Luh Ferreira
Educadora Popular, ativista, doutora em Educação
Encantada com o mundo, indignada com a situação dele
Inteligência Artificial também vota? Como esses conteúdos, somados ao peso dos algoritmos, influenciam as eleições
Personagens irreais e as recomendações massivas de conteúdos nas redes sociais confundem o eleitorado.
Por Letícia Queiroz
Você pega o celular, começa a rolar o feed e entre os conteúdos que o algoritmo recomenda aparecem aqueles em que pessoas dão opiniões sobre as eleições. Em uma entrevista, um eleitor defende um candidato, critica outro e diz em quem pretende votar. Parece só uma manifestação espontânea, mas em alguns casos, a pessoa que opina nem existe. Ela é um personagem gerado por inteligência artificial. A combinação entre os vídeos de pessoas criadas por IA, a atuação dos algoritmos e a dificuldade de distinguir o que é real ou não na internet cria um cenário preocupante, principalmente no período eleitoral.
Há muitos anos as campanhas eleitorais acontecem também na internet. Mas agora, conteúdos sintéticos estão influenciando percepções e as escolhas do eleitorado. Enquanto quem não existe “pede votos” nas redes sociais, os algoritmos também fazem campanha ao recomendar sempre os conteúdos do mesmo nicho e fazer parecer que todas as pessoas da sua rede social falam das mesmas coisas que você.
Especialistas ouvidas pela Escola de Ativismo afirmam que a IA pode ampliar o potencial de circulação de desinformação e influenciar a percepção de quem está do outro lado da tela. Elas analisam o cenário atual e alertam para os riscos.
A jornalista Bianca Bortolon pesquisou os impactos do uso de IA durante a campanha eleitoral. Um levantamento publicado por ela no Aos Fatos identificou pelo menos 50 conteúdos no TikTok feitos por meio de IA simulando entrevistas e depoimentos de pessoas sobre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Como se fossem reais, as pessoas respondem perguntas de repórteres que também não existem. Produzidos para parecer espontâneos e verdadeiros, esses vídeos podem confundir o público, influenciar eleitores e contribuir para a circulação de mentiras durante a disputa eleitoral.
Bortolon afirma que a desinformação eleitoral, que já existia, ficou mais grave e as mentiras mais difíceis de serem percebidas pelo eleitor. A comunicadora explica que existem uma série de perigos para a sociedade.
“Há possibilidade de agravar um processo de erosão da confiança já que, se tudo na Internet pode ser produzido IA, então tudo pode ser colocado em dúvida. Isso em um contexto maior de crise da confiança nas instituições e na imprensa. Esses conteúdos estão cada vez mais realistas e, consequentemente, mais difíceis de identificar e isso dificulta tanto a percepção de quem assiste quanto o trabalho de verificação, já que não existe uma pessoa real a quem possamos procurar. Também existe a possibilidade de fabricar tendências e uma percepção de consenso que não existem na realidade”, disse a jornalista.
Para Bianca, os depoimentos de pessoas comuns podem funcionar como uma forma de prova social, quando o comportamento e a opinião de outras pessoas são usados como uma das referências para interpretar o mundo e tomar decisões.
“Na política, acreditar que outras pessoas apoiam determinado candidato pode contribuir para a percepção de que aquela candidatura tem aceitação social, e isso pode ser ainda mais persuasivo quando quem aparece no vídeo parece ser alguém com quem o espectador consegue se identificar”
Bianca Bortolon Tweet
A tendência é que o cenário fique ainda mais grave, ja que as ferramentas devem ficar cada vez mais refinadas. “Será cada vez mais difícil distinguir o real do que foi manipulado pela IA se as coisas seguirem no ritmo que estão”, disse Bianca.
Também é preciso estar atento a sistemas como chatbots e geradores de texto. Para Liz Nóbrega, diretora de estratégia e inovação no Aláfia Lab (laboratório de pesquisa e inovação sobre internet, comunicação e sociedade) e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), esses espaços se apresentam como neutros, mas podem gerar respostas rasas, enviesadas, apresentar erros e até fazer algum tipo de indicação, embora a Resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vede que chatbots e sistemas de inteligência artificial recomendem ou ranqueiem candidatos. Na avaliação da pesquisadora, é preciso “entender que o algoritmo para geração de conteúdos, quando a gente pensa em inteligência artificial, também tem um potencial danoso para a integridade informacional em período de eleições”.
O trabalho dos algoritmos
Além de nos depararmos com personagens irreais fazendo campanha eleitoral, também existe o trabalho invisível dos algoritmos, que confunde o acesso a informações. Ao navegar pelo feed, parece que todo mundo está falando das mesmas coisas que você. As opiniões sobre política se repetem e você vê conteúdos que confirmam o que você já acreditava. Nada disso acontece por acaso. Por trás do que aparece ou do que deixa de aparecer durante a sua navegação estão os algoritmos, que selecionam, recomendam e distribuem os conteúdos. Quando somos expostos sempre aos mesmos discursos, perdemos a oportunidade de conhecer outras ideias e propostas e de comparar diferentes pontos de vista, o que é essencial para escolher em quem votar.
Especialistas alertam que esse movimento é preocupante e pode criar para o usuário uma falsa percepção da realidade, além de influenciar a forma como as pessoas conectadas enxergam a política. Para Liz Nóbrega, os algoritmos têm uma grande influência na construção da nossa visão de mundo.
Ela explica que antes da difusão das redes sociais, as pessoas recebiam as mesmas informações dos mesmos veículos, e a TV, o jornal impresso e os sites eram as únicas fontes de informação. A especialista lembra que isso não quer dizer que era tudo perfeito, pois faltava pluralidade de fontes de informação, mas na época tínhamos uma população que baseava suas opiniões numa mesma base comum de fatos e notícias. Hoje o cenário é outro.
“Com as redes sociais, isso muda drasticamente, especialmente pela questão algorítmica, onde cada um vai ter o seu próprio feed de notícias. Em 2013, Mark Zuckerberg disse que esperava que o feed do Facebook fosse como um jornal personalizado, em que cada pessoa teria ali as notícias e informações que elas preferiam. Então a gente tem uma mudança do feed cronológico para o feed algorítmico”, lembra Liz.
Liz afirma que o cenário se agrava em períodos de campanhas eleitorais. “Primeiro porque a gente tem a construção contínua da formação política das pessoas também passando por uma filtragem, uma moderação algorítmica. Quando a gente chega no período eleitoral, isso termina sendo exacerbado de alguma forma, porque os algoritmos das redes sociais já compreendem a persona, a personalidade daquele e daquela usuária, já compreende quais são as preferências políticas, quais são os formatos de conteúdo que mais atraem, quais são os perfis com os quais você mais engaja”, explicou.
Se lembrarmos que as redes sociais pertencem a grandes empresas que produzem fortunas incalculáveis aos seus CEOs, entendemos a funcionalidade dos algoritmos. Eles servem para mostrar aos usuários os conteúdos que serão mais propensos a engajar, ou seja, a manter a pessoa por mais tempo conectada. Assim, quem assiste a um reels e concorda com o conteúdo, consequentemente tem mais chances de compartilhar nos stories ou com amigos, curtir e comentar. Também pode aparecer um conteúdo divergente, o usuário tende a confrontar e entrar em algum tipo de discussão. Então, o algoritmo vai tentar entender qual desses conteúdos cada pessoa vai ter maior probabilidade de engajar.
É importante lembrar que as plataformas mais utilizadas não são espaços neutros. As big techs são comandadas por grupos ligados à extrema-direita e esses grupos também definem as regras do jogo, incluindo o que mais circula e o que ganha maior visibilidade online.
Os algoritmos e a falsa percepção da realidade
Para muitas pessoas, receber repetidamente conteúdos com o mesmo tom pode criar uma percepção distorcida sobre o que acontece ao seu redor e é nesse ponto que entram as chamadas bolhas informacionais, como explica a especialista Nirvana Lima, educadora popular em cuidados digitais da Escola de Ativismo, doutoranda em Comunicação na UFC e pesquisadora de culturas e direitos digitais.
“Os algoritmos podem criar para o usuário uma falsa percepção da realidade sobre o que é de fato relevante, seja no âmbito local ou nacional. Essa dinâmica visa mantê-lo conectado por mais tempo, oferecendo conteúdos alinhados aos seus gostos – gosto este transformado em dados, mapeado e analisado desde os primeiros cliques. Trata-se de uma questão intrínseca à arquitetura de plataformas como Instagram e TikTok que, ao segmentar postagens com base no tempo de tela, agrupam os usuários em torno de macrotemas”, afirma Nirvana.
Nas chamadas “bolhas informacionais”, onde as pessoas são expostas a conteúdos que reforçam suas próprias visões, pode parecer que todo mundo pensa da mesma forma, quando, na verdade, há outras opiniões, informações e propostas circulando fora daquela bolha. Em uma eleição, isso pode ser muito perigoso. Em um cenário em que seguidores também são eleitores e as redes sociais se transformam em palanques para candidatos e figuras públicas, é preciso estar atento ao que aparece no feed, ao que é compartilhado e, principalmente, ao que pode estar sendo reforçado pelos algoritmos.
“Embora o Tribunal Superior Eleitoral estabeleça diretrizes para a atuação de influenciadores digitais nas eleições, persiste uma linha tênue entre a veiculação de ‘publis’ contratadas e a manifestação pessoal de voto. Soma-se a isso o fato de que vários criadores de conteúdo e/ou figuras públicas disputam cargos federais e estaduais, transformando suas bases de seguidores em verdadeiros palanques digitais. Ainda que um grande número de seguidores não garanta uma vitória nas urnas, é inegável que a amplitude desses perfis potencializa o alcance das mensagens, que pode vir a misturar a comunicação de campanha ao tom habitual das publicações. Tal visibilidade é bastante assimétrica, considerando candidaturas tradicionais que ascendem à política sem tanta projeção nos meios digitais”, explicou Nirvana Lima.
Polarização, desinformação e outros danos
A falta de conteúdos e perspectivas divergentes tendem a intensificar a polarização e favorecer a circulação de desinformação, o que pode prejudicar o processo eleitoral e a própria democracia.
Para Liz Nóbrega, há vários potenciais danos: “Muitas vezes os conteúdos que são apresentados para a gente podem ser enviesados, podem conter inverdades, podem ser tendenciosos e, muitas vezes, vão ser utilizados para nos agradar. Um segundo potencial danoso está o desgaste de debate político e a perda da possibilidade de cordialidade e de um debate político saudável entre diferentes opiniões”.
O TSE possui uma resolução que proíbe a recomendação algorítmica de candidatos. O objetivo é evitar que big techs possam desequilibrar a disputa eleitoral a favor de determinados candidatos ou campanhas por meio da recomendação de contas de políticos exibidas a usuários nas redes sociais. “Essa tentativa do TSE tenta minimizar esses impactos. A gente sabe que é uma medida importante, que tenta trazer algum nível de simetria dentro desse tipo de recomendação, mas há outras formas dos conteúdos serem recomendados, pensando nessa mediação algorítmica dentro desses espaços de redes sociais”, disse Liz.
É importante ter consciência sobre o uso da internet e das redes sociais e compreender como a inteligência artificial e os algoritmos moldam o ambiente digital em que estamos inseridos. Furar a bolha e ver o mundo fora dela pode abrir horizontes para escolhas mais conscientes.
A luta é nossa. A plataforma, não
O banimento de perfis ativistas nas redes sociais revela o controle das big techs sobre a circulação de informações, a liberdade de expressão e as vozes que mobilizam a sociedade.
Este texto foi produzido a partir de informações publicadas na newsletter Roda Ativista e da participação de Tatiana Dias, Luã Cruz, Nathália Purificação e João Paulo em uma live realizada pela Escola de Ativismo para abordar o tema em questão.
Não dá pra negar. A internet é uma ferramenta importante para quem luta por direitos, denuncia violações e mobiliza pessoas. Mas, nas redes sociais, todo esse trabalho depende de regras de empresas que controlam as plataformas. Em 2026, vários perfis ativistas que levaram anos para serem construídos foram derrubados no Instagram, entre elas, as páginas do instagram da CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) e do Tapajós de Fato, veículo de mídia independente do Pará. As suspensões feitas pela Meta prejudicaram a comunicação entre defensores de direitos humanos, povos e comunidades tradicionais e mostraram a relação desigual entre quem constrói uma comunidade nas redes e quem decide se ela continua existindo ou não.
Na manhã de 28 de maio, a equipe do Tapajós de Fato recebeu uma notificação informando que a conta do jornal no Instagram havia sido suspensa. No dia seguinte o perfil foi desabilitado e as informações vinculadas à conta poderiam ser excluídas permanentemente. Foram 45 dias sem acesso e a justificativa apresentada pela Meta foi a de que a conta estaria violando os Padrões da Comunidade. Segundo João Paulo Serra, coordenador do Tapajós de Fato, a empresa não apresentou detalhes sobre qual conteúdo teria motivado a suspensão e também não respondeu às tentativas de contato.
“Tornamos o caso público por meio de um vídeo e, imediatamente, recebemos diversos apoios, desde notas de solidariedade e repúdio à medida adotada pela empresa, até suporte jurídico e de comunicação. Entendemos que, além das tentativas de contato direto com a Meta e da ação judicial com pedido de recuperação da conta, era necessário promover uma mobilização nas redes sociais. Foi assim que uma onda de engajamento nasceu, se fortaleceu e nos deu esperança para permanecer de pé diante do cenário de incertezas, espera e ausência de respostas aos nossos questionamentos”, disse João Paulo.
No caso da CONAQ, a suspensão do perfil afetou a comunicação de um movimento que há 30 anos atua na defesa dos direitos das comunidades quilombolas em todo o Brasil e reúne diferentes pautas e frentes de luta do movimento.
Nathália Purificação, coordenadora de comunicação da CONAQ, conta que a presença nas redes sociais se fortaleceu em 2020, com a necessidade de ampliar o contato com os territórios quilombolas para levar informações importantes durante a pandemia. De lá pra cá, jovens comunicadores quilombolas usam as redes sociais como uma das principais ferramentas de comunicação. O perfil dá visibilidade às pautas quilombolas, divulga as ações do movimento e conecta comunidades de diferentes regiões do país.
“A gente vem fazendo esse trabalho no instagram há seis anos. E é muito importante. Além de ser uma baita responsabilidade, porque é um movimento que tem três décadas de existência e que foi criado por grandes lideranças reconhecidas nacionalmente. E essas lideranças lutaram pelas políticas construídas para quilombolas nesse país. Então a comunicação da CONAQ tem uma importância nacional e agora também internacional, porque a gente tem chegado nesses espaços, nas COPs, nos eventos internacionais promovidos pela ONU e através de uma organização que a CONAQ ajudou a fundar, que é a CITAFRO que atua com a população afrodescendente”, explicou Nathália.
Durante o período de suspensão, a CONAQ perdeu temporariamente o contato com mais de 60 mil seguidores. “Para dentro do movimento social, para as nossas comunidades, a gente entende como um ato com consequências muito sérias. A gente chega dentro dos territórios rurais, a gente chega também nas cidades, nas comunidades urbanas, nas organizações, em quem mora na cidade. Temos um público muito amplo de mulheres, a pauta da educação, juventude, LGBTQIAP+, falamos de saúde… A gente tá muito ali no campo de educadores populares, de mulheres ativistas, ambientalistas. Então, é uma coisa bem grande”.
A CRTL+Z, uma organização social brasileira que enfrenta o modelo de operação das big techs, acompanhou alguns banimentos. A organização que atua investigando e expondo abusos, movendo ações judiciais estratégicas, mobilizando pessoas acredita que é necessário transformar indignação em ação organizada e efetiva pela responsabilização das gigantes de tecnologia e pela transformação do setor de tecnologia visando o bem-estar coletivo.
Tatiana Dias, jornalista e diretora de programas da organização, avalia que a concentração de poder das big techs representa uma ameaça à autonomia de organizações, movimentos sociais, jornalistas e ativistas que dependem das plataformas digitais para se comunicar e alcançar o público. Para ela, a dependência do Instagram, por exemplo, cria uma relação desigual, já que as plataformas podem decidir sobre a permanência ou remoção de conteúdos sem oferecer transparência.
“A gente foi engolido um pouco por essa lógica dessas plataformas. A nossa infraestrutura de comunicação é toda dominada por essas empresas. A gente não consegue sair dessa lógica e a gente precisa estar nessa lógica para existir, praticamente, para as pessoas ficarem sabendo da gente. A gente tá tentando lutar contra essa realidade”, afirmou Tatiana.
A dependência apontada por ela também se relaciona à forma como essas plataformas são administradas e aos seus próprios interesses. É que o poder concentrado nas mãos das big techs não é neutro, já que as plataformas são geridas por pessoas que têm um lado. Especialistas da área da tecnologia alertam que o pacto ideológico que envolve as big techs e a direita radical no Brasil e no mundo pode causar consequências gravíssimas, incluindo o alto risco para a democracia.
Para João Paulo e equipe do Tapajós de Fato, o prejuízo do banimento não foi apenas a perda de engajamento. “O maior prejuízo foi sofrido por nós, que perdemos o direito de liberdade de expressão e exercício do jornalismo, e pela sociedade, à qual foi negado o direito de acessar informações sobre os territórios em que atuamos. Foi a liberdade de expressão, um direito tão caro e que há tanto tempo tentam enfraquecer, que saiu prejudicada. Quando um jornal, assim como tantos outros pelo Brasil, comprometido com a verdade, a justiça e os direitos, sofre um ataque, é a democracia que está sendo atacada. A imprensa livre é um dos principais reflexos de uma democracia sólida. Os ataques à imprensa, por menores que sejam, devem servir de alerta para que permaneçamos vigilantes na defesa dos nossos direitos”, disse.
Luã Cruz, diretor de litigância da CTRL+Z afirma que uma estratégia que pode funcionar é reduzir a dependência das grandes plataformas e ampliar os espaços próprios de comunicação. “A gente precisa ter espaços em que a gente tenha o maior controle sobre eles, sejam sites, outras plataformas, perfis em redes sociais alternativas. E esses são mecanismos da gente estar protegido de algum jeito”.
Apesar da importância de criar canais próprios, a mudança não é simples. “Não é fácil mudar a nossa cultura, nosso hábito digital. Porque causa desconforto. Mas eu acho que é um desconforto que vale a pena passar, sabe? Eu acho que a gente ficou muito acomodado também com as facilidades que não são tão fáceis no final das contas, que tem um preço que se cobra de estar nas redes sociais”, explicouLuã.
Leia também: Sair ou disputar? Oito ativistas discutem estratégias e analisam o avanço da extrema-direita nas redes sociais
Os casos da CONAQ e do Tapajós de Fato mostram que o problema é maior do que parece e que não se trata apenas da perda de um perfil na internet. Quando uma plataforma interrompe o acesso de uma organização ativista, também reduz a capacidade de mobilizar pessoas, denunciar violações e fazer informações chegarem ao público necessário. Essas experiências revelam que estamos ocupando um terreno alheio. A luta continua sendo nossa, mas o terreno ainda pertence às big techs. E é justamente essa relação desigual que não pode deixar de ser questionada.
Educação Escolar Quilombola: uma luta por cidadania e o direito à memória
Educação Escolar Quilombola: uma luta por cidadania e o direito à memória
Gessiane Ambrosio Nazário discute as lutas e os desafios para a educação quilombola no Brasil
Fruto de uma luta ancestral por dignidade e cidadania, a ideia precursora de uma educação escolar quilombola nasce no bojo da luta pela terra no Quilombo de Conceição das Crioulas, Salgueiro, Pernambuco. Com a organização política da comunidade em torno do direito ao seu território, foi estabelecido o espaço escolar como fundamental para emancipação de seu povo. A escola era controlada por familiares de fazendeiros que por consequência controlavam o que seria ensinado. Neste sentido, a educação desta comunidade é o reflexo mais puro de seu inabalável anseio por justiça.
Graças a persistência das famílias quilombolas foi possível mudar a situação e a comunidade consegue ter a sua primeira diretora da escola, Givânia Maria da Silva, que viria a ser uma importante liderança quilombola no cenário nacional. Nasce, então, o projeto de uma escola que transcende o aprender a ler e escrever, não se limitando ao domínio da mecânica da habilidade de codificar a língua oral em língua escrita (escrever) e de decodificar a língua escrita em língua oral (ler).
A comunidade de Conceição das Crioulas inicia o processo de pensar um currículo centrado na história de seus antepassados; um Projeto Político Pedagógico que fosse realmente o norteador das ações na escola e não apenas uma peça burocrática sem impactos no cotidiano escolar.
Foi a partir desta experiência que Givânia Silva, junto a outras professoras e lideranças quilombolas como dona Procópia dos Santos Rosa, do território quilombola Kalunga (GO), no ato de criação da Primeira Carta Política de Reivindicações de Direitos das Comunidades Quilombolas, durante a Marcha Zumbi dos Palmares, em 1995, registraram que:
Reivindicamos que o governo federal implemente um programa de educação de 1° e 2° graus especialmente adaptado à realidade das comunidades negras rurais e quilombolas, com elaboração de material didático específico e a formação e aperfeiçoamento de professores; 2. Extensão do programa que garanta o salário-base nacional de educação para os professores leigos das Comunidades negras; 3.Implementação de cursos de alfabetização para adultos nas comunidades negras quilombolas (Carta do I Encontro Nacional de Quilombos, Brasília, 1995)
Historicamente o acesso das populações negras à escolarização formal é estruturalmente voltado para a sua negação. Em muitas comunidades quilombolas observamos a experiência de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita como iniciativa dos próprios sujeitos que arrumavam uma casa ou um cômodo da casa para ensinar as crianças a ler. Geralmente alguém da comunidade que já soubesse ler ou arranjavam uma professora de fora. Em alguns lugares as filhas dos fazendeiros ensinavam a ler, como aconteceu na Fazenda Campos Novos (Cabo Frio, Região dos Lagos, RJ) na década de 1940 e 50. Neste último caso, não havia vaga para todas as crianças estudarem. Algumas dividiam a vaga com irmãos e irmãs e acabavam desistindo porque tinham de trabalhar com seus pais nas lavouras, pois naquele tempo ainda vigorava o acordo de arrendamento estabelecido desde o pós-abolição.
