Por Nivia Raposo

Em nossa casa, a resistência sempre foi uma palavra de ordem. Éramos uma família de gente preta e periférica que era consolidada num terreiro de candomblé. Filhas e filhos carnais de uma yalorisá e um ogã. Ogã esse que era um militar da Marinha que, segundo o próprio, tinha vocação para isso e não era “peixada” de ninguém. Portanto, quando não concordava com os comandos, simplesmente não acatava as ordens. Por isso, várias vezes ficava preso no próprio quartel. Gostava de dizer que “andava certo para ser mal criado”. Dessa maneira, levávamos essa frase como um mantra em nossas vidas. O terreiro chamado de ilé Balaxi D’Leoar era nosso quilombo num contexto urbano. Nossa base e estrutura familiar mantinham-se fortes com a manutenção das tradições afroindígenas dos meus pais, aliados ao sincretismo religioso que compõe o território fluminense.

Antes de iniciar minha história de luta é necessário explicar o que é a Baixada Fluminense. Composta por 13 municípios, alguns desses territórios são cercados por belezas naturais como: cachoeiras, muitas montanhas, serras, lugares com matas fechadas e até um vulcão; apesar das divergências, sim, temos um vulcão adormecido. Com tantas extensões de terras é preciso pensar que esse tipo de topografia corrobora um passado. Um passado/presente com terras que servem no sumiço de corpos com os cemitérios clandestinos. Além disso, temos um passado com a existência indígena e quilombola. Sendo o quilombo da “Hidra iguaçuana”, o mais conhecido por essas terras. Dessa forma, a Baixada carrega um passado de resistências e insistências sociais, que servem como referências de luta. Esses enormes quilombos foram diminuindo e se fragmentando com as ocupações dos territórios fluminenses.

No início de 2015, eu já tinha minha família e acreditava ter uma vida estruturada. Meus filhos estavam mais crescidos. O mais velho, Rodrigo Tavares, estava com 18 anos e Thiago, com 11 anos. Rodrigo estava entrando para o quartel, participando de todas as etapas e ficou feliz em continuar o legado da família na carreira militar.  Começou a servir no D.C.Armt, Departamento Central de Armamentos do Exército. Era um menino cheio de sonhos e planos, fazia coisas inerentes a sua idade. Era muito conhecido pelo sobrenome, porque foi promoter de festas para jovens. Não teve tempo de realizar o sonho de fazer uma tatuagem (uma coroa na costela). Essa tatuagem seria em minha homenagem, pois achava que mãe era sinônimo de rainha. Tinha uma liderança nata e gostava de se reunir com os jovens do bairro para jogar bola e conversar sobre a vida no quartel. Tinha uma gargalhada única. E gostava da vida que levava. Seu pai trabalhava como motorista de caminhão, e Rodrigo chegou a trabalhar como ajudante durante um tempo. Tinha um imenso amor pelo seu irmão caçula, Thiago, que estudava num colégio na mesma rua de casa. Eu estava na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), fazendo faculdade de História. Para completar nossa família, não posso esquecer de Bouster, um labrador preto que pertencia ao Rodrigo.

Nossa vida parecia a letra de uma música… Eu, você, dois filhos e um cachorro. Tudo ia muito bem, até outubro de 2015.  Num curto período de tempo, meu primogênito foi ameaçado e morto pela milícia no portão de casa. Foi morto enquanto conversava e fazia uma performance do passinho. Nesse momento, entendi da pior forma que a dor da perda é pior que a dor do nascimento… Não adianta acharmos que ter uma família estruturada é garantia de vida para meus filhos. Sempre seremos vistos como sujeitos matáveis, pois somos mais uma família preta e periférica, ou seja, seremos um alvo constante. Meu contrato social com o Estado foi quebrado. Posteriormente, compreendi que as leis desse contrato social, nunca foram para nos proteger.

O meu mundo caiu e senti que uma parte de mim morreu junto. Foi um golpe duro para muitos jovens que gostavam do meu filho e o enxergavam como um exemplo a ser seguido. Muitas mães desmaiando, amigos estupefatos e vizinhos perplexos. Não chorei, pois estava em choque. Estava com muito ódio, uma raiva que nunca havia sentido antes. Afinal, nenhuma mãe está preparada para enterrar seu filho. Eu só pensava que isso era um processo totalmente antinatural. A Polícia Militar logo chegou, por se tratar de um bairro totalmente militarizado, e posteriormente a Polícia Civil, que fez uma “perícia” no local, pegou alguns depoimentos e recolheu um vídeo… Vídeo que nunca tive acesso. 

