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Escola de Ativismo

 

Memória e formação política: o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira”

Luciana Barbosa de Melo apresenta o acampamento da juventude sem terra e reflete sobre histórias de vidas e territórios marcados pela luta e pela resistência

Nosso dia começa encharcado assim como redes, lençóis, barracas e roupas. As meninas e meninos vão aos núcleos de base, abrem com inquietação as pastas indo aos poucos se recompondo, mastigando bem, degustando e repetindo os textos do tempo leitura. Após, teimam em pôr seus pertences às raras e ardentes presença do sol…

É acampamento!

(Vanessa Pinheiro – Palmares II, fevereiro chuvoso de 2015)

Escrever sobre o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira” é, antes de tudo, refletir sobre histórias de vidas e territórios marcados pela luta e pela resistência. É pensar sobre as trajetórias de pessoas (Sem Terra), sobre o lugar (Amazônia/Sudeste do Pará), sobre um acontecimento histórico (Massacre de Eldorado dos Carajás), sobre um sujeito coletivo (MST) e, sobretudo, sobre a juventude (filhas e filhos de trabalhadoras e trabalhadores rurais desterritorializados, migrantes, herdeiros de um passado de expropriação e esperança). Refletir sobre o acampamento pedagógico é também reconhecer as múltiplas dimensões que atravessam sua existência: as violências e a exploração da natureza e do trabalho humano; as lutas de classes e a luta pela terra; as formas de resistência popular e as disputas em torno de diferentes projetos de sociedade.

O acampamento pedagógico, ao mesmo tempo produto e expressão das contradições históricas do campo brasileiro, constitui-se como um espaço orgânico de denúncia, enfrentamento e resistência, mas também de memória, mística, celebração, arte, cultura e formação política do MST. Nele, as dimensões simbólicas e materiais da luta se entrelaçam, produzindo uma prática que educa não apenas para compreender o mundo, mas para transformá-lo. Ao articular passado e presente, o acampamento dá forma a uma prática educativa que resgata a memória coletiva das lutas e projeta, na ação cotidiana, um novo horizonte de emancipação humana — horizonte construído coletivamente, pela força do trabalho, da solidariedade, da disciplina, da formação humana e da consciência de classe.

Amazônia e a territorialização do capital no Sudeste do Pará

Quem não vive na Amazônia não sabe como o perigo nasce e descamba com o sol e vem ainda com a noite, cotidianamente.

( Julia Iara, 11º Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra, 2017)

Quando se fala da Amazônia, a imagem mais difundida refere-se a uma extensa floresta tropical úmida, marcada pela maior bacia hidrográfica do planeta, elevada biodiversidade e grande diversidade de recursos naturais e minerais. Nessa perspectiva, a região é frequentemente representada como uma reserva estratégica para o desenvolvimento econômico ou como um patrimônio natural a ser preservado. Contudo, tais representações tendem a reduzir a complexidade histórica, social e política da Amazônia, ao enfatizar predominantemente sua dimensão ambiental e econômica

Analisar a Amazônia exige romper com a visão imperialista que a reduz a um repositório de recursos naturais disponíveis à exploração capitalista. Essa concepção desconsidera que a região é historicamente habitada por povos originários há mais de 11 mil anos, além de populações do campo e ribeirinhas que, ao longo dos últimos cinco séculos, resistiram ao avanço do modelo colonial baseado na monocultura e no latifúndio de exportação. Como afirma Porto-Gonçalves[1], essas populações fugiram “da opressão do desenvolvimento colonial”, evidenciando que a Amazônia jamais foi um vazio demográfico ou cultural, como o discurso dominante insiste em afirmar. Ao contrário, tal discurso funciona como instrumento ideológico que legitima a apropriação privada da terra e dos bens comuns, invisibilizando a diversidade sociocultural que constitui o território amazônico.

O discurso do “vazio demográfico”, sintetizado no slogan “terra sem homens para homens sem terra”, desempenhou papel central na legitimação de uma estratégia geopolítica e econômica voltada à chamada “integração nacional” da Amazônia. Esse discurso justificou a ocupação e a apropriação privada de territórios historicamente habitados por povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e extrativistas. Dessa forma, a política de integração da Amazônia revelou-se, na prática, um projeto de territorialização do capital, sustentado por um modelo de desenvolvimento de caráter colonial que marginaliza saberes, modos de vida e práticas coletivas de uso da terra.

