Mato Grosso, subindo para 20 o total de terras homologadas no governo Lula, enquanto outras 66 já declaradas Terras Indígenas ainda aguardam a homologação. Também foram identificadas seis terras, Curriã (AM), Riozinho Iaco (AC), Kulina do Rio Ueré (AM), Aracá-Padauiri (AM), Gaviãozinho (AM) e Pindó Poty (RS).
Dentre as terras indígenas declaradas, está a Sawré Ba’pim, da liderança Alessandra Korap Munduruku que agora passa à integrar os territórios já declarados que aguardam homologação. A Escola de Ativismo conversou com ela na Zona Azul na tarde desta terça-feira, 18, para saber mais sobre esse processo de luta e qual a análise dela sobre o cenário político desta COP. “Nós não saímos do nosso território com as crianças, com os mais velhos para ficar sentado esperando a decisão dos governos, decidindo por nós”, disse. Confira a íntegra da conversa:
Escola de Ativismo: Ontem o governo declarou uma Portaria Declaratória relativa ao seu território Sawre Ba’pim. Como você está se sentindo hoje?
Alessandra Korap Munduruku: Olha, eu tô muito feliz. Ontem eu quando saí, a ministra [Sônia Guajajara, do Ministério dos Povos Indígenas (MPI)] me ligou para dar em primeira mão que a Portaria Declaratória do território Sawre Ba’pim foi assinada. Então agora é uma terra agora indígena, né? E eu fiquei feliz também porque outras terras também foram demarcadas. Mas a gente sabe que é muito processo. Que não vai ser fácil daqui em diante. E também isso aconteceu depois da pressão que a gente fez aqui na frente da COP 30, demandando que o Lula demarcasse a nossa terra. Mas não só: também queremos a revogação do Decreto 12.600/25 [no qual o governo federal passa para a iniciativa privada a responsabilidade pela declaração e administração de hidrovias]. Mas a gente tá esperando ainda não só nossas terras, mas outras terras que estão precisando ser demarcadas, porque a violência tá muito grande com nossos parentes.
E quando existe violência com nossos parentes, pela demarcação, estamos também sendo atacados e sentindo a dor. Quando os parentes sofrem, quando morrem, a gente fica imaginando, colocando o nosso corpo, imaginando como foi em nosso corpo. Quando viola nossos direitos, viola a natureza e o rio. E quando a demarcação demora, é paralisada, isso aumenta a invasão de rios e de territórios. Ocorrem muitas invasões em nossos territórios, nossas águas são envenenadas. Então a gente tem que avançar muito mais.
É importante termos a declaração da portaria dos territórios, mas a gente ainda precisa da demarcação física e depois a homologação que vai dar o registro do nosso território. Então a luta não parou. A luta continua.
EA: Vocês fizeram uma ação direta aqui e fecharam a entrada da COP. Foi uma das principais ações diretas que aconteceram aqui em Belém. Você acha que isso foi decisivo na conquista dessa declaração?
Alessandra: Sim. Eu acho que sim, porque a gente não saiu do nosso território para passear. Nós não saímos do nosso território com as crianças, com os mais velhos para ficar sentado esperando a decisão dos governos, decidindo por nós.
Nós saímos do território para ter visibilidade e dizer assim: Nós estamos aqui, a resposta somos nós. E denunciar que os acordos que estão acontecendo nas conferências mundiais como essa não estão nos consultados e muitas vezes estão trazendo projetos de morte para nossos territórios e ainda esperam que a gente aceite.
E aí foi o momento que a gente decidiu fechar mesmo e dizer que nenhum país entra, nenhum dos 194 países que a ONU representa. Eles têm que nos ouvir. E o presidente da COP [André Corrêa do Lago] veio até a gente e pediu que saíssemos logo e nós falamos: “Não, a gente só vai sair daqui se realmente tivermos o governo com a gente”. E veio a ministra Sônia, veio a ministra Marina Silva, veio o representante do Boulos. E a gente só liberou com conversa e com promessa.