Não é objetivo deste texto detalhar as experiências específicas dos desafios que os nossos avós e nossas avós enfrentaram para que pudéssemos ter direito à escola, a aprender a ler e escrever, a fazer faculdade… Tudo o que podemos acessar hoje foi fruto de muita luta de nossos antepassados. Como a nossa educação não teve acesso a uma educação emancipadora, não aprendemos a história de conquista de direitos que hoje usufruímos com muita naturalidade. A geração mais nova precisa aprender e preservar essas informações, pois faz parte do processo de criação de uma consciência crítica.
A Lei 10639/03 e a Resolução nº8, de 20 de novembro de 2012, são importantes marcos na educação brasileira por reconhecerem o imenso vazio sobre as histórias dos afrodescendentes na sociedade brasileira. A Resolução nº8, de 20 de Novembro de 2012 é importante para que o sistema educacional compreenda que as identidades quilombolas são diversas, pois se formam em situações sociais e históricas diferentes. São identidades que se formam num coletivo em determinado território. É este território que forma o vínculo com os seus antepassados e as futuras gerações que se comunicam por meio de conhecimentos e práticas transmitidos geracionalmente de acordo com os contextos históricos. É por este território que lutamos, pois é ele que nos define enquanto coletividades. O território onde nossas ancestrais derramaram sangue e suor e resistiram para nos dar a vida. Nele aprendemos a valorizar a memória de nossos avós e avôs por meio de seus ensinamentos seja da pesca, da agricultura, da extração, etc.
É por causa desta complexa diversidade territorial que induz a produção de infinitos conhecimentos e culturas que não podemos tratar a população quilombola como algo homogêneo ou de um único pensamento. É preciso respeitar e observar essa diversidade para não cair em essencialismos que reforçam o senso comum de que somos algo que existe no passado, nos negando o direito a contemporaneidade, restringindo nossa existência a um passado colonial.
Os quilombolas têm direito a diversidade e a exercê-la plenamente. A diversidade deve ser entendida conforme a antropóloga Neusa Gusmão define:
como uma espaço de muitas relações vividas que supõe a existência de mecanismos de identificação individual, familiar e de grupo. Supõe a historicidade da vida vivida enquanto prática social, tradição e memória. Com isso, a realidade negra no meio rural brasileiro revela que “tem uma outra história para contar, espaços para defender e não apenas para preservar mas, permanentemente recriar. (GUSMÃO, 1998, p. 69)
Quando a escola não reflete a nossa diversidade, nega a nossa história quando reproduz a ideia de que exista um modelo de quilombo ou “o pensamento quilombola”. Nesse sentido, o desafio de implementar uma Educação Escolar Quilombola torna-se ainda mais desafiador, pois cada território deverá ser refletido nos currículos das escolas de seus territórios.
Sobre o direito à memória na Educação Escolar Quilombola.
A memória é requisito fundamental da existência humana, da aprendizagem e transmissão entre as gerações de experiências e conhecimentos relevantes aos processos de socialização dos indivíduos e de reprodução social.
A memória é constituída por uma dinâmica entre lembrança e esquecimento que ocorre no bojo de esforços de significação do passado, em contextos presentes que envolvem diferenças sociais, relações de dominação e projetos de emancipação.
A memória é central na construção de identidades. A memória pode estar referenciada em diferentes aspectos: objetos, pessoas, lugares, etc. A memória é a seleção do passado a partir do presente. Uma dinâmica construída entre o lembrar e esquecer. A memória é construída coletivamente a partir do que os mais velhos nos contam.
A escola é fundamental para lembrar por ser um espaço socialmente privilegiado como detentor de saberes importantes. Nas escolas quilombolas é preciso estar atento sobre o quê e quem deve ser lembrado. O currículo é uma disputa de narrativas históricas. A memória é tão importante que está em disputa.
O direito à memória é um direito à aprendizagem. O direito à memória é o direito à ancestralidade. Ancestralidade quilombola é a relação com o passado ligado às pessoas que foram escravizadas.
Na Educação Escolar Quilombola (EEQ), os processos de ensino e aprendizagem devem dar ênfase ao processo de compreensão de significados expressos em língua escrita (ler) ou a expressão de significados por meio da língua escrita (escrever).
Na EEQ, a história dá ênfase ao processo de compreensão e expressão de significados. Sendo assim, precisamos incluir em nossas práticas os significados e conceitos históricos e políticos importantes para a comunidade.
Na EEQ, a história (memórias de lutas dos mais velhos) se soma às outras áreas do conhecimento (psicologia, linguística, pedagogia, etc.) para potencializar o aprendizado e desenvolvimento das habilidades da/o educanda/o. A habilidade de compreender os processos históricos (devidamente organizados no currículo) que dão base aos direitos territoriais, deve permear os objetivos de aprendizagem. Importante lembrar que trabalhar com conceitos históricos envolve o desafio de adequação da linguagem para a criança.
Quanto conhecimento há nas xaropadas e outras ervas para curar feridas! Quanto conhecimento na forma de lidar com animais, mesmo os peçonhentos. Quanto conhecimento há na memória das marcas das costas de minha tataravó Madalena cujo fato aprendemos a silenciar na família. Quantas histórias, quantos silêncios por trás dessas chicotadas. Quantos silêncios por trás de cada lamento. Isso eu falo a partir da minha história que é coletiva à da minha comunidade da Rasa. Imaginem quantos silêncios existem para ser rompidos em nosso país? Lutemos para que nossos professores sejam agentes nessa luta para reconstruir a nossa história através das comunidades quilombolas. Mas as/os professoras/es precisam de condições materiais para pelejar conosco e isso o racismo estrutural não permite.
Propomos uma outra pedagogia. Desenvolvemos em nossos territórios a pedagogia da mudança!
Na EEQ é possível exercer uma prática pedagógica, dinâmica, na qual os componentes curriculares dialogam entre si, tendo como eixo central a história da comunidade. Ao mesmo tempo em que ensinamos as convenções do sistema de escrita, conhecimentos de estrutura de texto, etc, estamos principalmente praticando uma educação antirracista e aquilombada quando trazemos para o centro desse aprendizado as trajetórias de vida e lutas por dignidade (direitos) das pessoas ex-escravizadas nos nossos territórios. Refletir a existência delas e o consecutivo processo de desigualdades e violações é o desafio de uma mudança possível. Na EEQ, tudo se torna pretexto e/ou oportunidade de reflexão sobre a história de direito ao território. A práxis significativa em EEQ envolve esse trabalho de construção de uma consciência política. A práxis não é uma ação sem intencionalidade. A práxis da EEQ é libertária e baseada em paradigmas libertadores para promover uma cultura de justiça, que é a reparação histórica através da titulação dos territórios que efetiva a autonomia material, social e cultural de nosso povo quilombola.
Para encerrar esta reflexão, gostaria de destacar que o projeto de Educação Escolar Quilombola não é responsabilidade apenas do corpo docente e da comunidade: é uma obrigação do Estado Brasileiro.
Neste sentido, o Coletivo Nacional de Educação da Conaq tem realizado importantes incidências políticas no cenário nacional como: a oferta de Curso de Formação em Educação Escolar Quilombola pelas redes da Conaq, composição da Comissão Nacional de Políticas para a Educação Escolar Quilombola do MEC (CONEEQ), composição da coordenação da área científica de quilombos da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), demandas de editais de formação junto às universidades como cursos de aperfeiçoamentos, especializações e licenciaturas em EEQ, participação da discussão nacional sobre mudanças na Política de Cotas, etc. Por meio da Coneeq, o coletivo teve um papel muito importante através de suas representantes na construção da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola, sancionada pela Portaria MEC nº470 . Seus principais objetivos são:
- Formar profissionais da educação para gestão e docência no âmbito da educação para as relações étnico-raciais (Erer) e da educação escolar quilombola (EEQ);
- Induzir a construção de capacidades institucionais para a condução das políticas de Erer e EEQ nos entes federados;
- Reconhecer avanços institucionais de práticas educacionais antirracistas;
- Contribuir para a superação das desigualdades étnico-raciais na educação brasileira;
- Consolidar a modalidade educação escolar quilombola, com implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola, conforme a Resolução nº 8, de 20 de novembro de 2012, do Conselho Nacional de Educação (CNE); e
- Implementar protocolos de prevenção e resposta ao racismo nas escolas e nas instituições de educação superior (públicas e privadas).[1]
Nesta Política, uma das importantes conquistas foi a mudança do valor do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) destinado às escolas quilombolas. Com o objetivo de fortalecer esta Política, o Coletivo Nacional preparou uma aula no curso de 2024, na qual uma representante do FNDE e a Professora Ms. Márcia do Nascimento, do quilombo de Conceição das Crioulas, apresentaram o que é o programa e como as diretoras podem utilizar este valor.[2]
O Coletivo de Educação da Conaq é formado por professoras quilombolas e aquilombadas de todo o Brasil. Uma das principais demandas de enfrentamento que surge é o fechamento de escolas e a não garantia da permanência de professores quilombolas nas escolas dos territórios. Nestas ocasiões, vemos escancarado um dos principais problemas da educação que é a ausência de um plano de carreira e valorização das professoras[3] da educação básica, além das estruturas físicas precárias que ainda existem em muitos territórios quilombolas. Essa é uma das formas como o racismo se apresenta na educação formal de nossos territórios.
Em alguns municípios, as organizações quilombolas conquistaram o direito a um processo seletivo específico. O município de Salgueiro foi o primeiro a efetivar uma legislação específica para garantir a exclusividade de professores quilombolas nas escolas de seu território. Por meio da Lei municipal 1.813, de 2011, foram criados os cargos de “Professor Quilombola de Educação Infantil” e “Professor Quilombola Ensino Fundamental do 1º ao 5º ano”. Em 2012, a Comissão de Educação da Associação Quilombola de Conceição das Crioulas, com auxílio do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), conseguiu que o cargo fosse estendido para todo o Ensino Fundamental, de modo que atualmente todo o corpo docente das escolas quilombolas do município é formado por pessoas das comunidades. Essa conquista se deu por meio da Lei Municipal que criou os cargos de professor Quilombola de Educação Infantil e Professor Quilombola do Ensino Fundamental do 1º ao 5º ano. Em 2012, a Comissão de Educação da Associação Quilombola de Conceição das Crioulas conseguiu por meio do Ministério Público de Pernambuco que o cargo fosse estendido para todo o Ensino Fundamental de modo que todas as escolas quilombolas do Município de Salgueiro fosse ocupada por professoras quilombolas.[4]
Lembrando que a comunidade de Conceição das Crioulas é pioneira na construção da ideia de uma Escola como um espaço de fortalecimento da identidade étnica quilombola.
Esta iniciativa abriu precedentes em outros municípios como Bom Jesus da Lapa (BA), por meio de Lei Municipal,
Em Bom Jesus da Lapa, BA, (2024), também por meio de lei municipal, criou-se os cargos de professor(a) quilombola para a educação infantil e para o ensino fundamental. No Paraná (2010) e em Santa Catarina (2023), a seleção de professores exige uma carta de anuência das comunidades quilombolas, priorizando moradores locais. Em Caucaia, CE, (2023) e na rede estadual de Goiás (2022), o edital de um concurso público incluiu vagas exclusivas para docentes quilombolas, destacando claramente o critério de pertencimento quilombola. Já o município de Orocó, PE, (2016) tem uma lei municipal, porém não garante a exclusividade, mas sim a prioridade para docente quilombola. Por fim, no estado do Maranhão (2023), um edital de seleção temporária incluiu uma pontuação extra para quilombolas na análise curricular e de títulos. (SILVA & PIMENTEL, 2025[5])
A efetivação das Diretrizes Nacionais para a Educação Escolar Quilombola tem sido a principal ferramenta de luta para que as lideranças quilombolas Brasil a fora possam reivindicar a consolidação da EEQ nas escolas dos seus territórios.
Referências.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CEB nº 8, de 20 de novembro de 2012. Estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 21 nov. 2012. Seção 1, p. 11.
GUSMÃO, Neusa Maria Mendes de. Caminhos Transversos: território e cidadania Negra. In: OD’Wyer, Eliane Cantarino. (Org.). Os Quilombos na Dinâmica Social do Brasil. 1ed. Saõ Paulo: Cortez, 1998, v1,p.61-78.
Gessiane Ambrosio Nazario é Doutora em Educação pela UFRJ. Mestre em Sociologia pela UFF. Graduada em Pedagogia pela UFF. Professora efetiva na rede municipal em Armação dos Búzios. Membra fundadora do Coletivo de Educação da Conaq. Integrante da coordenação do Coletivo de Educação da Conaq. Foi coordenadora de área científica da ABPN (Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as) entre 2022 e 2024. Autora do livro Revolta do Cachimbo-a luta pela terra no quilombo da Caveira. Autora do livro infantil “Aspino e o boi”.
Notas
[1] Disponível em https://www.gov.br/mec/pt-br/pneerq .
[2] Assista em https://www.youtube.com/watch?v=qtgQAlgXjfc
[3] A opção pelo gênero feminino é intencional, visto que a maioria do corpo docente da educação básica é composta por mulheres.
[4] Disponível em Link para matéria: https://pp.nexojornal.com.br/opiniao/2025/06/25/a-educacao-escolar-quilombola-exige-professoras-quilombolas-o-papel-das-acoes-afirmativas.
[5] Link para matéria: https://pp.nexojornal.com.br/opiniao/2025/06/25/a-educacao-escolar-quilombola-exige-professoras-quilombolas-o-papel-das-acoes-afirmativas.
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Uma mukanda para todes nós
Laura da Silva escreve carta para que as atrocidades do passado colonial não se perpetuem no tempo presente
Eu não estou tentando convencer ninguém do meu valor como pensadora, apenas para deixar claro que estou envolvida em um projeto diferente, que implica uma crítica da civilização ocidental para que possamos viver e o planeta não seja destruído. Intelectuais radicais estão lidando com questões essenciais para pensarmos sobre nossas vidas. Não estamos implorando para entrar na biblioteca do clube de fazendeiros europeus. Não há trilha que tenha sido traçada pelos filósofos e teóricos europeus mais brilhantes e respeitados que responda às questões da morte social e da vida negra (Saidiya Hartman, 2023).
Escrevo essa mukanda[1] para nós, para firmar no tempo e espaço a nossa ausência do futuro em que nos fará presente e a nossa presença no passado. Escrevo para que não nos esqueçamos que um dia tivemos que escrever sobre as atrocidades cometidas ao nosso povo, mas também que tivemos a oportunidade de escrever a revolta que se legitimará tão prontamente e que somos nós os responsáveis pelas nossas histórias.
Escrevo para que tenhamos condições de lembrar que um dia deixamos de ser a eterna promessa do porvir, porque o afrofuturo é logo ali e ele terá que dar conta de todas nós, utilizando todos os meios necessários para que ele não nos perca de vida e nem de vista.
Escrevo essa mukanda porque acredito no poder das palavras e da escrita e assinalo um chamado: que não percamos de vista o arquivo imperial, para que possamos desmantelá-lo até chegar o momento em que não precisaremos mais estraçalhá-lo, e quando isso acontecer, quer dizer que a gente conseguiu, que a gente não deixou a história colonial silenciar a nossa existência.
[1] A palavra mukanda (ou mucanda), significa carta e escrita, originária da língua quimbundo de origem banto, falada em regiões da Angola.
Uma convocação
Portanto, as e os convoco a escrever porque, como bem pontua Anzaldúa (2000), essa é uma das estratégias que temos de colocar “ordem” no mundo, de não deixar o Ocidente minar os nossos futuros, de mostrar a ele que quem foi obrigada a sambar no fio da navalha não cai fácil na boca do leão e sabe como ninguém carregar água na peneira.
É do nosso entendimento que essa máquina neoliberal de moer imaginários e futuros negros e dos povos originários sabe produzir “muito bem” a desigualdade e a devastação da nossa existência, assim como da natureza, e isso implica diretamente em nossa permanência no mundo.
Sabemos também que o modo de bem-estar promovido pelo Ocidente está em completo desacordo como o modo de Bem Viver evocado pelos povos originários; pois então, que façamos do Bem Viver um projeto de vida perene e real: “trata-se essencialmente de bem conviver em comunidade e na [com a] Natureza” (Acosta, 2017, p. 25).
E que nessa toada, não deixemos de lado as cosmovisões milenares dos povos originários e dos povos do continente africano, sabedorias que se fazem urgentes para que tenhamos condições reais de superar as lacunas mortíferas produzidas diariamente pelo pensamento ocidental e colonial.
Escrevo porque escreveram antes de mim e escreverão depois de mim, então escreveremos para nos livrar desses modos regidos pela acumulação do capital que alimenta uma lógica em que uns se sobressaem aos outros e fomenta um mundo com absolutas perversidades em nome de um reinado fajuto e falho, baseado no poder e não poder, no perder e ganhar, no ter e não ter, do morrer em detrimento do viver, isto é, a acumulação material e de capital, pouco importa para o mundo que estamos projetando viver.
Malcolm X (2021) argumenta que corpos negros na América vivem em um estado de policiamento constante; complemento que os povos originários também e, portanto, diante dessas tramas tecidas pelo Ocidente contra nós, não há alternativa senão seguir na incansável — e por vezes cansativas — luta pela garantia dos nossos direitos, violados a todo tempo e momento.
Assim, escreveremos para empurrar ladeira abaixo esse mundo mancomunado com a perpetuação da desgraça e da morte matada, que continua a promover no tempo presente o assassinato político, econômico, social, cultural, ambiental e mental das populações negras e dos povos originários, em face a promoção arquitetada do genocídio negro e indígena em massa.
É improvável que consigamos nos colocarmos e nos sentirmos confortáveis nos postos da chamada “alta sociedade” vulgo branquitude e, sinceramente, não queremos, porque viver em comunidade é o mais recomendável a se fazer: a comuna é mais aconchegante e chegante de afeto e cuidado, no qual a teoria vivida de fato conflui com a teoria projetada pelas palavras.
Escreveremos para que os sonhos não acabem no nosso despertar, e que o ato de imaginar seja imprimido nas nossas comunicações, de forma que as permanências e ausências das vidas negras e dos povos originários não se deem por decisão da branquitude.
Escreveremos na toada de reivindicar em forma de escritas diversas outras possibilidades de fazer o mundo girar, que enfrente e fuja — quando necessário — do rodopio colonial, mas que caminhe num girar contracolonial. Nego Bispo entoa que o modo contracolonial de ser é simples, “é você querer me colonizar e eu não aceitar que você me colonize, é eu me defender. O contracolonialismo é um modo diferente de vida do colonialismo” (2023, p. 58). Então que façamos deste modo de viver uma constante contra um mundo essencialmente colonizador.
Temos aí dois modos — que se complementam — muito mais interessantes de viver, evocados pelos povos originários e quilombolas, são eles, o Bem Viver[1] e o Contracolonialismo[2]. Digo, portanto que, — Em uma sociedade colonialista, não basta ser decolonial. É necessário ser contracolonial — para que possamos combater de forma incisiva e com veemência as agruras produzidas por um sistema falido de afeto, reconhecimento, partilha e cuidado com o outro.
Escreveremos, para sacramentar o que já foi dito pelas nossas ancestrais, mas mais do que isso, para que façamos o não dito ser dito e enunciado em todos os cantos, e assim não correremos o perigo iminente de nos perdermos na trilha do não dito e nas arapucas dos falsos ditos produzidos pelos malditos colonialistas.
E continuaremos a escrever para exercitarmos a mudança no tempo presente e confrontar a branquitude e seus privilégios, para rejeitar os estereótipos lançados sobre nossas histórias, vivências e permanências, e para anunciar que o momento requer a mudança do tempo passado, presente e futuro, e que não dependemos do aval brancoide para realizarmos esse agir no porvir.
Como bem reflete Beatriz Nascimento “esse território na verdade é um caminho percorrido e a percorrer” (2022, p. 89) e na persistência do ato de escrever seguiremos em movimento, moldando as estratégias de sobrevivência, mas sobretudo construindo as táticas das nossas vivências.
Ensaio o fim desta mukanda, dizendo que me dediquei a brincar e rasgar a palavra no sentido mais visceral do que isso pode significar, porque brincar e rasgar faz parte do nosso processo de envolvimento e compartilhamento com o mundo e com as nossas ancestrais. Ative-me no compromisso perene em conclamar a continuação do desmonte imperial. E lançar a palavra nos possibilita transgredir o colonialismo e legitimar o contracolonialismo. Que venham mais Mukandas!
[1] Ver em O Bem Viver de Alberto Acosta.
[2] Ver em A terra dá, A terra quer de Antônio Bispo.
* Esta Mukanda integra a dissertação de mestrado “Educação e Afrofuturismo: tensionando tempos e narrativas no Caderno do Estudante da disciplina de História da rede estadual paulista a partir das discussões sobre memória, imagem e raça”, defendida em 2025, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de São Paulo (USP), que se propôs a refletir sobre as potencialidades do afrofuturismo e suas possíveis contribuições e interfaces com a educação e educação antirracista, com ênfase na disciplina de História da rede estadual paulista.
Laura da Silva – Cientista Social e pesquisadora em formação. Doutoranda e mestra em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Sua trajetória acadêmica tem sido marcada pelo compromisso com a produção de conhecimento crítico, dedicando-se a pesquisas que abordam as relações étnico-raciais e os desafios das trajetórias educacionais de adolescentes em situação de acolhimento institucional.
Referências
Glória Anzaldúa. “Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo”. Revista Estudos Feministas, [S. l.], v. 8, n. 1, p. 229, 2000. DOI: 10.1590/%x. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880. Acesso em: 11 set. 2024.
Alberto Acosta. O Bem Viver. 2ª Reimpressão, São Paulo: Elefante, 2016.
Antonio Bispo dos Santos. A Terra Dá, A Terra Quer. 3ª Reimpressão, São Paulo, 2024.
Fernanda Silva e Sousa. “Eu não sou uma nota de rodapé para o pensamento de grandes homens brancos”: uma entrevista com Saidiya Hartman. ODEERE, Online, v. 8, n. 1, p. 1-23, 2023. Disponível em: https://periodicos2.uesb.br/index.php/odeere/article/view/12538. Acesso em: 15 nov. 2024.
Beatriz Nascimento. O negro visto por ele mesmo. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
George Breitman. Malcolm X Fala. 1Ed, São Paulo: Ubu Editora, 2021.