A abertura da Rodovia Transamazônica, iniciada em 1970, constitui uma das expressões mais emblemáticas desse processo. Ao priorizar a construção de rodovias como eixos de desenvolvimento, o Estado passou a impor uma nova lógica de organização territorial, alterando profundamente a configuração do espaço amazônico. Historicamente estruturadas em torno dos rios — principais vias de circulação e comunicação da região —, as dinâmicas sociais e econômicas passaram gradualmente a se reorganizar a partir das rodovias, que funcionaram como vetores de penetração do capital, expansão da fronteira agrícola e intensificação do desmatamento. Assim, a Transamazônica não apenas atravessou fisicamente a floresta, mas também reconfigurou as formas de sociabilidade e de uso do território, subordinando-as à lógica desenvolvimentista do Estado e aos interesses do mercado.

Nesse sentido, o projeto de desenvolvimento implementado na Amazônia pode ser compreendido como parte de um processo de intensificação da acumulação primitiva de capital, materializado por meio de políticas estatais de distribuição de terras, concessão de incentivos fiscais, facilitação de crédito e construção de infraestrutura. Tais medidas favoreceram a penetração do capital nas riquezas naturais e minerais da região, beneficiando sobretudo frações da burguesia nacional e internacional. O Estado atuou, assim, como agente ativo na reprodução das relações de exploração, ao garantir condições para a expansão da exploração madeireira, da pecuária extensiva, da especulação fundiária e da mineração, frequentemente em detrimento das populações locais.

Como resultado desse processo, trabalhadores e trabalhadoras rurais, povos originários e comunidades tradicionais foram sistematicamente expropriados de seus territórios e submetidos a diversas formas de violência social, ambiental e econômica. A Amazônia foi incorporada ao sistema capitalista não apenas como fornecedora de matérias-primas, mas também como mercado consumidor, assumindo papel específico na divisão territorial do trabalho. Desse modo, o processo de territorialização do capital na região evidencia as contradições próprias do capitalismo periférico, no qual o desenvolvimento econômico ocorre simultaneamente à intensificação da exploração, da concentração fundiária e das desigualdades sociais.

Segundo Malheiro, Porto-Gonçalves e Michelotti[2], a virada do século XXI atualizou de forma brutal o capitalismo na Amazônia, por meio de escolhas políticas e econômicas orientadas à exportação de commodities agrícolas e minerais. Essas determinações produzem territorializações voltadas à exploração intensiva dos recursos naturais e ao controle da terra, processos que só se tornaram possíveis a partir da dinâmica de cercamentos da natureza, dos meios de existência e dos espaços de produção da vida social, característicos do capitalismo. Tal dinâmica visa integrar, cada vez mais, a Amazônia aos circuitos nacionais e internacionais de acumulação do capital.

A mineração constitui um exemplo emblemático desse processo, cuja síntese pode ser expressa pelo Programa Grande Carajás (PGC)[3], lançado na década de 1970, cujo principal objetivo é viabilizar a exploração e exportação dos minérios da Serra Carajás, no estado do Pará. “O objetivo da Vale é manter elevados níveis de produção em Carajás, porque o minério de ferro de alta qualidade é considerado crucial para a produção do chamado ‘aço verde’, com menor pegada de carbono.” (Brasil Mineral, 2025, p.8)

Conforme o Relatório de Produção e Vendas de 2024 da empresa Vale S.A (2024), em todo o Brasil foram produzidas 328 milhões de toneladas de minério de ferro, volume que representa um crescimento aproximado de 69,4% em relação às 193,6 milhões de toneladas registradas em 2018, até então a maior produção alcançada. Ao analisar o Sistema Norte[4], verifica-se que o projeto S11D[5] atingiu, em 2024, um recorde de produção de 83 milhões de toneladas de minério de ferro, o que corresponde a aproximadamente 25,3% da produção nacional. Já as operações da Serra Norte e da Serra Leste produziram, conjuntamente, cerca de 94,5 milhões de toneladas, o que equivale a aproximadamente 28,8% da produção nacional[6]. Assim, o volume total produzido no Sistema Norte alcançou 177,5 milhões de toneladas, equivalente a aproximadamente 54,1% da produção nacional de minério de ferro, evidenciando a intensificação da exploração mineral na região Norte e reforçando a centralidade da Amazônia nos circuitos nacionais e internacionais de acumulação do capital.

