Brasil pode ser próximo nascedouro de pandemia global dado o desequilíbrio ecológico de áreas como o Pantanal ou a floresta amazônica.

Por Allan de Campos Silva

A pecuária industrial, além de atuar sobre o melhoramento genético de espécies de porcos, bois e galinhas, cultiva também suas próprias cepas de vírus e bactérias no coração das suas práticas de criação e abate intensivo. De acordo com Rob Wallace, autor do livro Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência (1), estaríamos já vivendo sob a égide de uma epidemiologia inscrita no sistema capitalista de produção de doenças.Há mais de duas décadas, o biólogo evolutivo vem construindo um esforço interpretativo complexo e interdisciplinar para investigar as origens dos patógenos de potencial pandêmico na forma como a sociedade organiza as suas atividades produtivas. A partir do estudo de diversas epidemias – como a Gripe Suína (H1N1), em 2009 no México, ou a Gripe Aviária (H5N1), em 2003 na China – Wallace varre a geografia econômica mundial a contrapelo, registrando cuidadosamente um conjunto robusto das causas que as produziram na interface entre a pecuária intensiva e os sistemas agroecológicos locais e regionais.
Nos celeiros de abates de aves e porcos, na calada da noite e por baixo de toda a proteção em biossegurança, a peste não dorme. Passando às costas de cientistas e gestores industriais, todos os anos, cepas de vírus recém emergentes decifram a biologia de animais criados por meio de monocultivo genético, levando à morte celeiros inteiros.

Em meio a pandemia de COVID-19, as práticas largamente abusivas e insalubres das campeãs do setor, como a JBS no Brasil e a Smithfield nos EUA, vêm à tona transfiguradas por uma nova camada de humilhações e riscos para os trabalhadores de frigoríficos. Por sua vez, o avanço do agronegócio e a destruição ambiental no país, sob a égide do bolsonarismo, nos lançam do fogo para a brasa: enquanto se intensificam as causas que em primeiro lugar produzem as epidemias e pandemias, nos deparamos com a consolidação de uma ecologia proto-pandêmica no Brasil.

A GRIPE AVIÁRIA DA CHINA EM 2003
O surto de gripe aviária (o subtipo H5N1 da influenza) na China em 2003 pode servir como explicação arquetípica da situação que estamos vivendo. De acordo com Wallace, após a consolidação das Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) e a chamada neoliberalização da China, o setor avícola passou por uma enorme reestruturação, caracterizada principalmente pela integração produtiva do setor: do melhoramento genético ao resfriamento. Com a exceção, é claro, da etapa de engorda das aves, relegada aos produtores locais.A partir do vírus isolado, um estudo conduzido por Rob Wallace e Walter Fitch concluiu que a província de Guangdong, no sudeste da China era a origem do surto. Esta província, localizada em uma ZEE, abriga um gigantesco pólo produtivo de aves. O estudo foi rechaçado pelas autoridades chinesas, que o identificaram como não científico e sem evidências. Contudo, o pesquisador Kennedy Shortridge já havia identificado 46 dos 108 subtipos de influenza em uma única indústria avícola de Hong Kong (2).
Apesar dos gigantescos investimentos em biotecnologia e biossegurança, o surto de gripe aviária emergiu debaixo da ampla cobertura vacinal em aves oferecida pelo governo chinês. Os patógenos, enfim, não parecem muito afeitos à cooperação.
PATOGÊNESE INDUSTRIAL

De acordo com Wallace, contudo, vírus como os causadores da influenza não são objetos inertes, alheios às intervenções humanas sobre os ambientes de produção e criação de aves e porcos. Muito pelo contrário: ao perseguir cegamente uma demanda tautológica por incre-mento de produtividade, a pecuária intensiva, tal como praticada pelas indústrias de aves e porcos no mundo todo, pode estar contribuindo para a seleção de vírus cada vez mais mortais. 