EA: O que que está sendo a participação indígena nessa COP que está tendo uma um recorde de participação indígena brasileira?
Alessandra: Olha, já são 30 anos de conferência falando do clima e a gente vê que não adianta países, não adianta empresa, não adianta governo ficar falando pelos povos indígenas. Somos nós que temos que falar. Estamos aqui no Brasil, um país democrático, com 391 povos indígenas. E aí a gente continua reivindicando porque tem muito povo que ainda não tem espaço. Eu ouvi a menina falando que já tem 700 credenciamento aqui na Zona Azul. Isso é importante, isso é luta e se não fizer luta, nós não temos espaço e precisamos fazer muito mais.
Quem realmente tá na fiscalização do território, quem tá fazendo o enfrentamento com a crise climática muitas vezes não tem espaço. Mas a gente decidiu vir com dois ônibus de Munduruku e conseguimos ter voz. No território já estão comemorando a declaração, mas ainda falta a revogação do decreto 12600 que a gente está esperando. Mas falaram que vai ter consulta. Só que eu fiquei dúvida como é que vai ter uma consulta se o decreto fala o contrário? Eles precisam escutar todo mundo, todos os povos tradicionais que dependem dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins para existir.
EA: E quais são os próximos passos da luta?
Alessandra: Não sei ainda. Vamos ver!
“Mentira verde”: os impactos das falsas narrativas propagadas por empresas e governos
“Mentira verde”: os impactos das falsas narrativas propagadas por empresas e governos
Corporações de petróleo, mineração e agronegócio estão cada vez mais presentes nas Conferências do Clima, mas seus discursos são pouco condizentes com suas práticas e prejudicam a luta climática nos territórios; ativistas discutem possibilidades para enfrentar o problema.
Moradores observam a destruição causada pelo rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho (MG), em 2019. Foto: Lucas Shariff / Mídia NINJA
A organização de jovens ativistas climáticos Engajamundo fez parte, em 2023, da pressão popular sobre a mineradora Braskem – que impactou negativamente dezenas de milhares de pessoas devido à exploração de sal-gema na cidade de Maceió (AL) – para que esta desistisse de sua participação na 28ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP 28, que aconteceu em Dubai. À época, uma mina da empresa havia acabado de explodir na capital alagoana, o que mobilizou falas de ativistas ambientais na Conferência e provocou uma comoção midiática.
Um ano depois, na COP 29 em Baku, no Azerbaijão, a coalizão de entidades Kick Big Polluters Out (KBPO) [em tradução livre, Expulse os grandes poluidores] identificou ao menos 1.773 lobistas de petróleo e gás no evento, número que supera as delegações dos países mais afetados pela crise climática.
Esses exemplos mostram como a presença de grandes corporações historicamente poluidoras em espaços climáticos não é nova e configura práticas chamadas de greenwashing, traduzido como “maquiagem verde”, “lavagem verde” ou “mentira verde”. Segundo Julia Catão Dias, coordenadora do programa de consumo sustentável e responsável do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), essas expressões “são todos os discursos e modelos que, de alguma forma, encobrem as práticas destrutivas de sempre.”
Isso pode estar em um rótulo de um produto, exemplifica a cientista social e advogada, mas também em um relatório de sustentabilidade ou em negócios específicos, como o mercado de carbono: um mecanismo que precifica e permite a compra e venda de créditos de carbono com o objetivo de compensar as emissões de gases de efeito estufa que agravam o aquecimento global. “As falsas soluções tentam criar métricas e compensações para coisas que não são compensáveis”, diz Julia, ao explicar que a publicidade enganosa e abusiva já é proibida pelo Código de Defesa do Consumidor, mas faltam contornos para o que é, exatamente, o greenwashing.
As falsas soluções são novas formas de expropriação dos territórios e de ataque aos direitos humanos, acrescenta Letícia Tura, diretora executiva da FASE, organização que integra a Cúpula dos Povos e atua, desde 1961, no fortalecimento de grupos sociais para a garantia de direitos, da democracia e da justiça ambiental.