Nesse contexto, como afirmam Malheiro, Porto-Gonçalves e Michelotti, “o tempo do capital é um tempo contra os tempos da vida e das culturas outras”[7]. A expansão da mineração de ferro na região, orientada pelas escalas e pelos ritmos do capital mundial financeirizado, impõe uma temporalidade acelerada de extração, circulação e exportação, incompatível com os tempos ecológicos e socioculturais da Amazônia. Essa temporalidade entra em conflito direto com o tempo dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e das populações do campo, que produzem seus territórios em relação histórica com as florestas e os rios. Esses tempos, enraizados em práticas territoriais próprias, garantem a preservação de amplas áreas na Amazônia, cuja existência resulta diretamente de processos de resistência e de lutas sociais. Assim, a disputa entre o tempo do capital e os tempos da vida constitui um dos eixos estruturantes dos territórios em conflito na Amazônia contemporânea.

 

MST e a luta pela terra na região de Carajás

Nós decidimos que não “ficaremos tão só no campo da arte” e, reinventado nossas formas de organização e mobilização, damos continuidade na luta…

 

(Manifesto da Juventude Sem Terra à Esperançar – 15º Acampamento

Pedagógico da Juventude Sem terra – 2021)

 

Ao longo da história brasileira, diversos segmentos vinculados ao campo — como trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra, posseiros, povos indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhos — têm protagonizado lutas contra a expansão do capital e o avanço da propriedade privada sobre territórios tradicionalmente ocupados. Por meio da organização em movimentos sociais, essas populações questionam a estrutura fundiária concentrada e o papel do Estado como garantidor da ordem capitalista, reivindicando não apenas o acesso à terra, mas também o direito à permanência nela e à reprodução de seus modos de vida enquanto classe social.

No sudeste do Pará, uma das principais estratégias utilizadas pelos trabalhadores e trabalhadoras rurais para acessar a terra tem sido a ocupação, frequentemente articulada por movimentos sociais do campo. Historicamente, essa estratégia constitui uma resposta direta à concentração fundiária e à ausência de políticas efetivas de reforma agrária. Nas últimas décadas, as ocupações e os conflitos associados a elas tornaram-se mais intensos e frequentes, impulsionados por elementos das conjunturas regional e nacional, como o avanço do agronegócio, a especulação fundiária e a omissão do Estado diante das demandas sociais.

Como afirma Michelotti, “é na relação entre a história social de certo lugar que se pode compreender as várias formas sociais adquiridas pela terra e a trama de relações entre os diferentes sujeitos que buscam dela se apropriar”[8]. Nesse sentido, a terra, além de constituir um bem econômico, expressa também uma disputa simbólica, política e social, na qual diferentes sujeitos — trabalhadoras e trabalhadores rurais, grileiros, empresários, latifundiários e agentes do Estado — projetam interesses contraditórios. A ocupação, portanto, assume um caráter político e coletivo, configurando-se como ferramenta central de resistência e de luta por justiça social e territorial no contexto da Amazônia paraense.

Os conflitos fundiários na Amazônia, particularmente no sudeste paraense, refletem as contradições estruturais do modo de produção capitalista, que se baseia na expropriação da terra e dos meios de produção da classe trabalhadora para assegurar a acumulação de capital pelas elites econômicas. Nesse contexto, a violência no campo constitui uma forma estrutural de controle social, utilizada para conter a resistência das trabalhadoras e trabalhadores rurais, das comunidades tradicionais e povos originários. Como assinala Marx[9], a violência é um instrumento recorrente do capital, utilizado sempre que necessário para assegurar as bases do modo de produção capitalista. 