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Memória e formação política: o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira”
Memória e formação política: o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira”
Luciana Barbosa de Melo apresenta o acampamento da juventude sem terra e reflete sobre histórias de vidas e territórios marcados pela luta e pela resistência
Nosso dia começa encharcado assim como redes, lençóis, barracas e roupas. As meninas e meninos vão aos núcleos de base, abrem com inquietação as pastas indo aos poucos se recompondo, mastigando bem, degustando e repetindo os textos do tempo leitura. Após, teimam em pôr seus pertences às raras e ardentes presença do sol…
É acampamento!
(Vanessa Pinheiro – Palmares II, fevereiro chuvoso de 2015)
Escrever sobre o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira” é, antes de tudo, refletir sobre histórias de vidas e territórios marcados pela luta e pela resistência. É pensar sobre as trajetórias de pessoas (Sem Terra), sobre o lugar (Amazônia/Sudeste do Pará), sobre um acontecimento histórico (Massacre de Eldorado dos Carajás), sobre um sujeito coletivo (MST) e, sobretudo, sobre a juventude (filhas e filhos de trabalhadoras e trabalhadores rurais desterritorializados, migrantes, herdeiros de um passado de expropriação e esperança). Refletir sobre o acampamento pedagógico é também reconhecer as múltiplas dimensões que atravessam sua existência: as violências e a exploração da natureza e do trabalho humano; as lutas de classes e a luta pela terra; as formas de resistência popular e as disputas em torno de diferentes projetos de sociedade.
O acampamento pedagógico, ao mesmo tempo produto e expressão das contradições históricas do campo brasileiro, constitui-se como um espaço orgânico de denúncia, enfrentamento e resistência, mas também de memória, mística, celebração, arte, cultura e formação política do MST. Nele, as dimensões simbólicas e materiais da luta se entrelaçam, produzindo uma prática que educa não apenas para compreender o mundo, mas para transformá-lo. Ao articular passado e presente, o acampamento dá forma a uma prática educativa que resgata a memória coletiva das lutas e projeta, na ação cotidiana, um novo horizonte de emancipação humana — horizonte construído coletivamente, pela força do trabalho, da solidariedade, da disciplina, da formação humana e da consciência de classe.
Amazônia e a territorialização do capital no Sudeste do Pará
Quem não vive na Amazônia não sabe como o perigo nasce e descamba com o sol e vem ainda com a noite, cotidianamente.
( Julia Iara, 11º Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra, 2017)
Quando se fala da Amazônia, a imagem mais difundida refere-se a uma extensa floresta tropical úmida, marcada pela maior bacia hidrográfica do planeta, elevada biodiversidade e grande diversidade de recursos naturais e minerais. Nessa perspectiva, a região é frequentemente representada como uma reserva estratégica para o desenvolvimento econômico ou como um patrimônio natural a ser preservado. Contudo, tais representações tendem a reduzir a complexidade histórica, social e política da Amazônia, ao enfatizar predominantemente sua dimensão ambiental e econômica
Analisar a Amazônia exige romper com a visão imperialista que a reduz a um repositório de recursos naturais disponíveis à exploração capitalista. Essa concepção desconsidera que a região é historicamente habitada por povos originários há mais de 11 mil anos, além de populações do campo e ribeirinhas que, ao longo dos últimos cinco séculos, resistiram ao avanço do modelo colonial baseado na monocultura e no latifúndio de exportação. Como afirma Porto-Gonçalves[1], essas populações fugiram “da opressão do desenvolvimento colonial”, evidenciando que a Amazônia jamais foi um vazio demográfico ou cultural, como o discurso dominante insiste em afirmar. Ao contrário, tal discurso funciona como instrumento ideológico que legitima a apropriação privada da terra e dos bens comuns, invisibilizando a diversidade sociocultural que constitui o território amazônico.
O discurso do “vazio demográfico”, sintetizado no slogan “terra sem homens para homens sem terra”, desempenhou papel central na legitimação de uma estratégia geopolítica e econômica voltada à chamada “integração nacional” da Amazônia. Esse discurso justificou a ocupação e a apropriação privada de territórios historicamente habitados por povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e extrativistas. Dessa forma, a política de integração da Amazônia revelou-se, na prática, um projeto de territorialização do capital, sustentado por um modelo de desenvolvimento de caráter colonial que marginaliza saberes, modos de vida e práticas coletivas de uso da terra.
A abertura da Rodovia Transamazônica, iniciada em 1970, constitui uma das expressões mais emblemáticas desse processo. Ao priorizar a construção de rodovias como eixos de desenvolvimento, o Estado passou a impor uma nova lógica de organização territorial, alterando profundamente a configuração do espaço amazônico. Historicamente estruturadas em torno dos rios — principais vias de circulação e comunicação da região —, as dinâmicas sociais e econômicas passaram gradualmente a se reorganizar a partir das rodovias, que funcionaram como vetores de penetração do capital, expansão da fronteira agrícola e intensificação do desmatamento. Assim, a Transamazônica não apenas atravessou fisicamente a floresta, mas também reconfigurou as formas de sociabilidade e de uso do território, subordinando-as à lógica desenvolvimentista do Estado e aos interesses do mercado.
Nesse sentido, o projeto de desenvolvimento implementado na Amazônia pode ser compreendido como parte de um processo de intensificação da acumulação primitiva de capital, materializado por meio de políticas estatais de distribuição de terras, concessão de incentivos fiscais, facilitação de crédito e construção de infraestrutura. Tais medidas favoreceram a penetração do capital nas riquezas naturais e minerais da região, beneficiando sobretudo frações da burguesia nacional e internacional. O Estado atuou, assim, como agente ativo na reprodução das relações de exploração, ao garantir condições para a expansão da exploração madeireira, da pecuária extensiva, da especulação fundiária e da mineração, frequentemente em detrimento das populações locais.
Como resultado desse processo, trabalhadores e trabalhadoras rurais, povos originários e comunidades tradicionais foram sistematicamente expropriados de seus territórios e submetidos a diversas formas de violência social, ambiental e econômica. A Amazônia foi incorporada ao sistema capitalista não apenas como fornecedora de matérias-primas, mas também como mercado consumidor, assumindo papel específico na divisão territorial do trabalho. Desse modo, o processo de territorialização do capital na região evidencia as contradições próprias do capitalismo periférico, no qual o desenvolvimento econômico ocorre simultaneamente à intensificação da exploração, da concentração fundiária e das desigualdades sociais.
Segundo Malheiro, Porto-Gonçalves e Michelotti[2], a virada do século XXI atualizou de forma brutal o capitalismo na Amazônia, por meio de escolhas políticas e econômicas orientadas à exportação de commodities agrícolas e minerais. Essas determinações produzem territorializações voltadas à exploração intensiva dos recursos naturais e ao controle da terra, processos que só se tornaram possíveis a partir da dinâmica de cercamentos da natureza, dos meios de existência e dos espaços de produção da vida social, característicos do capitalismo. Tal dinâmica visa integrar, cada vez mais, a Amazônia aos circuitos nacionais e internacionais de acumulação do capital.
A mineração constitui um exemplo emblemático desse processo, cuja síntese pode ser expressa pelo Programa Grande Carajás (PGC)[3], lançado na década de 1970, cujo principal objetivo é viabilizar a exploração e exportação dos minérios da Serra Carajás, no estado do Pará. “O objetivo da Vale é manter elevados níveis de produção em Carajás, porque o minério de ferro de alta qualidade é considerado crucial para a produção do chamado ‘aço verde’, com menor pegada de carbono.” (Brasil Mineral, 2025, p.8)
Conforme o Relatório de Produção e Vendas de 2024 da empresa Vale S.A (2024), em todo o Brasil foram produzidas 328 milhões de toneladas de minério de ferro, volume que representa um crescimento aproximado de 69,4% em relação às 193,6 milhões de toneladas registradas em 2018, até então a maior produção alcançada. Ao analisar o Sistema Norte[4], verifica-se que o projeto S11D[5] atingiu, em 2024, um recorde de produção de 83 milhões de toneladas de minério de ferro, o que corresponde a aproximadamente 25,3% da produção nacional. Já as operações da Serra Norte e da Serra Leste produziram, conjuntamente, cerca de 94,5 milhões de toneladas, o que equivale a aproximadamente 28,8% da produção nacional[6]. Assim, o volume total produzido no Sistema Norte alcançou 177,5 milhões de toneladas, equivalente a aproximadamente 54,1% da produção nacional de minério de ferro, evidenciando a intensificação da exploração mineral na região Norte e reforçando a centralidade da Amazônia nos circuitos nacionais e internacionais de acumulação do capital.
Nesse contexto, como afirmam Malheiro, Porto-Gonçalves e Michelotti, “o tempo do capital é um tempo contra os tempos da vida e das culturas outras”[7]. A expansão da mineração de ferro na região, orientada pelas escalas e pelos ritmos do capital mundial financeirizado, impõe uma temporalidade acelerada de extração, circulação e exportação, incompatível com os tempos ecológicos e socioculturais da Amazônia. Essa temporalidade entra em conflito direto com o tempo dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e das populações do campo, que produzem seus territórios em relação histórica com as florestas e os rios. Esses tempos, enraizados em práticas territoriais próprias, garantem a preservação de amplas áreas na Amazônia, cuja existência resulta diretamente de processos de resistência e de lutas sociais. Assim, a disputa entre o tempo do capital e os tempos da vida constitui um dos eixos estruturantes dos territórios em conflito na Amazônia contemporânea.
MST e a luta pela terra na região de Carajás
Nós decidimos que não “ficaremos tão só no campo da arte” e, reinventado nossas formas de organização e mobilização, damos continuidade na luta…
(Manifesto da Juventude Sem Terra à Esperançar – 15º Acampamento
Pedagógico da Juventude Sem terra – 2021)
Ao longo da história brasileira, diversos segmentos vinculados ao campo — como trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra, posseiros, povos indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhos — têm protagonizado lutas contra a expansão do capital e o avanço da propriedade privada sobre territórios tradicionalmente ocupados. Por meio da organização em movimentos sociais, essas populações questionam a estrutura fundiária concentrada e o papel do Estado como garantidor da ordem capitalista, reivindicando não apenas o acesso à terra, mas também o direito à permanência nela e à reprodução de seus modos de vida enquanto classe social.
No sudeste do Pará, uma das principais estratégias utilizadas pelos trabalhadores e trabalhadoras rurais para acessar a terra tem sido a ocupação, frequentemente articulada por movimentos sociais do campo. Historicamente, essa estratégia constitui uma resposta direta à concentração fundiária e à ausência de políticas efetivas de reforma agrária. Nas últimas décadas, as ocupações e os conflitos associados a elas tornaram-se mais intensos e frequentes, impulsionados por elementos das conjunturas regional e nacional, como o avanço do agronegócio, a especulação fundiária e a omissão do Estado diante das demandas sociais.
Como afirma Michelotti, “é na relação entre a história social de certo lugar que se pode compreender as várias formas sociais adquiridas pela terra e a trama de relações entre os diferentes sujeitos que buscam dela se apropriar”[8]. Nesse sentido, a terra, além de constituir um bem econômico, expressa também uma disputa simbólica, política e social, na qual diferentes sujeitos — trabalhadoras e trabalhadores rurais, grileiros, empresários, latifundiários e agentes do Estado — projetam interesses contraditórios. A ocupação, portanto, assume um caráter político e coletivo, configurando-se como ferramenta central de resistência e de luta por justiça social e territorial no contexto da Amazônia paraense.
Os conflitos fundiários na Amazônia, particularmente no sudeste paraense, refletem as contradições estruturais do modo de produção capitalista, que se baseia na expropriação da terra e dos meios de produção da classe trabalhadora para assegurar a acumulação de capital pelas elites econômicas. Nesse contexto, a violência no campo constitui uma forma estrutural de controle social, utilizada para conter a resistência das trabalhadoras e trabalhadores rurais, das comunidades tradicionais e povos originários. Como assinala Marx[9], a violência é um instrumento recorrente do capital, utilizado sempre que necessário para assegurar as bases do modo de produção capitalista.
A violência no campo manifesta-se, nesse sentido, como instrumento de dominação exercido pela burguesia agrária. Como aponta Afonso[10], ela se expressa por meio da ação de proprietários de terra, frequentemente executada por pistoleiros, milicianos e/ou agentes policiais, materializando-se em ameaças, expulsões forçadas, assassinatos seletivos de lideranças e massacres. Trata-se “um método para barrar o processo de luta da organização camponesa, pois quando esta classe se organiza, ela questiona a estrutura fundiária e o Estado”[11].
Como aponta Michelotti, em uma região cujo interesse estratégico para a acumulação capitalista está assentado na potencialidade de seus bens naturais, a principal via de apropriação de riqueza se dá por meio do domínio da terra e do território, processos profundamente vinculados a relações de poder[12]. Esses conflitos, portanto, não se manifestam apenas nos embates diretos entre os diferentes agentes (como trabalhadoras e trabalhadores rurais, grileiros, corporações e Estado), mas também, e de forma decisiva, nas mediações sociais e institucionais que moldam as possibilidades de acesso, controle e uso da terra. Dessa forma, a luta pela terra na Amazônia é uma expressão concreta das contradições estruturais mais profundas do capitalismo, em que o espaço é constantemente reconfigurado pelas disputas entre capital e trabalho, propriedade privada e uso social da terra.
O Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro apresenta o mapeamento dos conflitos no campo, classificados por Terra (84% do total agregado, 41.086 ocorrências), Água (7,1%, 3.483 ocorrências) e Trabalho (8,9%, 4.332 ocorrências), a partir de dados sistematizados pela CPT e publicados anualmente desde 1985[13]. Os dados coletados entre 1855 e 2023, indicam que a Amazônia concentrou 21.608 ocorrências desses conflitos, o que representa 44% do total registrado no país. Observa-se a predominância dos conflitos por terra, que, em toda a série histórica, correspondem a 81,75% dos 20.742 casos registrados, evidenciando a configuração de um modelo de capitalismo na Amazônia orientado pela expropriação e pela concentração de terras e de bens naturais.Parte inferior do formulário A análise por unidades federativas revela que o estado do Pará concentra o maior número de conflitos, totalizando 6.806 ocorrências.
Nesse cenário de conflitos e disputas territoriais, o MST emerge como um dos principais sujeitos coletivos de organização da luta pela terra no Brasil, que questiona as bases do sistema capitalista, denunciando a exploração do ser humano e da natureza em prol do lucro. O Movimento busca a transformação estrutural, compreendendo que as desigualdades no campo são produto das contradições do modo de produção capitalista. Dessa forma, segundo Vendramini, o MST é “um dos mais inovadores fenômenos políticos da América Latina, à medida que busca enfrentar os problemas atacando as causas estruturais”[14].
O MST atua principalmente por meio da ocupação de terras improdutivas, prática que possui caráter radical, simbólico e pedagógico, pois questiona na prática a estrutura do capital no campo e os fundamentos da propriedade privada da terra. Essa ação se sustenta na unidade construída nos processos coletivos, em que o trabalho e a solidariedade se tornam instrumentos de resistência e transformação. Contudo, essa unidade não é isenta de tensões, ao passo que ela é constantemente mediada pelas contradições e complexidades das dinâmicas sociais, políticas e econômicas do país, que influenciam diretamente nas formas de organização e de luta das trabalhadoras e trabalhadores rurais.
A estratégia de luta do MST estrutura-se, em grande medida, na formação de acampamentos e na mobilização coletiva em áreas de grande visibilidade, frequentemente localizadas próximas a rodovias e centros urbanos. Essa forma de ação busca acelerar os processos de desapropriação de latifúndios improdutivos e ampliar o debate público sobre a necessidade de transformação da estrutura agrária brasileira. O Movimento também recorre a outras estratégias de mobilização, como a ocupação de órgãos públicos e estradas e a realização de marchas, com o objetivo de pressionar pela implementação da reforma agrária popular e promover o debate público sobre a distribuição de terras no campo brasileiro.
Na região de Carajás, essa atuação confronta diretamente alguns dos principais pilares do poder regional: os latifundiários, a empresa mineradora Vale e o próprio Estado, todos agentes centrais na reprodução da lógica de acumulação capitalista no território amazônico. A organização das trabalhadoras e trabalhadores rurais em torno da luta pela terra representa, nesse contexto, não apenas a reivindicação de acesso ao território, mas também um processo de reinserção social e política de sujeitos historicamente expropriados, que passam a se afirmar como protagonistas de sua própria história.
A reação das elites agrárias e de outros agentes econômicos diante da atuação do MST frequentemente se articula com mecanismos de repressão e violência. Na região de Carajás, essa dinâmica culminou em um dos episódios mais emblemáticos da violência no campo brasileiro: o Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 1996. Nesse episódio, trabalhadoras e trabalhadores rurais ligados ao MST foram violentamente reprimidos por forças policiais do Estado, revelando o grau de brutalidade mobilizado para assegurar a defesa da propriedade privada e dos interesses do capital.
Esse acontecimento evidencia que a repressão aos movimentos sociais do campo não constitui um desvio ou exceção, mas integra a própria lógica de manutenção da ordem capitalista. Conforme analisado por Marx, a violência desempenha papel fundamental nos processos de acumulação e reprodução das relações de dominação de classe, atuando como instrumento para garantir a continuidade das estruturas de poder e da concentração da terra[15].
O Massacre de Eldorado de Carajás e o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira”
Voltar pro Acampamento. Viver o Acampamento. Reclamar a Curva do S. Projetar no front uma esperança coletiva, organizada. Alimento para a imaginação. Fortaleza da alma.
(Julia Iara – Memória do 16º Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra – 2022)
Em 1996, cerca de 1.500 famílias ligadas ao MST encontravam-se acampadas às margens da rodovia PA-275, reivindicando a desapropriação da Fazenda Macaxeira, localizada no município de Curionópolis (PA). A ocupação da área, considerada improdutiva, tinha como objetivo pressionar o governo do Estado do Pará para o assentamento imediato das famílias. Diante da omissão e da lentidão do poder público em responder às reivindicações, o Movimento organizou uma marcha com destino à capital do estado, Belém, iniciada em 10 de abril de 1996. A marcha, enquanto forma de ação política coletiva pacífica, buscava dar visibilidade à luta pela terra, denunciar a concentração fundiária e exigir do Estado uma solução concreta para as famílias acampadas. A resposta do Estado, entretanto, não ocorreu por meio do diálogo, mas da repressão policial, resultando no episódio que ficou conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás.
De acordo com Afonso, o massacre representa um marco na história contemporânea da luta pela terra no Brasil, estabelecendo um “antes” e um “depois” no debate sobre a questão agrária[16]. O episódio projetou os conflitos agrários da Amazônia para o cenário nacional e internacional, ao expor a violência estrutural que permeia as disputas fundiárias no país. Ao mesmo tempo, contribuiu para ampliar a visibilidade e o apoio social ao MST e à sua pauta histórica de luta pela reforma agrária. A violência do Estado e a concentração fundiária, longe de desarticularem a resistência, acabaram por fortalecer a luta e a organização política entre as trabalhadoras e trabalhadores rurais. O massacre, portanto, não apenas denunciou as estruturas históricas de dominação e expropriação, mas também impulsionou um novo ciclo de resistência e formação política, no qual o MST assumiu papel central na luta pela terra na região sudeste do Pará e na Amazônia.
Apesar de avanços, como a criação de assentamentos e a consolidação de novos acampamentos, o conflito agrário permanece como uma realidade marcante na região. A violência no campo se expressa em ameaças de despejos, pulverização aérea de agrotóxicos que destroem roças, geram doenças e contaminação, além de intimidações e assassinatos de lideranças, mas também evidencia o peso da disputa pela terra no sudeste do Pará. Ainda assim, o MST mantém sua atuação ativa e organizada, sustentado pela convicção de que a reforma agrária é essencial para a Amazônia.
É nesse contexto de memória, resistência e reorganização das lutas que surge, em 2006, o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira”, organizado pela direção estadual do MST no Pará. Realizado na Curva do S — local onde ocorreu o massacre — o acampamento foi inicialmente concebido como uma atividade simbólica em memória das vítimas. Sua primeira edição teve duração de 17 dias, entre 1º e 17 de abril, encerrando-se com um ato político-cultural em homenagem aos trabalhadores assassinados.
Essa experiência rompeu com o silêncio que cercava a impunidade dos crimes cometidos no campo paraense e consolidou-se como um espaço-território de denúncia das violências sofridas pela classe trabalhadora, especialmente da violência estatal. Ao mesmo tempo, reafirmou a centralidade da luta pela terra e pela reforma agrária popular, tanto no estado do Pará quanto em todo o Brasil. Com o tempo, o acampamento pedagógico foi incorporado de forma permanente ao calendário de lutas do MST na Região Amazônica, sendo realizado anualmente de 10 a 17 de abril. Assim, passou a assumir a função de narrar e preservar a memória do massacre para as novas gerações, constituindo-se como um espaço de formação política baseado na construção coletiva e na forma organizativa do Movimento.
Ao longo de sua trajetória, o Acampamento Pedagógico consolidou-se como um espaço de formação política da juventude vinculada ao Movimento. Sua proposta central consiste em possibilitar as/os jovens a vivência concreta da experiência organizativa de um acampamento — elemento historicamente central na luta pela terra conduzida pelo MST. A formação ocorre com base nos princípios organizativos: direção coletiva, divisão de tarefas, participação direta nas decisões, trabalho como princípio educativo, disciplina e valorização dos tempos e espaços formativos. Como afirma Dalmagro, “a formação advinda da teoria e da prática pode se enlaçar e, quando isso acontece, a consciência social encontra-se melhor sustentada”[17].
No processo de organização do acampamento pedagógico, a estrutura organizativa é construída coletivamente no espaço, de modo a estabelecer uma dinâmica participativa e democrática. Para isso, são criadas diferentes instâncias organizativas, entre elas: a Coordenação Política e Pedagógica (CPP), as equipes de trabalho (saúde, secretaria, infraestrutura, cozinha, segurança/zeladoria e cultura) e os Núcleos de Base (NBs). Essas instâncias asseguram que a gestão do acampamento seja coletiva, educativa e vinculada aos princípios de direção e participação do MST, fortalecendo a formação política e organizativa da juventude.