Ela afirma que o greenwashing é um instrumento para ampliar os conflitos socioambientais e as desigualdades no campo. Segundo Letícia, é preciso denunciar a prática, mas também viabilizar as proposições locais que já existem e que precisam de mecanismos de implementação e políticas públicas.
“Existem muitas soluções reais acontecendo nos territórios rurais, urbanos e maretórios, com proposições que nos dão várias orientações, pistas e diretrizes de quais seriam os caminhos para o enfrentamento às mudanças climáticas”, continua a diretora da organização.
Contudo, não são apenas as empresas que adotam essa postura. Julia e Letícia citam, como exemplo, o governo brasileiro, que faz discursos de compromisso e metas climáticas, mas defende a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, uma das áreas mais socioambientalmente sensíveis do Planeta. A atividade é considerada de alto risco por diversos institutos de pesquisa e, conforme mostrou o físico especializado em mudanças climáticas e pesquisador do ClimaInfo, Shigueo Watanabe Jr., poderia emitir até 4,7 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera.
Colocar alternativas em uma prateleira é um dos pontos centrais da mentira verde. “Quando essa solução vem muito fácil, acho que é o primeiro alerta de lavagem verde, pois é o movimento de vender soluções dentro da pauta socioambiental”, defende Alessandra Pipa, ativista do Eco Pelo Clima e do movimento Negro e Popular no Rio Grande do Sul.
Jaiane Bruna, ativista do Engajamundo no Alagoas e integrante do Observatório Caso Braskem, concorda ao argumentar que “as empresas vendem uma narrativa tão bonita que a gente acredita”, mas ressalta que a discussão precisa ser feita de forma interseccional. “A Vale [empresa que foi responsável por um dos maiores crimes ambientais da história, no qual morreram 270 pessoas e houve o derramamento de 13 milhões de metros cúbicos de rejeito em Brumadinho (MG)] apoia vários projetos de cultura. Então, é difícil para algumas organizações que são pequenas e querem fazer projetos ambientais recusarem esse dinheiro”, explica.
Essa disputa é desigual, apontam as especialistas, pois as grandes corporações e Estados têm montantes de dinheiro, contratam artistas e influenciadores e instrumentalizam a imprensa.
“Como eles têm muitos recursos para propagandas, vão construindo narrativas para que, no imaginário, esses grandes poluidores sejam os grandes sujeitos da solução”, completa Letícia.
Os impactos das mentiras verdes
Para Alessandra, a mentira verde “torna ainda maior o rombo da desigualdade da informação”. Ela cita a
desproporcionalidade que já existe nos espaços de poder sobre o clima, majoritariamente dominados por homens brancos. Segundo a ativista, isso está relacionado ao processo de individualização dos problemas e das soluções, que rouba o potencial de imaginar futuros coletivos e transforma tudo em mais um produto a ser vendido e comprado.
Com isso, é adicionada mais uma camada para o ativismo climático. Agora, afirma Julia, “não basta lutarmos contra os modelos destrutivos que a gente já conhece. Também precisamos identificar as narrativas e discursos, e investigar se as práticas das empresas estão, de fato, condizentes.”
Um dos graves riscos ocasionados é que “não existe um enfrentamento real do problema e, com isso, a temperatura não para de crescer porque não há uma real redução das
emissões dos gases de efeito estufa”, explica Letícia, e cita as nações mais poluentes do mundo: China e Estados Unidos. Com isso, os impactos da crise climática, como secas, enchentes, calor extremo e inundações, continuam acontecendo progressivamente nos territórios.
Além disso, as soluções focadas apenas em tecnologias e criação de novos produtos, como o mercado de carbono, podem agravar violações territoriais. Letícia cita contratos abusivos e divisão entre as comunidades. Julia complementa ao dizer que muitos grupos se sentem violados pela publicidade que as empresas fazem sobre seus projetos de compensação, pois elas utilizam suas imagens para propagandas de benfeitoria.
