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Escola de Ativismo

 

UMA MUKANDA PARA TODES NÓS *

Michelle Laura da Silva escreve carta para que as atrocidades do passado colonial não se perpetuem no tempo presente

Eu não estou tentando convencer ninguém do meu valor como pensadora, apenas para deixar claro que estou envolvida em um projeto diferente, que implica uma crítica da civilização ocidental para que possamos viver e o planeta não seja destruído. Intelectuais radicais estão lidando com questões essenciais para pensarmos sobre nossas vidas. Não estamos implorando para entrar na biblioteca do clube de fazendeiros europeus. Não há trilha que tenha sido traçada pelos filósofos e teóricos europeus mais brilhantes e respeitados que responda às questões da morte social e da vida negra (Saidiya Hartman, 2023).

Escrevo essa mukanda[1] para nós, para firmar no tempo e espaço a nossa ausência do futuro em que nos fará presente e a nossa presença no passado. Escrevo para que não nos esqueçamos que um dia tivemos que escrever sobre as atrocidades cometidas ao nosso povo, mas também que tivemos a oportunidade de escrever a revolta que se legitimará tão prontamente e que somos nós os responsáveis pelas nossas histórias.

Escrevo para que tenhamos condições de lembrar que um dia deixamos de ser a eterna promessa do porvir, porque o afrofuturo é logo ali e ele terá que dar conta de todas nós, utilizando todos os meios necessários para que ele não nos perca de vida e nem de vista.

Escrevo essa mukanda porque acredito no poder das palavras e da escrita e assinalo um chamado: que não percamos de vista o arquivo imperial, para que possamos desmantelá-lo até chegar o momento em que não precisaremos mais estraçalhá-lo, e quando isso acontecer, quer dizer que a gente conseguiu, que a gente não deixou a história colonial silenciar a nossa existência.

[1] A palavra mukanda (ou mucanda), significa carta e escrita, originária da língua quimbundo de origem banto, falada em regiões da Angola.

Uma convocação

Portanto, as e os convoco a escrever porque, como bem pontua Anzaldúa (2000), essa é uma das estratégias que temos de colocar “ordem” no mundo, de não deixar o Ocidente minar os nossos futuros, de mostrar a ele que quem foi obrigada a sambar no fio da navalha não cai fácil na boca do leão e sabe como ninguém carregar água na peneira.

É do nosso entendimento que essa máquina neoliberal de moer imaginários e futuros negros e dos povos originários sabe produzir “muito bem” a desigualdade e a devastação da nossa existência, assim como da natureza, e isso implica diretamente em nossa permanência no mundo.

Sabemos também que o modo de bem-estar promovido pelo Ocidente está em completo desacordo como o modo de Bem Viver evocado pelos povos originários; pois então, que façamos do Bem Viver um projeto de vida perene e real: “trata-se essencialmente de bem conviver em comunidade e na [com a] Natureza” (Acosta, 2017, p. 25).

E que nessa toada, não deixemos de lado as cosmovisões milenares dos povos originários e dos povos do continente africano, sabedorias que se fazem urgentes para que tenhamos condições reais de superar as lacunas mortíferas produzidas diariamente pelo pensamento ocidental e colonial.

Escrevo porque escreveram antes de mim e escreverão depois de mim, então escreveremos para nos livrar desses modos regidos pela acumulação do capital que alimenta uma lógica em que uns se sobressaem aos outros e fomenta um mundo com absolutas perversidades em nome de um reinado fajuto e falho, baseado no poder e não poder, no perder e ganhar, no ter e não ter, do morrer em detrimento do viver, isto é, a acumulação material e de capital, pouco importa para o mundo que estamos projetando viver.

Malcolm X (2021) argumenta que corpos negros na América vivem em um estado de policiamento constante; complemento que os povos originários também e, portanto, diante dessas tramas tecidas pelo Ocidente contra nós, não há alternativa senão seguir na incansável — e por vezes cansativas — luta pela garantia dos nossos direitos, violados a todo tempo e momento.

Assim, escreveremos para empurrar ladeira abaixo esse mundo mancomunado com a perpetuação da desgraça e da morte matada, que continua a promover no tempo presente o assassinato político, econômico, social, cultural, ambiental e mental das populações negras e dos povos originários, em face a promoção arquitetada do genocídio negro e indígena em massa.

É improvável que consigamos nos colocarmos e nos sentirmos confortáveis nos postos da chamada “alta sociedade” vulgo branquitude e, sinceramente, não queremos, porque viver em comunidade é o mais recomendável a se fazer: a comuna é mais aconchegante e chegante de afeto e cuidado, no qual a teoria vivida de fato conflui com a teoria projetada pelas palavras.

