Escola de Militância Socioambiental Amazônida (EMSA) une saberes tradicionais, locais e ferramentas práticas de mobilização para defender territórios, as águas e o bem-viver.
Já pensou se existisse no Brasil uma escola criada para compartilhar saberes e fortalecer povos que vivem em territórios ameaçados por empreendimentos na Amazônia? Essa ideia já é realidade. Criada em 2022 pelo Movimento Tapajós Vivo (MTV) em parceria com a Escola de Ativismo e outras organizações, a Escola de Militância Socioambiental Amazônida (EMSA) se consolidou como um espaço de educação popular que fortalece coletivos na bacia do Tapajós, que engaja a militância na região e que prepara comunidades para a defesa dos territórios, das águas e do bem-viver.
A EMSA nasceu percorrendo os rios e territórios da bacia do Tapajós, trazendo consigo a força e a resistência dos povos que habitam suas margens. Ela é uma forma de defesa para quem precisa proteger os próprios direitos e os direitos da natureza. Por meio de formações de base, a EMSA atua junto a ativistas que estão mobilizados para enfrentar disputas e ameaças ao território, avanço do agronegócio, da mineração, do desmatamento e do garimpo.
Militantes do Movimento Tapajós Vivo sonhavam com a Escola desde 2019 quando foi realizado o Encontro das Águas em Santarém (PA). Na época, movimentos e organizações da bacia do rio Tapajós (Juruena e Teles Pires), com participação também dos rios Madeira, Amazonas e Xingu, se reuniram para debater sobre as ameaças à bacia do Tapajós e à vida dos povos da região. No encontro foram pensadas maneiras de fortalecer a luta pela vida dos povos da bacia e surgiu a ideia de realizar formação de base dos militantes destes territórios. No mesmo ano foi construída a proposta de uma escola de formação para militância de base da Amazônia. É dentro desse cenário que surge o que vem ser hoje a EMSA.
Lucidalva Nascimento é militante do Movimento Tapajós Vivo e educadora popular na EMSA – Na foto ela aparece tocando tambor em uma atividade cultural
Lucidalva Nascimento, militante do Movimento Tapajós Vivo e Educadora Popular na EMSA, afirma que a Escola “instiga, reflete e atiça o formigueiro das organizações da bacia do Tapajós”. Ela conta que durante as caravanas na defesa dos rios e dos modos de vida dos povos que sempre viveram nesses territórios foi possível perceber a necessidade de formação política.
“Foi aí que se pensou em uma escola que trabalhe a consciência crítica de militantes a respeito das violências e políticas de morte para os territórios. Nós temos a certeza que a escola contribuiu e continua contribuindo para a formação de mulheres, jovens, crianças, porque é um espaço para elas estarem juntas também e pessoas de todas e idades”, disse Lucidalva.
A proposta parte da realidade vivida nos territórios e as formações são construídas a partir das demandas das comunidades, unindo saberes tradicionais com conhecimentos científicos, análise de conjuntura e ferramentas práticas de comunicação e mobilização. A missão da EMSA é oferecer conhecimentos e partilhas de saberes e o objetivo é formar pessoas capazes de defender seus territórios e fortalecer as lutas coletivas.
Inspirada na pedagogia de Paulo Freire, a EMSA valoriza os diversos saberes na construção do conhecimento. Sem paredes e sem cadeiras enfileiradas e longe da padronização comum nas escolas, a EMSA não tem prédio próprio e pode acontecer em qualquer lugar. A sombra de uma árvore e as margens de um rio podem ser locais de aprendizado de forma horizontal, participativa e democrática, sempre valorizando o diálogo, a troca de experiências e os saberes populares e locais. Ao longo do percurso, temas como crise climática, comunicação popular, segurança digital já foram abordados. Atualmente a EMSA fortalece o debate sobre governança hídrica no Tapajós.
“Hoje vemos muitos alunos que são engajados na comunicação popular, nas ações diretas e nas mobilizações. Sabemos que fazer educação popular é um trabalho de formiguinha. O movimento Tapajós Vivo está à frente dessa escola porque acredita que a educação é capaz de mover o mundo e de enfrentar os monstros que nos oprimem, que destrói a mãe natureza. Nós acreditamos que unidos nós somos gigantes”, afirmou a educadora popular.
Ela conta que para quem participou de atividades da Escola, “floresceu o companheirismo, a união e fortaleceu a compreensão do que é ser militante. Acreditamos que a EMSA fortaleceu o espírito de lideranças daqueles que ainda se sentiam tímidos e com medo. Com certeza para essas pessoas os conhecimentos construídos na escola lhe deram mais propriedade para falar e para lutar em defesa de seu território e de seus rios”.
“Hoje vemos muitos alunos que são engajados na comunicação popular, nas ações diretas e nas mobilizações. Sabemos que fazer educação popular é um trabalho de formiguinha. O movimento Tapajós Vivo está à frente dessa escola porque acredita que a educação é capaz de mover o mundo e de enfrentar os monstros que nos oprimem, que destrói a mãe natureza. Nós acreditamos que unidos nós somos gigantes”.