Tudo isso está conectado a uma visão reducionista da crise climática. “Sejam as soluções tecnológicas, sejam as soluções financeiras, todas são falsas. Ou elas levam ao não enfrentamento ou ampliam os danos socioambientais.
Reduzir as mudanças climáticas ao carbono tem a ver com uma visão totalmente financeira, na qual você precisa de uma moeda de troca. Mas o problema climático é muito mais amplo”, afirma Letícia.
Como combater as mentiras verdes
Embora defenda o multilateralismo proposto pela COP 30, Letícia acredita ser necessária uma reforma da Conferência, com limites na participação da iniciativa privada em espaços como as COPs. “Ao invés de estarmos responsabilizando e colocando limites para a ação delas [empresas], está se constituindo outras formas de lucrarem com o problema”, diz, ao citar o artigo 6º do Acordo de Paris, que trata dos mercados de carbono, e, em sua visão, estão se criando instrumentos mercadológicos para que as corporações disputem uma prateleira de soluções.
Diante desse cenário, Jaiane Bruna aponta a comunicação como uma ferramenta eficaz para combater a desinformação climática. Contudo, ela acrescenta que é preciso fazer isso de forma mais ativa e menos passiva, com mobilizações nos territórios. Sua esperança é que a COP 30 reacenda a vocação de ocupar as ruas do ativismo climático brasileiro.
Além do engajamento popular, Julia recomenda “às pessoas questionarem as empresas e denunciarem para o poder público quando encontrarem discursos contraditórios ou falsos.” O Inesc, inclusive, irá lançar, ainda em 2025, o Observatório do Greenwashing como uma ferramenta pública para a sociedade civil realizar e acompanhar essas denúncias.
Por fim, Letícia defende que, para combater o greenwashing, é preciso buscar diálogos interseccionais com aperfeiçoamento e inovação na forma de contar a contranarrativa. “Precisamos de ferramentas lúdicas, didáticas e pedagógicas, que estejam mais próximas do cotidiano e do dia a dia das pessoas.”
Fique por dentro
- Exploração de petróleo na Foz do Amazonas é uma “bomba” na biodiversidade, do ClimaInfo: bit.ly/RCC_14_033
- Fossil fuel lobbyists eclipse delegations from most climate vulnerable nations at COP29 climate talks, da coalizão Kick Big Polluters Out: bit.ly/RCC_14_034
- “Manual de Enfrentamento à Mentira Verde”, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec):
idec.org.br/greenwashing - Greenwashing: entenda o que é e aprenda a se defender de propagandas falsas, do Ministério da Justiça e Segurança Pública: bit.ly/RCC_14_035
No Brasil, há casos de retrocessos encabeçados por políticos conservadores que agridem os biomas e os povos originários e tradicionais. Um dos exemplos recentes é a legislação aprovada após votação do Congresso Nacional, o Projeto de Lei (PL) 2.159/2021. O texto, que ficou conhecido como PL da Devastação, tinha como objetivo fragilizar regras para o licenciamento ambiental e beneficiar projetos que ignoram a crise climática e vão contra a realidade dos desafios ambientais deste século. Segundo ambientalistas brasileiros, essa foi uma das maiores ameaças ao meio ambiente dos últimos anos. O Projeto de Lei foi sancionado pelo presidente Lula, em agosto deste ano, com 63 vetos.
Efeito estufa
Newsletter
Mais recentes
A gente cobra! Aliança dos Povos renasce na luta pelo clima
A gente cobra! Aliança dos Povos renasce na luta pelo clima
Aliança dos Povos pelo Clima lança manifestação pelo financiamento para os povos que preservam a floresta.
Fazer parte da natureza é também compreender que conceitos como eternidade e imutabilidade têm muito menos sentido do que pensar em alteridades, transformações. O desejo e a vaidade não só de se perpetuar, mas de acreditar que até mesmo a morte pode ser superada é a marca de uma sociedade que, ao fim, tenta se mostrar superior aos demais seres – humanos e não humanos – e caminha a passos largos para um colapso.