Nos celeiros de criação de aves e porcos, esses micro-organismos encontrariam as melhores condições possíveis para o aprimoramento da sua patogenicidade – a capacidade de causar uma doença em um hospedeiro – e para o aumento da sua virulência – o dano causado ao hospedeiro.
Um dos fatores mais problemáticos está ligado ao sistema de monocultivo genético, que encerra a possibilidade de variação entre os animais de cultivo. A variação contribui para acumular uma resistência imunológica aos vírus e bactérias. Hoje, cerca de cinco empresas de melhoramento genético controlam aproximadamente 80% das aves produzidas em todo o mundo, fornecendo frangos de corte, galinhas poedeiras, perus e outras aves, a partir de um banco genético unificado. A baixa variabilidade genética entre os animais produzidos sob confinamento constitui um risco e uma aposta perigosa para a própria agroindústria.

Um novo rearranjo de vírus que tenha sido capaz de infectar animais produzidos sob o sistema de monocultivo genético em confinamento, em tese, é capaz de contaminar celeiros, fazendas e regiões inteiras. O sistema é tão crítico que, em muitos casos, os animais são sacrificados por meio de abates sanitários em massa, para evitar que um surto incipiente se espalhe por uma região ou até mesmo pelo planeta inteiro.

Contudo, os vírus não ficam satisfeitos infectando unicamente os animais da pecuária. Em meio às suas mutações constantes, um micro-organismo, que até determinado momento circulava unicamente entre aves ou porcos, pode encontrar um caminho de infecção em seres humanos. O contágio de um patógeno sobre uma nova espécie de hospedeiro é chamado de transbordamento (spillover).
Este é o risco oculto da pecuária industrial: produtores rurais e trabalhadores de frigoríficos são expostos cotidianamente à oportunidades de contágio por novos patógenos. Eles são as primeiras vítimas potenciais dos novos vírus fabricados no chão da própria indústria avícola.

DO NORMAL-TERRÍVEL ÀS PRIVAÇÕES DE SEGUNDA ORDEM NA PANDEMIA

Em meio a pandemia de COVID-19, proliferam-se denúncias sobre funcionários de frigoríficos obrigados a trabalhar sem proteção adequada ou mesmo enquanto manifestam os sinto-mas da doença. Contudo, não é de hoje que o setor de carnes se destaca pelos riscos ocupacionais que oferece aos seus trabalhadores, em muitos casos composto por contingentes de imigrantes.

A história de abuso sobre os trabalhadores da indústria de processamento de carnes já é razoavelmente conhecida no Brasil. O documentário Carne e Osso (3), produzido com apoio do Repórter Brasil, retrata as condições degradantes para os trabalhadores das atividades de abate e desossamento de aves. Em uma pesquisa anterior (4), eu já havia relatado a situação dos abatedores de frango da sessão halal da BRFoods – voltado à exportação para mercados muçulmanos – onde cada trabalhador chega a sangrar duas mil aves por hora. Em muitos casos estes trabalhadores são forçados a cumprirem segunda ou terceira jornada de trabalho, o que caracterizaria uma relação de trabalho análoga à escravidão.

As grande empresas do setor já tiveram diversos frigoríficos temporariamente interditados e já foram obrigadas a pagar indenizações coletivas a grupos de trabalhadores – o que, em todo caso, não tem sido suficiente para coibir tais práticas.

E os trabalhadores do setor já há muito tempo vivenciam uma epidemia de doenças diretamente relacionadas ao trabalho, dentre as quais as Lesões por Esforço Repetitivo (LERs) constituem o carro-chefe.

Vale notar que as LERs são doenças crônicas, ou seja, um trabalhador que tenha os braços assim lesionados portará braços danificados para o resto da sua vida. Os trabalhadores com LERs em geral são afastados temporariamente do serviço – em muitos casos sem qualquer acompanhamento médico, principalmente nas cidades pequenas que sequer contam com clínicas de fisioterapia. Esperam a lesão desinflamar, a dor ser mais suportável ou o açoite da fome para logo voltarem a se sacrificar, em geral, na mesma função que em primeiro lugar produziu a lesão.

As LERs, contudo, não andam sozinhas, pois sempre se vêm acompanhadas de cortes nos membros, depressão, pânico de ambientes fechados e infecções nos olhos, boca e pele, que em muitos casos sequer são diagnosticados de maneira apropriada.