Um exemplo recente dessa força foi a mobilização em Santarém que foi decisiva para a revogação do Decreto 12.600/25 que ameaçava os rios Tapajós, Madeira e Tocantins. A revogação foi resultado de mais de 30 dias de luta e pressão de povos indígenas na sede da Cargill.
Alice de Matos, militante do Movimento Tapajós Vivo e educadora popular na EMSA conta que educadores/as, alunos e alunas da EMSA participaram do ato de resistência.
“Foi emocionante ver muitos desses jovens protagonizando a ocupação em Santarém contra o decreto 12.600/2025, reafirmando que a formação política e popular gera frutos concretos na luta. Entre eles está Jander Arapiun, hoje comunicador do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA), organização que representa os 14 povos indígenas da região do Baixo Tapajós. Sua trajetória expressa a potência da formação popular como instrumento de resistência, autonomia e defesa coletiva do território”, disse.
Alice Matos é educadora popular na EMSA. Na foto ela aparece com cabelos crespos pintados de roxo, usa blusa branca e acessórios vermelhos.
Alice explica que o Movimento Tapajós Vivo direciona temas e projetos para fortalecer as ações de educação no âmbito da EMSA, compreendendo a formação como eixo estratégico da luta.
“A educação popular que orienta esse processo é construída coletivamente, em diálogo permanente com a realidade dos movimentos, adaptando-se às necessidades do território. Nosso anseio é que a EMSA se multiplique em todos os territórios, que seu projeto político pedagógico atravesse fronteiras e que possamos seguir plantando e espalhando sementes de militância, fortalecendo a organização popular e a defesa da vida”, contou Alice.
O primeiro ano da escola de militância foi essencial para experimentar métodos e fortalecer as organizações e movimentos que resistem na Amazônia. As educadoras populares lembram que em 2022 foram realizados seis módulos presenciais e dois seminários de forma online. Os temas debatidos foram: sociopolítica, mobilização e agitação e comunicação popular. Na época foi possível levar alunos para espaços de grandes debates, como Audiência Pública que debateu os impactos da contaminação mercurial na bacia do Tapajós e criação do Fórum de Combate à Contaminação de Mercúrio. Para a maioria, foi a primeira vez em uma Audiência Pública, assim como a participação em uma ação direta. As ações contaram com a parceria da Escola de Ativismo, Rede Juruena Vivo e Tapajós de Fato.
Uma outra atividade importante no primeiro ano da EMSA foi a participação no X Fórum Social Pan Amazônico (FOSPA) em Belém – iniciativa que também contou com o envolvimento da Escola de Ativismo. O fórum é um espaço de articulação, ação e reflexão sobre a bacia amazônica que atravessa o Brasil e vários países e que é pensado para articular agendas de organizações e redes amazônicas e dar visibilidade às propostas para a defesa da Amazônia, contra as mudanças climáticas e a convivência intercultural.
A participação da coalizão e da EMSA foi marcada pela presença da figura de um pirarucu gigante e de faixas na marcha de abertura do FOSPA. A experiência foi positiva para os alunos que participaram pela primeira vez do maior fórum internacional organizado pelos Movimentos Sociais da Amazônia, tendo a oportunidade de troca e conexão com as Amazônias.
Pirarucu gigante foi levado para manifestação no FOSPA
Os impactos das formações promovidas pela EMSA são percebidos na vida e na atuação de quem já passou pela escola. Nascida na comunidade do Cururu, Lago Grande do Curuai, Ozenilma da Silva Costa, indígena do povo Tapajó, relata mudanças positivas na sua trajetória de militância. A cantora de carimbó e militante do Movimento Tapajós Vivo conta que participou de aulas na EMSA em 2023 e percebeu, na prática, muitos reflexos positivos do que aprendeu.
“Vejo também essas reverberações em outros companheiros que encontro nas mobilizações no Tapajós, seja na comunicação popular ou na atuação em seus territórios e coletivos, movimentos, organizações. Em todos os espaços que estou levo um pouco do que me foi repassado”, disse.
A militante indígena conta que com a experiência e por meio dessa conexão e aprendizado sobre temáticas abordadas nos módulos “foi possível perceber que a luta também se faz a partir da educação popular de base e que o conhecimento é de fato uma ferramenta poderosa capaz de transformar realidades somando na proteção dos nossos territórios”.
Ozenilma é militante indígena e participou de atividades da EMSA. Na foto ela aparece usando cocar e erguendo um maracá
A Escola de Militância Socioambiental Amazônida é a prova de que a educação popular feita pelos povos fortalece a consciência para a transformação social. Isso acontece quando as próprias comunidades participam do processo educativo e constroem juntas soluções para os problemas ambientais.
“Acredito que EMSA semeia sementes que estão ajudando a reflorestar mentes e espaços para que o futuro seja, de fato, ancestral”, finalizou a artista indígena.
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