A compreensão de que as transformações não são apenas parte da natureza, mas também algo harmonioso e desejável pode ser uma boa imagem para pensar sobre um importante ciclo que se iniciou em setembro, na Aldeia Mupá, Terra Indígena Capoto/Jarina, do povo Yudjá/Juruna, no Mato Grosso, com o surgimento de uma nova Aliança dos Povos, um movimento histórico que agora renova seus quadros, articulações e sonhos.
Com a presença do Cacique Raoni Metuktire, liderança histórica do movimento indígena brasileiro, o evento marcou uma passagem de tocha para jovens lideranças da floresta, que agora buscam fazer jus à Aliança, movimento histórico dos anos 80, fundado por Chico Mendes, o próprio Raoni, entre outras pessoas, que conquistou vitórias importantes, como a criação das reservas extrativistas (RESEX) no Brasil. Uma mudança agora é que, se antes o nome da articulação terminava citando a floresta, agora ela se chama Aliança dos Povos pelo Clima.
“Eu vejo que já estou ficando cansado, não tenho mais aquele fôlego para dar continuidade. Por isso, preciso que alguém faça isso para mim, que alguém dê continuidade nessa luta. Assim, quando eu partir desse mundo, vocês vão estar protegidos também. Eu sou um dos únicos que defendem não apenas o bem-viver do meu povo, mas de todos”, afirmou Raoni.
O cacique também fez questão de lembrar da importância da palavra aliança quando se tratam dos enfrentamentos necessários dos povos da floresta:
“Os brancos querem a todo custo nos derrubar, acabar com a gente. E quando eu vou confrontar essas pessoas, muitas vezes eu sinto falta de pessoas me acompanhando. Por isso, unir todos os nossos parceiros, nossos aliados. Vocês, essa geração nova, precisam manter esses brancos que são nossos aliados, vocês precisam manter essa aliança forte com eles, porque eles estão com a gente. Precisam unir essa força contra outros brancos que querem acabar com a gente. Por isso a importância dessa aliança”.
As articulações que levaram a essa nova etapa da Aliança começaram em 2024, quando um encontro do qual o próprio Raoni fez parte aconteceu em Belém, na RCOY, a Conferência Climática Regional de Juventudes Latinoamericanas. Dali as comunidades começaram a construção dessa nova campanha, que foi batizada por meio de sonhos. Entre as muitas pessoas que estavam juntas acampadas na reserva indígena, uma imagem começou a aparecer em diversos sonhos, a imagem de uma cobra. O animal, sagrado para diferentes povos, também se faz verbo agora para a nova Aliança:
A gente cobra
Esse é o principal lema da campanha da Aliança dos Povos pelo Clima. E essa cobrança dos povos já mira na COP 30, em Belém. Num espaço em que as negociações ficam centradas em figuras de alto escalão de governos e nos lobbys de empresas, a Aliança tem como objetivo pressionar os negociadores pela garantia da autonomia territorial e reparação histórica através de mecanismos efetivos de financiamento climático. No lugar da antiga tutela, que coloca as comunidades tradicionais e originárias relegadas à subalternidade, sem tomar decisões sobre as políticas públicas e o alocamento de recursos, elas exigem agora serem responsáveis pelas decisões, com gestão e execução dos fundos.
Uma das porta-vozes desse novo momento é Angélica Mendes. Neta da liderança extrativista e membro do Comitê Chico Mendes, ela afirma que o objetivo na COP é estar em todos os espaços, como a Cúpula dos Povos e as zonas oficiais, levando essa mensagem. Há uma dívida histórica e ela tem que ser paga agora.
“Os povos indígenas, as comunidades precisam de ajuda para defender seus territórios e a natureza. E essa ajuda precisa vir em forma de recurso, em financiamento, para que a gente consiga dar continuidade aos nossos projetos, porque a gente sabe que a maioria do financiamento não chega nos territórios. E muitas vezes até pelo próprio governo que acaba não dando autonomia aos povos”, explicou a ativista.