A violência no campo manifesta-se, nesse sentido, como instrumento de dominação exercido pela burguesia agrária. Como aponta Afonso[10], ela se expressa por meio da ação de proprietários de terra, frequentemente executada por pistoleiros, milicianos e/ou agentes policiais, materializando-se em ameaças, expulsões forçadas, assassinatos seletivos de lideranças e massacres. Trata-se “um método para barrar o processo de luta da organização camponesa, pois quando esta classe se organiza, ela questiona a estrutura fundiária e o Estado”[11].

Como aponta Michelotti, em uma região cujo interesse estratégico para a acumulação capitalista está assentado na potencialidade de seus bens naturais, a principal via de apropriação de riqueza se dá por meio do domínio da terra e do território, processos profundamente vinculados a relações de poder[12]. Esses conflitos, portanto, não se manifestam apenas nos embates diretos entre os diferentes agentes (como trabalhadoras e trabalhadores rurais, grileiros, corporações e Estado), mas também, e de forma decisiva, nas mediações sociais e institucionais que moldam as possibilidades de acesso, controle e uso da terra. Dessa forma, a luta pela terra na Amazônia é uma expressão concreta das contradições estruturais mais profundas do capitalismo, em que o espaço é constantemente reconfigurado pelas disputas entre capital e trabalho, propriedade privada e uso social da terra.

O Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro apresenta o mapeamento dos conflitos no campo, classificados por Terra (84% do total agregado, 41.086 ocorrências), Água (7,1%, 3.483 ocorrências) e Trabalho (8,9%, 4.332 ocorrências), a partir de dados sistematizados pela CPT e publicados anualmente desde 1985[13]. Os dados coletados entre 1855 e 2023, indicam que a Amazônia concentrou 21.608 ocorrências desses conflitos, o que representa 44% do total registrado no país. Observa-se a predominância dos conflitos por terra, que, em toda a série histórica, correspondem a 81,75% dos 20.742 casos registrados, evidenciando a configuração de um modelo de capitalismo na Amazônia orientado pela expropriação e pela concentração de terras e de bens naturais.Parte inferior do formulário A análise por unidades federativas revela que o estado do Pará concentra o maior número de conflitos, totalizando 6.806 ocorrências.

Nesse cenário de conflitos e disputas territoriais, o MST emerge como um dos principais sujeitos coletivos de organização da luta pela terra no Brasil, que questiona as bases do sistema capitalista, denunciando a exploração do ser humano e da natureza em prol do lucro. O Movimento busca a transformação estrutural, compreendendo que as desigualdades no campo são produto das contradições do modo de produção capitalista. Dessa forma, segundo Vendramini, o MST é “um dos mais inovadores fenômenos políticos da América Latina, à medida que busca enfrentar os problemas atacando as causas estruturais”[14].

O MST atua principalmente por meio da ocupação de terras improdutivas, prática que possui caráter radical, simbólico e pedagógico, pois questiona na prática a estrutura do capital no campo e os fundamentos da propriedade privada da terra. Essa ação se sustenta na unidade construída nos processos coletivos, em que o trabalho e a solidariedade se tornam instrumentos de resistência e transformação. Contudo, essa unidade não é isenta de tensões, ao passo que ela é constantemente mediada pelas contradições e complexidades das dinâmicas sociais, políticas e econômicas do país, que influenciam diretamente nas formas de organização e de luta das trabalhadoras e trabalhadores rurais.

A estratégia de luta do MST estrutura-se, em grande medida, na formação de acampamentos e na mobilização coletiva em áreas de grande visibilidade, frequentemente localizadas próximas a rodovias e centros urbanos. Essa forma de ação busca acelerar os processos de desapropriação de latifúndios improdutivos e ampliar o debate público sobre a necessidade de transformação da estrutura agrária brasileira. O Movimento também recorre a outras estratégias de mobilização, como a ocupação de órgãos públicos e estradas e a realização de marchas, com o objetivo de pressionar pela implementação da reforma agrária popular e promover o debate público sobre a distribuição de terras no campo brasileiro.