Por meio dessas práticas, busca-se que a juventude compreenda o sentido da luta política pela experiência concreta da participação coletiva e pela conquista do direito de intervir na vida social e política a partir da luta pela terra. Como afirma Dalmagro, “os valores, os motivos e a ética são formados pelas condições objetivas em que vivemos; portanto, colocar os jovens nas lutas da classe é profundamente educativo”[18]. Nesse sentido, o sentimento de pertencimento ao MST constitui um elemento político fundamental, pois possibilita a renovação das lutas e do quadro de militantes jovens, ao mesmo tempo em que pode promover a apropriação da história do Movimento e das lutas sociais que o originam.
Entre as diversas atividades realizadas durante o acampamento, destaca-se o ato político-cultural realizado diariamente na rodovia BR-155. Todos os dias, às 17 horas — horário em que ocorreu o massacre —, a rodovia é fechada por no mínimo 21 minutos em homenagem aos trabalhadores assassinados, constituindo-se como um ato de memória e denúncia. O bloqueio da estrada se configura como uma ação político-cultural cujo objetivo é dialogar com a sociedade sobre o projeto de reforma agrária popular, trazer à memória as vítimas do massacre, denunciar a violência contra a natureza e os povos do campo e anunciar novas perspectivas de organização social baseadas na luta da juventude e da classe trabalhadora.
Esse momento constitui um dos pontos centrais do acampamento pedagógico, no qual a juventude transforma memória histórica, resistência e expressão cultural em prática coletiva. O ato na rodovia evidencia uma forma de formação militante em que a ação política e cultural se converte em aprendizado pela ação direta. Nesse processo, reforça-se a consciência de classe, conectando os jovens ao passado da luta — simbolizado pelo massacre de Eldorado dos Carajás — e às lutas do presente, pela terra, pelo meio ambiente e pela vida. A tensão gerada pelo fechamento da rodovia expressa, simbolicamente, o conflito entre a ordem estabelecida e a organização popular, enfatizando a prática da resistência e da ação coletiva. A alternância entre apresentações de diferentes expressões artística, como a mística, o teatro, e falas políticas, demonstra que os processos educativos mais potentes são aqueles que articulam reflexão teórica e prática social, contribuindo para a formação de sujeitos capazes de transformar a realidade.
O encerramento do acampamento pedagógico coincide com o Ato Político do 17 de Abril, Dia Internacional de Luta Camponesa, que foi incorporado ao calendário de lutas dos movimentos sociais no Brasil e de outros países, sendo consagrado como o dia de rememorar o massacre de Eldorado dos Carajás e fortalecer a resistência das trabalhadoras e trabalhadores do campo contra a violência do latifúndio e do Estado. Nesse dia, ocorre uma concentração de pessoas vindas de diversos territórios do MST da Região Sudeste do Pará, incluindo familiares das vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás. O ato também conta com a participação de entidades e instituições parceiras e aliadas do Movimento na luta pela terra.
De acordo com Brito, o Acampamento Pedagógico expressa a capacidade organizativa da juventude Sem Terra, constituindo-se como um espaço de aprendizagem individual e coletiva voltado ao desenvolvimento da consciência de classe[19]. Nesse processo, os jovens entram em contato com novos valores, práticas e concepções políticas, articulando experiência concreta, reflexão crítica e participação nas lutas sociais. Assim, o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira” configura-se não apenas como um espaço de memória das lutas do MST, mas também como um território formativo no qual a juventude se insere ativamente nos processos organizativos do Movimento. Ao articular memória histórica, formação política e participação coletiva, o acampamento pedagógico contribui para a renovação das lutas sociais no campo e para a construção de sujeitos comprometidos com a transformação da realidade social.
Uma breve conclusão
Nós dissemos que não vamos esperar
Nós decidimos que vamos construir
Revolução social com revolução humana
Luta com organização coletiva
Juntas e juntos, com as próprias mãos
(Luciana Melo – Memória poética da Plenária “Análise de Conjuntura” do 19º Acampamento Pedagógico – 2025)
Olhar para o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira”, nos permite compreender esse espaço como uma experiência educativa profundamente vinculada às lutas sociais do campo brasileiro e à construção histórica do MST. Mais do que um evento ou atividade pontual, o acampamento se configura como um território pedagógico de formação política, de construção da memória coletiva e de fortalecimento da identidade da juventude Sem Terra.
Ao ser realizado no local marcado pelo Massacre de Eldorado dos Carajás, o acampamento reafirma o compromisso do MST com a preservação da memória das lutas populares e com a denúncia das violências históricas que atravessam a questão agrária no Brasil. Nesse sentido, a experiência pedagógica desenvolvida nesse espaço articula passado e presente, permitindo que a juventude compreenda as raízes estruturais das desigualdades no campo e reconheça seu papel como sujeito histórico na continuidade das lutas por justiça social e reforma agrária.
As práticas educativas vivenciadas no acampamento — que envolvem momentos de mística, debates teóricos e políticos, atividades culturais, trabalho coletivo e convivência comunitária — revelam uma concepção ampliada de educação, orientada para a formação humana integral e para a construção da consciência de classe. Essa perspectiva pedagógica não se restringe à transmissão de conhecimentos, mas busca formar sujeitos críticos, capazes de interpretar a realidade e atuar coletivamente na transformação das estruturas sociais que produzem desigualdades e exclusões.
Dessa forma, o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra evidencia o potencial formativo das experiências educativas construídas no interior dos movimentos sociais. Ao articular memória, cultura, organização política e formação crítica, o acampamento reafirma a educação como prática social comprometida com a emancipação humana e com a construção de projeto de sociedade baseado no socialismo. Por fim, compreender e analisar experiências como essa contribui para ampliar o debate sobre educação do campo, movimentos sociais e formação política da juventude, evidenciando que os processos educativos também se constroem nos territórios de luta e resistência, onde a memória, a organização coletiva e a esperança se tornam fundamentos para a construção de novos horizontes históricos.
Luciana Barbosa de Melo é militante do MST e mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Notas
[1] Carlos Walter Porto-Gonçalves. Amazônia enquanto acumulação desigual de tempos: Uma contribuição para a e c o l o g i a p o l í t i c a d a r e g i ã o. h t t p s : / / d o i . o r g / 1 0 . 4 0 0 0 / r c c s . 6 0 1 8, 2015.
[2] Bruno Malheiro, Carlos Porto-Gonçalves, Fernando Michelotti. Horizontes amazônicos: para repensar o Brasil e o mundo. 1ª ed. – São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo; Expressão Popular, 2021.
[3] A implementação do Programa contemplou um amplo pacote de obras, incluindo hidrelétricas, ferrovias, a mina de Carajás, siderúrgicas e portos. Embora o foco central dos investimentos fosse a mineração, também visou à regularização fundiária para a pecuária, à administração dos conflitos pela posse da terra e à garantia da segurança jurídica para os investimentos do grande capital.
[4] O Sistema Norte envolve as operações da Serra Norte, Serra Sul (S11D) e Serra Leste, concentrando a produção de minério de ferro no Complexo de Carajás e abrangendo os municípios de Parauapebas e Canaã dos Carajás, no sudeste do estado do Pará.
[5] A S11D, localizada no Sistema Sul da Serra dos Carajás, no município de Canaã dos Carajás, faz parte do Complexo do Projeto Grande Carajás e é atualmente considerada uma das maiores minas de minério de ferro a céu aberto do mundo. Operada pela Vale S.A., a mina possui uma projeção de produção de 90 milhões de toneladas de minério de ferro por ano.
[6] BRASIL MINERAL. Brasil Mineral. Ano XLII, n. 450, jul. 2025. ISSN 0102-4728
[7] Bruno Malheiro, Carlos Porto-Gonçalves, Fernando Michelotti. Horizontes amazônicos: para repensar o Brasil e o mundo. 1ª ed. – São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo; Expressão Popular, 2021.
[8] Fernando Michelotti. Territórios de produção agromineral: relações de poder e novos impasses na luta pela terra no sudeste paraense – Rio de Janeiro, 2019.
[9] Karl Marx. O Capital: Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
[10] José Batista Gonçalves Afonso. Massacre de Eldorado dos Carajás e a luta do movimento camponês pela terra no sul e sudeste do Pará. Dissertação (Mestrado em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia), Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, Marabá, 2016.
[11] Celia Regina Congilio, & Ana Cristina Sousa Santos. “Grandes projetos capitalistas na Amazônia e a luta pela terra no sudeste paraense”. Lutas Sociais, 26(48), 2022. https://doi.org/10.23925/ls.v26i48.61753
[12] Idem. Fernando Michelotti, 2019.
[13] COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro: 1985-2023. São Paulo: CPT, 2025. Disponível em: https://www.cptnacional.org.br/2025/09/30/atlas-campo-brasileiro-download/
[14] Célia Regina Vendramini. Terra, trabalho e educação: experiências sócio-educativas em assentamentos do MST. Ijuí: Editora da Unijuí, 2000.
[15] Idem, Karl Marx, 2013.
[16] Idem, José Batista Gonçalves Afonso, 2016.
[17] Sandra Luciana Dalmagro. “Movimentos sociais e educação: uma relação fecunda”. Revista Trabalho Necessário, v. 14, n. 252, 22 dez. 2016.
[18] Sandra Luciana Dalmagro. A atualidade de Lênin em “As tarefas da juventude”. Trabalho Necessário. Niterói (RJ), v. 22n. 49, p. 01-17, 2024.
[19] Ivagno Silva Brito. Acampamento Pedagógico da Juventude Camponesa Oziel Alves Pereira: a saga e a mística na luta pela terra na Amazônia paraense. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, Instituto de Ciências Humanas, Faculdade de Educação do Campo, Curso de Licenciatura Plena em Educação do Campo, Marabá, 2020.
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Nísia Floresta vive: a educação popular feminista no semiárido nordestino
Nísia Floresta vive: a educação popular feminista no semiárido nordestino
O Cursinho Popular Nísia Floresta em Mossoró, Rio Grande do Norte é voltado a meninas e mulheres com educação popular e feminista
O Cursinho Popular Nísia Floresta é um projeto preparatório gratuito para o ENEM que nasceu em abril de 2024, voltado a meninas e mulheres de Mossoró, no Rio Grande do Norte. A educação feminista e libertária em que acreditamos ultrapassa as paredes da sala de aula e transforma vidas, ao capacitar mulheres historicamente marginalizadas a se tornarem novas lideranças nas universidades, comunidades, movimentos sociais e espaços de trabalho.
Buscamos inspiração em Nísia Floresta, a primeira educadora feminista do país, nascida no Rio Grande do Norte em 1810, para nomear esse projeto educacional inovador. O estado é berço de mulheres pioneiras: além de Nísia, destacam-se Celina Guimarães, a primeira eleitora do Brasil; Alzira Soriano, a primeira prefeita da América Latina; e Ana Floriano, líder do Motim das Mulheres de Mossoró. Nosso propósito é manter viva a memória dessas mulheres e, ao mesmo tempo, abrir caminhos para que as potiguares de hoje escrevam novas histórias.
Neste artigo, apresentamos o contexto histórico de Nísia Floresta, as bases para a organização do Cursinho Popular e os principais resultados alcançados após um ano de funcionamento. Os frutos já são visíveis, mas, como afirmamos: “estamos apenas começando”.
A metodologia para a elaboração deste artigo consistiu em pesquisa bibliográfica para fundamentação do referencial teórico, além de catalogação de dados para a produção de relatórios produzidos junto à equipe do Cursinho Popular Nísia Floresta, bem como na sistematização de experiências e vivências geradas a partir das atividades de extensão. O processo de construção envolveu a organização e a produção do cursinho, conduzidas pelas coordenadoras do projeto, que também são autoras deste artigo.
Nísia Floresta e a educação popular feminista no Brasil
“Enquanto pelo velho e novo mundo vai ressoando o brado – emancipação da mulher – nossa débil voz se levanta, na capital do império de Santa Cruz, clamando – educai as mulheres!.”[1]
Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, é uma das grandes mulheres que marcaram a história do Brasil e considerada precursora do feminismo e da educação feminina no país. Nascida em 12 de outubro de 1810 no então município de Papari – que hoje leva o seu nome –, localizado no interior do Rio Grande do Norte. Nísia era filha do advogado português Dionísio Gonçalves Pinto, chegado ao Brasil no início do século XIX, e da brasileira Antônia Clara Freire, descendente de uma das principais famílias da região[2].
Desde muito jovem, Nísia teve contato com a realidade política do país, sendo sua família impactada diretamente pelos movimentos revolucionários espalhados pelo nordeste. O sentimento antilusitano presente nessas revoltas populares forçou a família Gonçalves Pinto a mudar de localidade frequentemente, até que em 1817, em meio a Revolução Pernambucana, a família de Nísia instala-se em Goiana, onde Nísia inicia seus estudos no convento das carmelitas, influenciada pelo pai a entrar em contato com a cultura europeia e o liberalismo, bem como a explorar os livros da biblioteca do convento[3].
Aos treze anos de idade, como era costume entre as famílias da elite nordestina, Nísia casou-se com o proprietário de terras Manuel Alexandre Seabra de Melo[4]. No entanto, após alguns meses, Nísia rompe seu casamento, retornando para a casa de seus pais, atitude considerada transgressora para a época e que, por consequência, resultou em diversos julgamentos por parte da sociedade oitocentista.
Posteriormente, após a mudança da família para Olinda e a morte de seu pai, em 1828, Nísia começa uma relação com Manuel Augusto de Faria Rocha, estudante da Faculdade de Direito de Olinda. Mesmo mediante a perseguição de seu marido abandonado – que ameaçava processá-la por abandono de lar e, posteriormente, por adultério – e as críticas da sociedade, já que, na época, era inadmissível uma mulher ir viver com um homem sem antes terem contraído matrimônio, Nísia e Manuel começam a morar juntos, mostrando mais uma vez a coragem de Nísia ao ir contra o que a sociedade patriarcal esperava de uma mulher[5].
Em 1831, Nísia inicia sua carreira como escritora ao escrever artigos para o jornal Espelho das Brasileiras, voltado às senhoras pernambucanas, tratando da condição feminina em diversas culturas[6]. Nesse mesmo ano, aos 22 anos, Nísia publica seu primeiro livro, Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, uma tradução livre de Vindications of the rights of woman, de Mary Wollstonecraft. Nessa obra, Nísia se posiciona diretamente contra os valores patriarcais da sociedade brasileira da época, defendendo o direito das mulheres à instrução e ao trabalho, questionando a falta de mulheres ocupando cargos de comando e estudando na universidade, e reivindicando que as mulheres sejam consideradas inteligentes e merecedoras de respeito pela sociedade. As ideias expressadas na obra se tornaram a base para a criação, em 1838, do seu colégio para meninas: o Colégio Augusto, que tinha como objetivo proporcionar para as alunas uma educação igual ou superior a que os homens da época recebiam.
- Nísia Floresta Brasileira Augusta tem a honra de participar ao respeitável público que ela pretende abrir no dia 15 de fevereiro próximo, na rua Direita nº 163, um colégio de educação para meninas, no qual, além de ler, escrever, contar, coser, bordar, marcar e tudo o mais que toca à educação doméstica de uma menina, ensinar-se a gramática da língua nacional por um método fácil, o francês, o italiano, e os princípios mais gerais de geografia. Haverá igualmente neste colégio mestres de música e dança. Recebem-se alunas internas e externas. A diretora, que há quatro anos se emprega nesta ocupação, dispensa-se de entreter o respeitável público com promessas de zelo, assiduidade e aplicação no desempenho dos seus deveres, aguardando ocasião em que possa praticamente mostrar aos pais de família que a honrarem com a sua confiança, pelos prontos progressos de suas filhas, que ela não é indigna de árdua tarefa que sobre si toma. (…)[7]
Em um contexto histórico em que a educação feminina era centrada no cuidado do lar e as mulheres eram excluídas do mercado de trabalho e da tradição acadêmica, o Colégio Augusto simbolizou uma quebra desses paradigmas e um grande passo para o início da construção de uma perspectiva mais plural no âmbito da educação brasileira.
O legado de Nísia Floresta como defensora dos direitos das mulheres e da educação de qualidade, inclusiva e voltada para a transformação social abriu o caminho para que, posteriormente, se ampliasse o debate e o desenvolvimento de novas práticas educacionais baseadas na formação de sujeitos autônomos por meio de uma perspectiva político-social.
Nesse viés, em meados do século XX, surge a Educação Popular. Concebida em um contexto de grande industrialização e desenvolvimento nacional – que gerou a necessidade de maior instrução para o povo – em um primeiro momento, a Educação Popular se deu por meio de campanhas de alfabetização em massa, como iniciativa de possibilitar o exercício pleno da cidadania. A partir da década de 1960, no entanto, com o crescimento da participação popular na política e a mobilização de diversos movimentos sociais ao redor do mundo, a Educação Popular assume um caráter maior de organização política, buscando conscientizar a população e incentivar a luta por seus direitos.
Entre essas experiências pedagógicas, se destaca o projeto conhecido como “As 40 horas de Angicos”, implantado por Paulo Freire, um dos maiores nomes da Educação Popular e da pedagogia mundial, em 1963, na cidade de Angicos, Rio Grande do Norte – mesmo estado em que nasceu e cresceu Nísia Floresta. Por meio do seu método, baseado no uso de palavras e expressões que faziam parte do dia-a-dia dos trabalhadores potiguares para praticar a escrita de maneira familiar e refletir sobre o seu cotidiano e condições de trabalho, o pedagogo e filósofo foi capaz de alfabetizar 300 adultos em somente 40 horas, simultaneamente estimulando a sua conscientização política e social.
O caráter de reflexão e transformação social intrínseco à Educação Popular possibilitou o surgimento de vertentes específicas voltadas para as necessidades particulares de vários coletivos sociais marginalizados. Dentre essas vertentes, destaca-se a Educação Popular Feminista, que, por meio da criação de espaços de diálogo, educação e reflexão comunitária, busca exercitar uma consciência coletiva sobre a condição feminina e suas nuances de forma a promover uma mudança interna e social.
Diante disso, é incontestável o legado que Nísia Floresta, tanto em suas obras quanto por meio da fundação do Colégio Augusto, deixou para as práticas libertadoras da Educação Popular e para o cenário educacional brasileiro como um todo, plantando a semente da educação como um instrumento emancipatório. A Educação Popular Feminista, portanto, não surge do vácuo, mas é herdeira direta dessa tradição que entende o saber não como um fim em si mesmo, mas como uma ferramenta fundamental para a conscientização, a crítica das estruturas opressoras e a transformação social.
A experiência do Cursinho Popular Nísia Floresta em Mossoró
Quase dois séculos após Nísia Floresta fundar o Colégio Augusto, a educação brasileira tem o currículo igual para todos os gêneros, mas as desigualdades no acesso à educação persistem com outras facetas. Enquanto as conquistas feministas avançam, as estratégias do patriarcado se adaptam para manter a dominação masculina, de classe e de raça.
No município de Mossoró, no Rio Grande do Norte, as escolas públicas de Ensino Médio revelavam um cenário de desesperança. Muitos adolescentes da classe trabalhadora não enxergavam a possibilidade de entrar na faculdade como viável para a sua realidade imediata, pois a pressão econômica e familiar os conduz ao mercado de trabalho de forma precoce.
Muitas vezes, o tempo dedicado para estudo é limitado em razão da necessidade de trabalhar, e os empregos são precarizados por conta da baixa qualificação. É um ciclo que limita a possibilidade de ascensão social das gerações seguintes, pois os sonhos dos jovens são cerceados desde cedo e o futuro se torna uma repetição do passado. Esse cenário é ainda mais grave quando se trata das meninas, que têm o seu tempo de estudo restringido por atividades domésticas e de cuidado e enfrentam violências baseadas no gênero, como o machismo estrutural, assédios sexuais e gravidez na adolescência, que as afastam dos espaços de estudo.
Em 2024, a captação de recursos junto ao Fundo Malala e a parceria com a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte tornaram possível criar um projeto que atendesse a essas necessidades das jovens de Mossoró. Assim, o Cursinho Popular Nísia Floresta foi fundado em abril de 2024, com o objetivo de oferecer educação gratuita e inclusiva para mulheres de baixa renda da cidade de Mossoró, promovendo suporte acadêmico, debates sobre pautas sociais e incentivo à inscrição no ensino superior.
A educação no Cursinho Popular Nísia Floresta vai muito além da sala de aula, porque entendemos que nosso principal objetivo é criar esperança e incentivar a autoconfiança das meninas e mulheres de escolas públicas, para que elas alcancem os espaços acadêmicos e também os espaços de poder da sociedade. Por isso, o cursinho promove aulas dos componentes curriculares exigidos no ENEM, mas também fornece materiais escolares e alimentação adequada, oferece o suporte de monitoria extraclasse e realiza debates com mulheres convidadas, com foco na formação cidadã e crítica das nossas alunas.
No primeiro ano de atuação, a iniciativa beneficiou 42 meninas e mulheres advindas de escolas públicas mossoroenses. As alunas foram selecionadas por meio de critérios de prioridade, sendo eles: o comprometimento em participar ativamente nas aulas e atividades oferecidas pelo cursinho; a necessidade de apoio educacional e financeiro para realizar o ENEM; e a participação de pessoas com deficiência, periféricas, negras, indígenas, povos tradicionais, pessoas transgênero e outros membros da comunidade LGBTQIA+.
As aulas do Cursinho Popular Nísia Floresta acontecem na Faculdade de Enfermagem (FAEN) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, um local estratégico pensado pela viabilidade do transporte de alunas de diferentes bairros. Em razão das alunas serem, em sua maioria, estudantes e trabalhadoras, os horários do Cursinho Popular são pensados para se adaptarem a essa rotina, com aulas no sábado de manhã com professores qualificados. Na turma de 2025, ampliamos a carga horária para oferecer aulas também na sexta à noite e no sábado à tarde, garantindo o almoço e o lanche das alunas.