Cuidar da natureza também é um trabalho
Um exemplo de como é importante a chegada direta dos recursos aos territórios é o trabalho dos extrativistas nas reservas. Na relação e cuidado direto com a natureza, essas comunidades necessitam de acesso a projetos e fontes de recursos que permitam que o fruto de seus trabalhos chegue aos consumidores. O mesmo vale para comunidades ribeirinhas e indígenas, que precisam ter a liberdade assegurada, mas também incentivo para suas práticas tradicionais de manejo, caça e coleta.
“A gente tem a criação das reservas extrativistas, mas para que as pessoas permaneçam lá, fazendo esse papel tão importante de defesa da floresta, a gente precisa de condições maiores. A aliança surge dessa união entre jovens indígenas, extrativistas, quilombolas, beiradeiros, pescadores artesanais e todos com esse objetivo comum. Embora diferentes culturas, diferentes identidades, a gente tá aí buscando a defesa dos territórios”, ressalta Angélica.
Os desafios dos povos brasileiros nessa luta por condições dignas não é, infelizmente, um traço exclusivo do país, conforme lembrou Andrea Ixchíu, liderança maya da Guatemala, que faz parte da rede “Sul x Sul”, iniciativa do Instituto Procomum. A COP, novamente, é a oportunidade de encontro desses povos e comunidades, que podem trocar não apenas sobre os problemas que enfrentam, mas também soluções e inspirações, como a que ela afirma ter encontrado com Raoni:
“Sou de uma aliança de povos da Mesoamérica, onde nos reunimos para contar outras histórias e principalmente para honrar pessoas como o senhor, que nos ensinaram que o futuro é ancestral. Seguimos seu exemplo, seguimos o seu legado. E estamos aqui porque vamos seguir lutando por nossas terras, juntos como povos”.
Para Val Munduruku, jovem ativista indígena paraense que também integra a Aliança, o chamado do “vovô Raoni” como ela e outros carinhosamente chamam o ancião, é também a oportunidade de convocar outros jovens na luta pelo clima durante a COP, como ela fez questão de ressaltar, falando diretamente a Raoni no encontro da Aliança em setembro:
“A gente está feliz de estar aqui como juventude, relançando essa Aliança dos Povos pelo Clima. A continuidade que está sendo traçada ano a ano. Agora, assim como o senhor fez esse chamado pra nós, eu quero chamar a juventude para a defesa dos nossos territórios, rios e identidades”.
Ativista Vala Munduruku (Fonte:https://www.muvuqueiravalmunduruku.nossas.org.br/)
A HISTÓRIA DA ANTIGA ALIANÇA DOS POVOS
-
Em entrevista à Revista Teoria e Debate, da Fundação Perseu Abramo, em 1989, Ailton Krenak, um dos fundadores da Aliança dos Povos a definia assim: “A aliança dos povos da floresta é uma iniciativa da UNI (União das Nações Indígenas) e do Conselho Nacional dos Seringueiros, que inclui as populações ribeirinhas e comunidades de colonos. A coordenação da aliança dos povos da floresta é constituída por representantes indígenas, seringueiros e ribeirinhos. É um conselho de representantes. Nós temos pontos em que andamos juntos, mas cada uma das nossas populações tem a sua identidade própria”.
Formalizada em 1987, a aliança foi um ator essencial na garantia de demarcação de terras indígenas, assim como na criação da política e da primeira reserva extrativista do país, a Resex Chico Mendes, em 1990, dois anos após o assassinto do líder seringueiro em Xapuri, no Acre.
Multilateralismo: forma de organização em que vários países cooperam e tomam decisões em conjunto sobre determinado tema, baseados em regras e instituições comuns.
Populismo: conceito utilizado para se referir a um conjunto de práticas políticas que se justificam num apelo ao “povo”.
TEXTO
Nayara Almeida e Mario Campagnani
publicado em
TEMAS