A frieza do setor para com a saúde pública se fez notar recente-mente no Brasil por meio da Operação Carne Fraca (5), deflagrada pela Polícia Federal, que expôs um esquema no qual o próprio Ministério da Agricultura, sob o governo do antediluviano Michel Temer, criou barreiras para a inspeção sanitária de carnes impróprias para consumo. Em seguida, um superin-tendente do Ministro da Agricultura foi flagrado orientando a destruição de provas materiais do crime. O esquema visava beneficiar as principais empresas do país, como a JBS – con-troladora das marcas Seara, Swift e Friboi – e a BRFoods – controladora das marcas Sadia e Perdigão.

Em 2019, uma investigação posterior realizada pelo Repórter Brasil em conjunto com o jornal britânico The Guardian revelou que mais de 1 milhão de toneladas de frango contaminado com Salmonella exportadas pelo Brasil e barradas em portos europeus, foram trazidas de volta e revendidas em super-mercados brasileiros.

E mesmo em meio à pandemia de COVID-19, em maio de 2020, frigoríficos da JBS e da Brasil Global, focos consolida-dos da pandemia – que até nisso mimetizam as práticas da gigante Smithfiled dos EUA (6) – são colocados sob escrutínio em Passo Fundo (RS), em Ipumirim (SC) e em Guia Lopes da Laguna (MS), acusados de obrigarem seus funcionários a tra-balhar sem proteção adequada ou a trabalhar com sintomas de COVID-19 – enquanto os representantes do setor lutam na justiça para evitar a interdição dos frigoríficos.

Enquanto a pandemia fortalece o seu curso no Brasil, estes novos focos de contágio se consolidam em pequenas cidades que, apesar de distantes das principais regiões metropolita-nas contaminadas ou fora dos principais eixos de circulação de pessoas, têm em comum o fato de abrigarem frigoríficos com milhares de trabalhadores.

Estes casos revelam com que frivolidade sujeitamos os tra-balhadores, entendidos antes de tudo como engrenagens descartáveis de uma máquina autodestrutiva. As declaradas atividades essenciais sujeitam os trabalhadores dos frigoríficos a situações de saúde que potencializam o contágio. Seus trabalhadores são sacrificados em plena pandemia, mimetizando os abates sanitários conduzidos pela indústria avícola diante de lotes de aves infectadas. A pecuária industrial parece realizar a metáfora de Marx, do trabalhador “como alguém que levou a sua própria pele para o mercado e agora não tem mais nada a esperar, exceto — o curtume” (7).

A PRODUÇÃO DE UMA ECOLOGIA PANDÊMICA
O desmatamento e a destruição das zonas úmidas em todo o planeta oferecem um efeito adicional sobre o circuito global de produção de novas doenças. O desmatamento da Amazônia, que em 2020 bateu seguidos recordes de destruição em décadas, sofre com a pressão do agronegócio, com a grilagem de terras e a expropriação de populações tradicionais e indígenas – um circuito de despossessão movido por capitais do mundo todo (8). Como um pesquisador apontou, a Amazônia é, com toda a probabilidade, o maior repositório de coronavírus do planeta (9). A pressão exercida pelo cultivo de grãos e pela pecuária sobre esta ecologia só pode resultar em catástrofe.
As zonas úmidas do planeta, como pântanos, turfas e charcos, utilizadas como áreas de pousio e invernada por bandos de aves migratórias, também são reservatórios naturais de diversas cepas de vírus. Contudo, dada a alta variabilidade genética dos bandos de aves selvagens, tais aves, em geral, hospedam apenas vírus de baixa patogenicidade, já que os vírus de alta patogenicidade em geral afetam poucos indivíduos sem estabelecer uma cadeia de contágio – exatamente dada a alta variabilidade genética. Na medida em que a produção agropecuária avança sobre as zonas úmidas, drenadas para a formação de campos de cultivo, esses bandos de aves perdem as suas áreas de pousio e passam a forragear em meio aos restos das produções de grãos das fazendas. Essa situação aumenta a interface entre aves migratórias selvagens e aves de criação. Quando os vírus das aves selvagens infectam, por exemplo, um celeiro de frangos de corte, encontram uma via livre para testar cami-nhos de evolução para a sua infecciosidade e patogenicidade, sem contudo contar com os mecanismos de interrupção de epizootias (10) com que as florestas e bandos de animais selvagens possuem.
O Pantanal brasileiro, uma das maiores planícies alagáveis do planeta, abrigando mais de 600 espécies de aves, encaixa-se de maneira perfeita e terrível dentro deste arranjo agrícola-ecológico. No Pantanal, a criação de aves, a pecuária bovina e o avanço da produção intensiva de soja e cana-de-açúcar, avança a pari passu com a drenagem das áreas úmidas.