Chegando na delegacia, inicia meu processo inquisitorial. A maioria das perguntas eram tendenciosas, tentando de todas as maneiras justificar a morte de mais um jovem preto. Enterrei meu filho sob chuvas de aplausos, com o cemitério lotado e com vários amigos vestindo as fardas do quartel. Após os insuportáveis sete dias, entendi que nunca mais veria meu filho. Foi como um soco na boca do estômago. No meu coração se instalou um vazio e a partir da minha tristeza comecei a separar as roupas do meu filho para doar. Foram dias de muito sofrimento. A missa na igreja católica foi muito bonita. Mas, meu filho teve diversos tipos de missas na sua intenção… Em igrejas evangélicas, nos centros espíritas, em rodas de capoeiras e em vários lugares em que era querido. 

Muito próximo à nossa casa, existe uma casa que é moradia de algumas freiras católicas. Essas vizinhas frequentavam as igrejas do bairro e sempre eram participativas nas comunidades. Uma das freiras chamava-se Valéria, irmã Valéria, e foi ao enterro do meu filho. Posteriormente, procuraram-nos para falar sobre Direitos Humanos. Me aconselharam procurar o CDH-NI (Centro de Direitos Humanos de Nova Iguaçu)… Eu não sabia da existência do lugar. E acredito que muitos também não saibam. Nosso bairro, assim como vários territórios da Baixada, possuem muitas igrejas católicas. E elas sempre fizeram um trabalho à frente dos direitos humanos. Lá nesse espaço conheci irmã Yolanda, que me acolheu e me ouviu junto aos advogados do CDH. Lá fui sendo orientada e informada dos trâmites com o Ministério Público. Após algum tempo, irmã Yolanda passou meu contato para um produtor da Quiprocó Filmes, que mais tarde entrou em contato comigo para fazer um documentário chamado “Nossos mortos tem voz”, que falava sobre a violência do Estado na Baixada, com um recorte temporal de 2005 a 2015. Mostrando as falas de familiares da chacina da Baixada, ocorrida em 2005, e de outras mães com filhos igualmente vitimados pelo Estado, sendo mortos por execuções sumárias ou por desaparecimentos forçados. As datas mostravam que as ocorrências das violações continuavam, sobretudo quando o violador era o próprio Estado. Talvez a certeza da impunidade e a invisibilidade local colaborem para as ocorrências dessas violações. Lembrando que muito dos territórios fluminenses estão se milicializando, com uma frequência muito mais rápida que os antigos grupos de extermínios. Portanto, as violações continuarão a fazer parte do dia a dia. É possível perceber que esses grupos tem características próprias e são articulados politicamente. Contudo, a luta das mulheres periféricas sempre esteve presente, mesmo muito invisibilizada. A partir do documentário, me uni a outras familiares e começamos a levar nossos depoimentos em vários lugares, tanto na Baixada quanto fora dela. Inclusive, para fora do país. Assim começamos a fazer nossa incidência política através do diálogo.

Mural feito em homenagem às mulheres negras em Duque de Caxias foi vandalizado recentemente Fonte: G1

Infelizmente, nossas fileiras que fazem do luto a luta tem crescido exponencialmente. Nesses espaços conheci vários familiares que hoje considero minhas referências de luta. Compreendi que nossa dor é imensurável… Aprendi com a Silvania (mais conhecida como Nem) que uma irmã sente tanto a dor da perda quanto uma mãe, aprendi com Mônica Cunha que o encarceramento em massa de gente preta é um projeto do Estado para nos liquidar, aprendi com Rute Fiuza que existem os desaparecidos da ditadura e os desaparecidos da democracia, aprendi com a Débora Silva que o coletivo Mães de Maio é um projeto político perfeito e que as mães e familiares podem ser pesquisadoras, com a Ana Paula de Manguinhos aprendi a importância de um abraço acolhedor. A cada dia aprendo muito com todos os familiares. São ensinamentos que levo para a vida, nenhuma faculdade irá compreender. Todas as lembranças de luta, ato, caminhada, em que estou com as companheiras entoando a música de mano Teko… “Hoje o quilombo vem dizer, favela vem dizer, a rua vem dizer que é nós por nós”. E isso me faz acreditar que é possível “parir um novo Brasil” (mais uma lição aprendida com as mães). 