Na região de Carajás, essa atuação confronta diretamente alguns dos principais pilares do poder regional: os latifundiários, a empresa mineradora Vale e o próprio Estado, todos agentes centrais na reprodução da lógica de acumulação capitalista no território amazônico. A organização das trabalhadoras e trabalhadores rurais em torno da luta pela terra representa, nesse contexto, não apenas a reivindicação de acesso ao território, mas também um processo de reinserção social e política de sujeitos historicamente expropriados, que passam a se afirmar como protagonistas de sua própria história.

A reação das elites agrárias e de outros agentes econômicos diante da atuação do MST frequentemente se articula com mecanismos de repressão e violência. Na região de Carajás, essa dinâmica culminou em um dos episódios mais emblemáticos da violência no campo brasileiro: o Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 1996. Nesse episódio, trabalhadoras e trabalhadores rurais ligados ao MST foram violentamente reprimidos por forças policiais do Estado, revelando o grau de brutalidade mobilizado para assegurar a defesa da propriedade privada e dos interesses do capital.

Esse acontecimento evidencia que a repressão aos movimentos sociais do campo não constitui um desvio ou exceção, mas integra a própria lógica de manutenção da ordem capitalista. Conforme analisado por Marx, a violência desempenha papel fundamental nos processos de acumulação e reprodução das relações de dominação de classe, atuando como instrumento para garantir a continuidade das estruturas de poder e da concentração da terra[15].


 O Massacre de Eldorado de Carajás e o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira”

Voltar pro Acampamento. Viver o Acampamento. Reclamar a Curva do S. Projetar no front uma esperança coletiva, organizada. Alimento para a imaginação. Fortaleza da alma.

(Julia Iara – Memória do 16º Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra – 2022)

Em 1996, cerca de 1.500 famílias ligadas ao MST encontravam-se acampadas às margens da rodovia PA-275, reivindicando a desapropriação da Fazenda Macaxeira, localizada no município de Curionópolis (PA). A ocupação da área, considerada improdutiva, tinha como objetivo pressionar o governo do Estado do Pará para o assentamento imediato das famílias. Diante da omissão e da lentidão do poder público em responder às reivindicações, o Movimento organizou uma marcha com destino à capital do estado, Belém, iniciada em 10 de abril de 1996. A marcha, enquanto forma de ação política coletiva pacífica, buscava dar visibilidade à luta pela terra, denunciar a concentração fundiária e exigir do Estado uma solução concreta para as famílias acampadas. A resposta do Estado, entretanto, não ocorreu por meio do diálogo, mas da repressão policial, resultando no episódio que ficou conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás.

De acordo com Afonso, o massacre representa um marco na história contemporânea da luta pela terra no Brasil, estabelecendo um “antes” e um “depois” no debate sobre a questão agrária[16]. O episódio projetou os conflitos agrários da Amazônia para o cenário nacional e internacional, ao expor a violência estrutural que permeia as disputas fundiárias no país. Ao mesmo tempo, contribuiu para ampliar a visibilidade e o apoio social ao MST e à sua pauta histórica de luta pela reforma agrária. A violência do Estado e a concentração fundiária, longe de desarticularem a resistência, acabaram por fortalecer a luta e a organização política entre as trabalhadoras e trabalhadores rurais. O massacre, portanto, não apenas denunciou as estruturas históricas de dominação e expropriação, mas também impulsionou um novo ciclo de resistência e formação política, no qual o MST assumiu papel central na luta pela terra na região sudeste do Pará e na Amazônia.

Apesar de avanços, como a criação de assentamentos e a consolidação de novos acampamentos, o conflito agrário permanece como uma realidade marcante na região. A violência no campo se expressa em ameaças de despejos, pulverização aérea de agrotóxicos que destroem roças, geram doenças e contaminação, além de intimidações e assassinatos de lideranças, mas também evidencia o peso da disputa pela terra no sudeste do Pará. Ainda assim, o MST mantém sua atuação ativa e organizada, sustentado pela convicção de que a reforma agrária é essencial para a Amazônia.