Em suma, o argumento de Rob Wallace nos oferece um vislumbre sobre a situação crítica para o Brasil assim como para toda a região Pan-Amazônica, uma vez que todas as condições econômicas e ambientais que deram origem aos surtos de epidemias na China, no México ou nos EUA, aqui se encontram de forma abundante.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Visto a partir da pandemia, a forma como o mundo produz alimentos manifesta a sua inscrição em um projeto autodestrutivo, que cultiva epidemias no coração das suas práticas ecológicas e econômicas. A produção de doenças em escala põe em movimento uma epidemiologia própria ao capitalismo, considerada em sua geografia relacional de causas múltiplas interconectadas. Tal perspectiva nos afasta das concepções da medicina colonial, tributárias de uma geografia absoluta que identifica patógenos em práticas isoladas, por vezes consideradas exóticas, seja na produção e consumo de alimentos ou nas práticas de funeral e sepultamento de mortos dos povos colonizados.

Enfim, nos resta saber se a epidemiologia capitalista, sob a égide do obscurantismo bolsonarista, será também capaz de cultivar a sua própria cepa de vírus no coração da sua catastrófica ecologia.

Notas:
1 Rob Wallace. Pandemia e agronegócio: Capitalismo, doenças infecciosas e ciência. São Paulo: Elefante e Igrá Kniga, 2020.
2 K.F. Shortridge e C.H. Stuart-Harris. “An influenza epicentre?”, Lancet, v.2, n.8302, p.812-813, 1982.
3 Carne e Osso, Direção de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros. São Paulo: Repórter Brasil, 2011. (65 min) Confira aqui: https://carneosso.reporterbrasil.org.br/
4 Allan Rodrigo de Campos Silva. Imigrantes africanos muçulmanos na indústria avícola brasileira. Curitiba: Brazil Publishing, 2020. Disponível em: https://www.academia.edu/41173960/Imigrantes_africanos_solicitantes_de_ref%C3%BAgio_na_ind%C3%BAstria_av%C3%ADcola_halal_brasileira
5 Daniel Isaía. Empresas “maquiavam” carne vencida e subornavam fiscais de ministério, diz PF. Agência Brasil, Brasília, 17 mar. 2017. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-03/empresas-maquiavam-carne-vencida-e-subornavam-fiscais-de-ministerio-diz-pf Acesso em 4 de fev. 2021.
6 Jessica Lussenhop. A remota processadora de carne nos EUA que se tornou maior foco de covid-19 no país. Publicado em BBC Brasil Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52352657> Acesso em 4 de fev. 2021.
7 Karl Marx. O capital.São Paulo, Abril Cultural, 1984, v. 1, t.1, cap. 4, p. 145.
8 REDE SOCIAL DE JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS. Grilagem de terras de Harvard no Brasil é desastre para comunidades e alerta para especuladores. Publicado em GRAIN. Disponível em: <https://grain.org/pt/article/6458-grilagem-de-terras-de-harvard-no-brasil-e-desastre-para-comunidades-e-alerta-para-especuladores> Acesso em 4 fev. 2021.

9 AMAZÔNIA pode ser ‘maior repositório de coronavírus do mundo’, diz cientista. UOL, São Paulo, 13 mai. 2020. Viva Bem. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/afp/2020/05/13/amazonia-pode-ser-maior-repositorio-de-coronavirus-do-mundo-diz-cientista.htm Acesso em 4 de fev. 2021.
10 O equivalente a “epidemias” no universo animal não-humano.