Com o tempo comecei a conhecer outros movimentos sociais e outras redes de mães. Hoje, faço parte de alguns movimentos sociais, fortaleço vários coletivos, acolho familiares, encaminho para atendimento psicológico, entrego cestas básicas, entrego cartões alimentação e faço parte de uma ONG chamada Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR), onde temos feito um trabalho que fala sobre segurança pública pautada no racismo. Fazemos acompanhamentos de emendas e projetos de lei na Assembleia Legislativa do Rio, recebemos inúmeras denúncias que encaminhamos para o MP, produzimos artigos levando informações para a população preta, favelada e periférica usando uma linguagem mais popular, fazemos formações coletivas (hoje de forma on line), porque entendemos que todos nós aprendemos um com o outro. E por último, algo fundamental para quem perdeu um ente querido, construímos memoriais. Porque entendemos que o Estado quando culpado, sempre tenta apagar a memória das vidas vitimadas por ele.

O primeiro memorial foi o grafite do meu filho Rodrigo Tavares. Foi uma homenagem na semana de seu aniversário. Percebi que o grafite é funcional por ser esteticamente bonito, faz uma disputa de memória e transmite um valor simbólico aos familiares. Depois foi produzido o grafite do menino Fernando Ambrósio, para uma mãe chamada Paula Ambrósio, de Japeri. Em seguida, um grafite em homenagem a rede nacional e a pouco tempo um memorial com imagem de quem fazia e de quem faz resistência, o passado e o presente dividindo o mesmo espaço. A IDMJR fez esse memorial chamado “Nossos passos vem de longe”. Incluímos nesse grafite a figura de Marielle, mãe Beata e vovó Maria Conga, pois consideramos todas símbolos de luta contra o racismo estrutural. Fui uma das homenageadas juntamente com várias mulheres pretas de movimentos socias da Baixada Fluminense. Ficamos lisonjeadas e emocionadas com tal honraria. Essa homenagem está localizada em Duque de Caxias, local onde tenho como referência o quilombo de Hidra, sinônimo de resistência da Baixada.

Dessa forma, temos feito um trabalho que considero ser uma justiça afetiva. Pois, sei que nossa justiça é falha, sei que existe uma força contrária que insiste na manutenção do nosso status quo. Todavia, o amor pelos nossos filhos, por nossos entes queridos é muito maior do que qualquer armadilha criada por uma sociedade racista, classista e manipuladora. Aos poucos vamos articulando e ganhando força. E a cada vitória individual comemoramos como vitória coletiva. Sempre fazendo uma luta utilizando uma pedagogia não violenta e acreditando sempre na força do coletivo. Fazemos um trabalho de formiguinha, acolhendo e encaminhando ajuda necessária para esses familiares, pois entendemos que suas dores são nossas dores. 

Cada chacina ou morte violenta praticada pelo Estado é dolorosa para todos os familiares. Parece que revivemos nosso luto. O massacre ocorrido no Jacarezinho, a morte de menina grávida Kathllen Romeu e do menino Thiago da Conceição mexem com o psicológico de qualquer familiar. Parece que nossas lágrimas, lamúrias e gritos de socorro, valem menos que as das famílias classe A. Às vezes não nos reconhecemos como classe trabalhadora, porque a maioria das carteiras não tem assinaturas. Talvez porque na tal da interseccionalidade estamos sempre um passo atrás. O fato de ser mulher, ser preta, ser favelada, periférica e nascer num terreiro te coloca muito atrás na linha de partida. Perdemos o horizonte de expectativas… A linha de chegada fica cada vez mais distante. Porém, mesmo em meio a tantas dificuldades, nós nos articulamos para nos ajudar. 

Tendo em vista que estamos em meio a uma pandemia, ainda assim conseguimos, junto a vários coletivos e organizações sérias, uma pequena vitória chamada de  ADPF 635, que teoricamente proíbe operações policiais em territórios de favelas e periferias (salvo em casos de excepcionalidade). Mesmo assim, a juventude preta continua sendo massacrada… E na Baixada Fluminense o prognóstico não é dos melhores. Sabendo disso fica evidente que não podemos deixar de lutar. Continuaremos ocupando espaços e lugares que nos são de direito. Podemos e devemos estar nas cidades, nas ruas e principalmente produzindo políticas que atendam nossas demandas.