Além disso, a fim de complementar as aulas normais e oferecer um suporte e acompanhamento mais individual para as alunas, o Cursinho Popular Nísia Floresta oferta um programa de monitoria para estudantes universitários, institucionalizado como projeto extensionista na Pró-Reitoria de Extensão (Proex) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. O programa possibilita vivências pedagógicas aos universitários monitores, contribuindo para a carga horária de atividades complementares por meio do reconhecimento de 170 horas de extensão, e amplia a possibilidade de preparação das alunas do cursinho para a prova do ENEM. Os monitores são responsáveis por fazer um acompanhamento semanal virtualmente, com grupos de WhatsApp específicos para cada matéria, sessões de tira-dúvidas via Meet e também pelas aulas presenciais das sextas à noite e dos sábados à tarde, nas quais são privilegiadas metodologias ativas para que o estudo não seja exaustivo para as estudantes que já concentram jornadas de trabalho extensas.
Além das aulas ministradas pelos professores e monitores, o Cursinho Popular Nísia Floresta promove, desde a sua primeira turma, debates públicos abertos à população sobre questões sociais relevantes, contando com a participação de diversos convidados com repertórios enriquecedores sobre os temas discutidos. Os debates ocorrem todos os últimos sábados de cada mês na Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, buscando promover não somente a discussão de temas socioculturais relevantes para o desempenho na prova do ENEM de forma didática e acessível, mas também estimular o desenvolvimento de uma consciência cidadã crítica e incentivar o pensamento reflexivo em coletivo. Através dos debates e atividades extracurriculares, buscamos uma formação integral das participantes, empoderando-as e ampliando suas oportunidades de futuro. Queremos que as alunas sejam capacitadas para não apenas ocupar as universidades, mas que possam tornar-se novas lideranças em suas áreas de estudo e nas suas comunidades.
Atualmente, o Cursinho Popular Nísia Floresta é financiado através de editais de fomento à igualdade de gênero e à educação popular. Com o auxílio desses recursos, o cursinho conta com profissionais remunerados e capacitados, apoio para alimentação e transporte nos dias de aula, materiais escolares personalizados, equipe administrativa e monitoria com universitários bolsistas e auxílio financeiro para garantir a permanência nos estudos.
Esse trabalho é possível graças ao apoio do Fundo Malala, que financiou a ideia para que saísse do papel em 2024; à Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, que oferta a infraestrutura para realização das aulas e a certificação da equipe de estudantes universitários responsáveis pelas atividades administrativas e pela monitoria; ao Fundo Acelere o Relógio da Igualdade de Gênero, do Plan International Brasil, que forneceu apoio ao cursinho em 2025, garantindo a continuidade do projeto; ao Ministério da Educação, através da Rede Nacional de Cursinhos Populares, que nos permitiu ampliar a carga horária do Cursinho Popular Nísia Floresta em 2025, através de apoio técnico, bolsas para a equipe administrativa e da monitoria, e bolsas de permanência para as alunas.
Em seu primeiro ano de atuação, o Cursinho Popular Nísia Floresta já celebra um resultado transformador: 20 das 42 alunas da turma inaugural foram aprovadas no vestibular e conquistaram o acesso ao ensino superior. Adicionalmente, duas ex-alunas tornaram-se colaboradoras da equipe em 2025, apoiando a nova turma de 30 estudantes que está se preparando para fazer o ENEM no final do ano.
Esse êxito não é apenas um número, mas a materialização da missão do projeto, demonstrando que o investimento em educação gratuita, de qualidade e pautada pela inclusão é capaz de romper barreiras e abrir portas. Cada aprovação representa a coroação do esforço das estudantes, do compromisso da equipe de coordenadoras, voluntários, professores e monitores, e da potência de uma iniciativa que, ao combinar excelência acadêmica com conscientização social, efetivamente empodera mulheres e muda trajetórias.
O acesso à educação superior: atravessamentos de gênero, raça e classe
O ensino superior representa a principal porta de entrada para a valorização no mercado de trabalho, com melhores salários e empregabilidade a quem porta um diploma. No entanto, concluir o ensino básico e ingressar na universidade é um desafio para os jovens de baixa renda que precisam trabalhar e não vêem sentido nos estudos. Para as meninas, educadas para serem donas de casa e esposas, o tempo de estudo disputa espaço com o tempo dedicado às atividades domésticas e ao trabalho de cuidado. Isso mostra que o olhar interseccional é um pilar de compreensão dessa questão, assim como da sua relação com a garantia dos direitos humanos[8].
A primeira turma do Cursinho Popular Nísia Floresta foi composta por 42 alunas. Tivemos 11 desistências ao longo do semestre, a maioria motivada por falta de transporte ou impossibilidade de conciliar estudo com trabalho. Para entender melhor o atravessamento de gênero nos usos do tempo, fizemos uma pesquisa sobre horários de estudo com 26 alunas. 76,9% das alunas ainda cursavam o Ensino Médio e conciliavam a escola com o trabalho dentro e fora de casa, 38,5% das alunas trabalhavam fora de casa e 80,8% eram responsáveis pelos afazeres domésticos nas suas casas.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua do IBGE mostra que mais de um quarto das mulheres entre 15 e 29 anos não estava ocupada nem estudando, 11,4% a mais que os homens da mesma idade. No entanto, o que observamos é que o tempo das mulheres está tão ocupado que o estudo é deixado em segundo plano para priorizar tarefas domésticas e cuidado com dependentes, em geral filhos ou irmãos.
Nesse sentido, o afastamento das mulheres dos estudos é um projeto político para manter a força de trabalho doméstica e o domínio patriarcal. A educação superior não foi pensada para capacitar as mulheres, foi criada para preparar as elites e os burocratas para trabalhos de maior complexidade.
Por isso, o Ensino Superior foi proibido às mulheres no Brasil até 1879 e segue proibido em outros países. Mesmo com a possibilidade legal de frequentar as universidades, o ingresso das mulheres nas universidades foi um processo lento, com crescimento significativo a partir do século 20.
Há uma relação positiva entre o nível de estudo e o aumento salarial, especialmente no Ensino Superior, em que se concentram as oportunidades de mobilidade social[9]. No entanto, ainda que as mulheres estejam se qualificando mais para ingressar no mercado de trabalho, o salário médio feminino é 20,9% inferior ao dos homens[10].
Esse fenômeno ocorre porque o Ensino Superior brasileiro é atravessado por uma hierarquização de cursos que classifica carreiras com maior ou menor status social. Assim, o acesso das mulheres às universidades é estratificado por áreas do conhecimento. Até os dias atuais, as mulheres são a maioria das estudantes universitárias nas áreas ligadas ao cuidado e à educação, enquanto os homens ocupam as vagas dos cursos de engenharias, tecnologia e ciências exatas.
Nota-se que as carreiras tipicamente femininas são aquelas de menor prestígio social e menor remuneração, de modo que a expansão de acesso ao ensino superior não superou as barreiras de desigualdade social, mantendo o status quo vigente de dominação masculina e branca. Esses fatores são analisados por Carvalho e Araújo (2019):
“A construção das diferenciações de gênero nas carreiras profissionais, construídas a partir dos estereótipos de sexo servem para a manutenção das desigualdades no mercado de trabalho, à precarização de algumas profissões e sua respectiva mão de obra, em detrimento de outras, a posição de privilégio do homem branco de classe dominante, e a separação entre ricos e pobres.”[11]
Atualmente, os dados oficiais do Censo da Educação Superior apontam que as mulheres são maioria no ensino superior no Brasil[12]. O patriarcado limita os espaços que as mulheres podem ocupar na sociedade e no mercado de trabalho, mas a educação feminina é um instrumento para alçar os espaços de poder. Com isso, os direitos à educação conquistados pelas mulheres foram ocupados gradualmente para conquistar melhores condições sociais e econômicas.
No entanto, o atravessamento de raça demonstra que o acesso à educação no Brasil é majoritariamente usufruído por mulheres brancas. As mulheres brancas com ensino superior são mais que o dobro das mulheres pretas e pardas[13].
Além disso, no Rio Grande do Norte, a estatística nacional de maioria feminina no ensino superior público não se reflete; são homens a maioria dos ingressantes. Destaca-se ainda que, dentre as pessoas com deficiência, apenas 7,4% concluíram o ensino superior[14].
Nesse contexto, o Cursinho Popular Nísia Floresta assume o desafio de inverter os privilégios sociais e selecionar prioritariamente meninas e mulheres de baixa renda, pretas, pardas e indígenas, LGBTs e com deficiência para o estudo focado no ingresso nas universidades públicas através do ENEM. Esse é um desafio que não pode ser resumido à sala de aula porque o acesso à educação depende de diversos fatores, como o acesso à alimentação adequada e ao transporte. Para as meninas e mulheres jovens, a falta de confiança e autoestima também representa um entrave nos estudos.
Na cidade de Mossoró, onde existem dezenas de cursinhos particulares, a nossa proposta é levar a educação da melhor qualidade possível, com uma equipe de professores especializados, dos quais 60% possuem mestrado e a maioria é reconhecida pela excelência na preparação dos cursinhos particulares.
Para frequentar um cursinho particular na cidade, um estudante teria que desembolsar no mínimo R$ 1.808,00[15]. Esse valor é maior que o dobro da renda per capita média das alunas da turma de 2025 do Cursinho Popular Nísia Floresta.
Assim, o cursinho atua na contramão das expectativas sociais impostas às meninas para que elas acreditem que podem alcançar os seus sonhos, de forma coletiva. Ao reunir uma turma exclusivamente feminina, o que fazemos é criar uma rede de apoio para que o processo até a faculdade fique mais leve.
Para isso, temos debates e rodas de conversa com mulheres inspiradoras, almoços coletivos e confraternizações. As egressas do cursinho chegam até a universidade com a bagagem de conhecimento para compensar déficits de aprendizado acumulados durante a educação básica e com a formação política para tornarem-se lideranças nos diferentes bairros da cidade.
Das 31 alunas que permaneceram até o final da primeira turma do cursinho, 20 hoje estão nas universidades. Elas ocupam esse espaço sabendo que as conquistas da aprovação são coletivas porque a jornada começou muito antes de nós.
A educação feminista no Brasil teve sua origem ligada a uma mulher potiguar, por isso hoje levamos o legado de Nísia Floresta em um cursinho popular. O Cursinho Popular Nísia Floresta busca a educação transformadora a partir de uma vertente de gênero, com oportunidades e confiança para que as mulheres conquistem os seus sonhos e ocupem todos os espaços da educação.
Para não finalizar: estamos apenas começando
O impacto da iniciativa foi evidente nos resultados obtidos: 20 alunas foram aprovadas nos cursos dos seus sonhos na universidade. Além de celebrar as aprovações, celebramos também a variedade dos cursos escolhidos, que revelam tanto da confiança e autonomia de cada aluna. Hoje, nossas ex-alunas ocupam espaços nos cursos de Ciência e Tecnologia (UFERSA), Serviço Social (UERN), Pedagogia (UFERSA e UERN), Ciências Contábeis (UFERSA), Química (UERN), Direito (UERN), Zootecnia (UFERSA), História (UERN), Psicologia (UniCatólia e Uninassau), Gestão Ambiental (UERN e IFRN), Administração (UFERSA), Ciências Biológicas (UERN), Farmácia (Uninassau).
Além das conquistas acadêmicas, o projeto consolidou-se como um espaço de troca de saberes e construção coletiva, incentivando o protagonismo feminino na educação e promovendo um ambiente de acolhimento e empoderamento.
Apesar dos desafios enfrentados, como a desistência de alguns participantes, a ausência de um cronograma fixo de reuniões e dificuldades burocráticas no cadastro do projeto na plataforma de projetos de extensão, as ações desenvolvidas pela equipe cumpriram seu papel. Garantiram o acompanhamento contínuo, o incentivo ao aprendizado e um suporte personalizado às alunas ao longo do processo preparatório.
Assim, o trabalho realizado com o Cursinho Popular Nísia Floresta demonstra o potencial dos cursinhos populares como ferramenta de apoio educacional e transformação social, contribuindo significativamente para a formação acadêmica e cidadã das estudantes e para o fortalecimento do acesso de mulheres de baixa renda ao ensino superior.
Ana Luiza Bezerra da Costa Saraiva – Vice-coordenadora do Cursinho Popular Nísia Floresta, doutoranda em Geografia pela UFRN e docente do curso de Geografia da UERN. E-mail: anasaraiva@uern.br.
Heloíse Almeida Luna – Fundadora e coordenadora do Cursinho Popular Nísia Floresta e graduanda em Direito pela UFERSA. E-mail: lunaheloisea@gmail.com.
Isabel Ximenes Teixeira Mendes – Vice-coordenadora do Cursinho Popular Nísia Floresta e graduanda em Direito pela UERN. E-mail: isabelxtm@icloud.com.
Francisco Tarcísio Rocha Gomes Júnior – Professor do mestrado acadêmico e da graduação em Direito da UFERSA. Doutor em Direito pela UFC. Coordenador geral e professor de História do Brasil do projeto de extensão Curso Paulo Freire da UFC entre 2009 e 2011. E-mail: tarcisio.rocha@ufersa.edu.br.
Notas
[1] Nísia Floresta. Opúsculo Humanitário. Senado Federal, p. 17, 2019.
[2] Cleide Rita Silvério de Almeida e Elaine Teresinha Dal Mas Dias. Nísia Floresta: O Conhecimento Como Fonte de Emancipação e a Formação da Cidadania Feminina. Revista Historia de la Educación Latinoamericana, 2009.
[3] Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil. Dicionário Mulheres do Brasil de 1500 até a atualidade. Zahar, 2000, pp. 519 a 521.
[4] Isabela Candeloro Campoi. O livro “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” de Nísia Floresta: literatura, mulheres e o Brasil do século XIX. Revista História (São Paulo), v.30, n.2, p. 196-213, ago/dez 2011.
[5] Laura Sánchez Pereira. Nísia Floresta: Memória e História da Mulher Intelectual Oitocentista, p. 64. s/e, 2017.
[6] Idem, p. 66.
[7] Anúncio estampado no Jornal do Commercio de 31 de janeiro de 1838 anunciando a inauguração do Colégio Augusto. Paulo Corrêa Barbosa. Almanaque histórico. Nísia Floresta uma mulher à frente do seu tempo: Projeto memória 2006. Redeh, 2006, p.25.
[8] Gomes Júnior, F. Tarcísio Rocha (2024). “A interseccionalidade como pilar de interpretação dos Direitos Fundamentais: uma breve análise do caso da injúria racial”. Revista Acadêmica Escola Superior Do Ministério Público Do Ceará, 16(2), 265–278. https://doi.org/10.54275/raesmpce.v16i2.410
[9] Hustana Maria Vargas. Aqui é assim: tem curso de rico pra continuar rico e curso de pobre pra continuar pobre. 33ª Reunião Anual da ANPEd, 2010.
[10] 3º Relatório Nacional de Igualdade Salarial. Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério das Mulheres. 2025.
[11] Rayana Andrade de Carvalho e Edineide Jezini Mesquita Araujo. “Expansão do acesso à educação superior em um debate interseccional de gênero e classe”. Revista Nuances: estudos sobre Educação, 2019.
[12] Os dados sobre ingresso no Ensino Superior foram obtidos através do Painel de Estatísticas do Censo da Educação Superior 2023.
[13] Ver mais sobre no boletim “Privilégio Branco: mulheres e direito à educação no Brasil”, publicado pelo Observatório da Branquitude e Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais.
[14] Dados do Censo 2022 do IBGE.
[15] Valor correspondente à turma do Extensivo Enem noturno de 2025 do Vírus Cursinho em Mossoró.
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Mosaico: Lindalva Domingas
Mosaico: Lindalva Domingas, ativista no Comitê Popular das Águas e do Clima do rio Jauquara
Lindalva Domingas nos apresenta a fé, cultura e a luta que se desenvolve na região do Pantanal brasileiro
Lindalva Domingas é importante liderança no território quilombola do Vão Grande. O território quilombola é banhado pelo rio Jauquara, afluente do rio Paraguai. Lindalva é atuante no Comitê Popular das Águas e do Clima do rio Jauquara que participa da luta pelo pantanal vivo e sem fronteiras.
No dia em que a Escola de Ativismo conheceu a primeira versão do que veio a se tornar o livro Narrativas do Interior[1], Lindalva abriu as portas de sua casa na comunidade do Retiro e, em meio a uma riqueza de cantos e contos, nos mostrou os primeiros registros em folha de sulfite das palavras de Pedro Paulo (Pedro Silva), seu filho acerca da Terra Quilombola Vão Grande de acordo com a vida e memória do avô, rezador e cururueiro Francisco, pai-véio Chico. Lindalva mostrou todos os cantos do sítio, a amarra da carne para a festa de Santa Luzia, a valeta de assar, a prensa da massa de mandioca, o forno da torra da farinha. O Barraco do tacurú, o cupim de fazer comida, o barraco pra cobrir as crianças, o redário. O barraco dedicado à missa porque na festa de Santa Luzia não tem baile em cumprimento da promessa de Lindalva. Como parte do riquíssimo ritual, os mastros ficam armazenados na casa até ‘acabar’ no tempo, acabar aqui no sentido de um certo acabamento, de finalização de um ciclo, de decomposição da madeira e consequentemente de retorno à terra. Voltar à terra é voltar às origens.
Na oportunidade ela conversou com a revista Tuíra. Parte dessa maravilhosa conversa está reproduzida abaixo.
As Festas de Santo
Eu ainda estou cansada da festa de São Benedito (que aconteceu no Curupira na noite anterior). Nós temos que ir à festa. Mesmo cansados, não tem jeito, tem que ir. Aquela imagem que eu carregava durante a festa (noite anterior) é da casa que recebe as comunidades para a festa do santo. Aqui em casa, por exemplo, nós fazemos a festa de Santa Luzia. O Livro do Pedro fala disso. Tudo começou pela promessa que fiz a Santa Luzia, protetora dos olhos. Acontece que meu filho nasceu com um problema de visão. Eu rezei para Santa Luzia e, devido nossa fé, a vista do meu filho melhorou muito. Aqui acontece todo ano a festa de Santa Luzia, todo ano, não pode furar. Começamos a preparar a festa em setembro, é muito trabalho até dezembro, mas é muita gente trabalhando junto.
Passo o dia inteirinho fazendo os altar, os “bandelório”, a coroa. Meu pai faz o arco. A gente prepara essa parte com a ajuda de outras pessoas aqui da comunidade. Um ajuda o outro, as festas são comunitárias, tem um grupo que ajuda. E tem as irmandade dos santos: rei, rainha, juiz, juíza, capitão do mastro, alferes de bandeira. O Capitão tem que ir no mato cortar a madeira pra fazer o mastro, erguer o mastro (nessa hora tem a ajuda das outras pessoas). E tem que erguer o mastro, tudo isso com os cantador. Tudo é cantado, Os cururueiro vão cantando, o comando da festa é dos cantador e todo mundo obedece: tudo cantando. Quem comanda a festa, tem as obrigações de cada um na procissão, mas tudo é comandado pela cantoria, pela reza. E nós mulheres que respondemos aos cantos, nós sabemos que não é apenas um divertimento, tem uma obrigação de culto aos santos, tem que levar a tradição para a frente, inclusive estimular as crianças. Eu aprendi isso com a minha avó e a minha tia Adelaide e meu pai, principalmente. Com as pessoas que tiram a reza e fazem a festa. As rezadeira rezam, são as obrigações. Tem as pessoas que vão pra divertir, que não entendem a tradição. E nós vai com tudo isso na cabeça, pra cumprir a devoção porque a tradição não pode acabar.
A tradição
Aprendi com minha avó, meu pai, minha tia Adelaide e com as pessoas que tira a reza. Aqui isso é muito forte, as famílias fazem sua festa. Tem a tradição das promessas, da devoção, das curas pedidas aos santos. Cobra é coisa para São Bento, ele protege da picada de cobra, dá força, não deixa falecer quem leva picada de cobra. Minha tia Adelaide reza pra são Bento, meu pai reza pra Nossa Senhora Aparecida e São Miguel, o Zacarias reza para Nossa Senhora da Guia, e assim vai fazendo festa pros santos de devoção.
Essa união nossa está na festa também. Quem vai para a festa leva um pouco de farinha, de mandioca, quem tem um dinheirinho para ajudar na rês (carne), ajuda. É união comunitária na festa também, cada um ajuda com o que pode porque a festa é da comunidade independente da casa que está recebendo e do santo de devoção. Nas festa de santo tem fartura de comida, a festa dura bastante tempo, todo mundo come na janta, no almoço do dia seguinte e janta também. E tem doce, a turma volta pra casa de barriga cheia e muito feliz. Não tem cobrança de nada, é tudo de graça como vocês dizem, mas aqui a gente diz que é tudo do comum. As festas costumam durar 3 dias. Já no oitavo dia depois da festa, a turma volta na casa que recebeu a festa para ajudar no desmanche do altar e na arrumação da casa.
O altar de Santa Luzia
Nossa Senhora das Dores, protetora das grávidas, a mãe das mulheres grávidas.
A pomba branca do Divino Espírito Santo.
Nossa Senhora Aparecida.
São Gonçalo, casa onde dança São Gonçalo o demônio não entra. Essa é a nossa fé.
São Sebastião, que tem pintas no corpo que as pessoas do mal furou ele. Protetor das criação contra a peste.
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a gente pede socorro pra quem está em apuro.
São Benedito, santo negro da nossa raiz africana.
Santa Luzia que carrega os nossos olhos nas mãos. Ela protege a nossa vista.
Cada santo tem um porquê. Tem gente que é contra adorar as imagens de santo. Mas acontece que para ter uma imagem, antes da imagem teve uma história, teve uma pessoa que fez uma obra aqui na terra e depois foi para o céu. Isso é para guardar a história dessa pessoa que virou santo. Não se trata de adorar a imagem, mas para lembrar que teve uma pessoa que fez história na terra e que hoje mora no céu. Isso alimenta a nossa crença.
A bandeira segue nas procissão visitando as casas na coleta de donativos para a festa. Faz parte do ritual da festa pro santo, cada pessoa doa o que quer, doa o que pode para festa e para o santo. E tem a decoração. O altar fica colorido, com as bandeiras e as toalhas do santo e fica assim o ano inteiro. Mas para a festa tem uma chegada maior, fica mais decorado com flor, com cores, com as palmas que a gente faz, não sei explicar porque coloca as palmas do cigarro pra fechar o altar, mas é a tradição muito antiga. Fica muito lindo. E tem as velas que as promesseiras trazem e ficam queimando.