Escreveremos para que os sonhos não acabem no nosso despertar, e que o ato de imaginar seja imprimido nas nossas comunicações, de forma que as permanências e ausências das vidas negras e dos povos originários não se deem por decisão da branquitude.

Escreveremos na toada de reivindicar em forma de escritas diversas outras possibilidades de fazer o mundo girar, que enfrente e fuja — quando necessário — do rodopio colonial, mas que caminhe num girar contracolonial. Nego Bispo entoa que o modo contracolonial de ser é simples, “é você querer me colonizar e eu não aceitar que você me colonize, é eu me defender. O contracolonialismo é um modo diferente de vida do colonialismo” (2023, p. 58). Então que façamos deste modo de viver uma constante contra um mundo essencialmente colonizador.

Temos aí dois modos — que se complementam — muito mais interessantes de viver, evocados pelos povos originários e quilombolas, são eles, o Bem Viver[1] e o Contracolonialismo[2]. Digo, portanto que, — Em uma sociedade colonialista, não basta ser decolonial. É necessário ser contracolonial — para que possamos combater de forma incisiva e com veemência as agruras produzidas por um sistema falido de afeto, reconhecimento, partilha e cuidado com o outro.

Escreveremos, para sacramentar o que já foi dito pelas nossas ancestrais, mas mais do que isso, para que façamos o não dito ser dito e enunciado em todos os cantos, e assim não correremos o perigo iminente de nos perdermos na trilha do não dito e nas arapucas dos falsos ditos produzidos pelos malditos colonialistas.

E continuaremos a escrever para exercitarmos a mudança no tempo presente e confrontar a branquitude e seus privilégios, para rejeitar os estereótipos lançados sobre nossas histórias, vivências e permanências, e para anunciar que o momento requer a mudança do tempo passado, presente e futuro, e que não dependemos do aval brancoide para realizarmos esse agir no porvir.

Como bem reflete Beatriz Nascimento “esse território na verdade é um caminho percorrido e a percorrer” (2022, p. 89) e na persistência do ato de escrever seguiremos em movimento, moldando as estratégias de sobrevivência, mas sobretudo construindo as táticas das nossas vivências.

Ensaio o fim desta mukanda, dizendo que me dediquei a brincar e rasgar a palavra no sentido mais visceral do que isso pode significar, porque brincar e rasgar faz parte do nosso processo de envolvimento e compartilhamento com o mundo e com as nossas ancestrais. Ative-me no compromisso perene em conclamar a continuação do desmonte imperial. E lançar a palavra nos possibilita transgredir o colonialismo e legitimar o contracolonialismo. Que venham mais Mukandas!

[1] Ver em O Bem Viver de Alberto Acosta.

[2] Ver em A terra dá, A terra quer de Antônio Bispo.

* Esta Mukanda integra a tese de mestrado “Educação e Afrofuturismo: tensionando tempos e narrativas no Caderno do Estudante da disciplina de História da rede estadual paulista a partir das discussões sobre memória, imagem e raça”, defendida em 2025, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de São Paulo (USP), que se propôs a refletir sobre as potencialidades do afrofuturismo e suas possíveis contribuições e interfaces com a educação e educação antirracista, com ênfase na disciplina de História da rede estadual paulista.

Referências

Glória Anzaldúa. “Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo”. Revista Estudos Feministas, [S. l.], v. 8, n. 1, p. 229, 2000. DOI: 10.1590/%x. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880. Acesso em: 11 set. 2024.

Alberto Acosta. O Bem Viver. 2ª Reimpressão, São Paulo: Elefante, 2016.

Antonio Bispo dos Santos. A Terra Dá, A Terra Quer. 3ª Reimpressão, São Paulo, 2024.

Fernanda Silva e Sousa. “Eu não sou uma nota de rodapé para o pensamento de grandes homens brancos”: uma entrevista com Saidiya Hartman. ODEERE, Online, v. 8, n. 1, p. 1-23, 2023. Disponível em: https://periodicos2.uesb.br/index.php/odeere/article/view/12538. Acesso em: 15 nov. 2024.

Beatriz Nascimento. O negro visto por ele mesmo. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

 

Coletivo independente constituído em 2011 com a missão de fortalecer grupos ativistas por meio de processos de aprendizagem em estratégias e técnicas de ações não-violentas e criativas, campanhas, comunicação, mobilização e segurança e proteção integral, voltadas para a defesa da democracia e dos direitos humanos.

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