É nesse contexto de memória, resistência e reorganização das lutas que surge, em 2006, o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira”, organizado pela direção estadual do MST no Pará. Realizado na Curva do S — local onde ocorreu o massacre — o acampamento foi inicialmente concebido como uma atividade simbólica em memória das vítimas. Sua primeira edição teve duração de 17 dias, entre 1º e 17 de abril, encerrando-se com um ato político-cultural em homenagem aos trabalhadores assassinados.

Essa experiência rompeu com o silêncio que cercava a impunidade dos crimes cometidos no campo paraense e consolidou-se como um espaço-território de denúncia das violências sofridas pela classe trabalhadora, especialmente da violência estatal. Ao mesmo tempo, reafirmou a centralidade da luta pela terra e pela reforma agrária popular, tanto no estado do Pará quanto em todo o Brasil. Com o tempo, o acampamento pedagógico foi incorporado de forma permanente ao calendário de lutas do MST na Região Amazônica, sendo realizado anualmente de 10 a 17 de abril. Assim, passou a assumir a função de narrar e preservar a memória do massacre para as novas gerações, constituindo-se como um espaço de formação política baseado na construção coletiva e na forma organizativa do Movimento.

Ao longo de sua trajetória, o Acampamento Pedagógico consolidou-se como um espaço de formação política da juventude vinculada ao Movimento. Sua proposta central consiste em possibilitar as/os jovens a vivência concreta da experiência organizativa de um acampamento — elemento historicamente central na luta pela terra conduzida pelo MST. A formação ocorre com base nos princípios organizativos: direção coletiva, divisão de tarefas, participação direta nas decisões, trabalho como princípio educativo, disciplina e valorização dos tempos e espaços formativos. Como afirma Dalmagro, “a formação advinda da teoria e da prática pode se enlaçar e, quando isso acontece, a consciência social encontra-se melhor sustentada”[17].

No processo de organização do acampamento pedagógico, a estrutura organizativa é construída coletivamente no espaço, de modo a estabelecer uma dinâmica participativa e democrática. Para isso, são criadas diferentes instâncias organizativas, entre elas: a Coordenação Política e Pedagógica (CPP), as equipes de trabalho (saúde, secretaria, infraestrutura, cozinha, segurança/zeladoria e cultura) e os Núcleos de Base (NBs). Essas instâncias asseguram que a gestão do acampamento seja coletiva, educativa e vinculada aos princípios de direção e participação do MST, fortalecendo a formação política e organizativa da juventude.

Por meio dessas práticas, busca-se que a juventude compreenda o sentido da luta política pela experiência concreta da participação coletiva e pela conquista do direito de intervir na vida social e política a partir da luta pela terra. Como afirma Dalmagro, “os valores, os motivos e a ética são formados pelas condições objetivas em que vivemos; portanto, colocar os jovens nas lutas da classe é profundamente educativo”[18]. Nesse sentido, o sentimento de pertencimento ao MST constitui um elemento político fundamental, pois possibilita a renovação das lutas e do quadro de militantes jovens, ao mesmo tempo em que pode promover a apropriação da história do Movimento e das lutas sociais que o originam.

Entre as diversas atividades realizadas durante o acampamento, destaca-se o ato político-cultural realizado diariamente na rodovia BR-155. Todos os dias, às 17 horas — horário em que ocorreu o massacre —, a rodovia é fechada por no mínimo 21 minutos em homenagem aos trabalhadores assassinados, constituindo-se como um ato de memória e denúncia. O bloqueio da estrada se configura como uma ação político-cultural cujo objetivo é dialogar com a sociedade sobre o projeto de reforma agrária popular, trazer à memória as vítimas do massacre, denunciar a violência contra a natureza e os povos do campo e anunciar novas perspectivas de organização social baseadas na luta da juventude e da classe trabalhadora.