A transformação
Tem criançada que segue. Mas tem criançada que não liga. Mas na hora que chega na juventude, eles vão fazendo o que nós faz também, a tradição vai seguindo. Aqui é meio assim, é nosso ritmo. Num outro lugar é diferente. Então aqui no Vão Grande essa tradição segue assim e assim é bom de ficar.
Ameaças
Vejo na televisão um monte de coisa ruim, criança sofrendo, pais e mães sofrendo e isso dói ni mim. Até choro quando vejo a barragem de Brumadinho e de Mariana, choro de ver. Deus não há de deixar isso acontecer aqui. Claro que tem muito lugar para ir se tiver uma barragem aqui, mas nenhum lugar é parecido com o Vão Grande. Não quero sair daqui porque a nossa vida, a nossa tradição está aqui. Não está em outro lugar, a nossa história, a nossa tradição está aqui. Não adianta ir pra outro lugar porque a história do nosso povo, as nossa tradições, não vão junto para outro lugar.
Tem gente debaixo da lama até hoje lá em Mariana e Brumadinho. Já pensou? E quem morreu é gente que estava lá para trabalhar, é gente que morava ali perto por necessidade de sobreviver. Agora, quem constrói essas barragens não mora ali no local do acidente. Os donos dessas barragens moram onde? Moram em lugares seguros. Parece que não estão nem aí com o sofrimento do povo, é gente que não tem coração. Eles chegam com esses projetos nos lugares e vão matando, vão acabando com a vida. E o que nós podemos fazer? Só união mesmo. É Deus e a união do nosso povo.
Quando eu escuto: “Estão querendo fazer uma barragem aqui”, isso é muito doído, é difícil até de falar. Vão tirar a gente da nossa terra, vão matar os peixes, vão expulsar os bichos aqui do mato. Isso é morte. Estão matando e isso é muito doído.
Não pode acontecer barragem aqui. Aqui, não! O rio é muito importante pra nós.
A escuta da comunidade
Eles querem instalar barragem aqui e nem perguntam pra nós. Por isso que eu falo que é gente sem coração. Nós somos gente do rio, da beira do rio, nós pescamos todo dia. Sem o rio não tem vida aqui, nós depende do rio pra viver mas o rio livre, vivo, com peixe, rio que está cheio de água a ponto de levar as pontes embora dura o tempo da chuva, mas que fica rasinho no tempo da seca. Esse é o nosso rio, ele tem uma dinâmica durante o ano, um período está forte, brabo, cheio, e no outro período ele passa manso, calmo, fazendo carinho nas margens. Falam que escutam a comunidade, mas isso é mentira. Se ouvissem a comunidade de verdade, tudo isso que eu estou falando não seria novidade pra ninguém.
O rio e a luta
O rio é tudo, não dá nem pra explicar. Tudo aqui depende do rio, a natureza, os passarinhos, as árvores, nós, os bichos, tudo. Uma minhoquinha, uma vida por menor que seja depende desse rio. Construir uma barragem… Eles dizem que vai gerar emprego. Pra quem? Não tem nada disso, emprega na obra e depois que começa a funcionar e estraga tudo aqui na nossa terra e a barragem funciona sozinha. O que será daqui pra frente?
De que adiantou os empregos lá em Brumadinho, foi tudo abaixo. Não estou falando por falar, basta olhar o que está acontecendo: é muito sofrimento o que uma barragem causa. É destruição completa.
E nós não queremos isso aqui. Conhecemos o Salomão lá em Cáceres com os Comitês Populares de Defesa das Águas e fomos entendendo do que se trata. Não é brincadeira, e nós estamos unidos para enfrentar isso porque nós não queremos barragem aqui. Nem aqui nem no rio Paraguai porque está tudo ligado. Barragem nem lá nem aqui porque os rios são todos um só, um vai unindo no outro. Uma barragem aqui complica lá em Cáceres. O projeto deles é fazer 135 hidrelétricas, mas a gente vai lutar contra. O Comitê Popular do rio Paraguai junto com o Comitê Popular do rio Jauquara estão interligados do mesmo jeito que o rio Jauquara está ligado com o rio Paraguai. Em 2019 foi o primeiro dia do rio Jauquara e todo ano nós vamos fazer cada vez melhor.
Do mesmo jeito que eu levo as festas, que a gente trabalha unido nas festas, faremos do mesmo jeito nas lutas, principalmente nas lutas para proteger o nosso lugar e proteger a nossa vida aqui.
De tudo isso que eu mostrei pra vocês, das festas de santo, da nossa história e da nossa tradição, tudo isso está ligado ao rio. Mexendo no rio, toda essa diversidade de vida que eu falei pra vocês, as nossas roças, nossa criação, nossa comunidade está ligada ao rio. Posso dizer que o rio Jauquara é tudo isso, é muito mais do que um rio. Tem gente que acha que um rio é só uma água que passa ali no canal. Um rio é muito mais que isso. O rio Jauquara é o nosso povo, é a nossa vida, é a nossa cultura. Um rio é tudo isso que eu falei, é vida e tradição, é história de um povo, é nossa mística. Não pode mexer no rio, tem que preservar. Mexer no rio é abalar toda essa riqueza de vida desde aqui até o rio Paraguai. Um rio é como se fosse um corredor de vida e de cultura.
[1] Livro publicado em 2022, escrito por Pedro Silva e editado pela Escola de Ativismo.
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Mosaico: João Paulo Serra
Mosaico: João Paulo Serra, coordenador da Escola de Comunicação Popular do Oeste do Pará
Escola de Comunicação Popular do Oesté do Pará vem revolucionando a forma de se comunicar na região
Se me perguntarem de onde venho, eu direi que vim de lá.
De lá de onde vivi a minha infância, brinquei com meus irmãos e primos, de onde eu plantava na roça, fazia farinha e ia coletar cumaru com minha avó na mata. Das pescarias no igarapé que duravam o dia todo, dos banhos de açude. Eu cresci em um lugar em que as pessoas e a floresta eram amigas. E ainda lá eu já sonhava um futuro além. É claro que eu queria “ser alguém na vida”, mesmo sem saber que eu já era, e que as pessoas que estavam lá comigo também já eram e ainda são.
Nasci na cidade de Santarém, mas cresci em movimento, entre a região de terra firme do município de Alenquer (margem esquerda do rio Amazonas) e a região de várzea do município de Santarém. Quando as águas subiam, estávamos na terra firme; quando chegava o verão, era na beira do rio a nossa casa. Sair do interior e viver os desafios da cidade não tirou de mim o sonho de viver em um mundo melhor. Entre tantos desafios, consegui fazer o Ensino Médio e depois entrar na universidade pública.
Já na graduação eu tive contato com o ativismo que faço hoje, quando me tornei voluntário no Tapajós de Fato, jornal independente de comunicação popular na Amazônia. Foi na comunicação popular que me conectei com diferentes lutas e pessoas que, assim como eu, lutam para que territórios como o meu “lá” continuem sendo preservados, e para que as pessoas possam ser e fazer o que elas são, gostam e precisam.
O ativismo, e as pessoas que encontrei dentro dele, antes de tudo abriu ainda mais meus olhos. Existem muitos outros “lá” por aí, e existem muitas forças que tentam silenciar as vozes e as lutas de quem resiste pelo bem viver. Com a comunicação, a gente não dá voz; faz essa voz, ou esse grito de dor, ecoar mais forte. Assim estamos caminhando no Tapajós de Fato há cinco anos e, agora, fortalecendo mais pessoas e territórios com a Escola de Comunicação Popular.
Consigo ver que, assim como eu sempre acreditei na educação, e por isso sou professor, é preciso continuar fazendo luta de base. A comunicação é um caminho importante, pois ajuda a posicionar narrativas que muitos não querem ver, mas que existem: narrativas de resistência. Promover processos reflexivos é um desafio, mas também é o caminho de que precisamos. Adiar o fim do mundo é possível, e ele será mais leve se conseguirmos mobilizar em todos os lugares. Hoje, o meu trabalho é também mostrar que as pessoas nos “lá” podem se conectar e agir em defesa do nosso bem maior: a natureza e as pessoas.
A Escola de Comunicação Popular do Oeste do Pará
O que você faz te deixa em uma zona de conforto ou te desperta ambição para ir além? Esse foi o questionamento que fizemos para dar um passo a mais com o Tapajós de Fato. O que mais poderíamos fazer pelos nossos territórios? Nossa atuação sempre foi lado a lado com movimentos sociais do campo e da cidade, sobretudo com o movimento indígena e com agricultores e agricultoras familiares. Há quatro anos realizamos oficinas de comunicação popular pelos territórios, sempre em parceria com sindicatos, associações, conselhos, federações e universidades. E sempre repetíamos: precisamos de três dias para conseguir realizar as atividades. Haja vista que conseguimos definir uma metodologia coringa, mas que se ajustava dependendo do público com quem estávamos trabalhando. E assim seguimos fazendo.
Mas chegou um momento em que fomos convidados para fazer uma oficina de comunicação popular voltada para uso de redes sociais para alunos da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). Esses participantes foram convidados pela Diretoria de Cultura e Comunidade da Pró-Reitoria de Comunidade, Cultura e Extensão (PROCCE/Ufopa). Meses depois surgiu o curso de extensão com oito meses de duração, dividido em oito módulos: Comunicação popular e defesa de territórios na Amazônia; Segurança: a necessidade de cuidados no campo físico e digital para fazer comunicação popular no Oeste do Pará; O uso estratégico das redes sociais; O texto jornalístico para além do lead: como fazer?; Fotografia: a importância da foto e do vídeo na comunicação popular; O rádio não morreu: a importância dos conteúdos em áudio na comunicação popular; A importância do design gráfico na comunicação popular.
O objetivo era engajar pessoas do Oeste do Pará no combate à desinformação, potencializando pessoas dos territórios a se tornarem comunicadores populares por meio de ciclos formativos em comunicação popular. Para alcançar nosso objetivo, criamos a Escola de Comunicação Popular na Ufopa, em parceria com a Pró-Reitoria de Cultura, Comunidade e Extensão; reunimos pessoas da comunidade interna e externa da Ufopa no ciclo formativo em comunicação popular. Assim, passamos a estimular e fortalecer a atuação de comunicadores populares a partir das atividades propostas pelo curso, mas também inserindo-os nas atividades do Tapajós de Fato.
E foi quando o curso começou que percebemos que já tínhamos saído da nossa zona de conforto. Afinal, a responsabilidade passou a ser também com um processo formativo das pessoas selecionadas para a primeira turma, inicialmente, 40 pessoas. Não se tratava apenas de colocá-las para aprender fazendo, mas de conseguir fazer com que desenvolvessem o olhar para as profundidades que cada pauta exige, para de fato promover uma comunicação anticolonial, que transforme o comunicador e fortaleça as pessoas e os territórios.
O Pará é o estado da Cabanagem, e essa força cabana continua a pulsar nas veias dos paraenses, ao mesmo tempo que se transforma e encoraja as pessoas a utilizarem as mais diversas tecnologias existentes nos territórios para defendê-los. A escola de comunicação é um trabalho de base também. Uma militância forte se faz e um ativismo forte se faz com acesso à informação. Para ter dimensão da força do povo paraense, basta acompanhar a força de movimentos sociais e escolas de formação, como a Escola de Militância Socioambiental Amazônida, do Movimento Tapajós Vivo, o trabalho de base feito pelos Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTRs) e outras iniciativas que têm contribuído significativamente com frentes de defesa das águas, das florestas e das pessoas, e mais recentemente pela justiça climática, gerando conhecimento e reflexões centradas nos territórios de dentro para fora e fora para dentro.
E esse é o caminho que a Escola de Comunicação busca fazer, ela tem por objetivo ocupar espaços já consolidados, mas sim acompanhar os passos de quem já está caminhando em sincronia para um objetivo só: defender o nosso bem comum, aprendendo com as experiências de quem já está há mais tempo na luta e apresentando alternativas diferentes e inovadoras nascidas das óticas de novas figuras. Muitos deles, como os nossos alunos, descobrindo a militância por meio das nossas aulas de comunicação popular.
O que nos diferencia é exatamente o que nos une. A Escola de Comunicação é a primeira iniciativa, ou a primeira escola de formação, voltada exclusivamente para a formação em comunicação popular. Enquanto outras iniciativas não têm como agenda principal a comunicação, mas buscam ainda assim, dentro das suas maneiras, fazer essa conexão – e aqui ressalto que toda iniciativa de comunicar é louvável, a base da nossa Escola é a comunicação, e isso nos permite explorar mais aspectos da comunicação popular e fazer reflexões e construções que também se ligam aos demais contextos e necessidades dos nossos territórios.
A Escola de Comunicação mostra que também é possível formar militantes por meio da comunicação. Assim, pode-se observar que, cada uma à sua maneira, uma iniciativa vai fortalecendo a outra.
O trabalho da comunicação popular ganha ainda mais relevância na Amazônia paraense, pois o que se entende como mídia tradicional (rádio, TV, jornal impresso) não é feito para incluir, mas sim para excluir as narrativas e os corpos dos territórios. A mídia tradicional, na busca do lucro, ignora a história do próprio território em que atua, valoriza e abre espaço para o que “vem de fora”, para o que veio e o que permaneceu do violento processo colonialista e também para a colonialidade que se apresenta nos discursos e nas ações sobre as pessoas e os territórios.
Assim, a Escola de Comunicação contribui para a promoção da diversidade de vozes, ecoando contra a colonialidade nos territórios do Oeste do Pará, pois ela permite que, além dos canais do Tapajós de Fato e juntamente com outras iniciativas de comunicação comunitária, essas vozes se amplifiquem. Ela é apenas uma porta, e quem passa por essa porta enxerga as possibilidades que existem, desde o trabalho comunitário até conseguir gerar renda para si e para o coletivo. A escola não é absoluta, ela é o primeiro passo da caminhada. E a continuidade depende do interesse de cada pessoa que por ela passa.
E antes de ter esse nome, quando era desenvolvida em formato de oficinas, já foi escola debaixo do cajueiro, do barracão comunitário, na beira do rio, na casa de comunitários nas mais distintas comunidades do Oeste do Pará, e agora está institucionalizada como uma frente de trabalho do Tapajós de Fato, com uma comunicação e educação popular a serviço da defesa dos territórios, dos direitos humanos e do bem viver social para o fortalecimento das nossas identidades.
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As meninas de Chiwik, tecedoras de mundos
As meninas de Chiwik, tecedoras de mundos
Ceane Simões e Walter Kohan escrevem sobre como a troca com as meninas de Chiwik estão tecendo mundos inclusivos.
Esse texto procura mostrar algo que, em certo sentido, é a coisa mais evidente do mundo e, em outro, é a coisa menos percebida ou notada do mundo. Referimo-nos a como as crianças constroem mundos e, nesse processo de construção de mundos, convidam outros seres de todas as idades a participarem dessa construção ou simplesmente deixam passar outros seres sem abrir a eles as portas do seu mundo…
Sejamos mais concretos. Estávamos no México, visitando uma associação de mulheres bordadeiras, chamada Chiwik, na cidade de Hueyapan, na serra norte do Estado de Puebla, região central do México. Chegamos depois de ter passado um dia na escola-universidade Cesder, na cidade de Zautla, também no estado de Puebla. No Cesder, tínhamos conhecido essa escola-universidade baseada nos princípios da agroecologia sustentável, na pedagogia da alternância e na tarefa pedagógica como uma doação. Em Hueyapan fomos convidadas a um Encontro de Cuidados Comunitários e “Compartências” na Comunidade Chiwik-Tajsal.
Chiwik-Tajsal é uma cooperativa de mulheres artesãs do povo mahsehual, com idades entre 18 e 60 anos. Elas têm uma forma própria de trabalhar e habitar o mundo tecendo alianças com diversas instituições da sociedade mexicana e de outros povos parceiros, na Colômbia e no Brasil, por exemplo. Em agosto de 2022, começaram o projeto “Cuidados comunitários para uma vida digna” baseado em quatro eixos: a) Amochyoltok tamachkanetapowilis (Bibliotecas vivas); b) Tapajtilis tajpianej (Cuidados da saúde); c) Tonalwayowan (Nossas raízes); d) Tekiyolnetetapowilis (Práticas narrativas).
Durante os dias 24 e 25 de junho de 2023 tivemos a oportunidade de partilhar de um seminário sobre esse projeto em que vivenciamos experiências de comunalidade e fomos apresentadas a essa forma de organizar a vida baseada no cuidado coletivo, na defesa do território, nos conhecimentos ancestrais, na criação de suas artesanias e narrativas e de conviver entre crianças e adultos as diversas dimensões da vida. Percebemos também a valorização da língua originária Náhuatl na qual as crianças são educadas junto com a língua hispânica dominante no México.
Durante o Encontro participamos de uma apresentação do que as mulheres de Chiwik materializaram como “quatro estações” integradas aos quatro eixos já mencionados que atravessam a vida comunitária em Hueyapam. Assim, pudemos aprender sua forma de criar e recriar vida. Ela está presente na milpa, que é um sistema de plantio agroecológico ancestral dos povos mesoamericanos. A milpa abrange geralmente o cultivo do milho, do feijão, da abóbora e da pimenta, através de um equilíbrio tanto físico quanto energético. Ao mesmo tempo que alimenta os seres humanos, a milpa protege a fertilidade da terra e, assim, consolida a concepção e luta por soberania alimentar da comunidade através de um sistema de trocas não capitalista. Além da milpa, conhecemos seus cuidados da saúde a partir do conhecimento das propriedades medicinais das plantas oriundas na própria região.
As mulheres de Chiwik também mostraram que são artistas – artesãs que plasmam nos seus bordados uma mesma narrativa consistente com sua forma de habitar o mundo e cuidar da mãe Terra ao mesmo tempo em que cuidam uma das outras e fortalecem uma vida onde o machismo é persistentemente enfrentado e combatido.
Nessa Associação de mulheres bordadeiras existe também uma escola bilíngue e durante os dois dias do Encontro (sábado e domingo) a escola esteve habitada em todos os momentos por crianças, a maioria meninas, que desenhavam, aprendiam palavras em Náhuatl e espanhol e cantavam uma música tradicional que iriam apresentar ao final do encontro nas duas línguas.
Entramos com curiosidade na escola de Chiqik e logo travamos relação mais intensa com algumas meninas: chamou nossa atenção a curiosidade, escuta e intimidade que logo estabeleceram conosco. Assim, algumas meninas nos convidaram a participar do seu mundo, mesmo que seja pelos dois dias que convivemos. Percebemos a tranquilidade com que elas lidavam com a diferença de nossos mundos e modos de habitá-lo, seu interesse em saber mais sobre nós e a forma em que elas afirmavam e cuidavam, no seu mundo infantil, dos valores comunitários e cooperativos imperantes entre as mais velhas e os mais velhos.
Foi como se tivéssemos sentido um encontro dentro de um outro encontro. As curiosidades foram se apresentando e se intensificando quase “naturalmente” sem serem buscadas ou provocadas, como se compartilhássemos algo em que a diferença de idade era quase irrelevante. As meninas mostravam-se como artistas-artesãs com as quais construíamos um mundo onde as diferenças eram acolhidas com sorrisos e alegrias.
Dentre os momentos em que esse mundo era construído podemos destacar os tempos da alimentação – café da manhã, almoço, janta – em que nos procurávamos e encontrávamos – no entremeio de uma agenda cheia de atividades para todas nós. Esses momentos de alimentação compartilhada eram como espécies de recreio, tempo livre, e, pelo menos para nós, eram também uma escola, pelo que nos dávamos a conhecer e ensinávamos nesses compartilhamentos sobre nossas origens, idiomas e cultura.
Uma das meninas, por exemplo, nos pediu com muita tranquilidade e argúcia – “Continue falando comigo no seu idioma, quero me surpreender!”. Ali parecia que a escolha se estendia e encontrava um tempo mais próprio, liberado de certa formalidade tradicional na relação professor-aluno. Sentíamos nesses momentos uma certa generosidade que era um ponto de encontro intercultural e intergeracional. As meninas ensinavam-nos também uma forma livre e aberta de viver esse encontro intercultural e intergeracional como uma forma de acolher e celebrar a diferença.
Chamou muito a nossa atenção que as meninas não acolhiam todas as diferenças nesse mundo e, em suas palavras, isso era porque algumas alteridades eram percebidas como “grosseiras”, o que não tinha a ver com a idade das portadoras da alteridade – pois tratava-se tanto de gestos de pessoas de pouca idade quanto de adultos – mas com certos modos de relacionar-se que elas pareciam ter claro não querer para esse mundo que estávamos construindo. Assim, o que elas nos ensinaram é que a construção de mundos demanda tanto o acolhimento das diferenças quanto uma certa sensibilidade para perceber quais diferenças constroem mundos e, portanto, precisam ser bem-vindas, enquanto outras ameaçam o mundo em construção e, portanto, precisam ser evitadas.
Assim, as meninas de Chiwik, da etnia mahsehual, ensinaram-nos uma das coisas mais evidentes e, ao mesmo tempo, menos percebidas do mundo. Na sua construção de um mundo relacional, baseado na cooperação, no cuidado e na reciprocidade, quem sabe, deram a nós uma lição de algo que pessoas adultas poderíamos dar a maior atenção neste momento do Brasil em que um mundo imposto violentamente sobre nós parece estar terminando e outro mundo parece estar se abrindo para os que confiamos na cooperação, cuidado e reciprocidade. Quem sabe a infância mais uma vez é nossa mestra de vida e de mundo. É só escutá-la, cuidá-la e afirmá-la.
Ceane Simões – Professora do curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Formada em Pedagogia e Psicologia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Mestra em Educação – Processos Formativos e Desigualdades Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutora em Educação pelo PPGED – UFPA. Integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas em Educação (GEPPPE/UEA) e o Grupo de Estudos e Pesquisas Sobre Teorias, Epistemologias e Métodos da Educação (EPsTEM), da Universidade Federal do Pará. Realiza pesquisas no campo dos currículos da Educação Básica e com os cotidianos escolares. É dirigente do Sindicato dos Docentes da Universidade do Estado do Amazonas (SindUEA) e foi coordenadora do coletivo por educação pública, democrática e integral – Coletivo Escola Família Amazonas (CEFA). Email: ceane@uea.edu.br
Walter Kohan – Professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e Cientista de Nosso Estado na FAPERJ. Pós-doutor pelas Universidades de Paris 8 (França) e British Columbia (Canadá). Atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação Filosófica com infâncias (PPEFI), co-editor do periódico childhood & philosophy, deu cursos de formação de professores e professoras em numerosos países de América Latina, Europa, e outros como África do Sul, Moçambique, Coreia do Sul, China e Japão. Seus trabalhos estão publicados em castelhano, italiano, inglês, português, francês, húngaro, persa, russo e finlandês. Livros mais recentes em português: Uma viagem de sonhos impossíveis (Autêntica, 2022), Paulo Freire: um menino de 100 anos (NEFI, 2021), Paulo Freire, mais do que nunca (Vestígio, 2019).Email: wokohan@gmail.com
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Atalhos: rotas de fuga de nossa condição trágica…
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Educador e filósofo Romualdo Dias reflete sobre desafios observados nas organizações dos movimentos sociais envolvidos com os processos de transformação
La iglesia dice: “El cuerpo es una culpa”
La ciencia dice: “El cuerpo es una máquina”
La publicidad dice: “El cuerpo es un negocio”
Y el cuerpo dice: “Yo soy una fiesta”.
(Eduardo Galeano)
“O amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes de nossa vida. Devem governá-la.”
(Wilhelm Reich)
Este texto desenvolve reflexões sobre alguns desafios observados nas organizações dos movimentos sociais envolvidos com os processos de transformação.. Aí encontramos as lutas pela defesa dos direitos universais. Aí estão os esforços de invenção de outro modelo de economia. Há também um trabalho articulado com outro modo de organização de nossa convivência em coletivos do nível local, regional, nacional e mundial. Há desafios diretamente relacionados com a dinâmica das trocas econômicas e com os acordos políticos. Há desafios dentro das experiências de associativismo e de cooperativismo. E mais desafios nas práticas culturais.
Quem age, quem assume tarefas, nos processos de mudança social, somos nós. Se a nossa sociedade tem problemas é porque eles surgiram das ações humanas. A mudança necessária para superar estes problemas também será alcançada com a ação de todos nós organizados em coletivos de trabalhos efetivos. Aqui identificamos um grande desafio: precisamos de muita gente para assumir tarefas neste processo inventivo de soluções. A eficácia da ação depende da participação de muitos, a quantidade faz a diferença nos resultados! Precisamos de gente para assumir a luta de mudança social, precisamos não só de muita gente, mas também de gente nova.
Daí emerge outra pergunta: como trazer mais gente e como trazer os jovens para participar nos processos organizativos para a construção de uma nova sociedade? A quantidade implica a qualidade. Esta busca para aumentar a participação também coloca a tarefa da formação, seja aquela relacionada com as estruturas dos grupos, com a construção dos coletivos, seja aquela dirigida para aprimorar a condição individual de todos os envolvidos. Precisamos de muita gente em melhores condições de participação. O entendimento sobre os desafios apresentados a todos nós pelo jogo político do mundo atual se aprimora com a formação. Precisamos de gente com boas condições emocionais, com boa saúde, com maiores habilidades para agir com eficácia.
A formação deve considerar a relação da política com a ciência dentro dos referenciais da modernidade, isto é, dentro dos marcos de desenvolvimento da ciência e da filosofia que emergiram com o surgimento do capitalismo, no nascimento de uma economia industrial. Compreendemos a modernidade além de uma definição conceitual. Compreendemos que a modernidade é fundamentalmente uma vivência, que envolve a todos nós, enquanto grupos e enquanto indivíduos. É uma vivência que provoca mudança das relações de troca entre nós, aquilo que é da ordem de funcionamento da economia. A modernidade, surgida na revolução industrial, tem relações com a dinâmica da produção da riqueza. A indústria passa a ser a locomotiva da economia.
A modernidade tem desdobramentos sobre a vida política de uma sociedade pelo fato de promover uma profunda mudança no modo de conceber a autoridade e no modo de negociar acordos de mando e obediência, que possam organizar a convivência com base em regras acatadas por todos. A partir da modernidade um rei não consegue obediência explicando que a fonte de seu poder é Deus. Começamos a entender o quanto as práticas de poder têm relação direta com a nossa vontade.
A modernidade tem os aspectos científicos e filosóficos quando nos impulsiona para fazer outra leitura de mundo diferente daquela oferecida amplamente na Idade Média em uma cosmovisão religiosa. A explicação de mundo que oferecia conforto chegava até nós por meio da revelação, própria da cultura judaico-cristã. Com a modernidade a revelação não satisfaz amplamente, ela deixa algum desconforto.
Acontecem mudanças em todas as esferas da vida com a emergência da modernidade. Na economia, ocorre outra dinâmica de trocas e de produção da riqueza; na política emerge outras formas de conceber e praticar a autoridade, com outras exigências de garantia quanto ao governo dos povos. A cultura promove o pertencimento e o reconhecimento, dos coletivos e de cada indivíduo, nos marcos da ciência, abrindo horizontes de vida além dos referenciais oferecidos pela religião. Tudo isso nos faz compreender o quanto a modernidade é uma vivência de tragédia.
A modernidade nos joga no embate das forças desconhecidas vindas de uma extrema incerteza no existir. Adquirimos uma consciência mais aguda, mais do que nas fases anteriores da história da sociedade, a respeito de nossa condição de risco. Estamos jogados no mundo, não temos garantias de que os nossos arranjos práticos possam nos conduzir para lugares de certezas. Estamos abalados também no campo dos valores, começamos a ter sérias dificuldades para definir em que acreditar.
Nós abordamos a dimensão trágica da modernidade, como experiência de vida, usando a figura de linguagem de uma grande perda: trata-se da perda do colo da mãe. Outro desdobramento desta forma de linguagem pode ser feito com a expressão “perda da teta” fazendo uma menção para aquele instante primeiro de nossa alimentação, na condição de bebê, que um dia foi a condição de todos. Com a modernidade fica mais forte a consciência de que não adianta buscar colo ou teta na Igreja, no Partido, no Estado, no Sindicato, na Escola, na Ciência, na Filosofia, enfim, em qualquer instituição social. Consolida em nós a consciência de que viver é, de fato, muito arriscado.[1]
Mesmo não podendo explicar mais detalhadamente os aspectos filosóficos e políticos enfatizamos esta vivência do elemento trágico como sendo a marca desta época. A partir desta constatação formulamos algumas perguntas: como cada indivíduo elabora para si mesmo esta vivência do trágico em sua existência? E mais ainda: quantos de nós nos permitimos passar por esta experiência? Quantos experimentaram o forte tombo de cair do colo da mãe? Quantos experimentaram explicar o mundo a partir das verdades construídas na precariedade do humano e não mais nas garantias de alguma forma de revelação? Quantos de nós estamos dispostos a nos lançar em um trabalho cansativo de fazer e refazer, em todos os instantes os acordos, os tratos, as normas, para podermos viver juntos, “sendo iguais e diferentes”? Quantos de nós estamos dispostos a aceitar e a usar a ciência, mesmo sabendo que ela não nos garante o porto seguro? Nós não podemos abandonar o uso da razão e da ciência na ilusão de que vamos encontrar em algum lugar as garantias de certezas.
Estando preocupados com estas perguntas elaboramos este texto propondo linhas de orientações, em caráter de sugestão, para nós avaliarmos e inventarmos os nossos programas de formação política em meio aos processos sociais.
O sujeito diante do mundo
Nós nascemos, somos jogados no mundo, e, aos poucos, vamos assumindo uma posição de pertencimento e de reconhecimento, vamos ocupando um lugar na luta pela sobrevivência. Nós identificamos em cada indivíduo três necessidades fundamentais quando ele se percebe estando diante do mundo: 1) compreender o mundo, cada um sente necessidade de fabricar as explicações para tudo o que lhe acontece ao seu redor; 2) agir, o sujeito assume uma posição no mundo por aquilo que ele faz. As coisas só mudam com o trabalho, isto é, a ação de cada um na história vai construindo outro mundo, outra economia, outra política, outra ciência, e dentro de tudo isso, outros valores. Nada muda por obra e graça de um espírito que baixa do céu; 3) acreditar, pois cada indivíduo descobre que existe um movimento intenso entre aquilo que ele entende e aquilo que ele faz. A ação no mundo está orientada e sustentada por algo em que se acredita. O acreditar dá a sustentação para o intenso movimento produzido nesta relação em que um sujeito faz o mundo, e ao mesmo tempo, é feito por ele.
O esforço pelo conhecimento está situado no primeiro nível. Cada indivíduo se esforça o tempo todo para tentar compreender cada detalhe do que lhe acontece no dia a dia. Aqui nós temos uma pergunta: quais são os limites e as possibilidades de nosso pensamento? No segundo nível está a ação, que precisa ser organizada, orientada. Aqui fazemos a pergunta: o que podemos fazer? E no terceiro nível está aquilo em que acreditamos, é o conjunto de valores. Aqui fazemos a pergunta: o que podemos esperar?[2]
A materialidade do viver: o trabalho.
Cada indivíduo, estando no mundo, tem um embate sem descanso e sem encontrar algum porto seguro, com estas três dimensões: entendimento, ação e valor. A busca pelo entendimento está articulada com a exigência do trabalho e com o acreditar. Neste ponto de nossa argumentação nós nos delimitamos na esfera do agir. Assumimos a ação como sendo a expressão mais material de nossa existência. Pois é com o trabalho de cada um que nós criamos as coisas, nós inventamos mundos, nós sustentamos a nossa existência. A esfera do trabalho é um determinante de nossa posição no mundo.
Na esfera o agir (o trabalho) estão situadas as três categorias modais da existência, que são os três modos que determinam a nossa condição de estar na vida: 1) a necessidade; 2) a realidade; 3) a possibilidade. Na esfera da necessidade estão situadas as condições de sustentação material do viver, é onde produzimos os alimentos, os remédios, a moradia, o vestuário, a mobilidade pelo território, etc. Na esfera da necessidade nós cuidamos do vínculo com o nosso corpo, pois não somos anjos e nem somos máquinas. Precisamos nos alimentar, precisamos cuidar da saúde, precisamos descansar, fazer exercícios físicos, etc. Este é o campo da economia, é o lugar da realização das trocas, das práticas de complementariedade, etc. Como ninguém sobrevive sozinho, como cada pessoa precisa do outro para se completar, nós fazemos trocas o tempo todo. As relações de troca são a base de todo e qualquer mercado.
Na esfera da realidade estão situadas as regras, os acordos, os pactos para tornar a nossa convivência possível. Na esfera da realidade nós cuidamos dos vínculos de cada um com o outro, é o território das relações de cooperação. Este é o campo da política.
Na esfera da possibilidade nós cuidamos do nosso vínculo com o mundo, é onde fazemos acontecer o nosso plano de ação para a mudança. Esta é a esfera da multiplicação de projetos, é a esfera da invenção de utopias, é o território de produção dos sonhos de outro mundo possível.
A eficácia de nossa ação, tendo em vista a transformação do mundo, está profundamente articulada com a nossa habilidade para o manejo dentro da esfera da necessidade, da realidade e da possibilidade. Tudo isso possui uma dimensão de materialidade no sentido de que não é uma ideia, não é alguma coisa acomodada na capacidade de fazer bonitos discursos. E, acrescenta a estas habilidades, o manejo das tensões próprias da construção e da sustentação dos vínculos, seja o vínculo de cada um com o seu próprio corpo, seja o vínculo de cada um com o outro, seja o vínculo de cada um com o mundo, na participação de um projeto de mudança.
A experiência da modernidade, na perspectiva de toda a incerteza do viver e de que estar na vida é estar em permanente perigo, ela impõe novos desafios aos esforços pela busca de maior entendimento do mundo. A partir da modernidade alteramos os modos como organizamos coletivamente a nossa ação. Com a modernidade alteramos também o uso e a invenção de nossos valores. A modernidade nos faz sair daquele lugar de dependência de alguma forma de tutela de autoridade, nos faz sair dos lugares cômodos oferecidos por alguma modalidade de revelação. É por isso que estas categorias modais da existência, quais sejam, a realidade, a necessidade e a possibilidade, compõem a condição material do viver de todos nós.
Esta abordagem da materialidade do nosso viver pode nos ajudar a ampliar a consciência da dimensão de tragédia própria de toda existência. A tragédia existe, ela é real, não tem como evitar. Enfim, estar na vida com maior consciência desta tragédia tem as suas dores e as suas alegrias!
Rotas de fuga da tragédia do viver
Nem todo mundo aguenta lidar com a dor sentida nesta experiência de tragédia na vida. A negação da tragédia é resolvida, muitas vezes, com a busca de rotas de fuga. A dor do viver pode encontrar na cultura alguns dispositivos de fuga como uma espécie de alívio. Estes dispositivos não nos retiram a tragédia, mas oferecem alguns recursos a evitar o seu enfrentamento. A cultura também oferece um acervo cheios de modos feitos de ilusão, como se a vida sem dor fosse possível.
Na categoria da necessidade, que é um lugar em que cada indivíduo cuida e sustenta de seu vínculo com o corpo, o recurso para fugir da vivência do trágico aí, é o milagre. Isto fica evidente nos momentos em que adoecemos. O que temos de mais trágico é a fragilidade do corpo, em nosso cotidiano, e no extremo, é a certeza de nossa morte. É muito comum, em momentos de extrema fragilidade do corpo, as pessoas apelarem para os recursos religiosos. A cultura nos oferece a figura do santo, uma entidade responsável para fazer acontecer o milagre. De acordo com a mentalidade da modernidade, a fragilidade do nosso corpo só pode ser resolvida com o uso da ciência e com a prática dos cuidados relacionados com a alimentação, o descanso, os exercícios físicos, etc. Todos os esforços para cuidar do corpo dão muito trabalho, mas é o único jeito possível de resolver. O fato de poder apelar para algum milagre não nos retira a exigência do trabalho e do cuidado.
Na categoria da realidade, que é um lugar em que cada indivíduo cuida de seu vínculo com o outro, o recurso para fugir da vivência do trágico aí, é a mágica, que consiste no apelo para algum truque. O que temos de mais trágico é a opacidade do outro, a fragilidade dos acordos e normas, a incerteza inerente a todo o fazer coletivo, a impossibilidade de controle total dos fluxos de trocas. A cultura oferece a figura do mágico, profissional responsável por esta arte. Na perspectiva da modernidade nenhum truque resolve o problema da incerteza, dos conflitos, da opacidade, sempre presentes em qualquer modo de nos relacionar com o outro. Como este é o campo da política, existe um conjunto de conhecimentos sobre a dinâmica do funcionamento da vida em sociedade, que pode nos ajudar em cada situação. A melhor maneira de organizar a nossa vida em sociedade pode ser alcançada com o uso de nossa capacidade racional, com o uso do pensamento. Em lugar cheio de problemas podemos realizar os estudos sobre a situação para nos orientar nas suas soluções.
Na categoria da possibilidade, que é um lugar em que cada indivíduo cuida e sustenta o seu vínculo com o mundo, o recurso para fugir da vivência do trágico, é a promessa. O que temos de mais trágico é a não garantia de um futuro de paz e descanso, é o risco inerente em cada projeto e sonho. A cultura oferece a figura do profeta, entidade responsável por anunciar as promessas de um futuro melhor para todos. Na perspectiva da modernidade, os problemas relacionados com toda a incerteza de nosso futuro, não é resolvido com a promessa, e sim com o desenvolvimento de nossa habilidade de zelar pelo futuro explorando ao máximo tudo o que podemos fazer no tempo presente. Quem empurra a vida com a barriga desperdiça o seu tempo presente e prejudica a invenção de seu futuro.
O santo e o milagre são componentes da religião e devem ficar aí, neste lugar próprio deles. Levar o santo e o milagre, para a política ou para a ciência, só pode nos prejudicar, porque não resolve o nosso problema, e pior, nos distrai com uma ilusão. Nem a política e nem a ciência combinam com a religião.
O mágico e a mágica são componentes da arte e devem ficar aí, neste lugar próprio deles. Levar o mágico e a mágica, para a política e para a ciência, só pode nos prejudicar, porque não resolve o nosso problema diante dos conflitos inevitáveis neste terreno. Não tem como resolvermos os problemas da incerteza, seja na política, seja na ciência, com a varinha mágica, com o pó de pirlimpimpim, com abracadabra. Só resolveremos o problema da incerteza com muito esforço, com o trabalho organizado pela nossa capacidade de fazer o uso correto de nossa razão. Nem a política e nem a ciência combinam com a mágica.
Até aqui quis apresentar o quadro teórico, como sendo um referencial de entendimento para provocar outras reflexões em temas que estão relacionados com os desafios presentes na organização dos movimentos sociais, e também nos processos educacionais, como é o caso da formação política dos participantes.
As novas formas de colonização…
Toda a vida social está apoiada na economia, esta esfera que oferece as condições materiais de sustentação da vida. No momento atual experimentamos uma crise profunda no modo de organizar a produção da riqueza, a sua administração, a sua distribuição. Este modelo é nomeado como economia neoliberal. Mesmo havendo produção de riqueza no uso da terra e nas indústrias, a locomotiva da economia é a aplicação financeira, é o dinheiro produzindo dinheiro. Nesta prática de economia há muita produção de bens imateriais e pouca produção de bens materiais. Este modelo de economia está intensamente empenhado em produzir também um estilo de vida. Há também a produção de uma estética da existência, articulada com agressivos trabalhos da publicidade na divulgação dos estilos e das modas de cada momento.
Quando o capitalismo industrial nasceu, como um fenômeno europeu, ele pode contar com o apoio das empresas de expansão do comércio através da colonização dos territórios das Américas, da África e da Ásia. Hoje, com o capitalismo neoliberal, não existem novos territórios a serem colonizados, e ainda não é possível ir morar na lua ou em outro planeta. Portanto, novas colonizações começam a acontecer em territórios invisíveis. Vamos ver uma nova modalidade de colonização em cada categoria modal da existência.
Na categoria da necessidade acontece a colonização do território do vínculo de cada indivíduo com o seu corpo. Esta nova modalidade de colonização produz o sujeito doente, enfermo, debilitado em sua condição física, muito cansado. Quanto mais o sujeito adoece menor condição ele tem para participar da luta pela transformação da sociedade.
Na categoria da realidade acontece a colonização do território do vínculo de cada indivíduo com o seu semelhante, com o outro. Esta nova modalidade de colonização produz a fragilidade das formas de cooperação, produz o sujeito em solidão, banaliza as formas de convivência entre todos, envenena as formas de relacionamento.
Na categoria da possibilidade acontece a colonização do território do vínculo de cada indivíduo com o mundo. Esta nova modalidade de colonização produz o sujeito tonto, disperso, sem horizontes de vida. Esta colonização envenena a condição de sonhar, destrói a habilidade de elaborar projetos para construir outros mundos possíveis.
Estas novas modalidades de colonização, operadas em territórios invisíveis, contribuem para garantir a eficácia da ideologia neoliberal. Para as elites do capital financeiro continuarem a aplicar seus dispositivos de exploração e de dominação, elas dependem de um funcionamento eficaz dos três dispositivos de colonização. Um sujeito doente, solitário e sem sonho não consegue resistir ao sofrimento imposto sobre ele neste tempo atual, no lugar em que vive. E não consegue participar das lutas sociais.
A crise do capitalismo neoliberal acontece junto com a produção de uma barbárie social. Cresce a violência por todos os lados, a vida na cidade tem sido cada vez mais hostil para a saúde. A ideologia aumenta o seu poder de manipulação sobre as pessoas com a ação eficaz da publicidade, sobretudo pela multiplicação das redes sociais. Soma-se a isso a produção de uma boataria generalizada. Quando a verdade se confunde com a mentira fica mais difícil pensar e debater projetos de país.
Neste contexto social, com estas características aqui descritas, não podemos continuar as nossas práticas de estudo e de formação na ilusão de que é possível disputar espaço com esta ideologia tão poderosa. Há momentos, em encontros de movimentos sociais, que temos a nítida impressão de que o indivíduo está aí apenas de corpo presente, a cabeça está em outro lugar. Muitas vezes um educador, um formador, nem consegue trazer o indivíduo para este momento e este lugar de formação com uma presença de corpo inteiro. E não é possível trazer o sujeito fazendo uso da força. Não adianta de nada decretar que agora vamos estudar um texto e vamos entender, vamos discutir e vamos organizar o nosso agir. As coisas não acontecem por comandos, por algum tipo de decreto. Não conseguimos realizar as atividades fazendo o uso da consigna “tem que…”, pois nada “tem que”, o que acontece de real é o fluxo das trocas, é o fluxo de afetos e de perceptos.
Nós só podemos disputar com a ideologia propondo outro modo de estudar, outro modo de pensar, outro modo de dialogar. Este outro modo se faz com a ação em grupo, com experiências coletivas, com vivências. Portanto, temos aqui dois componentes de uma vivência: ter com quem contar e ter com que se importar, é fazer com o outro, e é a prática organizada e orientada.
Sugiro que qualquer vivência de estudo organizada seja capaz de considerar o corpo e as práticas de cada um. Precisamos trazer o corpo porque ele é a condição de um encontro com o outro estando por inteiro, em uma relação direta de presença, ao vivo. Isto não pode ser feito pelas redes sociais e nem pela publicidade. É no corpo a corpo que podemos fazer a disputa com a ideologia com maior eficácia. Esta insistência com o corpo se deve ao fato de que toda e qualquer experiência de estudo, de fazer ciência, se não roçar o sofrimento humano, não coopera para a busca da verdade. Todo conhecimento autêntico tem as marcas do sofrer humano.
Precisamos trazer as práticas de cada um como sendo o melhor ponto de partida para qualquer esforço de estudo, de debate, de entendimento. Os vários aspectos de uma experiência do fazer, as várias dimensões das práticas de cada um, nos permitem identificar os caminhos de aprimoramento da leitura de mundo. Os temas de estudo nascem das práticas, se articulam com o fazer.
Se trouxermos o corpo e as práticas vamos fazer programas de formação mais eficazes, com melhores condições de desenvolvimento das habilidades necessárias para a luta de transformação social. Uma formação que compõe com o corpo e com as práticas evita de colocar o sujeito sentado em uma cadeira, permanecendo em uma posição passiva, de quem só escuta, de quem só aprende. Precisamos descobrir um modo de estudar implicando o corpo, e para isso a categoria teórica que mais nos ajuda é o “movimento”.