Esse momento constitui um dos pontos centrais do acampamento pedagógico, no qual a juventude transforma memória histórica, resistência e expressão cultural em prática coletiva. O ato na rodovia evidencia uma forma de formação militante em que a ação política e cultural se converte em aprendizado pela ação direta. Nesse processo, reforça-se a consciência de classe, conectando os jovens ao passado da luta — simbolizado pelo massacre de Eldorado dos Carajás — e às lutas do presente, pela terra, pelo meio ambiente e pela vida. A tensão gerada pelo fechamento da rodovia expressa, simbolicamente, o conflito entre a ordem estabelecida e a organização popular, enfatizando a prática da resistência e da ação coletiva. A alternância entre apresentações de diferentes expressões artística, como a mística, o teatro, e falas políticas, demonstra que os processos educativos mais potentes são aqueles que articulam reflexão teórica e prática social, contribuindo para a formação de sujeitos capazes de transformar a realidade.

O encerramento do acampamento pedagógico coincide com o Ato Político do 17 de Abril, Dia Internacional de Luta Camponesa, que foi incorporado ao calendário de lutas dos movimentos sociais no Brasil e de outros países, sendo consagrado como o dia de rememorar o massacre de Eldorado dos Carajás e fortalecer a resistência das trabalhadoras e trabalhadores do campo contra a violência do latifúndio e do Estado. Nesse dia, ocorre uma concentração de pessoas vindas de diversos territórios do MST da Região Sudeste do Pará, incluindo familiares das vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás. O ato também conta com a participação de entidades e instituições parceiras e aliadas do Movimento na luta pela terra.

De acordo com Brito, o Acampamento Pedagógico expressa a capacidade organizativa da juventude Sem Terra, constituindo-se como um espaço de aprendizagem individual e coletiva voltado ao desenvolvimento da consciência de classe[19]. Nesse processo, os jovens entram em contato com novos valores, práticas e concepções políticas, articulando experiência concreta, reflexão crítica e participação nas lutas sociais. Assim, o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira” configura-se não apenas como um espaço de memória das lutas do MST, mas também como um território formativo no qual a juventude se insere ativamente nos processos organizativos do Movimento. Ao articular memória histórica, formação política e participação coletiva, o acampamento pedagógico contribui para a renovação das lutas sociais no campo e para a construção de sujeitos comprometidos com a transformação da realidade social.

Uma breve conclusão

Nós dissemos que não vamos esperar

Nós decidimos que vamos construir

Revolução social com revolução humana

Luta com organização coletiva

Juntas e juntos, com as próprias mãos

(Luciana Melo – Memória poética da Plenária “Análise de Conjuntura” do 19º Acampamento Pedagógico – 2025)

Olhar para o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra “Oziel Alves Pereira”, nos permite compreender esse espaço como uma experiência educativa profundamente vinculada às lutas sociais do campo brasileiro e à construção histórica do MST. Mais do que um evento ou atividade pontual, o acampamento se configura como um território pedagógico de formação política, de construção da memória coletiva e de fortalecimento da identidade da juventude Sem Terra.

Ao ser realizado no local marcado pelo Massacre de Eldorado dos Carajás, o acampamento reafirma o compromisso do MST com a preservação da memória das lutas populares e com a denúncia das violências históricas que atravessam a questão agrária no Brasil. Nesse sentido, a experiência pedagógica desenvolvida nesse espaço articula passado e presente, permitindo que a juventude compreenda as raízes estruturais das desigualdades no campo e reconheça seu papel como sujeito histórico na continuidade das lutas por justiça social e reforma agrária.

As práticas educativas vivenciadas no acampamento — que envolvem momentos de mística, debates teóricos e políticos, atividades culturais, trabalho coletivo e convivência comunitária — revelam uma concepção ampliada de educação, orientada para a formação humana integral e para a construção da consciência de classe. Essa perspectiva pedagógica não se restringe à transmissão de conhecimentos, mas busca formar sujeitos críticos, capazes de interpretar a realidade e atuar coletivamente na transformação das estruturas sociais que produzem desigualdades e exclusões.

Dessa forma, o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra evidencia o potencial formativo das experiências educativas construídas no interior dos movimentos sociais. Ao articular memória, cultura, organização política e formação crítica, o acampamento reafirma a educação como prática social comprometida com a emancipação humana e com a construção de projeto de sociedade baseado no socialismo. Por fim, compreender e analisar experiências como essa contribui para ampliar o debate sobre educação do campo, movimentos sociais e formação política da juventude, evidenciando que os processos educativos também se constroem nos territórios de luta e resistência, onde a memória, a organização coletiva e a esperança se tornam fundamentos para a construção de novos horizontes históricos.

Luciana Barbosa de Melo é militante do MST e mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Notas

[1] Carlos Walter Porto-Gonçalves. Amazônia enquanto acumulação desigual de tempos: Uma contribuição para a e c o l o g i a p o l í t i c a d a r e g i ã o. h t t p s : / / d o i . o r g / 1 0 . 4 0 0 0 / r c c s . 6 0 1 8, 2015.

[2] Bruno Malheiro, Carlos Porto-Gonçalves, Fernando Michelotti. Horizontes amazônicos: para repensar o Brasil e o mundo. 1ª ed. – São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo; Expressão Popular, 2021.

[3] A implementação do Programa contemplou um amplo pacote de obras, incluindo hidrelétricas, ferrovias, a mina de Carajás, siderúrgicas e portos. Embora o foco central dos investimentos fosse a mineração, também visou à regularização fundiária para a pecuária, à administração dos conflitos pela posse da terra e à garantia da segurança jurídica para os investimentos do grande capital.

[4] O Sistema Norte envolve as operações da Serra Norte, Serra Sul (S11D) e Serra Leste, concentrando a produção de minério de ferro no Complexo de Carajás e abrangendo os municípios de Parauapebas e Canaã dos Carajás, no sudeste do estado do Pará.

[5] A S11D, localizada no Sistema Sul da Serra dos Carajás, no município de Canaã dos Carajás, faz parte do Complexo do Projeto Grande Carajás e é atualmente considerada uma das maiores minas de minério de ferro a céu aberto do mundo. Operada pela Vale S.A., a mina possui uma projeção de produção de 90 milhões de toneladas de minério de ferro por ano.

[6] BRASIL MINERAL. Brasil Mineral. Ano XLII, n. 450, jul. 2025. ISSN 0102-4728

[7] Bruno Malheiro, Carlos Porto-Gonçalves, Fernando Michelotti. Horizontes amazônicos: para repensar o Brasil e o mundo. 1ª ed. – São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo; Expressão Popular, 2021.

[8] Fernando Michelotti. Territórios de produção agromineral: relações de poder e novos impasses na luta pela terra no sudeste paraense – Rio de Janeiro, 2019.

[9] Karl Marx. O Capital: Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.

[10] José Batista Gonçalves Afonso. Massacre de Eldorado dos Carajás e a luta do movimento camponês pela terra no sul e sudeste do Pará. Dissertação (Mestrado em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia), Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, Marabá, 2016.

[11] Celia Regina Congilio, & Ana Cristina Sousa Santos. “Grandes projetos capitalistas na Amazônia e a luta pela terra no sudeste paraense”. Lutas Sociais, 26(48), 2022. https://doi.org/10.23925/ls.v26i48.61753

[12] Idem. Fernando Michelotti, 2019.

[13] COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro: 1985-2023. São Paulo: CPT, 2025. Disponível em: https://www.cptnacional.org.br/2025/09/30/atlas-campo-brasileiro-download/

[14] Célia Regina Vendramini. Terra, trabalho e educação: experiências sócio-educativas em assentamentos do MST. Ijuí: Editora da Unijuí, 2000.

[15] Idem, Karl Marx, 2013.

[16] Idem, José Batista Gonçalves Afonso, 2016.

[17] Sandra Luciana Dalmagro. “Movimentos sociais e educação: uma relação fecunda”. Revista Trabalho Necessário, v. 14, n. 252, 22 dez. 2016. 

[18] Sandra Luciana Dalmagro. A atualidade de Lênin em “As tarefas da juventude”. Trabalho Necessário. Niterói (RJ), v. 22n. 49, p. 01-17, 2024.

[19] Ivagno Silva Brito. Acampamento Pedagógico da Juventude Camponesa Oziel Alves Pereira: a saga e a mística na luta pela terra na Amazônia paraense. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, Instituto de Ciências Humanas, Faculdade de Educação do Campo, Curso de Licenciatura Plena em Educação do Campo, Marabá, 2020.

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