Então, podemos nos perguntar: como realizar um modo de estudar, em que cada indivíduo possa experimentar o movimento do seu pensamento? Como ler um livro “em movimento”? Como dialogar com o outro “em movimento”? Como sair da condição passiva, de quem apenas recebe e passar a experimentar o movimento de mão dupla, a condição de ter algo a dar e ter algo a receber? Também no ato de estudar existe uma economia da troca, que é esta dinâmica dos corpos em movimento, é a vivência de dar e receber ao mesmo tempo. A primeira condição para nós desenvolvermos práticas de cooperação com maior eficácia está nesta base, que é o permanente reconhecimento de nossa precariedade. Vamos ao encontro do outro para fazer algo junto, não é porque é mais democrático e nem é por obediência a um comando político, e sim porque não temos escolhas. Somos seres incompletos, e por isso precisamos do outro.
Uma formação que considera as práticas evita o trabalho de doutrinação, evita o estudo que só trabalha com a cabeça, que só usa a razão. É claro que precisamos da razão para estudar, mas um uso real e eficaz da razão, e não apenas ficar ouvindo alguém dando palestras, alguém ensinando para alguém que apenas escuta, com o corpo na passiva. O estudo feito com a materialidade das práticas nos faz estar em contato, o tempo todo, com a realidade viva, com as suas contradições, bem como com as nossas fragilidades. Um estudo feito apoiado nas práticas aproveita tanto os acertos quanto os erros. Os nossos erros deixam de ser motivos de vergonha e passam a ser uma parte importante de nossas aprendizagens.
Três problemas para os modos de fazer política hoje
Toda esta reflexão desenvolvida até aqui foi feita com a intenção de oferecer um referencial teórico, um pano de fundo, para abordar três problemas que observamos em nossos modos de fazer política ou de estudar.
O primeiro problema está relacionado com o tema do carisma. Este termo é próprio do campo religioso, tem uma relação com a santidade. Neste tempo em que as práticas políticas se deixaram contaminar pelo espetáculo, o carisma entra neste espaço e legitima algumas formas perversas e estranhas de exercício do poder. Em diversos momentos, quando conversamos sobre a dificuldade de encontrarmos novas lideranças, nós relacionamos a força de uma figura política com o fato de ter ou não ter carisma. No campo da política, não se forma uma liderança carismática rapidamente, demora muito tempo. Usar um carisma para legitimar uma autoridade faz com que a dinâmica do poder fique alheia ao trabalho de nossa razão. O carisma favorece o fortalecimento de práticas de tutela na relação com a autoridade. Nós devemos constituir uma figura de autoridade pelo uso da razão, e não por apelos emocionais ou espirituais. Se na atualidade, no nosso país e em outros, estamos precisando apelar para a força do carisma de uma liderança, é porque estamos sem projeto de nação e sem projeto de mundo. Pior ainda, é que estamos sem condições de enfrentar a desumanização crescente associada com uma ampla barbárie social.
A introdução do carisma na prática política também contamina a representação enquanto um dos pilares da democracia. Toda representação deve ser desenvolvida fazendo o uso da razão. Uma autoridade representa uma população na defesa dos direitos e não dos privilégios, neste momento, precisamos de uma boa capacidade de raciocinar para distinguir entre uma coisa e outra. A presença do carisma em uma dinâmica de representação coopera para que a autoridade se desloque do lugar da luta pelos direitos e passe a se vincular apenas com a disputa dos interesses. Nestes tempos marcados por tanta agitação, a reinvenção da autoridade é uma exigência, e ela não pode ser feita por meio do apelo de elementos advindos do campo religioso, deverá ser feita pelo uso de nossa razão, pelo manejo de uma ciência adequada ao tema.
O segundo problema está relacionado com o tema da mística. Este termo é próprio do campo religioso, tem uma relação com a espiritualidade. Levar a mística para o campo da politica é propor que cada indivíduo se equilibre em um fio de navalha. Quem não tiver a habilidade de equilibrista vai se cortar. A entrada da mística na política se confunde com formas de apelo emocional para garantir a adesão, a mobilização. Como a tarefa de mobilizar as pessoas é muito difícil e exigente, fazer o uso de elementos religiosos ou emocionais é expressão de preguiça, é optar pelo menor esforço. Apelar para a mística é escolher o atalho ao invés de fazer o trabalho árduo do convencimento e da adesão pelas práticas, e não pelo discurso bonito. A prática da mística pode contaminar a política de ilusões, pode vender certezas e seguranças que negam o jogo violento de poder. O uso da mística pode favorecer o abandono do uso da razão, pode enfraquecer a condição do pensamento.
O pior que uma prática de mística pode fazer no campo da política é vender projetos de certeza, propostas de garantia, modos de ocultar o fato de que toda ação política é feita de muito conflito, e que as soluções para os conflitos são cheias de riscos. O maior desafio para o trabalho racional é ajudar as pessoas a entender que qualquer esforço de transformação social é altamente arriscado, não tem como apelar para algum contrato de seguro, é aventura. A mística confere um disfarçado ar de santidade como se nós pudéssemos nos fazer imunes de nossas fragilidades. A ação política é obra de seres humanos frágeis, cheios de precariedades. A mística pode facilitar o caminho da idealização das lideranças e de qualquer participante em uma ação coletiva. Nosso agir, nosso pensamento, enfim, tudo o que fazemos está marcado pela nossa condição humana. Isto é, somos frágeis e a nossa fragilidade se expressa em tudo o que fazemos.
O terceiro problema está relacionado com o tema da publicidade, que é a propaganda, é o uso abusivo do marketing. E este termo é próprio das práticas das empresas em seus esforços de comércio, de busca de aumento dos lucros através do aumento da venda de seus produtos. Nós percebemos com mais evidência o uso do marketing na política no período das campanhas eleitorais. Este dispositivo do marketing envenena o voto que é um componente da democracia. Um cidadão não deveria escolher o seu representante para trabalhar na defesa dos seus direitos a partir da propaganda mais convincente, ou da propaganda mais cara. Em um uso da razão na política nós devemos eleger as nossas autoridades a partir da discussão dos projetos de mundo, de humanidade e de país.
O marketing está muito presente nas escolas que querem divulgar e vender os seus cursos, e está também forte em institutos que se dizem vinculados aos movimentos sociais, também preocupados em vender melhor os seus produtos. Este apelo para a eficácia do marketing é uma negação do uso da razão. Vemos a cada dia o quanto a prática do marketing se faz de forma agressiva, por excesso de repetição, por bombardeio de propagandas. Este é um perigoso paradoxo, pois uma instituição que deveria estar vinculada ao trabalho da ciência, está fortalecendo as práticas de negação do uso da razão.
Quando abordamos a dimensão da necessidade, enquanto uma categoria modal da existência, fizemos com a intenção de acentuar esta dimensão de nossa precariedade, e de relembrar a nossa fragilidade. Ninguém pode se fazer forte apelando para o uso de elementos da religião, como se a força pudesse ser dada a nós por um milagre. Nem se fazer forte pelo uso de algum truque, pela prática da mágica. Qualquer corpo desenvolve a sua força por meio de muito exercício físico, e isto exige muito suor, produz muito cansaço, já que não somos anjos e nem somos robôs.
O uso de elementos da religião ou elementos da mágica para a prática política funcionam bem como um atalho, como uma forma de evitar o árduo trabalho do estudo, do pensamento, da busca coletiva de soluções para os problemas que atingem a todos. Fazer política dá muito trabalho, cansa muito, exige esforços de todos os envolvidos. O apelo para recursos da religião ou da mágica em um trabalho tão pesado é uma amostra de trabalho preguiçoso. Não existem recursos que possam nos aliviar de todo o esforço exigido para a sustentação material da vida e para a organização do viver em grupo. Tudo exige muito trabalho, tudo está cheio de risco. E, além do mais, causa muito cansaço!
Qual mundo queremos?
Nós mostramos como o milagre opera no plano da realidade como uma forma de nos iludir diante da necessidade de lidar com a dimensão trágica do viver, de lidar com a nossa finitude. Mostramos como a mágica atravessa o plano da realidade como uma forma de evitar o enfrentamento da opacidade do outro, da opacidade do real. Se nós precisamos apelar para o milagre ou para a mágica, quando fazemos política é porque descuidamos de um elemento próprio da esfera da possibilidade, próprio daquele território onde nós produzimos os nossos sonhos, onde elaboramos as nossas utopias.
É aqui então que entra o desafio da elaboração de um projeto de humanidade, um projeto de uma nação, um projeto de um povo, um projeto de uma cidade. Entrando na esfera da possibilidade, o trabalho da razão na organização da ação política, se faz com a elaboração de projetos de sociedade a partir dos pequenos experimentos que vão se fazendo realidade na medida em que criamos, pouco a pouco, as soluções para os problemas de todos. Não elaboramos projetos de país por meio de doutrinação, e sim por meio de intensas experimentações, situadas no cotidiano do povo.
Não podemos elaborar ou propor algum projeto apenas a partir de um conjunto de ideias, como se pudéssemos copiar dos livros, ou como se pudéssemos copiar das experiências alheias. Nós fazemos e elaboramos os nossos projetos de humanidade, de mundo e de país, a partir dos pequenos fazeres no cotidiano, sem precisar apelar para o espetáculo, sem fazer barulho. Com o uso da razão, com o debate de nossos pensamentos, sempre referindo a nossas práticas, nós podemos e nós devemos fazer a discussão do projeto de país, em todas as suas dimensões: na economia, na política e na cultura.
Alguns referenciais para uma ação inventiva na política…
A organização da ação política e a organização dos programas de formação das lideranças devem ser apoiados no conhecimento e orientados pela razão. Somente com o recurso da ciência é que podemos dar eficácia aos esforços de transformação da sociedade. Explicamos o quanto é muito arriscado, e o quanto não é indicado, levar para a política ou para os processos educacionais, os recursos da religião (o apelo aos milagres), da mágica (o apelo aos truques) ou do marketing (a força da propaganda).
Nós podemos realizar as nossas experiências fazendo uso dos dispositivos da ciência, do conhecimento, dos recursos de organização, do planejamento, da avaliação, etc. Os registros ou relatos de outras experiências são dispositivos eficazes enquanto fonte de inspiração e enquanto energia de animação. Há muitos instrumentos de organização e de planejamento que podem servir de dispositivos. Os dispositivos são estruturas instituídas, elas permanecem com condição de sustentar as energias produzidos ao longo dos movimentos instituintes.
Acrescentamos aos dispositivos o manejo das disponibilidades. Se os dispositivos fazem referência aos instrumentos, a disponibilidade faz referência aos sujeitos da ação quanto ao modo de organizar o tempo e o espaço necessários para as atividades planejadas pelo grupo. O tempo que cada um pode oferecer para a realização das atividades assumidas pelos grupos dos movimentos sociais deve ser organizado coletivamente. As disponibilidades também estão marcadas pela força produzida nas experiências proporcionadas pelos processos instituintes.
Além da disponibilidade e dos dispositivos proponho pensar na disposição. Sempre temos dedicado uma atenção maior para organizar os dispositivos e a disponibilidade. Temos cuidado pouco da disposição. A disposição se refere a uma condição do sujeito e de uma cultura grupal. Ela demanda um zelo permanente. A condição com a qual cada sujeito se dispõe a participar das lutas sociais e a cultura do local não estão prontas, não estão acabadas, devem ser cultivadas permanentemente. Não podemos colocar a disposição como sendo um pressuposto, como algo já dado, acabado. Portanto, as estruturas dos partidos políticos, dos organismos de luta social, bem como dos programas de formação precisam dedicar esforços e tempo para conferir o compromisso de cada sujeito com o projeto e os vínculos possíveis entre o projeto de país com a cultura local. O trabalho com a disposição faz parte da esfera da possibilidade, onde se produz a utopia. O campo da disposição é o lugar onde se expressam com maior força os efeitos daquilo que foi realmente experimentado como movimento instituinte.
Processos de subjetivação e alteridade
O modelo de economia neoliberal não se limita a produzir mercadorias. Ele produz também estilos de vida, oferece uma estética de existência, determina uma sensibilidade para que algumas coisas sejam sentidas e outras não. Se não ficarmos atentos a este fato de que o modelo de economia interfere nos processos de subjetivação, nós estaremos sendo ingênuos.
Nós chamamos a atenção para este fato porque existe uma mútua implicação entre os processos de subjetivação e os processos educacionais. Uma ação política tendo em vista a transformação social precisa desenvolver habilidades para cuidar dos afetos e dos perceptos produzidos nesta mútua implicação. Esta mútua implicação atravessa as práticas políticas e interfere nos processos educacionais. Precisamos estar atentos a eles para conseguirmos administrar os aspectos favoráveis à mudança que desejamos.
Os processos de subjetivação são os modos como nós nos constituímos enquanto sujeitos a partir de nossas relações com o outro. A subjetividade está diretamente ligada com a alteridade. Cada indivíduo se constitui enquanto um sujeito com o auxílio do outro. É como um trabalho de lapidação de uma pedra bruta até ela se tornar uma joia. É como se fosse uma escultura. A escultura de si é feita com a colaboração das pessoas com quem nos encontramos. Os processos de formação política são laboratórios da escultura de si.
Certa vez Freud nos explicou sobre as modalidades de relação de cada indivíduo com o outro[3]. Ele formulou quatro modelos de relação com o outro ao justificar que toda psicologia individual é também psicologia social. Ele nos disse que na vida psíquica do indivíduo, o outro é regularmente considerado como modelo, objeto, auxiliar e adversário.
Esta afirmação de Freud pode nos ajudar a pensar em dois aspectos presentes em nossos programas de formação e em nossos modos de organizar a ação política.
O primeiro aspecto se trata de uma demanda permanente de verificação em cada um de nós quanto aos modos de nós fazermos o manejo destas formas de nos encontrar com o outro. Ao analisar os nossos movimentos dentro de cada uma destas modalidades nós teremos melhores condições de avaliar o quanto os afetos produzidos em nossos encontros com o outro estão operando a favor ou contra o projeto de transformação social. Claro que nós queremos fortalecer a modalidade de cooperação, que faz parte deste nosso movimento de procurar sempre compor com o outro, de estar presente com o outro nesta condição de auxiliar. E em seguida, precisamos ficar atentos e não nos tornarmos refém dos afetos que se produzem no uso do modelo, o que acontece muito com as identificações. Há muita gente que se identifica com uma figura de autoridade ou de lideranças e não consegue administrar os afetos produzidos nesta modalidade de presença com o outro. O mesmo zelo devemos ter com os afetos quando abordamos o outro como objeto ou como adversário. Muitos afetos, contraditórios e intensos, brotam das experiências de usar o outro como nosso objeto, bem como nas experiências de enfrentar o outro como sendo nosso adversário. Estes afetos são extremamente tensos, precisamos conhecê-los e reconhecê-los para que a nossa ação de transformação não fique refém destas forças.
O segundo aspecto se refere ao elemento paradoxal presente em nossa relação com o outro. Tudo o que acontece em nossas vidas é provocado pelo outro. O outro nos desinstala, o outro nos obriga a sair dos lugares cômodos, etc. O outro sacode a nossa vida… MAS, precisamos do outro. Ninguém sobrevive no mundo estando sozinho. O outro é nossa condição de complementaridade. Em nossa incompletude existencial precisamos do outro para nos completar, considerando as coisas mais práticas da vida.
Este segundo aspecto nos ajuda a entender que existe um território precioso situado entre “eu” e o outro, um espaço de entremeio, e é nele que o desejo se produz. Por isso é que Freud pode dizer que não existe uma psicologia individual e que toda psicologia é social. Assim entendemos como é que nos processos de subjetivação não existe o interior, o profundo de cada ser. Se estivermos nos referindo ao interior do corpo, a Biologia nos explica bem e nos mostra claramente quais são os nossos órgãos, ela nos ensina sobre as suas estruturas e funcionamento. Mas, na política e na educação, não existe o interior de si, o que existe é uma intensa produção de afetos e perceptos no espaço de entremeio. Tudo acontece neste território do “entre”.
Enfim: o que fazer? Como fazer?
Voltamos a enfatizar a nossa inquietação inicial. Como sustentar, orientar e organizar a nossa ação política fazendo uso do nosso recurso mais humano, um recurso posto à nossa disposição, que é a razão e o conhecimento produzido pela humanidade antes de nós?
Os episódios e os temas apresentados, tais como a mística, o carisma, o marketing, usados na política e na ciência, podem ser indícios de toda uma sociedade, de toda uma cultura que ainda não passaram pela modernidade neste sentido de experimentar a dimensão trágica da existência. Estamos estudando esta hipótese buscando algumas pistas de entendimento analisando os dispositivos forjados pelo sistema colonial presentes em nossa história por séculos.
Mas a questão ainda fica pior se nós pensarmos que uma sociedade ainda aprisionada em uma cosmovisão pré-moderna, está vivendo intensamente novos embates ao ter que conviver com elementos de um tempo pós-moderno. Há sinais entre nós de que toda uma população vive perdida, dispersa, mergulhada em uma confusão entre o pré-moderno e o pós-moderno, sem ter passado pela modernidade. Portanto, fica muito difícil fazer pensar, quando predomina nas bases da vida em sociedade, toda uma cosmovisão religiosa e mágica. Soma-se a tudo isso os efeitos do marketing que consiste no bombardeio de informações e de propagandas. Como podemos discutir e elaborar um projeto de país e de nação, se o seu povo, ainda está sonhando com soluções milagrosas ou mágicas, ou está sendo conduzido pelas propagandas agressivas no cotidiano da vida de todos?
Até podemos pensar que esta confusão entre pré-moderno e pós-moderno também atravessa a escola, desde a base até o topo. A escola deveria cumprir o seu papel de ajudar os alunos a desenvolverem a capacidade de fazer a leitura de mundo a partir da ciência. A escola deveria ensinar e educar proporcionando aos alunos o acesso à ciência, despertar e fortalecer neles a paixão pela ciência, pelo estudo, pela leitura. A escola não está conseguindo fazer isso. Entre professores encontramos muitos sinais de que eles também ainda não passaram pela modernidade. A escola ofereceria a base para a democracia se ela ajudasse os alunos a terem os recursos próprios e saberem se proteger diante das armadilhas lançadas pela cosmovisão religiosa e mágica a respeito da vida.
Vamos ser sucintos. O que fazer? Transformar a sociedade! Como fazer? Transformamos a sociedade por meio do trabalho coletivo, organizado, sustentado e orientado por um projeto de povo, de humanidade, de nação. A transformação se faz a partir das pequenas ações, das pequenas soluções forjadas diante de cada problema. Não existe um modelo de vida e de sociedade perfeito, e por isso qualquer tipo de idealização só atrapalha a luta. A transformação não se faz com gestos espetaculares, com acontecimentos grandiosos. Não existe mais um modo de entender a revolução como sendo a tomada do palácio do governo, pois ocupamos uma multiplicidade de palácios já instalados entre nós por meio de um árduo trabalho sem descanso, dia a dia, sempre expostos ao risco, vivendo uma aventura permanente.
Enfim, enfatizamos que a ação de cada um é necessária para a transformação social. Nenhum projeto de mudança acontece pela força de um texto, de um documento, de um papel, como se as palavras escritas mudassem automaticamente a história. O que muda a história, o que faz outro mundo possível acontecer, é o trabalho organizado, com a colaboração de cada um e com as formas de cooperar em grupo.
Então precisamos incluir em nossas ações políticas e em nossos programas de formação os dispositivos de cuidado com cada um, no zelo pela individualidade. Precisamos forjar dispositivos de cuidado com os grupos, com as estruturas, com as instituições, uma atenção especial com o que é do coletivo. Nesta articulação ampla está situada a nossa afirmação sobre o corpo e sobre as práticas. Precisamos de muita gente com saúde para entrar na luta! E fortalecemos o compromisso com a luta pela mudança do mundo através das práticas, e não com belos discursos sobre a revolução!
De acordo com a frase de Wilhelm Reich, escolhida como epígrafe de nosso texto, pensamos que ele nos apresenta três referenciais, tão simples e tão fortes: o amor, o trabalho e o conhecimento. Estes referenciais podem orientar a ação política e a organização dos processos formativos.
De acordo com Eduardo Galeano, se o corpo é uma festa, então, uma ação política e um programa de formação, que levam a sério o corpo, só podem fazer da ciência um “mapa para a festa”! A ciência que não nos oferece os mapas para festa e as mais potentes bússolas de navegação, não é uma ciência comprometida com a vida!
Revolução: pequenas ações, com simplicidade e muita arte!!
Romualdo Dias – Formado em Filosofia e em Pedagogia. Tem mestrado em Educação (UNICAMP), Doutorado em Filosofia Política (UNICAMP), Pós-doutorado em Ciência Política (Universidade Complutense de Madri), Livre Docência pela UNESP. Autor do livro “Imagens de ordem”, entre outros. Foi professor visitante na Universidade de Bolonha (Itália), na Universidade Texas El Paso (Estados Unidos), na Universidade Autônoma Cidade Juarez (México), Universidade da República (Uruguai). Atualmente é professor visitante na City University of New York, em Nova Iorque, Estados Unidos. É consultor do Fórum de Ação Comum, em Madri. É consultor da Associação Nossa Amazônia (ANAMA).
Notas:
[1] Aqui repito a expressão de Riobaldo, personagem da obra de Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas. Venho lendo e relendo este livro para explorar suas intuições, e isto me convence que ele não é um romance apenas. Estou compreendendo que este livro é a maior obra de “Filosofia política” escrita no Brasil, justamente pelo fato de nos obrigar ao trabalho de escavação do subsolo do sistema colonial em nossos territórios.
[2] Quem é da área da Filosofia identifica aqui as três perguntas formuladas por Kant em todo o seu trabalho de pensamento, ao longo de toda a sua obra! Não é à toa que ele pode ser identificado como sendo uma expressão forte do pensamento que se elabora na passagem de uma cosmovisão feudal para um modo de ver a vida a partir os abalos provocados pela revolução industrial.
[3] Freud faz esta sua reflexão no início do texto de 1921, “Psicologia das massas e análise do eu”.
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